Hardest of Hearts

12 Darling Heart


Notas iniciais
E aí quarentenados!!!! Como é que vocês estão??? Eu não tenho mais noção de passagem de tempo nenhuma, gente. Faz quase um mês que eu não atualizo a fic e pra mim que tinha postado agorinha sdpkspdkspkd desculpa aí. Um beijão pra Cloto, Miss Dixon, Minerva Lestrange, Valirie Lockwood e Jasmim Y que comentaram o último capítulo!

O fardo do mundo é o amor

Sob o fardo da solidão,

Sob o fardo da insatisfação.

O fardo,

O fardo que carregamos é o amor.

Song, Allen Ginsberg



Ubbe observou em silêncio Aethelflaed virar de bruços na cama e enfiar o rosto debaixo do travesseiro. A luz azulada do início da manhã entrando pelas janelas altas e estreitas do quarto dava a tudo um ar etéreo e fantasioso e a satisfação pesava em seus músculos. No silêncio onde apenas a respiração dos dois podia ser ouvida, era difícil acreditar que a garota era sua esposa agora. Ele traçou gentilmente as sardas que salpicavam os ombros de Aethelflaed, seguiu a linha da coluna e contornou as covinhas na base das costas dela. Aethelflaed não se mexeu, dormindo profundamente mesmo quando Ubbe traçou o formato do traseiro dela sob os lençóis.

Um sorriso puxou os cantos dos lábios dele. Ubbe a cansara. No entanto, tinha a impressão de que Aethelflaed dormiria pesadamente de qualquer maneira. Ele certamente costumava fazê-lo, antes de se tornar um homem temperado pela guerra e pelas intrigas que aconteciam em Kattegat. Ela era jovem e protegida de tudo que poderia tê-la machucado, não havia nada para temer nas sombras. Aethelflaed podia conhecer os caminhos tortuosos da corte de Wessex, mas Ubbe duvidava que ela temesse por sua vida. Talvez a primeira vez em que Aethelflaed teve que encarar a possibilidade de dor foi ao conhecê-lo, porém Ubbe esperava que a noite passada houvesse diminuído o medo de sua esposa. Pareciam duas pessoas completamente diferentes, a garota que tinha medo de sua mera presença e a mulher que dormira abraçada a ele.

Aethelflaed era responsabilidade dele agora, da mesma maneira que Margrethe fora um dia. Ubbe vira em sua mãe o que o descaso de um marido podia fazer, e não tinha desejo de repetir os erros de Ragnar. Não machucaria sua esposa, não esqueceria de seus filhos.

Deuses, filhos. Por tudo que sabia, Aethelflaed poderia ter concebido. Ubbe encarou o cabelo ruivo, se perguntando se seus filhos herdariam isso da mãe, se os cachos que se espalhavam selvagens nos ombros dela agora que Aethelflaed não estava apresentando a imagem da lady perfeita para a corte seria uma visão comum no castelo que Ubbe ainda havia de conhecer.

Ubbe suspirou pesadamente e esfregou o rosto. Queria uma família desde que conseguia se lembrar. Pensara que conseguiria isso com Margrethe, e tivera vislumbres quando ajudava Torvi com os filhos de Björn, mas os deuses não lhe haviam concedido essa benção ainda. Poderia tê-la, agora, mas jamais pensara que seria uma saxã a carregar seus filhos.

Ela seria uma boa mãe? Ubbe não sabia. Conhecia muito pouco da esposa, além da coragem, inteligência e beleza. Ele sabia mais sobre Torvi muito antes de levá-la para cama. Aethelflaed oferecera a ele vislumbres de quem era por trás da postura perfeita e olhares frios, mas não era suficiente. Ubbe sabia o que significava ter a seu lado uma esposa que não entendia, e não estava disposto a cometer esse erro novamente. Custaria a ele muito mais do que a primeira vez uma esposa ressentida.

