Guarda-costas
83 Capítulo oitenta e três
Notas iniciais
Hinata chegou em casa sentindo-se exausta e quase que imediatamente queria Naruto ali com ela. Aquela era a situação que ela havia se metido: dependência emocional de um cara que deveria estar fazendo qualquer outra coisa que não fosse cuidando dela.
Hinata suspirou e se jogou no sofá. Ela permaneceu olhando o teto por alguns minutos antes de resolver se mover, porque Sakura não estava mais ali para mandá-la tomar banho quando chegasse em casa com a ‘roupa da rua’ ou jogar um balde de água em cima dela quando ela era teimosa demais para escutar.
Hinata se levantou e começou a observar os móveis da casa. Havia muita coisa bagunçada ali, muito diferente da forma que ela havia deixado a casa, quando saiu.
Segundo Naruto, a polícia havia feito uma vistoria tentando descobrir alguma coisa sobre as motivações do seu assassinato, mas nada foi achado.
A louça do café da manhã que as duas tinham tomado pela última vez também ainda estavam sujas na pia e a visão dela fez a garganta de Hinata apertar. Ela se segurou no balcão da cozinha e contou até dez antes de engolir toda a emoção que estava a consumindo novamente.
Ela pensou que não tinha mais lágrimas para utilizar, mas ela estava enganada.
Hinata abriu as janelas da casa para arejar o ambiente e começou a limpar a louça novamente. Tudo isso foi feito da forma mais silenciosa e clínica possível e tudo foi terminado em poucos minutos.
Ela olhou ao seu redor e novamente suspirou. Hinata ainda não tinha ideia do que iria fazer com todos aqueles objetos, uma vez que ela fechasse o apartamento. Talvez ela simplesmente jogasse fora ou vendesse tudo. O dinheiro poderia ir para uma das instituições que Sakura amava tanto ajudar.
O que ela não podia fazer era permanecer com tudo aquilo. Lembranças demais para conseguir lidar.
Ela deixou toda a cozinha arrumada e foi para onde queria. Ela estava protelando para fazer o que realmente foi fazer na casa, mas ela não podia fazer nada quanto a esse atraso, porque o seu pressentimento apontava apenas ainda mais coisas ruins.
Sakura havia se comportado muito estranha de um tempo para cá. Ela havia tido um episódio de choro e vários outros de supercontrole, como se ela estivesse preocupada com alguma coisa.
E talvez fosse aquilo o que doía tanto em Hinata. Como ela pode deixar de descobrir o que afligia tanto a sua amiga?
E também era nesse ponto que os seus sentimentos ficavam realmente preocupantes. Ela sabia que não tinha ninguém para culpar a não ser a si mesma, mas ainda assim ela continuava se perguntando se a sua amiga ainda estaria viva se Naruto não tivesse entrado em sua vida.
Esse pensamento estava a corroendo mais que qualquer outro, porque agora ela se sentia mal pelas duas pessoas que mais amava na vida.
Amor?
Era se sentia uma merda com aquele pensamento ressoando na sua mente. Porque ela estava finalmente percebendo que o que sentia por Naruto era mais do que simplesmente gostar e se sentindo culpada por isso.
Um belo de um tiro no pé.
Ela foi para o corredor no lugar onde ficava um enorme quadro. Sakura e Hinata haviam decidido alguns anos atrás que elas dividiriam um espaço para colocar pertences realmente valiosos.
Sakura utilizou o seu espaço colocando várias joias, documentos e coisas importantes, Hinata não tinha nada para colocar dentro, então ela simplesmente deixava o seu lado vazio.
Pouco tempo depois, Sakura começou a utilizar esse lugar para colocar seus diários, novos e antigos, todos digitalizados em um pen drive. Ela vivia falando que se algo acontecesse com ela, Hinata deveria abrir aquele lugar e encontrar os seus diários.
Aquela seria a sua herança. Uma olhada na mente de Sakura, um momento que segundo a mesma, só seria se ela já não estivesse presente.
Sakura era uma pessoa muito fechada. Privada ao extremo. Eram poucas as coisas que ela havia contado sobre a sua vida antes de chegar em Tókyo e Hinata nunca realmente puxou para saber mais.
Outra coisa que ficaria à cargo da sua consciência pesada.
Hinata tirou o quadro e colocou a senha. A senha das duas era o número oito quatro vezes. Sakura havia brincado que se por acaso alguém resolvesse assaltar o apartamento, aquele seria o cofre mais fácil de quebrar da história.
Ela abriu a porta e um compartimento atolado de coisas apareceu. Ela sabia de todas as coisas que estavam ali, por isso procurou apenas se havia algo novo ali. Nada.
Suas mãos foram diretamente para uma caixa e ela pegou, fechando o cofre novamente. Hinata colocou o quadro no lugar e com as mãos tremendo colocou o quadro de volta de novo.
Ela correu até o seu quarto e mesmo sem ter ninguém em casa se fechou do lado de dentro.
