Guarda-costas

93 Capítulo noventa e três


Notas iniciais
Se eu fosse colocar um título nesse capítulo seria "irmãos"! Boa leitura!

Sasuke abriu os olhos devagar, sabendo que não estava sozinho no seu quarto. Novamente.

Ele havia passado muito tempo em um estado de coma, onde acordava e dormia, repetidas vezes... Pouco ele sabia sobre o tempo que estava passando, se era dia ou noite, que horas eram. Mal ele sabia sobre o estado que o seu corpo se encontrava, seus machucados, sendo sempre bombardeado por remédio, agulhadas e soro. Mal ele sabia quem eram todas aquelas pessoas que tocavam o seu corpo, examinando-o da forma mais impessoal possível.

Só havia uma coisa que ele sabia durante todo esse tempo: quando ele acordasse aquela pessoa seria a primeira que ele veria.

Itachi. Uchiha.

Sasuke sentiu a sua pele arrepiar, apenas com a visão dele, sentado em uma poltrona de visitante ao seu lado. O estofado deveria ser a coisa mais desconfortável que alguma vez ele já havia sentado na vida, mas o Uchiha não demonstrava qualquer coisa.

Os olhos negros que imitavam os seus, saíram do livro que estava em seu colo e foram em sua direção. Sasuke sentiu vontade imediata de desviar daquele olhar e voltar a fingir um desmaio – aquela era a sua tática mais eficaz de ignorar a presença dele, o que não era algo muito difícil com todas as drogas no seu sangue – mas, dessa vez, ele não o fez, continuando a encarar aquela pessoa, ao mesmo tempo que se perguntava o que ele estava fazendo ali.

Itachi suspirou, parecendo cansado, fechou o livro no seu colo e se levantou, vindo em sua direção. O corpo de Sasuke doía, apenas com a aproximação dele, e tudo o que Sasuke queria era ir embora daquela sala, ou pelo menos pedir para que Itachi fosse, mas nem o seu corpo, nem a sua boca se moviam para tal. Então, ele apenas esperou.

Itachi olhou para a máquina na sua cabeceira e Sasuke olhou para aquele lugar também, observando os batimentos cardíacos de Sasuke que apesar da situação permaneciam calmos. Ambos possuíam pensamentos completamente oposto sobre o que a existência daqueles batimentos realmente significavam.

Para Sasuke, aquilo era apenas um sinal de trabalho mau feito. Hinata teve a oportunidade de simplesmente acabar com ele, mas não conseguiu.

— ‘O que você está fazendo aqui?’ – Itachi começou a falar. — Você provavelmente está se perguntando isso, certo?

Sasuke não respondeu. Não tinha por quê. Ambos sabiam em que estágio o relacionamento dos dois estavam. No estágio de completa inexistência. Sasuke não conhecia mais aquela pessoa, a única figura que ele ainda conseguia invocar alguma lembrança era do seu irmão mais velho que muito perversamente havia desistido dele.

E ele apenas se lembrava dele, por causa de toda a amargura que ele conseguia acumular com o tempo.

Obviamente que, após todos esses anos convivendo com os Uzumakis, ele já havia percebido a muito tempo que Itachi não tinha culpa do que havia acontecido com ele. Na época, Itachi era apenas um adolescente que ainda estava aprendendo os negócios da família e, apesar de ser o herdeiro mais talentoso que aquela família já teve, ele não era a pessoa no comando. O seu pai era.

Mas, o problema era que nenhum daqueles esclarecimentos haviam modificado o sentimento de ter sido abandonado. Era uma coisa estúpida, se qualquer um olhasse de fora, mas era uma sensação que ele mantinha tão vívida na sua memória que mesmo após muitos anos e resignação ele ainda não havia superado.

— O que você quer? – Sasuke perguntou, ignorando o que Itachi havia dito antes.

Itachi, por outro lado, apenas abriu um pequeno sorriso no seu rosto. Não era nada espalhafatoso, um simples puxar de lábios, mas aquele pequeno gesto fez os pelos do seu braço se arrepiarem em desconfiança. Uchihas simplesmente não sorriam, exceto em seu benefício. Aquele era um dos pouco ensinamentos que ele não havia esquecido de quando era jovem.