Ubbe deixou a cabeça cair pesadamente no travesseiro macio. As camas aqui eram recheadas com penas, diferente das várias peles que usavam na Dinamarca para afastar o frio rigoroso, e às vezes ele sentia que afundaria para sempre nelas. Um reflexo de como a vida dos nobres ingleses era mais fácil.

Não fazia sentido se perder em comiserações. Ele tinha uma guerra para lutar, dentro e fora do palácio de Alfred. Tinha preocupações mais urgentes do que a garota adormecida a seu lado. A conhecia melhor hoje do que ontem, e esperava que algum nível de confiança houvesse se estabelecido; teria de ser suficiente, por enquanto.

E agora que sua vida não estava envolvida na névoa de raiva e desejo da noite anterior, culpa começava a pesar nele.

Ubbe se desvencilhou cuidadosamente dos lençóis, procurando por suas roupas descartadas ao pé da cama. O vestido de Aethelflaed estava lá também, jogado acusadoramente no chão, um lembrete de sua ânsia por tocar pele macia e imaculada. Ela era linda a luz de velas, o cabelo capturando o fogo e brilhando intensamente em vermelho, a pele cremosa quase dourada, corada das bochechas até o peito, olhos arregalados e lábios vermelhos e inchados, mãos elegantes o procurando com impaciência, tão linda quanto era agora, dormindo inocente na cama na qual Ubbe a tomara, onde ela gritara por ele e o segurara com tanta luxúria e desejo que Ubbe tinha vontade de provocá-la, perguntar se era isso que a infinidade de padres ensinavam.

Ubbe nunca tivera uma mulher como Aethelflaed em sua cama. A Dinamarca não oferecia muitas oportunidades para que as mulheres permanecessem protegidas de qualquer dificuldade. Mesmo Kattegat, com a prosperidade que viera durante o reinado de Ragnar, tinha poucas famílias ricas o suficiente para que suas filhas pudessem ser poupadas de qualquer trabalho, e Ubbe nunca fora predisposto a ir atrás delas. Era complicado demais, envolvia muitas expectativas quando ele era um príncipe, e Ubbe sempre admirara força e ousadia. Ele estava acostumado à calos e cicatrizes e marcas do frio e do sal do mar, estava acostumado a ler a história de alguém na pele assim como a dele podia ser lida, as batalhas a que sobrevivera e os anos de treinamento marcados em seu corpo. Aquelas marcas contavam sua história tão bem quanto sua língua poderia.

Aethelflaed não tinha nada disso. Ao invés, Ubbe tinha que lê-la em expressões enigmáticas e frases de duplo sentido, tinha que persuadir a verdade dela. Nem uma única marca, exceto as que o pai dela colocara lá.

Ubbe rangeu os dentes, forçando-se a permanecer em silêncio enquanto se vestia. Poderia matar Dustan. Não tinha apreço nenhum pelo duque, por alguém que colocaria a filha em risco por ganância, e certamente não confiava nos ardis e inteligência do homem. Dustan podia ser frágil de corpo, mas Ubbe tinha consciência que o homem ainda poderia ter a cabeça dele e de todos com quem se importava. Nobres o suficiente do Conselho de Alfred queriam a mesma coisa, e o peso da família de Dustan era decisivo. Seu sogro, e agora sua esposa também, eram o que segurava a espada que poderia cair sobre a cabeça dele.

Ainda assim, queria que Dustan pagasse pela humilhação de Aethelflaed, pelos hematomas na pele pálida que continuaram a capturar sua atenção na noite anterior até que os lábios dela o distraíssem. Ubbe não era um homem possessivo, mas não permitiria que algo seu fosse machucado. Não novamente e não por sua causa.

