Notas iniciais
Caritas é uma das muitas palavras em latim para "amor". O capítulo é contado pelo narrador. Boa leitura pessoal

Lugares estranhos os hospitais, a tensão reinava absoluta coberta sobre tanta brancura. Os apitos daquela maquininha eram realmente necessários?

Ele estava deitado. Os cabelos louros adornados por uma atadura branca de mal gosto. Uma das pernas completamente envolta em branco, bem como o antebraço. Havia branco demais, e nenhum contraste, as cortinas e lençóis eram de um verde e azul desmaiados, deprimente. Bip, Bip, Bip fazia a maldita máquina, enquanto linhas verdes subiam e desciam na tela escura. Que substituto horrível era o ruidoso tubo de oxigênio ante o doce som da respiração humana? Os olhos de Léo ensinariam àquelas cortinas sem graça o que é verde de verdade. Desejo que se abram logo.

–E então doutor? — a mulher tremia, bem como sua voz. Pobre Simone, nenhum abraço podia confortá-la.

–Sinceramente senhora, foi um acidente severo. É um milagre que seu filho permaneça vivo até agora. — Era colossal a frieza daqueles homens de branco diante da sombra da morte.

A mulher chorou em desespero por longos minutos, o homem de branco observou imóvel por detrás de seus óculos quadrados

–Ao menos posso ver meu filho?

–Não posso permitir visitas até o quadro se estabilizar.

Retirou-se o homem de branco, a mulher era um fiapo de mulher. Se setenta por cento do corpo humano é composto de água, em Simone lagrimas eram uma porção considerável desse quociente.

As vezes as coincidências podiam ser trágicas. Trágico o fato do pai de Patrick retornar uma encomenda para a cidade vizinha e fazer a curva perigosa da estrada bem no momento da chuva. Trágico o fato do pai de Patrick ter que desviar de uma moto que fez um movimento imprevisto e acabar virando o caminhão, derrubando sobre si a carga pesada que estava mal presa. Essa moto fez um movimento imprevisto por conta de dois rapazes que atravessavam a rua. Dois rapazes atravessaram a rua por conta de uma discussão. Essa discussão foi causada por uma foto tirada por uma menina que estava bem longe dali, numa festa muitos dias atrás. Se algum dos leitores é um matemático, gostaria que humildemente nos falasse sobre a possibilidade de todos esses eventos encadeados ocorrerem no mesmo lugar e ao mesmo tempo. Coincidências são coisas estranhas, por vezes, lamentáveis.

Num comodo do lado uma mulher observava seu filho em silêncio. Era triste perder alguém com quem viveu-se junto os últimos dezoito anos, mas a tristeza é amortecida quando essa pessoa tem um péssimo caráter, parte da dor se torna alívio, e não há nenhuma culpa nisso. Flávia sentia-se assim: dolorida e alíviada.

–Tá com sede?

–Não.

–O velório é amanhã de manhã. Eu vou ficar aqui. Pode ir pra casa se quiser.

–Eu to bem.

Mãe e filho se olharam nos olhos, há quanto tempo não faziam isso? Sempre houvera pouca comunicação um pelo outro. Talvez a mudança tão brusca os fizesse reatar os laços. A mãe sentou-se ao lado do filho. E pôs a mão em seu ombro.

–Ainda dói filho? . — O menino tinha curativos nos braços e uma mão enfaixada. Mas não era em si que sentia dor.

–Tá tudo bem por fora mãe.

Filho e mãe se abraçaram. Pela primeira vez em tantos anos que Patrick não conseguia se lembrar. Choraram diante do caixão, de uma forma ou de outra, ainda perdiam um pai e um marido. Mas a morte não era um ponto final, era um recomeço.

–Eu falei com a mãe do seu amigo, filho. Ele ainda não pode receber visitas.

Patrick sentou-se no sofá da recepção. Nunca gostara muto de hospitais, nem de religião organizada, imagine a mistura das duas. Havia um afresco sacro no teto, maria, cercada por milhares de pequenos anjinhos num céu de tons pasteis. Acima da coroa radiante da virgem santíssima pairava a pintura de uma faixa de pergaminho, onde se lia com uma caligrafia trabalhada a palavra “caritas”: latim, para amor. Não o amor de “marido e mulher” (se nessa definição obedecermos os moldes da tão adorada família tradicional) mas sim o amor piedoso, aquele ímpeto que sentimos de ajudar um desconhecido, a empatia em sua forma mais aplicada: a caridade.

