Guardian Angel
14 Silício
Notas iniciais
Dormi com a janela aberta, queria que a luz do sol me acordasse. Era estranho se sentir bem, mas era bom. Me agarrei a um travesseiro, e em minha mente não havia ali algodão e espuma, mas sim pele e carne, imaginei-o ali comigo. Sentia o cheiro dele através do casaco; ainda o estava usando. Encolhi-me para mais perto de minha ilusão, imaginei a respiração dele a acariciar meu rosto, e seu peito subindo e descendo sob minha cabeça. Havia tempos que não sentia aquilo, mas o estava fazendo, antes, quando o fazia, não era por senti-lo e sim por vontade de aliviar o tédio: Minhas mãos desceram por baixo dos lençóis e respirei ofegante enquanto tocava em meu próprio corpo. Meus olhos se fecharam, dormi, sonhei com mais.
O sol me acordou. Desci as escadas apressado, não queria cruzar com meu pai. Comi qualquer coisa. Entusiasmado era um pouco demais, mas pode-se dizer que estava um pouco ansioso.
Me aproximei andando mais rápido que o habitual. Leo talvez estivesse com mais calor que o habitual: camiseta branca, bermuda, chapéu. Vislumbrei os músculos do braço, me sentindo um pouco culpado por sentir o que senti.
–Quer ouvir outra piada? — Ele parecia animado.
Esperava-me na esquina de casa, cumprimentou-me com um beijo.
–Estou ansioso.
–Qual é o elemento químico presente no carro do vocalista do U2?
–Fale
–CAR-BONO
–Espero que sua nota em química seja mais engraçada depois dessa.
–Quer fazer algo depois da escola? — Ele pegou minha mochila. Não estava pesada, mas não reclamei.
–Sim. Ouvir suas melhores piadas Léo, eu vivo pra isso. — Fui percebivelmente irônico, Ele fez um biquinho de decepção, não resisti, comecei a rir.
–Que tal ir pra praia, senhor senso-de-humor-apurado?
A praia, ele sugeriu. Talvez fosse bom voltar lá. Ainda era outono, não estava frio. E queria rever o mar, com Léo, dessa vez.
–Topo.
Chegamos na escola. Esperava que não notassem meu cabelo novo. Na minha mente costumava parecer um empilhado de pedras cinzento cheio de idiotas. Talvez ainda estivesse cheio de idiotas, mas a construção até era bonita. Não queria demonstrar nada com Léo, também não o fazia com Jorge, as pessoas odiavam ver dois caras de mãos dadas. Jorge dizia pra não ligar, que eram uns idiotas. De fato, eram idiotas, mas é chato ser odiado. Acho que se eu fosse hétero iam achar outra coisa para apontar e me odiar, mas é tão triste quando se é odiado por amar alguém.
Trocamos olhares, lanchamos juntos, as vezes é legal fazer as coisas com alguém, quer dizer, eu realmente no me importava em comer sozinho. Mas quando tinha outra pessoa ali era de algum modo melhor. Leo era uma boa companhia. Havia, porém, um problema: Larissa, a garota igual-a-todas-as-outras não parava de olhar para mim. Estava relativamente acostumado, mas algo saia do padrão: geralmente as pessoas olhavam, riam, e mudavam de assunto. Era um comportamento padrão, como se não fossem seres individuais mas bonequinhos de papel enfileirados, ela desviava-se desse comportamento. Ela olhava fixamente. Me perguntei o que queria.
Subi para a prova, gostava de química, mas talvez fosse mais divertido estudar há uns 500 anos: Devia ser mais legal ser um alquimista e atribuir reações químicas à magia do que ficar fazendo contas e descobrir que é tudo por causa de bolinhas minúsculas se combinando. Além disso, qual é a do carbono? Por que só ele? O silício também faz quatro ligações... Enfim, não foi tão difícil. Dificil mesmo foi depois:
–Hey. Patrick. É pra você. — Uma das amigas de Larissa cujo nome não é importante me entregara um envelope. Cor de rosa, selado com uma figurinha de caderno. Estávamos no primário? Imaginei um papelzinho escrito “otário” ou algo do gênero. Não ia abrir na frente de ninguém. Pensei em rasgar, mas a curiosidade é uma maldição dos diabos.
