Gwen Savage e o Nariz de Prata - Interativa
16 Espelhos
Notas iniciais
pesar da distribuição de tarefas, ainda nos sentíamos um pouco ociosos. Todos já haviam cumprido suas respectivas tarefas, e procuravam em vão algo mais para fazer. Com todos, digo, na verdade, quase todos. Havia alguns que já estavam bastante ocupados. Esses ocupados, podemos dividi-los em duas categorias: os ocupados, e os “ocupados”. À primeira categoria, os ocupados, pertenciam Georgia e Nicholas. Ela estava em choque por algo que tinha acontecido e que apenas o outro havia presenciado, e nenhum dos dois falava uma palavra sobre o tal incidente. Só o que sabíamos é que ela estava ferida e muito assustada – o que, mesmo que fôssemos realmente distraídos, notaríamos pelos gritos aterrorizados que cortavam a noite, pesadelos terríveis, aos quais só Nicholas podia apaziguar. Assim, todos consentiram – sem consentir verbalmente – em deixa-los em paz até que ela sentisse-se melhor. Já os “ocupados”, destaque nas aspas e na ironia que elas carregam, tratavam-se de Henry e Vanessa. Apesar de já terem acabado suas tarefas há bastante tempo, pareciam ter simplesmente esquecido – ou optado por fazê-lo – de procurar algo em que pudessem ser úteis. Estavam intensamente envolvidos em uma conversa, cheia de risos que cheiravam a flerte, lembranças felizes “dos velhos tempos”, como a vida de ambos havia mudado desde a separação... Pelo menos umas cinco vezes eles mencionaram um incidente do sorvete ou algo do gênero, e essa simples menção desembocava em risadas intermináveis e olhares que – para mim – brilhavam um pouco de mais. Tentava ignora-los ao máximo, mas era impossível. E a pior parte era o fato de que eram como dois polos de um ímã, como que feitos um para o outro. Ao vê-los rindo juntos, desejei ser como ela. Por essa razão, quando Jeremy sugeriu que eu me juntasse a ele em um reconhecimento do território – para procurar indícios de um certo leão gigante -, consenti imediatamente. Assim saímos os dois. Ele era silencioso, e eu não estava com muita vontade de conversar, assim, para a felicidade de ambos, caminhávamos perdidos em pensamentos. Os últimos dias haviam deixado a sua aparência ainda mais atlética. A cada dia, eu me sentia menor perto dele. O olhar era duro, preocupado e cansado – mas gentil – e imaginei que antes de tudo aquilo... Não. Antes de tudo aquilo ele era outra pessoa, com um olhar completamente diferente. Se era algo bom ou não, não cabia a mim decidir. No momento, ele tinha o cabelo molhado por conta do banho, e ainda sim gotículas de suor acumulavam-se em sua testa. Ele era o exemplo perfeito das pessoas que não se cansam de trabalhar e servir, sempre procurando alguma maneira de ajudar. Vestia uma camiseta azul e jeans, e era até um pouco estranho vê-lo sem o macacão. Eu, por minha vez, vestia uma regata bege e calças largas em um verde musgo.
Já estivéramos caminhando havia um certo tempo quando ele se deteve de súbito e barrou o meu caminho com o braço esquerdo. Entreolhamo-nos, e depois voltamo-nos para a casa dos espelhos, de onde viera um grito feminino que só poderia pertencer a uma pessoa. Questionei a respeito dos nossos próximos passos com o olhar, e a sua resposta, sem palavras, foi mais clara que água. Entrei na frente, e levei alguns segundos para me acostumar com a penumbra. Ele amarrou a porta da tenda, de maneira que a luz pudesse entrar. Ainda sim, estava escuro. Diante de nós, um labirinto de espelhos que parecia interminável. “Esse sujeito tem mesmo uma fixação por labirintos” pensei, lembrando-me de quando Sophie mencionara que no andar inferior da prisão de pedra havia um labirinto. Estremeci ao pensar nas aranhas, mas não havia sinal delas por ali. “As aberrações por aqui devem ser diferentes...”. Voltei-me para Jeremy, que observava o labirinto diante de nós com ar pensativo. Como quem tivesse tido uma ideia brilhante, caminhou até um dos espelhos e o derrubou com um empurrão. Assentiu e olhou para mim.