Existem certamente diferentes formas de amor: caridade, platônico, carnal, fraterno... E tanto em latim quanto em português vemos milhares de palavras e termos para diferenciá-los. Apenas tal forma de amor é bonita, apenas tal forma de amor é moral, apenas tal forma de amor é válida. Existe pelo jeito, uma grande necessidade de classificar e normatizar o amor. Os humanos muito deliberam sobre a diferença que faz a presença ou ausência do ato sexual numa relação entre duas pessoas, por exemplo. O que soa ridículo. Ruas podem ganhar nomes, espécies podem ser classificadas em gêneros e filos, elementos podem ser organizados numa tabela, mas o coração humano? Os sentimentos? É não só arrogância mas também burrice considerar uma forma de amor diferente ou mais justa que a outra.

Patrick pensou em tudo que dissera a Léo, no quão infantil fora, e embora tivesse dois dedos quebrados e os braços cortados pelas pedras duras do chão, o que mais lhe feria era a culpa, por que tinha que ter tanto medo de seus sentimentos? Amar não era errado (embora algumas vezes fosse considerado ser). Que sentimento inútil era a culpa, o passado não se pode mudar, mas pode-se aprender com ele. Não deveria sentir medo de ser quem ele era. Patrick Olhou novamente para a pintura: caritas, emanava o pergaminho, não se perdoaria em perder outro alguém, não saberia o que fazer sem a presença dele, naquelas últimas semanas sentira-se mais vivo do que nos últimos três anos, aquelas piadas horríveis o fizeram sorrir. Léo o fizera sorrir, quando Patrick pensou que nunca mais sorriria novamente.

Poderiam chamar de Caridade, compaixão, amizade, amor, companheirismo, sodomia, abominação, poderiam chamar dos milhares de nomes que inventaram pra classificar os sentimentos humanos, Patrick queria ficar ao lado de Leonardo, chamassem do que quissese: se amar Léo era abominação, Patrick não se importava em ser taxado de abominável. Afinal, se alguém sentisse abominação por Patrick, certamente seria um sentimento recíproco.

Caminhou até a porta da maldita UTI, sentou-se no chão frio, o coração pesava. Como era ruim se sentir impotente, por que Léo não poderia levantar-se e abrir aquela porta? Não queria perder mais alguém, nunca mais. Uma mulher sentou-se ao seu lado, seu olhar era tão triste quanto o de Patrick, que embora não demonstrasse muita simpatia por estranhos, nesse caso abriu uma exceção. Somos assim, muitas vezes nos identificamos com a tristeza alheia.

–Você é o Patrick? — Perguntou ela.

–Sou eu.

–Eu sou Simone, a mãe do Leonardo. O Léo me falou muito de você.

Patrick parecia surpreso, uma surpresa feliz em toda aquela confusão. Léo o considerava importante, se sentia culpado por ter pensado ao contrário. Pegou na mão de simone. Eles confortavam um ao outro. Com a outra mão ela tirou um caderno da bolsa. Era bastante velho e surrado, e algumas bordas estavam amolecidas pela água.

–É como se fosse o diário dele, ela explicou. Eu sei que não devia ter lido, mas sinto tanta falta do meu filho.. -As lágrimas escorreram do rosto dela. Patrick apertou a mão da mulher com mais força.

Tomou o caderno pra ler, algumas páginas estavam grudadas com figurinhas, outras com chiclete, alguns desenhos coloridos ocupavam as bordas, rabiscos, letras de músicas, até uma lição de alemão estava perdida ali. Leo talvez fosse criativo, mas organização não era seu forte. Patrick riu ao passar numa página onde haviam piadas anotadas. E parou em uma carta, era o escrito mais recente.

