Híbrido
3 III
Cassandra preparava o café da manhã de Eleanor com um falso vigor. Enganava a si mesma fingindo que na noite anterior não chorara até dormir pensando na mãe, mas seu rosto inchado não mentia. Tentava esquecer, pois acreditava que a mãe não iria querer vê-la assim: perdendo tempo. Lembrava com carinho da “aversão” dela as pessoas muito emotivas.
Aurora tinha o desejo de construir uma casa isolada onde as duas pudessem viver em paz sem ninguém para obedecer. Cassie queria realizar o desejo dela não só como uma forma de homenagem, também por agora entender a parte do “sem ninguém para obedecer”.
Saiu tão desesperada da casa dos antigos patrões que não conseguiu pegar nem a metade das economias da mãe. Ninguém consegue agir calmamente quando há uma arma apontada para sua cabeça, porém ela ainda não se perdoava por tamanho descuido.
O que tinha era um bom começo, só lhe restava ir atrás do prejuízo.
Ela respirou fundo e foi servir a patroa. Eleanor estava em uma ponta da mesa e gelou quando viu Alexander na outra lendo um livro:
—Senhor Hauser... –Disse ela. Ele então levantou o olhar. –Queira me desculpar, pensei que o senhor...
—Acalme-se. Não fez nada de errado. –O homem voltou ao livro. — Não tenho fome.
Aliviada, Cassandra tornou ao que fazia, apesar de não ter engolido a estranha falta de apetite do patrão. Eleanor a esperava com um sorriso simpático no rosto:
—Está bem?-Perguntou a empregada enquanto ela lhe servia café.
—Sim, senhora.
—Espero que tenha dormido bem, irei te dar um pouco de trabalho hoje.
—Sem problemas. –Era isso que ela queria. Trabalhar até cansar para esquecer a dor.
Cassie se afastou e ficou num canto esperando ordens, então voltou o olhar ao senhor Hauser. Sua antiga patroa sempre advertia o marido por ler a mesa, Eleanor não dava à mínima, mais uma vez contrariando os valores que Cassandra (e o resto da sociedade) fora criada.
Talvez eles fossem um sinal de que os tempos estavam mudando ou eram algo além do que aparentavam. Eleanor não era uma bruxa, tinha traços delicados, mas não tanto quanto fadas; nem orelhas levemente pontudas de lobisomens e era corada demais para ser uma vampira. Só que havia uma ternura em seu jeito que nenhuma humana tinha.
Já Alexander ao mesmo tempo em que atraía a empregada lhe causava calafrios. Era uma figura esguia, com olheiras e um blasé esquisito, porém quando olhava a esposa e sorria parecia a criatura mais pura do mundo. Ele fechou o livro e se levantou, antes de sair beijou Eleanor na testa:
—Onde está indo?-Perguntou ela fazendo-o parar.
—Á biblioteca, mas pretendo dar uma volta.
Pela primeira vez Cassie viu Eleanor incomodada com uma atitude do marido. Incomodada na verdade não seria a expressão correta e sim... Preocupada:
—... Tome cuidado. –Disse ela depois de pensar por alguns instantes.
—Não disse que estou indo para a guerra, El.
—Eu sei meu amor.
O homem sorriu e se retirou. Eleanor balançou a cabeça e tomou o último gole de café, Cassandra avançou para servi-la mais uma vez, porém ela dispensou ajuda:
—Por onde quer que eu comece senhora?
—Quero que arrume meu quarto, o primeiro andar e a biblioteca. O chão não está tão sujo, mas precisa pelo menos de uma vassoura, alguns pontos estão bem empoeirados, principalmente as prateleiras e estantes.
—Tudo bem.
—... E Alexander pediu para que regue o jardim, só regue, por favor, e tenha cuidado, ele tem muito ciúmes daquelas plantas.
—Sim, senhora.
Cassie começou pelo jardim para matar sua curiosidade de uma vez por todas. O quintal da casa não era tão grande, mas por ter um espaço tão bem aproveitado aparentava ser bem maior. A grama era bem verde, duas árvores faziam sombra e forravam o chão com suas folhas secas; havia uma pequena fonte no meio do jardim onde os pássaros pousavam para beber água.
Havia uma pequena horta mais nos fundos camuflada entre todas aquelas moitas e trepadeiras nos muros do terreno que chamavam muito mais atenção. Era um retângulo de terra que destoava de todo o jardim ao mesmo tempo em que fazia total sentido estar ali. Cassie viu algumas mudas e conseguiu reconhecer algumas flores como orquídeas e rosas brancas, além das que só conhecia de vista.
