Guarda-costas
75 Capítulo setenta e cinco
Notas iniciais
Yumi sentiu-se livre para sorrir pela primeira vez em muito tempo. Era como se livrar de um peso enorme de cima do seu peito que finalmente lhe dava permissão para respirar com um pouco mais de tranquilidade.
Fazia quanto tempo que ela não se sentia assim? Dez anos. Bem mais...
Ela não conseguia enxergar esse peso antes, porque havia uma venda bem presa em seus olhos e por baixo dessa venda tudo que ela conseguia ver era o que queriam mostrar para ela.
O carinho era um gesto de afeto. Os sorrisos eram uma afirmação de que tudo estava bem. As gentilezas eram uma certeza de que nada nunca iria lhe faltar e que os seus ouvidos e mãos nunca seriam manchados pela violência e rudeza das pessoas.
Mas, agora que aquela venda havia sido arrancada de seus olhos em um único puxão, ela sabia muito melhor e aprendeu uma lição importante: cada pessoa tinha uma fachada especializada apenas para conseguir chegar em seus próprios interesses.
A muito tempo atrás com seus quinze anos, que aquela fosse uma coisa possível, mesmo que todos ao seu redor soubessem.
Talvez fosse benéfico para eles, manter pelo menos uma pessoa com uma venda de ingenuidade nos olhos. Aquilo era ideal para se ter alguém para manipular. Mal eles sabiam que, no futuro, as suas ações iriam apenas criar um monstro dentro dela.
Sequer ela sabia.
Muita merda tinha acontecido na sua vida de um tempo para cá e a única escolha que ela poderia fazer era sair da posição de vítima ou morrer sendo a prejudicada. Ela escolheu se mover, ela estava cansada de ser movida.
E, movendo-se, agora ela de fato podia sorrir.
Pela primeira vez, todos os seus planos estavam dando certo, mesmo que em algum ponto ou outro algo desse errado, ela sabia que tinha a capacidade de aproveitar a situação. Afinal, ela tinha virado mestre em usar mesmo os piores momentos a seu favor.
De alguma forma, ter perdido a sua mãe tão cedo talvez tivesse sido a sua maior vantagem, por que aprender sem ajuda a se virar sozinha, não tinha preço.
Era algo que só se conseguia verdadeiramente em meio a muita frustração, desesperança e sem ninguém por perto para estender a mão ou passar a mão na sua cabeça lhe dizendo em que estava errado.
Obviamente, o caminho que ela havia sido obrigada a tomar, foi o mais doloroso possível... Perdendo pessoa por pessoa ao seu redor.
Ela queria uma mãe... Mas a sua mãe escolheu lhe deixar para trás sozinha, porque havia chegado em um ponto de quebra que não conseguia ultrapassar.
Ela queria um pai... Mas seu pai era o homem mais fraco que ela já havia conhecido na vida, mesmo que ele colocasse uma aparência de chefe indestrutível, ele era manipulável, volátil e fácil de se levar pelas aparências. Ele acreditava tanto em sua força, que nunca lhe passava pela cabeça que poderia haver alguém ainda mais forte que ele.
Ela também queria um irmão. Uma pessoa que a protegesse quando ela estivesse sozinha.
E, como ela esteve sozinha... Talvez Naruto havia sido o seu fundo do poço, alguém que estava perto, mas completamente fora do seu alcance.
Naruto estava tão cheio de raiva quando partiu que sequer lhe disse adeus. Ele simplesmente a colocou no mesmo grupo de traidores de sua mãe e Minato.
Farinhas do mesmo saco.
Mas, ela também aplaudia a ele por isso. Ele havia sido muito mais esperto que ela naquele momento, porque ele percebeu do que aquelas pessoas eram feitas com apenas um olhar, enquanto deixava-a para trás para descobrir por si mesma o desastre que aquela família iria se tornar.
Yumi pegou o copo de uísque o que tinha deixado de lado, ela balançou o líquido e viu como a bebida batia nas bordas do copo. Ela estava se sentindo um pouco nostálgica naquela noite, lembrando-se de memórias que a muito ela pensava ter esquecido.
Coisas que pertenciam a uma outra pessoa, e outra vida.
Talvez o fato de perder um membro da família, tenha a deixado um pouco sentimental, afinal, não era por menos, ela perdeu o marido, a pessoa que ela jurou amar e proteger, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza...
Yumi fechou os olhos e descansou a cabeça no encosto da poltrona.
Uma pessoa decente com certeza se sentiria mal, mas uma pessoa descente também não planejaria a morte do próprio marido...
Talvez aquele fosse o melhor momento de ela abraçar o sangue demoníaco e aceitar que ela seria a desgraça dos outros, em vez de ser a vítima do mal humor do destino.
Ela deixou o copo na mesa e se levantou da poltrona. Olhando para o lado de fora através do vidro da sua janela ela pode ver todos os prédios abaixo do seu.
Eram coisas minúsculas, perto de arranha-céu onde estava e a fazia se sentir como se estivesse em pé no topo do mundo.
Pelo menos uma coisa o seu marido havia feito bem na vida, ganhar muito dinheiro, se apaixonar e depois entregar tudo de mão beijada para ela.
E agora tudo que ela precisava estava alí.
E a única coisa que ela precisava calcular bem agora, era o que vinha depois.
Ainda havia ainda muita gente para ser desdobrada.
A porta da sua sala abriu e uma mulher passou pela porta. Ela estava vestida em um terno de executivo, seu rosto era pálido, seu perfil sombrio e sua atitude gritava obscenidades.
O longo tempo em que ela foi uma stripper ainda corria por suas veias e, mesmo que fosse possível vestir uma prostituta em roupas elegantes, era muito difícil colocar elegância em uma mulher da vida.
