Notas iniciais
Depois de um certo (longo) hiatus voltamos o/ Esse capítulo é narrado pelo Patrick

—Fique longe dos espanhoizinhos bonitos. Eu também sei fazer gazpacho, aliás. Promete que vai voltar logo? – Foi o abraço mais longo que já dei em alguém.

—Quando a gente se formar eu te levo junto comigo. E ainda quero provar o seu.– Eu amava quando ele sussurrava em meu ouvido. A voz dele fazia cócegas. Senti aquele perfume em seu corpo por uma última vez.

Nunca mais tomei gaspacho.

Eu odiava as vozes dos locutores de aeroporto. Qual o desespero de alguém que está atrasado? O de alguém que está prestes a se despedir de quem ama? O de alguém que vai deixar sua terra para nunca mais retornar? A voz daquela mulher despertava todos aqueles sentimentos. Ele passou por aquela porta. Talvez se fosse mais rápido teria doído menos. Virou-se, sorriu, acenou para mim novamente. Uma senhora pediu – aos gritos – que saísse da frente. Ele riu, e continuou acenando para mim. Virou as costas só depois, vi aquele sorriso pela última vez.

Dei-me conta da quão ridícula havia sido a velha, ao interromper a última despedida de alguém. Mas depois chorei, pois ela também havia partido, e não havia ninguém para despedir-se dela no aeroporto, ninguém dera-lhe um último adeus. Estava sozinha: ninguém se despedira dela quando partia para a morte. Assim seria comigo.

Sentia tanto frio. Os clarões barulhentos dos relâmpagos quebravam a escuridão. Estava nas nuvens. Eram geladas, escuras, elétricas, agressivas. O vento gelado cortava meu rosto como faca. Se o céu era daquele jeito, talvez o inferno fosse melhor mesmo. Ele estava tremendo, queria aquecê-lo, não podia, meu corpo era igualmente frio. Ele caia, avancei-me para pegá-lo pelo braço, mas minhas mãos atravessaram seu corpo. Eu era um fantasma. O monstro de metal branco girava em meio aos relâmpagos. Vislumbrei a mulher velha, os olhos estralados e o rosto paralisado. Não esperara até tocar o mar, estava morta. O medo a matara antes da queda. Os olhos dele estavam fechados. Queria vê-los uma última vez, mas ele não os abria. Vi as lágrimas escorrendo em seu rosto.

—Patrick... – Ele sussurrou. Eu gritava a plenos pulmões, mas eu não estava lá. Eu não estava.

As mãos dele estavam fechadas em punho, primeiro com força, depois aliviadas, havia perdido a consciência. Foi demorado, achava que quedas eram rápidas. Mas tantos quilômetros lá em cima, demora um pouco para chegar no solo, mesmo em queda livre. Primeiro foi cinza. A água é como concreto quando se bate com tanta força. Depois foi amarelo, e cheirava a queimado. Os pedaços voaram para a todo lado, pedaços de tudo, de metal, de plástico, de carne. Eu sentia minha respiração sumir. A cena se repetiu em minha mente, como um filme que chega no final quando a repetição automática está ativada. Desesperei-me. Eu via Leonardo naquela poltrona. Não era mais Jorge, era Léo que caia naquele cinza tempestuoso. Queria gritar. Minha garganta se trancava. Não podia respirar mais.

Acordei suando em bicas. Meu corpo estava frio. Eu tremia. Levantei o corpo de súbito. Senti uma vertigem.

—Shhhhh – Calma, calma querido. Era um pesadelo. — O colo de Yara era macio, e suas mãos me confortavam ao acariciar meus cabelos.

—Não consigo parar de pensar no pior, Yara. – Sentei-me. Levei as mãos até a cabeça e encolhi-a em meio as pernas. Eu morreria junto.

—Não vai acontecer. Não vai. – O abraço de Yara era como o de mãe. Talvez fosse o único local confortável que restara para mim no mundo. -Eu vou pegar um café pra ti. Calma menino, vai dar tudo certo.

Yara abriu as cortinas, juntamente com o Sol, a mãe de Simone surgiu no corredor. Me levantei, ela me abraçou.

Não olhei para seu rosto, não queria adivinhar nada pela expressão. Imaginei as piores notícias, e achei que minhas pernas iriam fraquejar.

—É um milagre. – Ela lacrimejava e ria ao mesmo tempo. O rubor voltara-lhe à face.

Não sei se acreditava em milagres, mas de fato desconhecemos muito mais do que conhecemos.

—Ele está no quarto. Estável e fora de risco. — Ela chorava enquanto falava.

—Tupã. -percebi Yara sussurrar. Se foi Tupã ou não, eu não sei. Mas Simone Yara e eu nos abraçamos e agradecemos quem ou o que quer que tenha sido. É uma sensação tão boa chorar de felicidade.

—E como ele tá? — Yara perguntou ansiosa.

