Guarda-costas
90 Capítulo noventa
Notas iniciais
Tudo o que Hinata enxergava era sangue. Tudo o que ela sentia era dor. Ela quase não conseguia percebeu todas as coisas que estava acontecendo ao seu redor, porque a única coisa que ficava repetindo uma e outra vez na sua cabeça era a imagem de Kushina recuando um passo, enquanto atirava em sua direção.
Hinata não queria acreditar, mas por algum motivo a mulher na sua frente havia levado um tiro. A mãe de Naruto havia levado um tiro. Como ela conseguiria explicar aquilo para ele? Ela havia sido a única que havia iniciado aquele conflito, ela havia passado por todos os tipos de problemas para chegar até ali, sem se comunicar com ninguém, sem pedir ajuda, apenas para chegar até aquela mulher e enfrentá-la de frente.
E agora ela estava baleada? Como aquilo havia acontecido?
Hinata jurava que não havia apertado o gatilho, mas tudo aconteceu tão rápido que ela provavelmente apenas não percebeu... Ela havia visto Kushina alcançar um botão, para pedir reforços, então Hinata pontou a arma para a porta, depois para Kushina...
Ela estava segurando uma arma também? E depois o tiro. Kushina havia recebido um tiro no peito. A surpresa do impacto quase a jogou para trás, mas ela resistiu alguns segundo, puxando o gatilho e atirando em Hinata.
Hinata conseguiu sentir a bala atravessando a sua carne, dilacerando a sua pele, diretamente no seu peito, um pouco acima do seu coração. Ela não sabia se aquele havia sido um tiro fatal, mas ela sentia que estava morrendo.
Por isso, em todos os lugares tudo que ela via era sangue!
Ela sentiu sua perna ceder e os seus joelhos baterem no chão segurando o peso do seu corpo. O cansaço alcançando-a na mesma velocidade que o tiro que ela havia tomado. E, com isso, ela simplesmente deixou o seu corpo seguir a gravidade, enquanto escutava o quarto de Kushina ser finalmente invadido.
Muitas pessoas entraram de uma só vez no apartamento. Kushina já não mais tentava falar qualquer coisa, ela simplesmente olhava intensamente na direção de Hinata que também estava caída no chão. As duas se encaram intensamente e, dessa vez, os olhos daquela mulher não remontavam nenhum senso de superioridade e arrogância.
Ela estava morrendo e na morte não havia espaço para nada daquilo.
Apenas a noção de que a mãe de Naruto estava passando pelos seus últimos momentos de vida, fez Hinata querer simplesmente se entregar aquela dor e escuridão que estavam a puxando. Ela não queria continuar assistindo os olhos maliciosos se tornando desesperados e depois vazios.
Aquilo era demais para sua cabeça. Depois de tudo que tinha acontecido, ela ainda teria que viver com o fato de que o sangue daquela mulher estava em suas mãos. O que será que Naruto faria com ela agora? Ela ainda tinha algum resquício de esperança de que, mesmo apesar de tudo o que estava acontecendo, ele ainda poderia permanecer ao seu lado.
Ela sabia que havia se entregado a todas as coisas que sentia por ele. Mesmo que ela não tivesse a confirmação de que o que sentia era de fato amor, ela queria descobrir e experimentar cada passo daquelas novas sensações.
Seria impossível agora, não? Naruto nunca a perdoaria.
Finalmente, Hinata não precisou assistir mais o desfalecimento de Kushina, porque os olhos dela simplesmente começaram a se fechar sozinhos.
Havia gritos em todo o quarto, pessoas que apontavam armas para todos os lados e vasculhavam o apartamento em busca de outra ameaça. Alguém puxou Kushina para os seus braços e levantou o seu corpo saindo apressado do quarto. Outra pessoa parou em sua frente e tocou o seu ferimento.
Hinata não sentia mais nada.
Ela pensou que talvez o homem que estivesse a verificando, iria rapidamente tomar uma decisão e atirar uma última vez na sua cabeça. Afinal, ela havia acabado de atirar na mãe da porra do chefe deles, por que eles não fariam o mesmo com ela para terminar o trabalho?
Ela era uma intrusa e, mesmo que a sua identidade fosse um pouco complicada, eles não hesitariam em deixá-la morrer. Porque todas aquelas circunstâncias a faziam parecer, acima de qualquer outra coisa, uma traidora.
