Guarda-costas
92 Capítulo noventa e dois
Notas iniciais
Naruto olhava para Hinata deitada na cama, com vários acessos na veia por onde passavam fluídos e medicamentos. Ela havia saído dos respiradores apenas dez horas antes e tudo que ele podia fazer, segundo os médicos era esperar ela acordar sozinha.
“O tiro foi muito perto de artérias importantes do coração, ela estava sangrando internamente, além da saúde dela estar bastante debilitada. O que vocês fizeram com essa menina?”
O médico, em todo o seu profissionalismo, não disse aquela última frase, mas Naruto sabia que era aquilo que ele estava pensando com aqueles olhos que pareciam saber demais e que apenas anos salvando a vida de pessoas estranhas poderiam proporcionar.
Naruto pensava a mesma coisa.
Como que tudo aquilo havia acontecido em um intervalo tão rápido de tempo? Em uma hora tudo estava bem, Naruto estava pensando em sair do trabalho mais cedo e ir diretamente para a casa de Hinata, eles poderiam comer alguma coisa, talvez assistir um filme na televisão. Os dois nunca tiveram a chance de fazer isso como um casal e ele queria experimentar tudo aquilo com ela.
Ele estava animado apenas com a ideia de parecer normal. Sentar em um sofá com a sua namorada – que ainda não sabia que era a sua namorada – fazendo coisas de um casal normal sem a pressão do mundo em que ele vivia;
Mas, em vez disso, tudo foi pelo lado contrário, caindo diretamente na sua cabeça. E na dela...
Hinata saiu do seu habitual mal-humorado-engraçado-doce ser e se tornou alguém tão diferente que ele podia delinear perfeitamente as duas personalidades. Era tão evidente a diferença que mesmo deitada e completamente inconsciente Naruto conseguia sentir a tristeza que vinha em ondas de onde ela estava.
E ele se perguntava com mais raiva de si mesmo:
O que eu fiz com essa menina? Como que todas as minhas boas intenções foram simplesmente jogadas no buraco?
Ele gostaria de poder lavar as mãos e jogar a culpar em alguém por todas as desgraçadas que ocorriam em sequência na sua vida, afinal aquela havia sido uma arma bastante utilizada por pessoas de sua família durante muito tempo. Usada principalmente por ele com bastante maestria.
Naruto culpava Minato e Kushina por cada tudo que havia ocorrido em sua vida, a morte de seu pai, a perda da sua família, a raiva que sentia dentro do peito... Ele culpava tudo aquilo no sentimento de traição que conheceu no momento que viu Minato segurar a mão de sua mãe pela primeira vez e levá-la para o seu lado como se fosse a coisa mais natural do mundo.
E ela foi para os braços do homem que uma vez havia sido o irmão do seu marido. E, em consequência disso, Naruto correu para bem longe.
Agora ele não tinha para onde ir. E nem a quem culpar, exceto a si mesmo. Quem havia trazido Hinata para aquela vida? Quem havia provocado um relacionamento que nem mesmo tinha um futuro, se não, ele? Quem havia a beijado pela primeira vez e se apaixonada tão precipitadamente?
Ele. Todas as perguntas apontavam uma flecha na sua direção.
E agora tudo o que ele podia fazer era colher o que havia plantado.
Hinata tinha atirado em sua mãe e levado um tiro de um de seus homens, tudo isso, enquanto Naruto corria em seu encontro após descobrir que Minato estava vivo. Minato estava vivo...
Aquilo era anormal demais para caber em sua cabeça naquele momento. E ele estava para colocar a culpa em alguém de novo, afinal, se Minato estava vivo, por que demônios ele havia fingido a própria morte e o arrastado para aquele inferno?
— Naruto? – a voz veio baixa e Naruto levantou a cabeça imediatamente para onde Hinata estava.
Os olhos dela estavam entrecerrados como se estivesse difícil demais para ela abrir e Naruto imediatamente se levantou da poltrona no qual passou tantas horas esperando e foi em sua direção. Ele parou ao seu lado e observou enquanto ela despertava pouco a pouco.
Os lindos olhos perolados que o encantavam cada vez mais que ele olhava, quase o faziam esquecer de todas as desgraças que estavam ocorrendo em sua vida, mas ele impediu que os seus pensamentos fossem naquela direção.
Os lábios dela se abriram em um pequeno sorriso. Ela estava feliz por vê-lo, mas por quanto tempo?
Ele percebeu o pequeno sorriso se transformar em uma careta e os olhos se desviarem para o lado do seu ombro onde ela havia levado um tiro. O rosto confuso lhe deu a deixa que precisava.
— Você levou um tiro. – ele disse e por algum motivo não havia qualquer inflexão na sua voz. Ele se sentia torpe e abraçou aquele sentimento com todas as suas forças.
Ela olhou para o ferimento e para o quarto onde estava e demorou apenas algum tempo para que tudo viesse até ela. E quando chegou foi em força total, ela prendeu a respiração e os seus vagantes olhos foram em sua direção.
Não havia nada ali que não fosse dor. E culpa.
— Eu... – ela tentou dizer, mas tossiu, sua garganta provavelmente estava seca demais.
Naruto se aproximou do copo na cabeceira e trouxe o canudo para a sua boca. Ela bebeu a água e voltou a olhar para ele.
— Eu fiz merda! – ela disse, dessa vez com sucesso. – Mas, eu posso explicar.