“Patrick,

Eu não sou muito bom nisso, então eu vou tentar ser o mais breve possível. Quando você ler isso você vai estar sentado na areia da praia com os pés enterrados na areia, e eu vou estar te abraçando pelas costas. A gente não abriu um guarda sol, porque eu percebi que o meu tá quebrado, mas tudo bem. Era pra eu estar olhando nos teus olhos e dizendo algum poema romântico, mas eu não entendo muito de poesia, e sei que vou ficar vermelho e não conseguir falar nada, então preferi escrever: Patrick, eu realmente, realmente mesmo gosto de você. Eu sei que eu era um cara meio diferente do que você esperava, e você deve ter pensado muita coisa ruim a meu respeito. Eu não te censuro, eu talvez fosse o tipo de pessoa que você não gostasse, mas não quero mais ser. Patrick, a primeira vez que coloquei os olhos em ti, a primeira mesmo: quando eu entrei na sala e tinha um cara cabeludo todo de preto desenhando anjos mortos com carvão, eu fiquei aficcionado. Eu não sabia explicar, mas queria saber quem você era, do que gostava, queria passar mais tempo contigo. Foi confuso, eu fiz muitos mal julgamentos antes, mas eu só queria dizer que eu percebi que você é uma pessoa maravilhosa, Patrick, e que te conhecer foi uma das melhores coisas que me aconteceu. Eu fiquei confuso comigo mesmo por que eu não entendia que eu podia estar gostando de um cara, mas sinceramente, foda-se, eu não ligo pra o que alguns idiotas vão pensar... Eu só quero ficar perto de ti Patrick, como nunca quis ficar tão perto de ninguém. Sabe, a minha vida era uma confusão antes, eu nunca entendi direito o que eu queria, nem quem eu era. Mas contigo eu posso contar minhas piadas, e falar coisas legais sobre comida, e rir que nem um bobo. Eu me sinto eu mesmo quando estou contigo, e eu queria ficar contigo sempre... Patrick, o que eu to querendo dizer, é que eu te amo. Aceita namorar comigo?

Com todo o amor do mundo,

Léo.

P.S: eu trouxe picolé pra gente comer, tá tudo bem se eu não souber dizer como se faz?”

Agarrou o papel e beijou-o. Cada gota de lágrima caía como uma torrente ao deixar os olhos de Patrick. Como queria abraçar Leonardo naquele momento, sentir sua pele quente, sua respiração. Não poderia acabar assim, não depois de tantos anos de sofrimento, não era justo. Fato é que não existem muitas coisas justas, mas era simplesmente triste demais pensar na possibilidade de não beijar Léo nunca mais. Simone o confortou em seus braços cansados.

–Eu li o que ele escreveu sobre você Patrick. Você é um garoto especial. — Disse ela afagando os cabelos do rapaz, via nele um pouco do filho. — Sabe, eu realmente não achava que alguém fosse capaz de ganhar o coração desse menino.

Patrick sorriu.

–Havia dois anos que eu tentava engravidar sem sucesso, eu já estava com pouca esperança porque a idade estava passando. Foi na volta de uma viagem de carro com o meu marido que encontramos um menininho loirinho parado na beira da estrada. Nós perguntamos pelos pais dele, ele não respondia, procuramos informações nos municípios vizinhos e em sites de crianças desaparecidas, não encontramos nada sobre ele, tampouco a polícia. Pensamos que provavelmente ele tinha sido abandonado por uma mãe negligente que não queria que seguissem os rastros e entramos com os papeis de adoção; as autoridades nos permitiram ficar com ele. Ele sempre foi uma criança adorável, e arteiro. -Ela riu em meio as lágrimas — Era impossível na escola: sempre arranjava briga, mas sempre fazia as pazes. Tava sempre me fazendo rir, e na adolescência todas as meninas caiam nas graças dele. Ele é um doce, mesmo. Quando brigava com meu marido ele me defendia. Ele era o sol da minha vida. — Simone não consegiu deter as lágrimas que voltavam a cair.

–Leonardo significa "valente como um leão", e não existe nome mais apropriado. Ele vai sair dessa. Eu sei que vai- Confortou Patrick, querendo que suas palavras se fizessem fato.

Patrick e Simone se abraçaram. Amavam Léo mais do que tudo. Não iriam perdê-lo. Não iriam.

Notas finais
Então o que me dizem! Não se esqueçam dos reviews. Até mais!