– Podemos derrubar os espelhos por onde passarmos, para conseguirmos encontrar o caminho de volta. – ele sugeriu, e concordei com um aceno de cabeça. – Primeiro as damas.
Aterrorizada, preferiria que ele fosse antes. Contudo, não queria passar essa impressão, assim, adentrei no labirinto de espelhos. Ele os derrubava atrás de mim, e era impressionante como não parecia se cansar com o esforço. Já estávamos andando no labirinto por uns dez minutos quando ouvimos um gemido. Não estava muito distante. Uma ruga surgiu entre suas sobrancelhas e ele me apressou com o olhar. Seguimos a direção do som, até nos depararmos com uma parede espelhada, sem porta. Obviamente o gemido vinha de seu interior.
– Há alguém aí? – perguntei, temerosa.
– Gwen? – uma voz fraca respondeu, após alguns instantes. Comprimi os lábios.
– Afaste-se da parede de onde está ouvido nossa voz – alertou Jeremy, e ouvi a pessoa o fazendo. Ele tomou impulso e se lançou contra o espelho algumas vezes, até que ele se espatifou e pudemos ver a “clareira”. No seu centro, uma Hout encolhida nos observava. Ao seu lado, Catherine estava inconsciente. Pálida e magra, o seu aspecto era terrível. Henry correu na sua direção e tomou o seu pulso. Estava viva, mas claramente doente.
– Ela estava delirando – murmurou Hout – Acho que está presa aqui desde a nossa tentativa de fuga.
– E você? – ajoelhei-me ao lado da holandesa – O que aconteceu com você?
– Nariz de Prata me deixou em uma sala por algum tempo, entrava para me dar comida e água. Disse que ia esperar o momento certo. Ontem ao fim do dia ele surgiu e disse que a hora havia chegado, então apaguei e acordei aqui há algumas horas. Não é difícil entender porque Catherine ficou assim. Aqui não há comida, água, é enlouquecedor ver tantas de você te encarando o tempo todo, sem saída.
– Até agora – disse, decidida – Vamos, temos que sair daqui.
Assim que me voltei para a parede que Jeremy havia derrubado, o chão tremeu e a clareira começou a descer, como um elevador. Entreolhamo-nos, assustados. Uma fumaça branca impediu que nós víssemos o que se passava, e assim que ela se dissipou nos encontrávamos em um labirinto completamente diferente. Olhei para Jeremy, desesperada. Ele comprimiu os lábios. Forçou os espelhos como havia feito antes, mas dessa vez eles estavam fixados no chão e eram resistentes demais para serem espatifados. Gritei por ajuda, mas obviamente ninguém apareceria. Estavam ocupados. Ou “ocupados”. Dei um passo na direção dos corredores infinitos daquele labirinto, mas Hout me alertou que era melhor todos permanecerem juntos. Eu sabia que ela tinha razão, mas ainda sim obedeci contrariada. Aquela limitação e todas aquelas Gwens imitando cada movimento meu eram aterrorizantes. Eu nunca havia sofrido de claustrofobia ou afins, mas naquelas circunstâncias qualquer um se sentiria daquela maneira. Com exceção de Jeremy, que forçava-se a permanecer calmo e procurava uma solução de maneira racional e concentrada, sem sair do lado de Catherine. A holandesa acompanhava os meus movimentos, com um misto de piedade e tristeza, como se soubesse que todos os meus esforços para sair dali eram vãos. Talvez de fato soubesse, mas isso não me impedia de continuar tentando. Detive-me a cerca de um metro de uma das minhas imagens, observando-a. Minha aparência havia piorado um bocado na última semana, e não à toa. Não consegui evitar o pensamento em Vanessa e sua beleza, mas decidi que não era o momento