Guardian Angel

13 Sobre almas e corpos


Notas iniciais
Hey gente, como prometido, um capitulo novo. Desta vez narrado pelo Leonardo, espero que curtam. Beijos e boa leitura!

–Como foi? Como foi? Como foi? — Yara Parecia entusiasmada. Me encontrou a meia quadra de casa. Eu tava dando passos tão leves que achei que ia sair voando. Na verdade, só reparei nos meus arredores quando ouvi ela me chamando.

–Acredita que ele não gostou da piada do elefante roxo? -Fingi que tava indignado.

Ela não pareceu surpresa.

–Mas que bom que não né. Enfim, me conta do resto.

Eu devo ter contado tudo tão rápido e de uma maneira tão entusiasmada e confusa, que Yara certamente teve que usar suas aparentes habilidades como vidente para entender a narrativa.

–E como tu tá te sentindo agora? — Ela sorriu enquanto sentávamos na escada que ficava na frente do prédio.

–Eu não sei Yara. É quase como se, sei lá, eu fosse outra pessoa. Eu nunca me imaginei beijando um cara antes, como se fosse uma menina, ou qualquer coisa. Mas eu não penso em Patrick como eu pensava nas meninas, eu não quero ficar com ele por uma noite e tal. Ai Yara, como eu fui idiota aquela vez.

Cara, eu não queria ter feito aquilo que eu fiz naquela noite. Eu não entendo por que eu achava fazer aquilo bonito. Não que eu estivesse censurando quem faz, mas por que eu fui fazer? Eu não gostava de Larissa, aquele outro cara era um idiota. Por que eu queria provar pra alguém que eu era superior, ou sei lá. Eu só não sei onde eu tava com a cabeça.

Eu não consegui dizer todas aquelas palavras em voz alta, mas a Yara entendeu o que eu tava sentindo. Eu encolhi o rosto entre os joelhos, mas ela passou a mão nas minhas costas.

–Tá tudo bem Leo, arrependimento não é o caminho. Naquela hora, era exatamente o que tu queria. Se concentra no que tu vai fazer agora. Termina com essa menina, essa Larissa. Fala que não ia dar certo, mas não magoa ela. Apesar de sinceramente eu ter ficado com raiva por ela ter sido grossa comigo aquele dia, ela não tem culpa.

Ia ser difícil, mas Yara tinha razão. Eu não ia dizer que não gostei das coisas que rolaram com a Larissa e tal, mas aquele era outro eu. Acho que o Patrick tinha me mudado. Coloquei um moletom (a jaqueta tinha ficado com ele) , me despedi da Yara e fui falar com a Larissa, ia ser difícil, mas não impossível.

Primeiro ela sorriu com a visita surpresa, mas o sorriso parou quando ela viu a minha expressão séria. Cara, eu nunca tinha me importado em terminar com uma menina, e olha que geralmente era eu que terminava, mas agora eu me sentia meio culpado, só queria que ela não reagisse tão mal assim.

Contei toda a historia, não prestei atenção em nada, sabia que olhar pras expressões dela ia me atrapalhar. Contei como tinha acontecido, sem esconder nada. Esperei ela dizer algo. O silêncio era mortal. Mas o que veio depois foi pior:

–POR UM GAY? LEONARDO EU FUI TROCADA POR UM GAY? — Ela falou as três últimas palavras com uma pausa leve entre elas.

–Larissa, eu não queria que você reagisse assim... — Que droga, por que tinha que ser tão difícil?

–Ainda se fosse musculoso e alto, mas é o cara mais esquisito que existe. Puta que pariu. Eu te achava tão gato. Eu não to acreditando. — Ela colocou a mão no rosto e o virou. Sério, ela tava fazendo aquilo de propósito. Por que eu fui me envolver? Não queria que ela falasse mal do Patrick.

–Sério, por favor, não fala assim do Patrick, ele...- Ela me interrompeu.

–Ah, mas faça-me o favor, ainda vai depender o gayzinho lá. Sério cara, como assim? Você não era gay lá naquela mesa sexta feira passada. — Ela jogava baixo, droga, por que isso tava acontecendo?

–Lari, eu já te disse, o Patrick é diferente, eu não quero lidar com rótulos, eu só gosto dele. Eu achei super legal a gente ter ficado. Mas infelizmente não dá mais.

–mimimimi. Eu fui feita de trouxa, é isso, de trouxa. Eu não sei nem o que falar cara, coitada de mim. — Ela tava armando uma cena. Aquilo era muito idiota.

–Larissa, sinceramente, para de agir assim. Nós dois sabemos que foi só uma ficada. Nunca teve um sentimento entre nós. Não dá pra criar passado onde não aconteceu nada.

–Agora to recebendo conselho. Era o que faltava. Vai cuspir mais no prato que comeu é?