Pegou água no poço e encheu o regador. Enquanto regava o jardim acabou lembrando com pesar do antigo patrão, que também adorava plantas. Como a vida podia ser tão traiçoeira, tirando e colocando pessoas em nosso caminho sem mais nem menos? E como os humanos conseguiam ser tão cruéis às vezes, descartando pessoas como roupas velhas?
Cassandra não compreendia aquele mundo, mas se voltasse para onde veio talvez fosse mais confuso ainda.
Regar aquele jardim a princípio parecia ser uma tarefa demorada, mas no fim ela terminou em instantes. Antes de voltar para dentro olhou o jardim uma última vez, tinha a impressão de já ter visto um lugar parecido antes, isso matutava em sua cabeça desde que chegara.
Uma menina. De uns sete ou oito anos. Estava abraçada ao galho de uma árvore de tronco cinza e grosso, era bem maior que qualquer árvore que já vira, mal dava para ver o topo, estava coberto por uma névoa.
A menina tremia, não devia estar ali, só queria voltar para os braços da mãe de onde nunca deveria ter saído. Tinha que deixar o medo de lado para descobrir um jeito de sair dali. Olhou para baixo, se segurou firme. Avistou um casulo no galho abaixo do que ela estava.
Não poderia ser uma pequena e delicada borboleta, era grande e parecia ser pesado até para o galho grosso da árvore, a coisa lembrava uma espécie de múmia...
Cassandra abriu os olhos, puxou o ar como se por um segundo tivesse esquecido como se respirava, fora a coisa mais estranha que acontecera a ela. Voltou para dentro cambaleando até voltar totalmente a si, sentia que parte de sua energia tinha sido sugada. Tentava entender o que fora aquilo. O que significavam aquelas imagens? Eram reais? Era ela no galho da árvore?
Pode sentir a textura da árvore, o frio que fazia e o medo... Fora uma experiência muito intensa para ser apenas fruto da imaginação dela.
Bem, ela tinha mais o que fazer além de teorizar, varreu todos os cômodos do primeiro andar sem moleza, mesmo sentindo suas pernas pesarem e um desânimo descomunal. Subir as escadas foi o pior de tudo, parecia carregar toneladas nas costas e suas panturrilhas doíam. E o dia estava só começando.
O quarto do casal estava arrumado, ela só teve o trabalho de arrumar a cama e tirar o pó. Mal pareceu notar que estranhamente só um lado cama fora usado, fez tudo no automático.
Saiu dali e tentou entrar em outro quarto, mas a porta estava trancada, então olhou as horas no grande relógio na parede no fim do corredor e viu que teria que deixar a biblioteca para depois do almoço.
Foi até a sala com lareira avisar a patroa que o almoço estava pronto. A senhora Hauser tricotava sentada numa poltrona de couro frente à lareira apagada. Era algo estranho de se ver, Eleanor não parecia alguém que tricotava e sim que mandava alguém tricotar para ela, porém fazia isso bem pelo que Cassie podia ver, provavelmente era uma roupinha de bebê:
—O cheiro está ótimo. –Disse ela, Cassie sorriu timidamente. -... O que aconteceu? A senhorita parece abatida.
—Nada demais, senhora, está muito quente lá fora.
—Ah, sim. É por isso que sempre me hidrato e como alguma coisa... Faz o mesmo?
Cassandra havia entendido. “Enquanto trabalhar aqui se alimentará adequadamente e isso é uma ordem”; Esquecera-se completamente de tomar o café da manhã e sequer pensou em beliscar alguma coisa nessas três horas. O olhar de Eleanor era calmo, mas era possível notar o julgamento que eles carregavam, Cassandra se sentia uma mentirosa sendo desmascarada:
—Sim, senhora.
Eleanor a olhou de cima a baixo e sorriu. Pôs a peça que tricotava de lado sobre a mesinha de canto e levantou-se:
—Com licença.
—Espere.
Cassie virou-se, seu coração deu um pulo.
—A senhorita se importaria de almoçar comigo? Alexander sempre que pode me faz companhia, só que ainda não chegara.
—... Sim... Digo, não. –Cassandra esboçou uma risada. –Irei colocar mais um prato a mesa.
Cassandra aprendera observando a mãe a função de cada talher e prato posto a mesa, porém não imaginava que um dia teria que por em prática, pelo menos não tão cedo:
—É uma cozinheira de mão cheia.
—Obrigada.
—Com quem aprendeu? Sua mãe?
Aquela palavra se tornava cada vez mais um tremendo gatilho, Cassie até se engasgou. Ela não via a hora do luto passar, estava mais frágil do que pensava. Limpou a garganta:
—Perdão... Minha antiga patroa ensinou diversas receitas a mamãe e então ela passou para mim.