certo. Gelei. A minha imagem havia piscado. Eu não. Ficamos nos encarando por alguns instantes, e foi tão rápido que não tive tempo de me defender. Em um momento estava em pé encarando a “Gwen-2”, no seguinte o seu punho estava em meu rosto e eu caía no chão. Gritei, e assim também o fez Hout. Uma das imagens da holandesa surgiu ao lado da minha, e uma de Jeremy, e uma de Catherine. Como era possível? Estiquei a mão rapidamente e verifiquei que o que eu pensara ser um espelho era apenas uma moldura, e que o meu “reflexo”, assim como os deles, eram autômatos. Os outros espelhos eram reais, mas davam um efeito de confusão e terror, como se fosse impossível descobrir o que era real e o que não era. Nós éramos reais? Ou apenas reflexos... Daqueles que julgávamos como sendo os nossos reflexos? Descobri naquele momento que a sensação de estar enlouquecendo não é nada agradável. Tentei acertar o autômato com um chute, mas acabei por machucar o meu pé. Jeremy lutava com “Jeremy-2”, e Hout esforçava-se por não ser acertada pela sua sósia. Gwen-2 me empurrou, fazendo-me cair de costas no chão, e posicionou o seu pé em cima de mim, aplicando força gradualmente. Gritei, mas os outros estavam ocupados demais cuidando dos próprios robôs para me ajudar. Então ouvi ruídos de tiros, vários tiros, e espelhos se espatifando. Henry e Vanessa surgiram armados com algumas das pistolas que ganháramos juntamente com os outros suprimentos. Vanessa acertou a cabeça de minha robô, a de Catherine e da de Hout, então olhou para os outros sem saber o que fazer. Os “Jeremy’s” se detiveram ao notar as pistolas. Eram idênticos. Saber qual era o real parecia impossível.
– Vanessa, eu sou Jeremy – um deles disse, gravemente.
– Não acredite nele. Eu sou Jeremy.
Ela olhou para os dois, confusa.
– Vamos, atire nele, Vanessa!
– Não faça isso! Atire nele!
– Jeremy? – uma recém-acordada Catherine murmurou, sem se mover. Ambos olharam para ela. – É você? Você é real?
– Sim – os dois disseram em uníssono, e caminharam até ela. Ambos tocaram a sua face, até que um deles olhou com ódio para o outro.
– Não toque nela! – gritou, e socou o rosto do outro com força. Foi inesperado, e o agredido caiu no chão com o golpe. O Jeremy que lhe socara levantou-se e chutou-o com força, fazendo-o arfar. Vanessa e Henry apontaram as armas, sem saber o que fazer.
– Jeremy... – murmurou Catherine, e novamente ambos olharam para ela. Ela os observou por alguns instantes. – Acabe com ele – disse, friamente, olhando para o Jeremy em pé. Ele sorriu, e no mesmo instante e outro Jeremy o acertou na costela, fazendo-o gritar e cambalear. Vanessa atirou no que o batera, e ele caiu de costas. Nenhum sangue saiu, e ela suspirou aliviada. Jeremy, o verdadeiro, esfregou a mão no local onde havia sido atingido. Então voltou-se para Catherine.
– Como sabia que era eu? – perguntou.
– Te conheci há tempo demais para te confundir com um robô – ela sorriu, fraca. Todos deixamos a tenda e começamos a caminhar na direção dos trailers. Tina, Georgia, Russel e Nicholas nos aguardavam cheios de expectativa. Nicholas e Hout imediatamente começaram a tratar dos ferimentos – ela não estava ferida, apenas traumatizada.
– Foi incrível! – ouvi Henry dizendo a Vanessa.
– Não seja bobo. Você fez exatamente a mesma coisa – ela riu.
– Não, sem brincadeira, você já pensou em ser policial?
Ambos riram, e decidi que nada poderia ficar pior.
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