—Acordou ontem à noite. Ele estava meio confuso e não falava nem lembrava direito do acidente. O médico disse que é normal quando se acorda de um coma. É um pouco lenta a recuperação. Agora ele já deve estar um pouco melhor. O doutor disse que ele ainda está dormindo por causa dos remédios, mas não há problema em ficarmos no quarto até ele acordar.·.

Se fosse possível a transmutação eu diria que meu coração deixou de ser chumbo e passou a ser plumas. Naquele preciso instante voltei a respirar aliviado. Acho que minha vontade era entrar lá e encher ele de cócegas até ele acordar.

O quarto tinha tons pastel deprimentes. Mas Léo estava vivo, e sua vida bastava para colorir a minha.

Lá estava ele. Tinha emagrecido um pouco, e uma barba começava a se formar em volta da boca. Ele havia ficado ali por semanas. Não me importava com a espera. Era tão reconfortante saber que ele estava bem. Aproximei-me, peguei em sua mão: estava quente, tão bom sentir aquele calor novamente, envolvi a mão dele nas minhas e a beijei.

—Patrick. — Ele falou entre gemidos, achei que tinha hélio no meu corpo, porque meus pés saíram do chão, e pensei que ia explodir.

—Sabe qual a diferença entre a mulher e o leão? -Ele me olhou sério, como se nada tivesse acontecido. A voz sonolenta dele soava como um anjo.

—Qual é, Léo?- Eu já tava rindo agora.

—A mulher passa batom, o leão, rouge.

Acho que eu mataria ele se fosse outro momento, mas agora só conseguia rir e chorar simultaneamente. Eu levei meu rosto para perto e meus lábios tocaram os lábios dele. Estavam um pouco secos, mas foi a sensação mais doce que já tive.

—Gosto muito de você, Leãozinho. — Sussurrei pra ele entre lágrimas. Ele apertou minha mão. Desci minha cabeça pro peito dele. O som do coração dele batendo me fazia ignorar todo o resto.

—Aliás, senhor Leãozinho, muito bom ver seu pescoço funcionando. Yara aconselha olhar para os dois lados antes de atravessar a rua. — Leo sorriu e enterrou o rosto nos travesseiros. A bronca de Yara fez Simone rir. Era tão lindo poder rir daquilo que antes nos tinha causado tanta agonia.

—Senhor Leonardo Vieira? – O Médico entrou no quarto. Pela primeira vez não era uma figura soturna e desesperadora, mas sim um senhor simpático com curiosos óculos perfeitamente quadrados.

—Presente. – Respondeu Léo com a voz ainda fraca.

—O senhor é um rapaz de sorte. Não é qualquer um que é atirado longe por um caminhão e está aqui pra contar a história.

—Doutor, o meu filho tem previsão de alta?

—Precisará de mais alguns dias aqui em observação, para ganhar foça e nos certificarmos que está tudo bem. A recuperação do estado comatoso é lenta, o cérebro tem que se reparar da lesão, e nesse tempo as funções motoras vão voltando devagar, mas eu estou seguro de que não haverá sequelas. Depois disso mais algumas semanas com o gesso. E então já pode jogar futebol e correr na praia.

—Yara vai fazer um monte de desenho tribal nesse gesso, vai ficar irado.

Léo sorriu. Eu sorri ao ver aquele sorriso.

—Eu sonhei que eu era o Pikachu. – Ele disse meio em transe, eu comecei a chorar e rir de novo.

—O menino precisa descansar. – Disse o doutor. – Por enquanto o melhor que tem a fazer é deixarmos o cérebro dele se reorganizar.

Eu já não me importava em esperar. Pensar que ele estava bem me fazia bem. Andei até em casa. Eu gostava de caminhar longos caminhos. Se tivesse um superpoder queria poder não me cansar nunca, pra andar do Alaska até a Terra do Fogo. Cada detalhe, cada pessoa que eu vejo no caminho me dá força, eu imagino como será a vida daquela pessoa, qual a história daquele objeto, e o mundo me preenche com suas histórias, eu não fico mais me sentindo sozinho. A tensão some, jogo ela fora a cada passo.

Chego em casa, caminho até a cozinha, outrora a fortaleza de minha mãe ante as agressões de meu pai. Agora era uma cozinha qualquer, um pouco escura, mas não importava. Talvez eu fosse um cara que gostasse de coisas meio escuras. Peguei alguns tomates, um pimentão, cebola, pepino e alho. Cortar legumes era terapêutico.

Eu amava os perfumes dos temperos, a umidade dos sucos que estavam nos vegetais, cozinhar relaxava. Eu deveria ter feito aquilo há algum tempo. Mas só agora senti que era capaz. Os cubos de gelo trincavam contra o liquidificador, os tomates pintavam o copo de vermelho. A pimenta e o gelo eram a mistura perfeita. Tomei um copo. Guardei outro para Léo, espero que ele goste de gaspacho.

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Notas finais
Ainda estão aí? Espero que tenham gostado o/