Hamártia
2 Midorima, o Cirurgião
Notas iniciais
Ele era perfeito e metódico.
As coisas para Midorima eram muito claras e precisas. Suas decisões eram todas corretas, como se ele fosse um cirurgião na mesa, e a vida era sua paciente. Em sua vida, não existia espaço para falhas, apenas para perfeições. Ele não era soberano como Akashi, mas ainda assim, gostava que todas as coisas fossem feitas da maneira correta.
(Ele sabia que na mesa de cirurgia era da mesma forma. Quando estivesse seccionando artérias e veias, abrindo as fáscias dos músculos para chegar até os órgãos devastados por doenças, teria que ser preciso e perfeito. Um erro significava o fim de tudo. Uma vida que escapava de suas mãos)
Midorima não acreditava em muitas coisas, mas se existia algo que ele levava a sério era o carma. Ele acreditava piamente que todas as pessoas estavam sujeitas a viver por seus carmas e por suas escolhas. Por isso, era tão preciso com seus horóscopos. Sua mãe lhe ensinara desde sempre que as energias positivas eram importantes para garantir que um dia seria bom do início ao fim.
Por isso Oha-Asa era tão importante. A cada dia, seu item da sorte mudava e mesmo que as pessoas achassem isso ridículo, era o que mantinha o equilíbrio de sua vida.
(Era o que permitia que todos os seus arremessos sempre entrassem, independente de seus desafios)
Suas unhas eram perfeitas. Deviam ser lixadas e bem cuidadas, e embora todas as pessoas da Teiko acreditassem que essa mania havia começado com o jogo de basquete, ela vinha de muito tempo atrás.
Antes de ser um esportista, Midorima era músico.
(A ordem dos fatores, para ele, alterava os resultados. Tudo era uma questão de lógica, e tudo deveria estar em seu devido lugar. As notas musicais tinham o mesmo sentido, mas cada uma tinha uma conotação diferente)
A cada nota que ressoava do piano de cauda que tinha na sala de sua casa, Midorima arrancava suspiros de quem quer que o ouvisse tocar.
(Ele era perfeito. Ele jamais perderia um arremesso. Ele jamais erraria uma nota musical)
Mas Midorima não contava com fatores. Midorima não contava que Kagami pudesse deter seus arremessos. Que um milímetro de seus dedos tocando a bola a desviariam do aro.
Ele não contava que Akashi destruiria seus sonhos depois de fazer parte da Shutoku.
(Que ele destruiria os sonhos de Takao)
Ele não podia perder. Ele não podia aceitar a derrota.
(Tentou pensar no compasso. Era o que organizava o ritmo da música – no seu caso, da vida – mas agora tudo estava bagunçado, destruído, fora do lugar)
Para ele, tudo estava acabado. Midorima não podia perder. Sua hamártia, era não aceitar falhas. E enquanto fosse incapaz de aprender a melhorar com elas, Midorima jamais poderia crescer. E por isso agora suas melodias não arrancavam mais suspiros. Eram desconexas e incoerentes. Raivosas e destrutivas. Assim, nunca mais poderia tocar piano outra vez.
(Mas para ele havia uma luz. Uma luz que, mesmo apagada naquele momento, voltaria a brilhar)
Takao abriu um sorriso fraco.
– Desculpe-me por não poder te animar agora, Shin-chan.
Mas o animava... mesmo dentro de sua hamártia, Midorima ainda tinha uma luz que o puxaria para frente. Takao não era uma sombra. Era uma luz. Tão intensa que poderia cegá-lo, ou salvá-lo de vez daquela escuridão.
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