Eram fotos, a qualidade era horrível. Deviam ter sido tiradas no escuro. Braços, pernas, cabeças, luzes; a imagem demorou uns instantes para se formar. Leonardo e Larissa apoiados numa mesa, ele por cima dela, suas bocas unidas, quase um coito. Deviam ter umas cinco daquelas, ligeiramente diferentes, foram tiradas em sucessão. A última era uma foto minha, não sei como conseguira, pelo cabelo era de hoje, o que explicava a fixação por mim antes do intervalo. Minha vontade era rir: marcador vermelho circulava meu rosto, e escrito nessa mesma tinta lia-se com uma letra marcada: “segunda opção.”
Talvez ela achasse que eu fosse chorar como uma menininha que foi traída pelo namorado. Mas minha primeira reação foi soltar uma gargalhada. Segunda opção. Eu não estava triste, nem frustrado, apenas com raiva, raiva de mim mesmo. Por que eu fui acreditar que Léo era como Jorge? O cara fútil que se envolve com garotas fúteis, de que maneira nós íamos nos encaixar? Ruim mesmo não era o fato dele estar agarrado naquela garota; ruim era o fato de eu acreditar que ele era diferente. Eu me deixei levar por um pedaço de poema e duas frases em francês? Dois anos de solidão tinham me transformado em alguém carente a esse ponto? Como eu pude esperar outro Jorge? Era bobagem, não havia outro Jorge.
Ele ia me esperar na estrada que levava a praia. Caminhei até lá. Não ficava muito longe, mas foram passos com o peso do arrependimento. O vento soprava forte, e o trânsito não parava naquele cruzamento, a boca de Léo se moveu, sua expressão era simpática, mas o barulho do vento e dos carros abafava minha audição:
–O QUÊ? — Detestava gritar, era como se minha voz entrasse em desespero. -
–Como foi a prova? — Ele perguntou de novo, também gritando.
–Boa. — O vento estava mais forte agora, e o céu se cobria de nuvens.
Ele deu de ombros. Talvez percebeu a secura de minha resposta, eu estava calmo, não estava nervoso. Não queria ficar.
–Vamos lá então? Quer ajuda com a mochila?. — Ele falava alto demais.
–Leo. Eu só queria dizer que não vou mais.
–Que?
–Eu não vou.
–Tá tudo bem? — Comecei a sentir gotas de chuva em minha pele.
–Leonardo, eu tenho muitos argumentos contra a monogamia, mas eu não posso falar que não funciona comigo. — Entreguei o envelope a ele. A expressão dele era consternada.
–Patrick, isso... Isso foi antes, a gente não tinha saído nem nada...
–Tá tudo bem. — Era difícil demonstrar paciência enquanto se falava aos gritos. Não queria que ele se sentisse culpado. — Léo, a questão é que eu me enganei. Talvez eu não precise disso, eu estou bem sozinho, eu me enganei sobre ter outro relacionamento.
–Mas eu preciso! Eu mudei por ti Patrick! Eu não quero ser mais esse Léo. — Ele apontou para as fotos, as segurava com raiva. — Eu quero ser seu.
–Mas Leo, eu não quero que você mude só por minha causa. Pode seguir com sua vida. Eu não to pedindo uma propriedade. Eu to bem sozinho.
Odiava pronomes possessivos. Não merecia “ter” Léo, por quanto tempo ele me suportaria? Seriamos infelizes, eu mais ainda. Nuvens transformavam o dia em noite, me afastei a passos largos, cruzei a avenida correndo. Uma marquise me protegeria da chuva que começava a cair com força, deixando tudo em minha volta molhado. Não queria mais olhar para trás. Foi rápido. Foi barulhento. Foi doloroso:
Ouvi meu nome. Leonardo gritou. Ouvi seus passos batendo na água que escorria sobre o asfalto, senti um empurrão, uma buzina soou, o barulho de água esguichando. O chão: uma pedra dura fria, molhada. Ouvi um baque ensurdecedor, seria minha queda? Silêncio. Rompeu-se; o barulho era de um motor, um farol apenas vinha aceso, passou, parando atrás de mim numa freada brusca. Meus olhos viraram para o outro lado da cena: um caminhão e um poste tombados. Não conseguia ver Léo.
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