Ele olhou para Aethelflaed uma última vez antes de sair do quarto, fechando a porta pesada com cuidado atrás dele. Os criados já haviam começado a trabalhar, andando pelos corredores do castelo em silêncio. Ubbe sentia os olhares raivosos deles em si, o pagão que havia tirado a honra de uma nobre proeminente. Certamente os boatos da decisão dele de estarem sozinhos já haviam se espalhado. Ele não se arrependia, porém. Os sons dos gemidos de Aethelflaed não eram algo que estava disposto a compartilhar com homens hipócritas que não pensavam que suas mulheres tinham direito a prazer também. Aethelflaed conquistara aquela corte com seu aparente recato e cruzes pesadas, e o rosto inchado e vermelho de chorar enquanto era forçada a andar até o altar não conquistaria simpatia alguma para aquele casamento.

Ubbe os ignorou. Quando os exércitos de Harald e Ivar voltassem para as terras deles, eles correriam por pedir socorro, as consequências daquela aliança esquecidas desde que estivessem a salvo.

O ar gelado e doce de outono o atingiu quando Ubbe saiu no pátio do castelo. Podia escutar distantemente o início do clamor da forja e o relinchar de cavalos quando começavam a ser tratados. Não haviam rostos familiares ali, e Ubbe enfrentou os mesmos olhares irritados enquanto atravessava o pátio em direção a vila real. Ele tinha aposentos dentro do castelo agora, perto do quarto de Aethelflaed, e sabia que jamais conseguiria se sentir confortável sob os olhares dos criados e nobres. Era ruim o bastante do lado de fora.

Torvi estava acordada quando entrou no quarto que dividira com ela até o dia anterior. As crianças não estavam lá, e os olhos tristes dela seguraram os seus. Ubbe não sabia o que dizer, não sabia como tornar aquela situação melhor, e o prazer e satisfação da noite passada com Aethelflaed voltavam acusadores agora. Aquele casamento fora forçado a ele, mas compartilhar a cama de sua esposa era uma recompensa bem-vinda e tornava encarar Torvi ainda mais difícil. Talvez, se fosse apenas por diversão, Torvi não se importasse tanto; era comum o bastante no meio deles. Mas Ubbe estava casado com outra mulher agora.

Ele rolou os ombros, tentando se livrar da tensão súbita, e sentiu o ardor dos arranhões de Aethelflaed, mais um lembrete de que Torvi estivera tão longe de seus pensamentos enquanto se perdia em sua esposa.

— Sua esposa estava linda no casamento, — Torvi falou finalmente, ressentida. Ela usava um vestido simples, o cabelo solto, e Ubbe queria que ela estivesse usando os couros de batalha, que estivesse o atacando agora. Seria mais fácil, e Torvi jamais o faria.

Ubbe suspirou. Seria inútil e insultante negar aquilo. Torvi não era uma criança que precisava ser consolada com cuidado.

— Você estava linda também, — ele disse, encurralado.

Torvi levantou as sobrancelhas claras, porém mesmo a ironia não era capaz de apagar a tristeza do rosto dela.

— Não estava olhando para mim, Ubbe, não depois que a garota entrou. Mas era difícil olhar para outra coisa com ela vestida como uma pagã e chorando, — Torvi finalmente desviou o olhar dele, analisando o quarto. Havia uma jóia pesada em cima de uma mesa, algo que Ubbe não vira antes. Ele franziu o cenho. — Ela tem medo de você.

— Todo saxão tem razão para nos temer, — Ubbe respondeu. Não diria a ela que sangrara por Aethelflaed, que se mantivera longe até ter certeza, que dormira com a garota em seus braços. Esse poderia ser seu fardo para carregar sozinho, não havia razão para piorar as coisas para Torvi com ele. Queria se sentar ao lado dela e segurá-la, mas a rigidez do corpo de Torvi o impedia.

— Aethelflaed estava assustada daquele jeito quando dormiu com ela? — Torvi perguntou, e pela primeira vez não era ressentido, apenas cauteloso. Torvi, assim como Lagertha, desaprovava qualquer forma de estupro, mesmo que contra cristãos. O confrontando, mesmo que Aethelflaed estivesse tirando algo dela, firme nas convicções apesar de tudo. Ubbe havia se apaixonado por isso, também.

— Nós conversamos, chegamos a um acordo. Não acho que Aethelflaed tenha mais tanto medo de mim.