—Interessante... Minha mãe também cozinhava bem, porém não tinha tanta paciência para me ensinar.
—Mamãe também não tinha, mas me ensinara mesmo assim para que eu soubesse o que fazer quando fosse trabalhar.
—Nunca pensou em fazer outra coisa?
—Outra coisa? Não posso... Nem se quisesse. Só sei fazer isso.
—Esqueci-me completamente dos obstáculos que temos que enfrentar por aqui.
—Queria eu também ter esse luxo.
Eleanor riu e tomou um gole de suco.
Comer tirou sua fraqueza, mas lhe deu sono. Cassie mal podia esperar para aquele dia terminar. Subiu as escadas dessa vez com mais firmeza carregando seu espanador a caminho da biblioteca, que ficava ao lado do quarto trancado.
Entrar ali foi como descobrir um novo mundo dentro da casa dos Hauser. As quatro paredes eram cobertas por estantes com talvez todo tipo, gênero e título de livros. Além disso, havia um mezanino com mais prateleiras e uma janela redonda, a única no recinto. Por fim pilhas de livros sobre a escrivaninha no centro da biblioteca e nas cadeiras de frente para ela.
Cassandra teve contato com poucos livros, tirando o de feitiços da mãe, que a essa altura fora reduzido a cinzas, pois ficara na casa de seus antigos patrões. Naquela biblioteca deviam ter dezenas, talvez centenas de novos mundos que aprimorariam seu conhecimento e quem sabe a faria entender Praga.
Não sabia ao certo o que fazer, quer dizer, sim, ela sabia por que estava ali, mas não conseguia pensar em outra coisa a não ser explorar a biblioteca.
Cassandra passava o espanador enquanto tentava ver o título dos livros sem tirá-los da ordem alfabética. O lugar era fascinante, queria levar tudo àquilo para o seu quarto e passar um dia inteiro desbravando todos aqueles universos.
Mal notou a porta atrás dela se abrir, por isso o susto fora tão grande quando ela se fechou. Virou-se e gelou quando viu o senhor Hauser, não só por ser pega fuçando em suas coisas, também porque ele estava terrivelmente diferente. Sua boca estava ensanguentada, o sangue descia de seu queixo até sua camisa, que estava ensopada; seus dentes maiores que o normal, como presas. O coração de Cassie batia forte, estava paralisada de pavor. Alexander também parecia assustado, mas logo sua expressão mudou, ficou sério, limpou a boca com a manga da blusa e avançou.
Mesmo com as pernas bambas ela conseguiu ao menos tentar fugir, Alexander foi mais rápido, pegou-a pelo braço firme o bastante para que ela não fugisse. Cassie só esperava o pior, foi quando ele a tocou no queixo levantando seu rosto para que ela o olhasse.
Foi impossível ignorar aqueles olhos completamente escuros. Entravam dentro de sua mente como um vírus, seus olhos doíam como se estivesse olhando diretamente para o sol, mas não ardiam. Viu-se alguns instante atrás olhando horrorizada a criatura que o patrão se tornara, sua cabeça começou a doer, assim como sua bochecha e maxilar, que Alexander pressionava com os dedos.
A dor de cabeça era mais intensa, ela não entendia o que acontecia, tudo o que via eram os olhos escuros do patrão e a mesma cena num loop irritante. Aos poucos a memória foi se apagando, como se fosse um pedaço dela sendo arrancado, Cassie agora sentia uma pontada na cabeça. A pontada só piorou, se tornando insuportável, ela gritou. No mesmo momento Alexander a soltou, ela o ouviu gemer de dor.
O que diabos foi aquilo?! Alexander a olhou com espanto, cambaleou e sentou-se em sua mesa. Pôs a mão na parte de trás da cabeça, devia estar sentindo a mesma dor que Cassie, que não sabia o que dizer:
—... Saia daqui. –Disse o senhor Hauser.
—O que fez comigo?
—O que EU fiz? O que FIZERAM com você?!
—... A senhora Hauser sabe que o senhor... –Ela interrompeu-se, tentava processar a informação.
—Subestima a inteligência de minha esposa deduzindo que ela não saiba que é casada com um vampiro... Ou que não saiba que você é uma bruxa.
Cassandra engoliu em seco.
—... Ela sabe?
Ele deu uma risada áspera. Estava exausto, invadir a mente da empregada o esgotou.
—... São todas iguais. Burras como uma porta.
No fundo ela desconfiava que Eleanor na verdade soubesse de sua outra natureza e sobre Alexander... Agora tudo fazia sentido. Saiu da biblioteca assustada pensando sem parar no que acontecera.
Fale com o autor