Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa

15 Capítulo Especial - Flashback


Notas iniciais
"Nada está menos sob nosso domínio que o coração, e longe de podermos comandá-lo, somos obrigados a obedecê-lo." - Rousseau

Ela estivera sentada ali por pelo menos duas horas, sem abrir a boca, se voltar ou dar atenção a qualquer transeunte. Um desinformado ou alguém que não presta a devida atenção às coisas do mundo poderia pensar que seu olhar repousava na estátua de mármore que ornava a praça, em seus cachos esbranquiçados esculpidos com delicadeza, ou os olhos vazios, ou o quase sorriso meigo e curioso... Mas a verdade é que seu olhar repousava em sítios muito mais distantes, além da estátua, além da praça, e além de tudo. Perdida no infinito, por mais que tentasse encontrar o caminho de volta. Repousava as mãos finas e delicadas, longos dedos resultantes de mais de dezesseis anos praticando no piano. O cabelo, algo entre o mel e o alaranjado, estava solto. As madeixas onduladas, que iam até o meio do busto, emolduravam o seu rosto “de boneca”, como sua avó o dizia, os lábios cheios – mas delicados, os grandes olhos claros, as maçãs do rosto coradas com leveza, o nariz levemente empinado... Vestia uma camisa branca, abotoada e limpa impecavelmente, e uma saia social esverdeada. Os pés, que tocavam o chão apenas pela ponta, já que ainda não era alta, eram adornados por um par de sapatilhas negras, tão limpas e aprumadas quanto a sua dona. A bolsa repousava ao seu lado, uma bolsa de carteiro azul e esfarrapada. A única coisa que contrastava com a matemática disposição de todo o resto – e a única coisa que os pais não haviam conseguido tirar dela de jeito nenhum, o último – ou talvez primeiro – traço de rebeldia e resistência. Era uma boa garota, amava aos pais. Mas sentia-se sufocada, tão viva quanto aquelas cobras mergulhadas em formol que eram objeto de pesquisa do tio Frank. Como se estivesse atada a uma velha arca de madeira por correntes de ferro, e queria libertar-se sem ter de quebrar essas correntes. Buscava a cor, o riso, o dançar sem música, o cantar sem letra, o voar sem asas. E isso era algo que os seus pais, por mais que fossem boas pessoas, nunca compreenderiam. Eles se contentavam com o pouco, com o quase, com o suficiente. Ela queria mais. Mas os amava demasiadamente para conseguir partir o seu coração ao contesta-los. Limitava-se a suportar o formol, embora, a cada dia mais, uma força se remexesse dentro de si, uma voz dissesse, em um sussurro cada vez mais audível, que era a hora. E naquela inquietação mascarada de paz, sentada naquele banco de madeira à sombra de um grande e típico carvalho, tentava com todas as suas forças reprimir a rebeldia e seguir vivendo como vivia. No momento que o companheiro postou-se diante dela, observando-a com um sorriso brincalhão, e depois sentou-se ao seu lado, ainda com os olhos nela, ela estava nessa batalha tão intensamente que não se manifestou de nenhuma maneira. Ele tentou chamar o seu nome, novamente sem resultado. Ela apenas voltou àquele mundo quando a mão grande e forte foi colocada em seu ombro. Estremeceu de susto, quase gritou, e voltou-se para ver o dono da mão. Sua expressão passou imediatamente de choque para alívio. Deu-lhe um sorriso meigo.

– Você me assustou – declarou, tentando soar irritada. Ele apenas riu.

– Eu sei. Estava totalmente distante, e era uma oportunidade única.

– Suponho que sim – ela disse, voltando ao desânimo anterior. Ele ergueu uma sobrancelha. Por mais contida que fosse, ela não era do tipo monótono e desanimado. Algo acontecera, e ele estava determinado a descobrir o que era.

– Algum problema? – ele perguntou, mantendo o sorriso cheio de carisma no rosto. Ela levou alguns instantes para processar a pergunta, então forçou um sorriso e assentiu, murmurando um “Mas é claro!” não muito convicto. Ele pigarreou. – Vou tentar outra vez. Algum problema?

Ela suspirou e olhou para os pés, comprimindo os lábios em seguida. Ele a envolveu com um dos braços.

– Se tem um problema, pode contar comigo. Sabe que estarei do seu lado. Sempre. – ele disse, e até para ela era estranho ouvi-lo dizer algo com tanta seriedade. Ela não desviou o olhar.