Torvi assentiu gravemente. — Que bom, — dor cruzou o rosto dela. — É uma coisa terrível temer um marido.

Ubbe foi até ela, então. Não sabia dos detalhes dos casamentos de Torvi antes de Björn, apenas que foram horríveis. Ubbe gostaria de poder apagar aquela dor, gostaria de poder fazê-los pagar. Mas Torvi não precisaria dele para isso. Ela não precisara de Björn, no final das contas.

— Aethelflaed está procurando um acordo com o restante de nós, também. — Torvi apontou para o colar. — Foi um presente dela. Não acho que sua mãe já tenha usado algo como aquilo, mesmo sendo rainha. — Era um lembrete do poder que acompanhava a corte inglesa. Ubbe já fora um príncipe, porém nunca desfrutara do dinheiro e poder que Dustan e a família possuíam. Ele poderia dar isso a Torvi e a seu povo agora, poderia realizar o sonho de seu pai. Poderia fugir de sua culpa por vê-la magoada dessa maneira, ao menos. — Ela manda presentes para as crianças, também. Até Björn e Lagertha receberam a parte deles. — O canto da boca dela se ergueu. — É inteligente, tentar ganhar as nossas afeições assim. É mais difícil odiar uma mulher que é boa para os meus filhos e tem medo do marido, mesmo que esteja dormindo com o homem que eu amo.

— Torvi…

— Ela é doce, não é? — Torvi perguntou, retoricamente. Ubbe não sabia responder, de qualquer maneira. Aethelflaed podia ser doce, porém ele vislumbrara bastante do fogo dela para saber que essa não era a única verdade. Ela era doce porque era esperado que fosse. O que ela seria, quando força e crueldade fossem necessários? — Ela pode dar tanto a você.

Ubbe puxou o rosto de Torvi para o dele delicadamente. As linhas ao redor dos olhos dela estavam mais profundas hoje. — Você me dá tudo que eu poderia querer, — ele murmurou suavemente.

Torvi sorriu, mas não atingiu os olhos dela. — Não tudo. Não posso te dar filhos, Ubbe. Ela pode. — O coração dele apertou. — Você sempre os quis. Vai amá-la quando Aethelflaed os der a você, sei disso. Você é um bom homem, será inevitável.

— Posso amar meus filhos e amar você, Torvi. Tem o meu coração, sabe disso. Você me conhece, eu confio em você. Um pedaço de papel assinado e palavras faladas a um deus que não é o meu não mudam isso.

Torvi acariciou o rosto dele. Não havia acusação no rosto dela, apenas resignação e tristeza. Era pior. Ubbe preferia que houvesse raiva. A mesma coisa acontecera a Torvi tantas vezes. Ela estava acostumada a ter o coração partido. Não fora por isso que Ubbe se aproximara dela, porque sentira pena?

— Eu o tenho agora, mas não o terei para sempre. Você será tirado de mim, não por Aethelflaed, mas por você mesmo. Você estava sendo verdadeiro quando jurou que iria protegê-la naquela igreja. Mesmo Margrethe você protegeu o quanto pôde.

Ubbe tentou contestar, tentou professar sua fidelidade, mas os lábios de Torvi pressionaram os dele, e parecia uma despedida. Ele não aceitaria isso. Ubbe a puxou para perto, beijando-a com familiaridade, tentando demonstrar o que suas palavras não conseguiam convencê-la.

Ela se afastou dele, cedo demais, doloroso demais, parecendo mais magoada do que antes.

— O perfume dela está grudado em você.

Para isso, ele não tinha resposta. Parecia pior, por alguma razão, do que o casamento inteiro. Ubbe veio até Torvi, mas não deixara Aethelflaed para trás completamente.

Ele se deixou cair na cama e a puxou para cima dele. — Então cubra-o com o seu.

Mas, quando Ubbe deixou o quarto de Torvi, o cheiro doce de Aethelflaed ainda estava grudado em suas roupas.