Guardian Angel
17 Frutas Cítricas
Notas iniciais
O sol de inverno brilhava tímido no céu, não era forte o suficiente para aquecer o ar que pairava frígido pelas ruas da cidade. Da janela do meu quarto eu observava aquele nascer do sol tardio, e o céu sem nuvens se tingindo de tons alaranjados. Dias claros de inverno eram os meus favoritos, eu gostava de sentir o sol tentando o seu máximo para nos aquecer, e por um momento, enquanto ficávamos paradinhos, agasalhados, recebendo as carícias de seus raios, o sol conseguia. Mas aquele dia não era feliz apenas pelo brilhante sol do inverno, que vinha dizer um oi após semanas ausente, semanas de chuvas e céu encoberto, aquele era um dia feliz porque aquele era o dia em que Léo voltaria para casa, e tal como o céu, meu coração se acalmava.
Acordei cedo, antes mesmo do despertador, tomei um café rápido: não sentia fome, e mesmo após minha mãe insistir muito, não consegui apetite para mais do que meio pãozinho com manteiga. A ansiedade que sentia cortava qualquer necessidade de alimento. Eu só conseguia apressar minha mãe, e insistia que ela terminasse de se aprontar logo para que fossemos até o hospital. Minha mãe e eu estávamos mais unidos desde que meu pai partira, conversávamos mais vezes, passávamos mais tempo juntos, era ela quem me consolava nos dias em que Leo esteve em coma, meu porto seguro naqueles dias de apreensão. Sinto-me culpado em dizer- mas desde o enterro de meu pai, eu sentia pouco ou nenhum pesar por sua partida. Nos meses que sucederam o acidente, minha mãe e eu reorganizamos a casa, retiramos alguns móveis e coisas velhas que ele guardava, e sublocamos a casa dos fundos no quintal, coisa que ele, por orgulho, sempre se recusou a fazer, por mais que as contas apertassem e precisássemos do dinheiro “não quero nenhum estranho morando aqui” era o que ele repetia. No final, um casal de imigrantes alugou a casa dos fundos, e uma renda extra nos ajudou com algumas reformas pontuais, a casa passou a ter um ar mais conservado – o cheiro de mofo ficou naquele passado, como uma memória distante, minha vida, analogamente, parecia estar seguindo pelo mesmo caminho. Fazia meses que eu sentia como se um peso estivesse sendo retirado lentamente de meus ombros, era estranho, até ruim pensar daquela forma, mas aquela partida trágica havia sido para a melhor, era complicado admitir, mas por mais que eu gostasse de pensar que um dia meu pai fosse me aceitar, aprender com seus erros, e talvez querer fazer parte de minha vida, a verdade era que ele jamais mudaria, continuaria com sua personalidade tóxica, atrasando nossas vidas e fazendo eu me sentir pior a cada dia, com cada olhar, cada julgamento, cada ameaça, cada tentativa de me diminuir. Pode ser – eu pensava -- que talvez em outro plano, ele pudesse passar por uma evolução e livrar-se da pobreza espiritual que o envolvia, e então eu seria capaz de perdoá-lo. Aquela hipótese me consolava, e fazia-me sentir melhor com sua ausência.
O hospital não parecia mais aquele local amedrontador, é curioso, como vemos o mundo com nossas lentes, agora, mesmo num ambiente onde há dor e morte, eu observava detalhes bonitos, as alegrias das famílias após seus entes queridos receberem alta, o choro dos recém nascidos, as notícias de uma cura, de uma remissão, de uma recuperação improvável também passavam por aqueles corredores brancos.
Ele estava sorrindo. Sentado na cama, os cabelos e a barba haviam crescido bastante, ao redor da perna, uma camada de gesso, toda pintada com motivos tribais –obra de Yara – contrastava com a monotonia daquele pequeno quarto. Vê-lo fora daquele hospital significava o mundo para mim. A vida dava uma segunda chance para Léo, mas também para mim, que após perder alguém que amava, pude me abrir novamente para o amor, e não conseguiria suportar ter esse sentimento retirado de mim por uma segunda vez. Se Léo não resistisse aquele acidente, tampouco eu resistiria.
—Bom te ver com saúde, Leãozinho.- Eu disse, enquanto ele se esforçava em levantar da cama e agarrar as muletas por conta própria. Estava bem mais magro, e ainda com uma fraqueza nos músculos. Ficar tanto tempo deitado na cama drenou suas forças.
—Precisa de mais do que um caminhão para me derrubar- ele respondeu, com um sorriso, enquanto,arfando, se esforçava para parar sentado na cama, colocando sua perna para baixo.
Simone, e eu precisamos de certo esforço para colocá-lo na cadeira, ele estava magro, depois de tanto tempo deitado na cama do hospital, mas ainda era um rapaz alto, e o gesso na perna dificultava bastante os movimentos.
—Seu pai não veio te buscar? – Perguntou minha mãe.