–Eu não to querendo cuspir em nada, eu já disse, foi bom enquanto durou. Só não dá mais. Eu mudei. Não queria que tu reagisse dessa maneira, eu sei que é difícil, me imagino nessa situação, mas queria te pedir pra ser mais adulta e entender. Ficou claro que não tinha mais nada além de atração física , tu não é a amada do coração partido da história, Larissa.

–Ô, e como mudou hein, até de time. Agora vem dar lição de moral. Cada coisa que acontece, as vezes é difícil até acreditar.

–Sério, eu entendo que é chato, mas não queria que tu encarasse como uma rejeição. Eu sei que posso ter sido um idiota por não me conhecer direito, eu podia ter agido diferente, eu sei. Mas não é o caso. Não é uma questão de admitir a culpa, foi só um relacionamento que não deu certo, e nem tinha sentimento envolvido. Não é culpa de ninguém. Só não encaixou.

–Te garanto que encaixa muito melhor do que as outras “formas de encaixe” que tu vai ter que tentar. Agora deu de blablahla. Serio cara, vaza daqui. Vai lá com a bixa emo. Garanto que tem dedo daquela índia esquisita nisso tudo.

Ela praticamente me expulsou, aos gritos.

–Eu disse que não ia ser fácil.

Yara chegou de repente, me assustei com aquela figura alta dobrando a esquina,

–Impossível. Sério, ela sabe que não rolou nada de forte entre nós, por que ela quer insistir em se fazer de vítima? — Eu tava irritado, sério. Por que as coisas não podiam ser mais simples? Era culpa minha mesmo, por que eu tive que me envolver com ela?

–Leonardo, as pessoas são mais complexas que isso. — Yara continuava sem levantar a voz — Na tua cabeça pode não ter rolado nada, mas na dessa guria aí, vai dizer. Talvez ela até tenha percebido que o senhor não queria nada demais, mas e admitir? As pessoas tem sentimentos Leo, era isso que tu devia ter percebido há muito tempo.

Pior que ouvir uma bronca, é ouvir uma bronca de alguém com razão. O que era frequente quando se tratava de Yara.

–E agora?

–E agora nada. Ela vai amadurecer com isso. E tu vai mudar. Fim. Não podemos fazer mais nada. — Yara era severa, mas acho que ela tinha razão. Tudo que eu precisava era olhar pra frente. — Pensa no Patrick, tu já se desculpou com ele, é só a ele que tu deve satisfação agora.

Era meio inevitável sorrir quando eu pensava nele.

–Então senhor don Juan, como é estar apaixonado? — Yara tinha percebido meu sorriso bobo,

–Ai Yayá, eu não sei definir. É muito louco. Eu to com um pouco de medo porque eu não consigo entender, mas o Patrick, ele sei lá, eu quero apertar ele como se fosse um ursinho. Sim, eu sei, parece que eu tenho 13 anos de idade pra falar essas coisas. Mas tipo... ele dá vontade de agarrar, de ter nos braços. E não soltar mais, Sabe? Acho que era isso que chamavam de borboletas no estômago. Eu não sei se eu chamaria de borboletas, parecia mais um ventilador, ou uma bomba pneumática, é um formigamento tão forte, eu não sei definir.

–Bomba pneumática no estômago. — Yara riu. — Ai Léo, você supera todos os poetas românticos. Mas por que medo?

–Ele perdeu alguém Yara. E se eu não for bom o suficiente pra repor? Quer dizer, eu não quero apagar a memória do cara que ele namorou, mas também não quero que ele sinta falta de alguém. Quero preencher o que tá vazio. E se eu não conseguir? Sei lá, o Patrick conhece todas aquelas artes e poesias e filmes e livros antigos. O livro mais antigo que eu li foi Harry Potter!

–Ai Leo, Harry Potter é ótimo inclusive. E não fica com medo. Tu é um cara fofo, legal, e gosta dele de verdade. Tu tem muito a aprender com ele, mas ele também tem muito a aprender contigo. Perfeição se constrói

Yara era genial. O jeito que ela falava, sempre calma. Sempre sabia a coisa certa a dizer. Talvez fosse isso mesmo. Não devia ficar com medo de mim mesmo. Nos abraçamos enquanto voltávamos para casa. Não queria esquecer o passado, não precisava. Só precisava colocar um ponto naquilo tudo, e estava acabado.

–Ai Yara, Acho que nunca ia me imaginar num casal gay. — Eu ri de mim, nunca mesmo.

–Ai Léo, eu vivo por um mundo onde a gente chame “casal gay” só de “casal”.

Sorri. Acho que na real o que importa é a alma, não o corpo.

Notas finais
Que acharam? Logo logo tem um novo por aí. Até mais.