No pen drive, havia diversos arquivos em tamanhos diferentes e ela também percebeu não havia nada adicionado nos últimos meses e que os últimos arquivos haviam sido inseridos no dia anterior que ela havia morrido.
E, basicamente, aquilo foi a confirmação de que algo muito ruim havia acontecido e que a sua morte não havia sido um acidente ou uma fatalidade.
Hinata respirou fundo, sentindo como as lágrimas já se amontoavam no canto de seus olhos. Ela realmente não queria saber o que estava escrito ali, mas ainda assim se obrigou a fazer o seu dever.
Ela abriu o arquivo de texto e leu cada uma das palavras escritas, sentindo a cada frase uma facada o seu coração e uma dor sem tamanho na sua alma.
“Ei, Hinata!
Espero que seja você a pessoa que está vendo isso, senão isso vai ser um pouco estranho.
Não sei como começar isso, mas se você está lendo essa carta, significa que alguma coisa ruim aconteceu comigo e antes de qualuqer coisa, eu quero que você saiba que nada disso é sua culpa!
Eu tentei te dizer tudo o que aconteceu, nos últimos meses comigo, mas eu não sabia por onde começar e tudo simplesmente piorava a cada dia, se transformando em uma bola de neve que eu não conseguia mais lidar...
Eu estou deixando essa carta para você, porque eu me importo muito com a sua segurança e não quero que você se machuque apenas por eu estar com medo de te deixar com o coração partido.
A verdade é que... Eu fui estuprada... Eu não sei como rodear sobre esse assunto e é bastante abrupto contar as coisas dessa forma, mas eu realmente não sei como contar isso de forma que eu possa não te assustar. No entanto, aconteceu... Eu confiei em uma pessoa, eu estava apaixonada... E essa pessoa apenas me machucou muito.
O nome dela era Ino. Será que você a conhece? Talvez sim. Ela é uma das pessoas de Kushina Uzumaki. Talvez apenas com essa linha você entenda o porquê de eu estar tão preocupada em te contar as coisas.
Essa história envolve a família de Naruto...
Eu sei que você o ama muito. Muito mesmo. Nunca vi seus olhos brilharem tanto por alguém e ele parece sentir o mesmo por você... Mas, eu estou com medo.
Eu estou indo me encontrar com ele agora. Porque depois que você me contou que vocês tinham dormido juntos, eu simplesmente não consegui reunir forças suficientes para contar a verdade de tudo que aconteceu, ou o envolvimento da mãe dele nisso.
Eu simplesmente não podia furar a bolha em que você estava sem ter certeza se Naruto estava de fato envolvido nisso.
O meu plano era te contar tudo, junto com ele, uma vez que eu comprovasse a inocência. Mas.... Se você está lendo isso é porque ou eu não consegui comprovar nada ou ele é culpado de acobertar a mãe.
Me entanda, por favor, Hinata! Eu não estou mais do seu lado e eu estou apenas tentando te proteger. E eu sinto muito por tudo isso.
Eu apenas não tenho certeza do quanto disso tem o dedo de Naruto. Ou se pelo menos ele está ciente das atrocidades que a mãe dele fez, mas eu prefiro quebrar seu coração à toa à deixar que você se machuque como eu.
Eu deixei todas as minhas economias prontas em caso de emergência, elas estão em nossa conta conjunta de despesas, também comprei duas passagens para fora do Japão, os bilhetes são eletrônicos e está na lixeira do meu computador.
Quero que você vá embora, se possível. Eu deixo todos os arquivos que o Kiba compartilhou comigo. Bem como o vídeo do que me aconteceu, as pessoas que me machucaram filmaram tudo e me enviaram, provavelmente para me deixar apavorada… Conseguiram.
Eu não quero que você assista! Por favor, não faça isso comigo. Mas, eu quero que você saiba quem foram as pessoas... E em caso de você ter alguma dúvida das coisas que eu estou falando (porque sinceramente nem eu acredito), que o mesmo vídeo lhe sirva de confirmação.
Eu não quero que você se sinta sozinha nunca, meu anjo, eu estarei sempre com você. Eu te amo!
Sakura Haruno ^.^
Xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
Kiba havia terminado a sua pesquisa sentindo cansado como nunca. A notícia de Sakura havia doído mais do que ele havia pensado ser possível, mas ele usou aquilo como uma forma de impulsioná-lo a conseguir respostas.
Ele era acostumado a fazer isso. Na sua época de hacker, a dor das pessoas que ele ajudava eram o combustível que ele tinha para prosseguir em suas investigações, não importasse no quanto que tudo aquilo simplesmente revirava o seu estômago.
E essa era uma das situações que ele precisava desse impulso extra. Ele finalmente tinha chegado ao fundo de todo esse esquema e por mais que muita coisa ainda estivesse escondido, apenas com as informações que ele havia conseguido, ele podia entender o grande esquema das coisas.
Kiba havia escutado Naruto mencionar no telefone, enquanto conversava com Gaara sobre uma sombra ao seu redor, alguém que utilizava os movimentos dele para esquematizar por trás e desviar a atenção.