—o Pai do Leo ta viajando a trabalho, tem uma reunião importante na sede da fábrica, em outro estado, não pôde chegar a tempo. – respondeu Simone, que pareceu um pouco chateada na resposta. — Mas não tem problema, a mãe vai cuidar bem dele – completou ela, com um sorriso, dando um tapinha no ombro de Leo.
O trajeto do hospital até em casa era curto, felizmente. Eu fui com Leo no banco de trás, as pernas dele esticadas no meu colo, cuidando para que ele não escorregasse. Felizmente Leo morava num apartamento térreo, então não iria ser tão difícil para ele se adaptar, e alem disso, se tudo corresse bem, em poucas semanas ele estaria inteiro novamente. Yara nos esperava em casa, durante aqueles dias ela havia ficado hospedada na casa de Leo.
—Bom te ver inteiro- ela disse, enquanto nos ajudava a tirá-lo do carro. – ele estava desajeitado com a muleta, ele mancando era uma cena engraçada, fiquei com medo que ele caísse, mas ele insistia em tentar entrar em casa sozinho –Quanto tempo até você poder se inscrever na são silvestre?- Yara perguntou brincando, enquanto via Leo apressado ao tentar até em casa.
—Algumas semanas até tirar o gesso, depois, se eu me esforçar na fisioterapia, talvez consiga correr na desse ano –ele riu.- Aposto que mesmo de muletas ainda iria melhor que vocês!
Por incrível que pareça, aquele acidente veio para unir mais nossas famílias, Simone e minha mãe pareciam velhas amigas, Yara também, É irônico como o destino prega peças como aquelas na gente. Minha vida antes de Léo era um poço, sem fundo, escuro, onde eu sentia um frio e um vazio. Agora,parecia que as paredes daquele poço cediam, e o horizonte em sua plenitude se descortinava em minha frente. Estávamos ali, juntos, comendo e rindo, algo simples, banal, mas que para alguém que viveu o luto, a perda de alguém, e experienciou a vida em um ambiente abusivo, era um momento a ser reverenciado.
Depois do almoço, me ofereci para lavar a louça, mas Yara resolveu assumir a bronca sozinha. – vocês precisam de tempo sozinhos, já passaram muito tempo separados- Eu agradeci, ela tinha razão.
Fomos para o jardim, um pequeno pátio nos fundos do apto, com um gramado e algumas flores nos canteiros, era simples, pequeno, mas ensolarado. O sol do meio dia havia até aquecido o lugar. Ajudei Leo a sentar-se no banco ao meu lado. E ali ficamos, comendo tangerinas, ácidas, cítricas, tão azedas que pareciam limões, o sumo parecia queimar nossas línguas. E Fazíamos caretas, e ríamos das caretas um do outro, naquele momento eu percebi, que eu não lembrava mais da sensação de rir, muito menos de gargalhar… O Patrick do passado não era familiar a essas sensações. Embora eu ainda sentisse a partida de Jorge em mim, os abusos psicológicos e físicos que sofri no passado, eu sentia ao mesmo tempo uma vontade imensa de olhar para a frente, e aquele sentimentos negativos tornavam-se um eco do passado: eles poderiam para sempre ser ouvidos, como o vento, o mar e as águas que correm: depois de um tempo, nos acostumamos. Aos poucos eu me sentia uma pessoa nova. E essa pessoa nova amava Leo, e era amada de volta, e queria que aquele fosse meu futuro. Foi aí que eu tive certeza, precisava dizê-lo.
—Sabe, eu tava esperando a gente ficar sozinho pra dizer que li seu diário... – a expressão dele mudou de súbito, como se estivesse assustado.
—Você leu meu diário??? Como você leu meu diário sem eu saber? — Ele ficou branco, mais do que já era, e logo em seguida ficou vermelho, acho que aquela foi a primeira vez que eu vi ele ficar com vergonha.
—Sua mãe me mostrou.. -Respondi, com toda a calma do mundo -.E além disso, bobinho, você tava em coma, não tinha muito como você saber… Mas relaxa, eu tenho só dois comentários a fazer: 1) você tem que melhorar E MUITO sua caligrafia e organização pessoal, algumas datas estão fora de ordem, e a letra está ilegível em vários trechos, um monte de trechos rasurados... E 2) sobre o pedido de namoro: eu aceito. Eu nem sabia que eu era capaz de falar aquilo, mas meu estômago era tomado por borboletas que voavam mais rapidamente a cada palavra que eu emitia. Aquele “aceito” estava entalado em minha garganta, e dizê-lo foi o maior alívio do mundo.
A expressão dele se alterou, eu estava sentindo falta daquele sorriso...Aquelas semanas sem ele no hospital foram tristes, mas agora a felicidade se abria para nós. Eu esperei a resposta, ele gaguejou, gaguejou tanto, que desistiu de falar, e simplesmente me beijou, e o beijo dele era longo e tinha gosto de bergamota.
—Eu te amo, Patrick. — Ele disse, com lágrimas nos olhos.
—Eu te amo, Léo. — Respondi de volta. Nos abraçamos, e desatei a chorar… Era um choro de felicidade, um sentimento do qual eu não lembrava há tempos.
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