Mas, ela era justamente o que precisava naquele momento.
— Parece que as coisas foram no jeito que você planejava.
Ela sentou na poltrona onde antes Yumi estava sentada antes e bebeu o resto da bebida do copo que ela havia deixado de lado.
Yumi sorriu para si mesma ainda olhando as luzes abaixo. Ela já chegou a refletir por várias vezes, se ela de fato deveria acabar com a vida daquela mulher de uma vez por todas, mas ela nunca chegava em uma decisão, porque sempre havia algo em que ela precisava dos seus trabalhos sujos.
— Você parece satisfeita essa noite.
Yumi pode olhar o reflexo da mulher pela sua janela. Ela tinha um leve sorriso no rosto, que lhe lembrava imensamente de antigos vilões históricos, do tipo que tinha um bom rosto, mas um coração verdadeiramente podre.
Alguém que passava facilmente despercebido nas multidões e andava sempre do lado do seu inimigo.
— Vamos apenas dizer que tudo está indo pelo caminho certo.
— Bom, fico feliz. E onde eu entro nisso? Eu não tenho que receber a minha recompensa?
O sorriso dela em sua direção fez Yumi querer ter outra bebida em suas mãos. Ele era sedutor e fazia muitas promessas perigosas. Havia também outra razão de Yumi simplesmente não matar aquela mulher. Ela ficava excitada coma aquele flerte descarado...
Ela se virou e respondeu. — Tudo tem ao seu momento, querida.
A mulher respirou profundamente e revirou os olhos. E Yumi sabia que ela estava entediada, mas novamente aquilo não lhe importava.
Ela iria embora da sala, mas a mulher assobiou chamando a sua atenção. Outro hábito vulgar que ela tinha aprendido nos seus tempos.
— Eu tenho um presente que você vai gostar...
Ela levantou da poltrona e retirou o sobretudo que cobria todo o seu corpo, deixando-o cair no chão. Yumi desceu o olhar dos olhos azuis, para a boca rosada, para a mandíbula delica e todo o caminho até os seios fartos envolvidos por um tecido fino demais para deixar qualquer coisa para a imaginação.
Entre os seios também havia um papel enrolado.
— Você não quer? – ela disse com um sorriso provocador.
Yumi se aproximou dela e deu um leve beijo em seus lábios. A boca sedenta tentou acompanhar os seus movimentos, mas Yumi a segurou no lugar, descendo suas mãos para os montes dos seios dela e, finalmente, pegando o papel.
A mulher deu uma risada e voltou a sentar na poltrona ainda com o corpo descoberto. Yumi deixou o seu olhar descer para o fino triângulo de suas pernas, pensando rapidamente se estava a fim ou não.
Mas, o pensamento foi tão fugaz que sequer lhe tirou muito tempo. O papel branco tomou completamente a sua atenção e o seu conteúdo já ditava automaticamente os próximos dez movimentos de Yumi.
Ela não precisava mais se matar pensando qual pensamento iria tomar. O destino havia escolhido o seu próximo objetivo.
— Então, eu agradei a chefe?
Yumi aproximou-se da mulher na poltrona e acariciou os fios loiros.
— Dessa vez você foi muito bem, Ino.
Ino sorriu e Yumi não pode deixar de mostrar a sua própria felicidade. Ela leu o papel de novo:
Achamos a policial que você queria. Karen, pegou a dica.
— Você conseguiu de novo.
— Como sempre. – ela respondeu. – Mas e agora?
— Vamos ver o que ele vai fazer. – Yumi colocou o papel no lixo. – Mas dessa vez eu vou garantir que ele não vai ter tanta sorte, porque agora ele vai ter que fazer o que eu fiz dez anos atrás. Escolher.
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Gaara sentiu o bolso do seu casaco estremecer e logo que viu a tela do celular, voltou a guardar no bolso o aparelho. Ele permaneceu com o rosto impassível, então Kiba não conseguia ler o que estava ali.
Então, agiu da única forma que sabia, perguntando.
— O que foi, alguma má notícia?
— Ainda não me decide. – Gaara respondeu rapidamente. Ele sempre respondia as questões dele, mesmo que as respostas fosse sempre vagas. – Talvez seja prejudicial para mim, mas eu não posso deixar de pensar quão divertida é essa situação.
Kiba balançou a cabeça negativamente e zombou. – Sim... Eu estou sentindo ondas de diversão saindo de você. Cuidado as pessoas podem achar que você é capaz de sentir alguma coisa.
Gaara apoiou o seu queixo na mão. – Mas, eu sinto várias coisas, Kiba.
O olhar que Gaara mandou em sua direção o deixou um pouco desconcertado. Da mesma forma que sempre deixava. Ele não conseguia esconder as coisas erradas que ele queria fazer com ele.
Em verdade, não era penas no olhar que ele mostrava as obcenidades da sua cabeça, cada gesto, movimento, palavra que saia da sua boca tinha o único objetivo de atrair ele para a sua cama, ou sofá ou carro, qualquer superfície dura o suficiente para aguentar o que aquele homem seria fodendo.
Não que Kiba já tivesse pensado nisso, jamais, ele se mantinha mais firme que nunca em sua heterossexualidade. Ele, então, virou o rosto dos olhares quentes mandados em sua direção pela outra parte.
Gaara sorriu, não deixando de encará-lo e o seu telefone tocou de novo. Dessa vez, Kiba não precisou perguntar sobre o que era. Ele se adiantou e disse:
— Meu presente chegou. Vamos!
— E por que eu tenho que ir? Vou receber horas extras noturnas? Adicional de periculosidade?
Gaara não lhe deu ouvidos e simplesmente se moveu para a porta, Kiba suspirou fundo e o seguiu.
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