— Você sempre foi tão direto, de fato algo que não mudou em você, desde quando era apenas um bebê. – Itachi disse e logo permaneceu em silêncio. Era como se aquelas palavras evocassem o seu próprio conjunto de lembranças inesquecíveis, com várias emoções brilhando em seu rosto. Certezas, raiva, medo, ódio...

Sasuke não estava acostumado a ver Itachi sendo tão transparente nas coisas que ele estava pensando e aquilo fez a cabeça dele doer mais ainda. Tudo estava tão complicado... Por que as coisas não poderiam simplesmente voltar a ser como eram antes? Por que ele não poderia apenas retornar para o seu apartamento e afogar o resto do seu corpo em álcool?

Afinal, era isso que ele havia pretendido desde o início, encher a cara com todo o álcool que o seu corpo pudesse aguentar, sem perder a consciência, caminhar até a sua varanda e simular uma queda acidental. Assim mesmo em sua morte ele não traria vergonha para a sua família, sendo um idiota fraco que tirou a própria vida.

Mesmo que ele soubesse que no fundo ninguém realmente se importasse se ele aparecesse morto como um mendigo ou como um mártir.

Mas, Hinata apareceu no seu canário de morte e ela parecia simplesmente perfeita em sua visão. Afinal, uma morte por um tiro, era bem mais convincente que uma queda acidental. Então, ela apontou uma arma na sua cabeça e ele confiou que aquele seria o fim.

Não foi.

— O que você está fazendo aqui, Itachi? – ele perguntou de novo e apenas dizer o nome dele, parecia bastante irreal em sua cabeça. Quanto tempo fazia que ele não falava aquele mesmo nome. – Não é como se...

Sasuke foi assaltado por uma tosse forte, a sua garganta estava seca antes dele começar a falar e ele já esperava que isso fosse acontecer. Ele fechou os olhos e colocou a mão na boca, tentado abafar o melhor que podia o acesso de tosse violento. Aquilo era verdadeiramente humilhante, principalmente, na frente dele.

Mas, Itachi resolveu o envergonhar mais ainda tirando a sua mão da boca e trazendo um canudo para os seus lábios. Sasuke sugou a água para a sua boca e permaneceu de olhos fechados até que Itachi retirou o copo de seu alcance e acabou com o seu tormento.

— ‘Não é como se...’? – Itachi perguntou repetindo a sua frase. – Eu imagino o que você quer falar com essa frase, mas nenhuma das coisas que surgem na minha mente me parecem boas de se ouvir. Então, vamos apenas pular essa parte.

— O que você quer de mim? – Sasuke perguntou de novo, dessa vez, abrindo os olhos com uma força que não lhe era típica. Ele queria tanto se livrar daquela pessoa e voltar aos seus planos de partir imediatamente.

— Eu quero saber por que o meu irmãozinho não retornou nenhuma das cartas que eu mandei todos esses anos.

Sasuke paralisou no lugar, não esperando que aquela seria a sua resposta. Ele sentiu seu peito doer em alerta e uma onda de dor o invadir, os efeitos do medicamento estava passando e, aparentemente, sua crise de tosse fez alguma coisa com o seu machucado, mas nada daquilo tinha prioridade no seu pensamento, não depois do que Itachi havia acabado de perguntar.

— O que?

Itachi sorriu novamente, dessa vez, era tristeza o sentimento apontado no seu rosto. Sasuke não conseguia entender nada daquilo, por que ele estava falando tantas coisas aleatórias?

“Eu quero saber por que o meu irmãozinho não retornou nenhuma das cartas que eu mandei todos esses anos.”

Que cartas? Não haviam cartas. Itachi, seu miserável, apenas me deixe morrer em paz!

— Esse olhar de desconfiança também parece muito com você. – ele falou ajeitando o lençol de Sasuke ao seu redor. – Não se preocupe com isso agora! Tudo o que eu quero é que você se recupere e eu consiga te levar de volta para casa.

Dessa vez, foram os lábios de Sasuke que se curvaram em um sorriso infeliz. – Eu não vou a lugar nenhum. — ele disse com ferocidade.

— Claro que sim. Eu já te deixei uma vez por conta própria, mas você não sabe cuidar de si mesmo... E, dessa vez, eu te prometo, irmãozinho idiota, eu vou te manter bem longe desses desgraçados e dos pensamentos suicidas que eu consigo enxergar muito bem dentro da sua cabeça.