– Sempre é bastante tempo – sussurrou, quase que para si mesma. Ele, confuso, piscou. Não era a resposta mais típica. Dezenas de possibilidades lhe passaram pela cabeça. Câncer? Não, com certeza não. Ela não o amava mais? Também não era provável. Não que ele fosse o mais incrível garoto da Terra – talvez fosse – mas ela teria manifestado algum sinal... Não. Então o que poderia tê-la deixado tão desanimada e perdida? O que poderia tê-la levado a afirmar algo tão... “Não-romântico”?

– Por que disse isso? – ele perguntou, após alguns instantes refletindo. Ela olhou surpresa para ele.

– O quê?

– Você acabou de dizer que sempre é bastante tempo. O que está querendo me falar?

Por um instante, sua expressão foi de raiva – consigo mesma. Por que deixara aquilo escapar? No segundo seguinte, foi abatida por uma imensa tristeza. Desvencilhou-se do braço que a envolvia e tomou as duas mãos do garoto, acariciando-as como se fossem o filhote de algum animal. Não ousava encara-lo nos olhos. “Isso não é bom” ele concluiu, em pensamento, e o seu nível de preocupação subiu consideravelmente “Isso não é nada bom”.

– Temos que conversar.

– O que eu fiz de errado? – ele disparou, sem pensar muito antes de falar. Ela balançou a cabeça negativamente.

– Nada, você é incrível. – disse, e sorriu tristemente – É... Não é você, sou eu.

– Sempre que falam isso nos filmes, é mentira – ele bufou. – Diga logo, o que está acontecendo? O que está escondendo de mim?

– Você sabe como é importante para os meus pais que eu faça Direito, como eles, e me torne legista, como eles. Também sabe que fiz vários testes de seleção para as melhores faculdades do país. Estudei sem cessar para que obtivesse um resultado satisfatório, e o meu desempenho corresponderia à satisfação do meus pais, diretamente proporcional.

– Não passou?

– Na verdade, eu passei.

Ele riu sozinho, os olhos brilhando. Não compreendera. Balançou a cabeça.

– E o que pode haver de ruim nisso? É incrível, você vai ser uma grande advogada, e vai se dar muito bem! É maravilhoso, temos de fazer uma festa, ou qualquer coisa do tipo...

– Pare! – ela interrompeu com a voz embargada, fechando os olhos com força. Assustado, ele olhou para ela sem entender o que se passava.

– Mas o que foi?

Ela balançou a cabeça negativamente e soltou as mãos do companheiro, voltando o olhar para o mesmo ponto perdido de antes. Uma lágrima deixou seu rastro em uma das maçãs levemente avermelhadas do rosto da garota.

– A universidade fica em Ohio. A 1478 milhas daqui.

– Então não vai poder ir? – ele perguntou, ingenuamente. Ela olhou para ele.

– Eu vou embora, Henry. Vou para Ohio, do outro lado do país, para a universidade.

– O quê? – foi o que ele conseguiu dizer, após cinco minutos quieto tentando processar a informação; sem sucesso. Ela comprimiu os lábios e desviou o olhar outra vez. – Mas o seu tio, deve ter dito alguma coisa...

– Ele é a favor. Disse que vai ser bom para mim, novos ares, nova vida. Eles não aceitam um não, e não quero decepciona-los. Seria terrível.

– Não podem te obrigar a ir!

– Não estão me obrigando, talvez estejam certos. Talvez eu deva ser uma advogada formada lá, como eles...

Ele deixou escapar um suspiro de indignação e balançou a cabeça negativamente. – Não faça isso comigo, por favor – ela sussurrou. Ele olhou para ela.

– Quer saber? Vai ser difícil. Vai ser muito difícil. Mas vamos conseguir, Vanessa.

– O quê?

– Sim. A distância é apenas um obstáculo, e já passamos por muitos como esse.

– Oh, Henry – ela suspirou tristemente e fechou os olhos.

– Só temos que tentar, Vanessa. E dar o nosso máximo...

– Henry, não vai dar.

– Como é que é?

Ela tapou o rosto com as mãos e mordeu o lábio inferior.

– Eu vou para lá a fim de mudar de vida, tudo vai mudar. Tudo.

– Inclusive eu – ele falou, miseravelmente. – Estou sendo dispensado. Por que está fazendo isso, Vanessa? Eu sei que não quer, no fundo não quer...

– Henry, eu te amo. Mais que tudo.

– Então por que vai me deixar desse jeito?

Ela abriu a boca e a fechou. A fisionomia irritada dele se dissipou para ser substituída por uma de tristeza e arrependimento.