Naruto suspirou, e utilizando cada centímetro do seu autocontrole ele começou a dizer cada uma das palavras que havia decorado, enquanto estava sentado naquela poltrona.
— Você vai explicar o fato de ter desaparecido? Ou mentido? Ou atirado em Sasuke? Ou atirado em minha mãe? Essas são bastantes explicações para alguém que acabou de sair de uma cirurgia. Alguém que quase morreu.
Hinata pareceu estar em dor novamente, mas dessa vez ele era a causa.
— Eu não tenho muito tempo para todas essas explicações, mas você pode tentar. Deixa eu ver... – ele olhou para o relógio de pulso por alguns segundo, sem realmente olhar o visor. – Dois minutos? Você consegue? Coincidentemente é o tempo que você poderia ter passado no telefone para me avisar onde estava.
— Naruto... Eu precisava fazer isso sozinha.
— Não. Não precisava, mas você escolheu fazer – o que quer que fosse – sozinha e novamente está no hospital. Mas, vamos olhar pelo lado bom, pelo menos não foi no seu horário de trabalho e eu não vou precisar me responsabilizar por nada disso.
— De que porra você está falando? – Hinata falou um pouco mais alto e a máquina que media o seu batimento cardíaco acelerou ao máximo.
Naruto empurrou toda a sua preocupação para o fundo do seu coração e impediu que qualquer emoção fosse mostrada no seu rosto.
— O que você acha?
Hinata colocou a mão em sua cabeça e passou pelo seu rosto. — Eu posso explicar... Eu tenho como provar... – A voz dela estava falhando novamente, mas Naruto não buscou o copo para ela novamente. – Eu não consigo te dizer, mas... se você olhar o pen-drive e o... o gravador nas minhas roupas você vai saber o que aconteceu... Eu prometo que você vai me entender...
Naruto fechou os olhos por apenas alguns segundos, mas esse pequeno momento de fraqueza não foi capturado por Hinata. Ela parecia vagar dentro de sua própria cabeça, procurando palavras para convencê-lo de algo do qual não havia chance de mudar a sua cabeça. A sua decisão.
Ele iria deixá-la.
— Você está demitida, Hinata.
Ela parou os se devaneios e olhou fixamente para ele, de repente prestando bastante atenção no que ele estava falando.
Naruto sentiu um soco no estômago olhando-a confusa na sua direção. Ela realmente achou que ele nunca iria embora? Mal sabia ela que aquilo era tudo o que um Uzumaki sabia fazer. Outra razão para deixá-la. Ela merecia muito mais do que ele poderia lhe entregar.
— O que? – Ela disse quando percebeu que o silencia apenas se prolongava.
— Não tem como isso continuar. – Naruto disse e dessa vez ele não conseguiu olhar para ela.
— Mas... Você tem que entender... O pen drive...
— Não existe pen drive, Hinata. – Naruto disse um pouco mais alto, mais irritado. Algo que ela não esperava e a fez se sobressaltar na cama. – Não existe nada do tipo. Eu pessoalmente procurei nas suas coisas por alguma pista que poderia me explicar o que aconteceu. Porque você atirou na minha mãe. O porquê de você ter a matado.
Naruto jogou a última cartada que tinha e com sorte aquilo seria tudo o que precisaria para jogar a última pá de cal naquela discussão, ele queria deixá-la, mas falar aquela palavras, ou pelo menos sugerir que não a queria mais em sua vida era o suficiente para fazê-lo se sentir doente.
— Kushina morreu?
Foi tudo o que ela perguntou, os seus olhos encheram de lágrimas e as máquinas ao seu lado apontaram uma nova subida nos seus batimentos cardíacos. Naruto saiu de perto da cama e foi em direção a poltrona onde estava sentado, buscando rapidamente as suas coisas.
Ele queria simplesmente esquecer tudo, mas era impossível agora. Com Hinata falando aquelas palavras em voz alta, ele sabia que era real. Kushina Uzumaki havia morrido. Sua mãe... Era engraçado como aquela palavra surgia do nada na sua cabeça, quando ele não podia suportar colocar o nome daquela mulher e o nome mãe na mesma sentença quando ela estava viva.
Ele a odiava. Sempre a odiou. Por que que doía tanto agora?
— Sim. – foi tudo o que Naruto conseguiu falar.
Ele sentia Hinata o observando, enquanto ele tentava controlar as suas emoções, ele não choraria na frente de Hinata. Aquela não era a sua intenção.
— Naruto.. – ela o chamou delicadamente e ele queria conseguir gravar ela chamando o seu nome na sua mente para sempre. – Eu sinto muito. Eu não queria. É minha culpa.
E pela primeira vez Naruto não conseguiu impedir algumas lágrimas teimosas caindo dos seus olhos. Tarde demais, agora ele sequer poderia olhá-la uma última vez.
— Saia da cidade, Hinata. Volte para os seus pais e não se atreva a aparecer de novo na minha frente.
Ainda sem se virar para ela novamente, ele saiu do quarto e fechou a porta atrás de si. Não havia mais nada que ele poderia fazer para mantê-la segura, a não ser deixá-la ir e seguir em frente. Essa era outra coisa que um Uzumaki sabia fazer muito bem. Nunca olhar para trás.
Naruto sentiu o seu bolso e percebeu que o maldito pen drive e gravador ainda estavam ali. Agora ele apenas precisava se mover para conseguir justiça pela menina atrás da porta que acabou de fechar e sua melhor amiga.
Mas antes disso, ele tinha um funeral para ir e um tio para caçar.
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