Sasuke fechou os olhos, não querendo ouvir mais nada daquilo, ele já havia escutado uma promessa parecida antes. A mesma promessa que lhe rasgou por dentro de forma que ele nunca esqueceu. Ele não conseguiria viver nessa mesma situação novamente.

Mas, afinal não era justamente isso que ele queria?

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Hinata estava sentada na poltrona onde Naruto tinha ficado. Ela era fria e dura, muito menos confortável que a sua cama, mas era ali que Hinata havia ficado nos últimos dias, sempre que as enfermeiras não estavam por perto.

E, o porquê disso? Porque ela era estúpida.

Mesmo sendo irreal, era como se Hinata pudesse sentir o corpo dele ali, o calor das costas dele na fina almofada, as mãos dele nos braços da poltrona. Ela queria apenas sentir a presença dele de novo.

Como que ela havia acabado naquela situação tão vergonhosa? Ela costumava se orgulhar tanto de não ser do tipo de mulher que chorava pelos cantos por causa de um homem, uma pessoa que nunca havia sofrido por ser deixada ou traída, ou por simplesmente ter suas expectativas frustradas. Mas, ali estava ela, sentindo todas aquelas emoções de uma só vez.

Naruto havia a deixado, havia a traído, havia frustrado tudo o que ela esperava dele, apenas saindo pela porta do seu quarto sem olhar para trás. E uma das perguntas que constantemente rodeavam a sua cabeça era: seria fácil assim abandoná-la?

Será que ele já havia voltado para a vida de farras que tomava antes de conhecê-la?

Wow. Como ela era inocente... Ele pelo menos havia parado alguma vez com todas as mulheres, festas e bebidas? Na sua frente, sim, mas, nada o impedia de continuar com os seus velhos vícios, longe de suas vistas.

Sim, ela era inocente, apenas por acreditar que Naruto havia se tornado um homem diferente, só porque ‘estava’ com ela. Quantas mulheres já haviam caído naquele mesmo conto?

Ela era patética demais. Hinata apertou a palma da mão na boca, mordendo com força a sua carne, impedindo que novas ondas de lágrimas saíssem de seus olhos. Ela já havia se martirizado o suficiente, o que ela poderia fazer agora?

Ir embora de Tókyo? Ele havia dito que nunca mais queria vê-la na sua frente...

Voltar para casa? Ele pelo menos sabia em que condições ela havia saído de casa?

Simplesmente ir para um lugar novo? Uma cidade onde ela não precisaria se lembrar de nada. Ela poderia simplesmente esquecer tudo o que tinha acontecido: as risadas de Sakura, o jeito mandão de Shikamaru, a forma como ela ficava vermelha apenas se lembrando do Sasuke e Naruto... Maldito Naruto!

Ela poderia simplesmente riscar tudo de sua memória, como se nada houvesse jamais acontecido. Não seria realmente lindo, se isso fosse realmente possível?

Hinata queria poder perguntar para Sakura o que fazer, mas ela havia sido a primeira a lhe deixar...

Ela simplesmente não tinha mais nada... Ninguém.

A porta do seu quarto se abriu em um único golpe e Hinata se encolheu na cadeira, assustada com o súbito barulho. Ela olhou para cima e depois para a entrada do seu quarto e esperou que a pessoa que abriu tão violentamente no seu quarto, simplesmente aparecesse.

E a pessoa entrou. Cabelos longos que desciam até a bunda, pernas longas adornadas apenas por um salto alto que aumentava ainda mais a sua altura, um corpo coberto pela mais fina seda, acentuando o seu corpo voluptuoso. E olhos que eram exatamente como os seus.

Hinata levantou rapidamente da poltrona e abriu a boca em choque. Apenas aqueles segundos aliviaram um pouco a sua dor e ela se viu correndo para a pessoa que mal havia colocado os pés no seu quarto.

Os braços macios se abriram para o seu abraço e lhe acomodaram como nunca antes e ela sentiu o cheiro de lar que sempre a acompanhava.

Hyuga Hanabi havia chegado.

Notas finais
Finalmente um momento de alívio para esses dois. Comentem, favoritem, acompanhem! Fazia muito tempo que eu não pedia isso para vocês! E se vocês forem leitores novos, muito bem-vindos!