– Me desculpe, Vanessa. Estou sendo cruel com você. É uma oportunidade única, e não posso pedir que a deixe de lado por minha causa. Eu não conseguiria viver com isso. Eu te amo, e por isso quero que vá. Você encontrará alguém melhor que eu.

– Não diga isso – ela soluçou – Porque nunca acontecerá, Henry Carter. Eu nunca encontrarei alguém que chegue aos seus pés.

– Por quê? Eles são tão grandes assim? – ele brincou.

– Só você consegue me fazer rir numa hora dessas – ela sorriu de leve.

– Isso – ele segurou seu rosto – Mantenha assim. Não há nada que me faça mais feliz.

Ele se aproximou e a beijou delicadamente, como se qualquer tipo de força ou movimento bruto fosse fazer com que ela ruísse. E ele não duvidava nada daquilo. Afastaram-se quando o aparelho celular começou a vibrar no bolso da garota. Ela mordeu o lábio inferior e olhou para a tela brilhante.

– Meu pai. Eu tenho que ir.

– Isso é um adeus?

– Suponho que sim.

Ele a soltou. Ela se levantou e alisou a saia, colocando a bolsa de carteiro sobre os ombros. Sorriu sem muita convicção, e pouco antes de desaparecer entre as árvores, voltou-se de súbito.

– Nós vamos nos encontrar outra vez, Henry Carter. Eu prometo.

Então foi-se. E ao andar, sentiu outra lágrima deixando a sua marca – que, fisicamente, talvez se apagasse com o tempo. Mas ela sabia que em seu coração ela sempre estaria ali.

Os outros estavam todos ocupados. Haviam distribuído tarefas entre si, não só para garantir que tivessem acesso a comida e higiene pelo maior tempo possível como para se distrair. Um circo não fica tão divertido quando se há um leão gigante à solta, e depois do misterioso incidente sobre o qual Georgia e Nick se recusavam a falar, ninguém estava exatamente ansioso para caminhar por aí e bisbilhotar as tendas e seus segredos. Já havendo terminado as suas tarefas, ambos haviam sentado sobre as toras de madeira. Ela olhava para ele enquanto mexia com o indicador em uma de suas argolas, e ele olhava para os pés, pensando em tudo o que acontecera nos últimos sete meses. E no que acontecera um tempo antes.

– Você cumpriu a promessa – disse após um tempo, rompendo o silêncio.

– Embora tenhamos de concordar: não nas melhores circunstâncias — ela sorriu, e ele fez o mesmo. Ficaram num silêncio constrangedor por alguns instantes.

– Estávamos em um banco de madeira – ele disse, distante. – Quando você disse que ia.

– Foi o maior erro que já cometi – ela disse, sinceramente. Olhou para ele, seu perfil, com um misto de dor e tristeza. – Nunca devia ter deixado você para trás.

– Tudo se encaixa na sua história – ele disse – Só não entendi... Não quero me vangloriar, mas disse que seu amor por mim era sincero quando nos despedimos. Então por que nunca me procurou depois de supostamente se libertar?

– No primeiro mês, havia a faculdade, e depois fiquei um pouco instável. Sem casa, família... Eu... Sinto muito. – ela mordeu o lábio inferior. – Eu não sabia dar valor ao que eu tinha. Mas agora eu sei, Henry.

Ele comprimiu os lábios e olhou para ela.

– Escuta, Vanessa... Você é uma garota incrível, e fui realmente apaixonado por você. Mas as coisas mudam em um ano e meio.

– Não vê, Carter? O acaso fez com que nos encontrássemos outra vez. Isso não significa nada para você?

– Não me leve a mal, Vanessa. Quero muito ter a sua amizade... Mas meu coração não pertence mais a você. Não dessa maneira.

– Não pode estar querendo dizer que está apaixonado pela Savage, pode? Quer dizer, ela é uma garota incrível, na verdade me parece insubstituível – uma das difíceis de encontrar. Mas, Henry, você está com ela há, o que, uma semana? Nos conhecemos há anos e tivemos uma história...

– Sim, tivemos. Mas essa história acabou. Vanessa, eu quero que seja feliz. E ainda acho que vai encontrar alguém melhor que eu. Precisa entender que tudo mudou. Eu também.

– E eu. – ela disse, levantando-se e sorrindo – Mas o meu amor não mudou. E eu não vou desistir tão fácil, Carter, ou não me chamo Vanessa.

Notas finais
E aí? Odeiam a Vanessa? Acham ela legal? Vanenry ou Gwenry? Diferente dos capítulos POVs, esse será o único capítulo flashback da estória. Enfim. Comentários?