Kiba achava que essa pessoa seria o próprio Gaara que escutava as coisas calado e com o pensamento distante, mas ele estava errado, porque Gaara não estava tramando pelas costas de Naruto.
Outra pessoa muito menos suspeita estava fazendo tudo isso. Yumi Nagato. Ou Yumi Uzumaki.
Kiba quase não tinha conseguido perceber a presença dela, mas agora que o marido dela tinha morrido e que as movimentações financeiras do grupo Nagato estavam em suas mãos, era muito mais fácil visualizar o fluxo de dinheiro e as entradas novas e antigas de moeda.
Muitos desses recursos iam para bolsos de nomes que Naruto e Gaara investigavam por afiliação com outros membros da tríade. Por isso, Kiba tão facilmente conseguiu conectar os pontos.
Na primeira vez que Sakura havia falado com ele, e mandado-o pesquisar sobre o assunto, era impossível encontrar aquelas conexões e por isso ele não conseguiu perceber tudo aquilo antes. Mas, agora estava bastante claro.
Uma das contas de Nagato havia realizado compras bastante caras em uma galeria de quadros no nome de um terceiro. A galeria era a mesma que Sakura trabalhava e a compra dos quadros coincidiam diretamente com o período que Sakura havia conhecido Ino.
Além disso, mais alguns depósitos no nome da mesma pessoa haviam sido realizados para uma instituição de caridade. Essa era uma instituição que tinha afiliação direta com a igreja, mas também com organizações que trabalhavam com o tráfico humano e prostituição.
A igreja recrutava pessoa com a promessa de mandar missionários para outros países, mas os jovens que caiam nesse esquema em vez de evangelizar pessoas, muitas vezes apenas saiam do conforto de suas casas para vender o corpo a apenas alguns quilômetros de onde morava.
Um dos lugares mais famosos que essa quadrilha frequentava era o mesmo cabaré que Ino trabalhava a algum tempo atrás. Também era o mesmo lugar onde o homem responsável pelo estupro de Sakura havia trabalhado como segurança antes de ser preso por alguns anos.
Nenhuma daquelas trasações seria possível ter sido efetuada por Nagato, porque parte delas foram realizadas apenas após a sua morte e não havia qualquer autorização de liberação de dinheiro para uma galeria ou para a dita instituição de caridade.
Logo, apenas uma única pessoa poderia ter autorizado as transações antigas e novas. Yumi. A doce esposa sofrida que apanhava do marido.
Que merda, hein?!?
Kiba bateu na sua mesa em frustação por ter sido tão facilmente enrolado na primeira vez e assim que se levantou da cadeira onde estava sentado, percebeu que não estava sozinho no escritório. Gaara estava ali na porta, olhando para ele com olhos sérios por ‘sabe-se lá’ quanto tempo.
— Parece que você descobriu algo.
Kiba foi até ele e lhe jogou o pen drive onde havia colocado os dados que coletou.
— Eu descobri quem é a sombra do seu amigo e a possível pessoa que poderia ter matado a Sakura. Temos que contar imediatamente para eles.
Kiba alcançou o celular no bolso, mas foi impedido quando percebeu que o ruivo havia se aproximado dele. Kiba não era acostumado a se sentir intimidado por aproximação, mas a forma como os olhos de Gaara lhe encaravam fez com que ele tomasse um passo cuidadoso para trás.
— Você não vai fazer nada por agora...
— O que? Como assim? – Kiba perguntou confuso. – Porque eu não faria nada, se eu tenho as informações na minha mão. Hinata precisa saber dessas coisas… O seu próprio sócio precisa saber de tudo isso!
— Por que eu estou mandando? – Gaara levantou uma de suas sobrancelhas e tocou o ombro de Kiba. – Não vamos nos meter na confusão de uma pessoa que não trás benefício algum.
Kiba franziu o cenho para as mãos apaziguadoras que estavam no seu ombro, mas aquele gsto pacificador não ajudou em nada, apenas ampliou toda a raiva, luto e noites mal dormidas que tinha passado.
Ele deu um empurrão no peito de Gaara e gritou frustrado.
— Que porra é essa? Claro que eu vou contar, eu prometi que cuidaria disso para a Sakura.
— E ela está morta agora, não é um pouco tarde?
Kiba não soube o que responder, mas entendeu bem a implicância daquelas palavras. Anteriormente, ele tinha decidido fugir para bem longe daquela confusão e se não fosse pelo ‘sequestro’ de Gaara, ele estaria em algum lugar bem distante sem olhar para trás nenhuma única vez.
Mas, aquilo era diferente.
— É justamente porque ela morreu que eu estou fazendo isso.
Kiba começou a discar o celular de novo, mas dessa algo lhe tocou, na sua testa. Levantando a cabeça na direção de Gaara, ele percebeu que o ruivo havia se aproximado de novo de forma imperceptível e pior que isso... Agora ele segurava um revólver na sua cabeça.
— É uma ordem, Kiba!
Fale com o autor