Hinata esperou com toda a certeza que aquele era o fim da sua linha, mas o tiro não veio em sua direção. Ela esperou pelo que pareceu uma eternidade, mas nada aconteceu.
Até que finalmente ela pensou que ela provavelmente já estava morta. Porque era essa a única explicação para Hinata estar escutando ao longe a voz de Naruto. A voz dele era uma coisa que ela jamais esqueceria, principalmente quando ele chamava o seu nome irritado, depois de ela ter passado horas tentando iniciar uma conversa.
O papel dele era simplesmente ficar calado, com cara de paisagem, esperando que ela se cansasse de puxar assunto.
Naruto não era um homem de conversas banais, mas, mesmo assim, ele raramente a mandava calar a boca, mesmo quando os dois estavam sentados no escritório, enquanto ela estava entediada e ele muito ocupado com todos os documentos que ele tinha para assinar.
Naqueles momentos, tudo que ela tentava fazer era tirar um pouco do sossego dele e, para isso, ela tinha que conseguir desviar a sua atenção do trabalho.
Então, ela simplesmente falava.
Falava sobre as fofocas do escritório, sobre o quanto ela odiava o mordomo idiota dele, sobre as coisas que Sakura havia feito do dia anterior e os planos que elas tinham para sair na folga dela... Falava como havia sido o seu sono, se havia tido algum sonho ou pesadelo... O quanto ela adorava Sasuke, que ela acreditava ser o melhor homem do mundo...
E ela falava sem parar, até que a voz dele finalmente aparecia em meio aquele monte de baboseira. Ele primeiro a olhava com olhos intimidadores, aqueles olhos azuis sérios que dificilmente tinham qualquer efeito nela e depois ele falava o seu nome. Irritado.
— Hinata, você acha que eu estou desocupado?
Ela sorria, porque como sempre, ela havia conseguido o que queria. Um pouco de sua custosa atenção.
Sem perceber, aquele havia se transformado em um ritual que ambos passavam quase todos os dias. E Hinata acreditava que Naruto secretamente gostava de escutá-la falar.
Naqueles breves instantes em que eram apenas os dois, ela não sentia qualquer tipo de complicação. Ela sabia o que esperar, porque tudo funcionava como uma perfeita rotina. Ele a mandaria calar a boca da forma mais rude possível e ela simplesmente sairia do escritório fingindo irritação. Depois que ele terminasse todos os trabalhos, ela estaria no sofá da recepção de seu escritório e ambos iriam para casa.
Esse era o ritual deles. E não havia nada que ela quisesse mais nesse mundo do que voltar àqueles tempos.
Ela queria se apegar àquelas lembranças na sua cabeça, porque imaginar que a voz dele não era um fruto de sua imaginação, mas sim porque ele estava alí ao seu lado, parecia cruel demais para o seu gosto. Ele não podia estar ali. Ele descobriria. As pessoas iriam contar que ela havia tirado em Kushina.
Hinata sentiu uma mão tocar no seu cabelo levemente, e alguém lhe puxar para os seus braços. Aquilo era muito estranho, as pessoas naquele quarto deveriam estar atirando nela e não ajudando. Por que alguém arriscaria sua vida ajudando um traidor?
Ela se deixou levar, por aqueles braços fortes, e senti um cheiro muito familiar vindo daquele corpo. Ela fundou o seu nariz no tecido da roupa da pessoa que lhe segurava e aspirou profundamente o aroma. Hinata não tinha ideia do quão fora de si ela estava para estar imaginando não apenas a voz, mas o cheiro dele também.
Contudo, pela forma como o seu coração acelerava e o seu corpo se aquecia, apenas uma pessoa poderia estar a segurando e fazendo-a se sentir tão segura. Naruto.
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Sasuke acordou sentindo a sua cabeça pesada, sentindo-se destruído. Ele tentou mover suas pernas, seus braços, seu corpo e de nenhuma forma conseguiu executar movimento. Era como se um grande peso estivesse o puxando para baixo, pressionando-o contra a superfície macia que estava debaixo do seu corpo.
Ele tentou abrir os olhos, mas aquilo também foi uma missão quase impossível de conseguir. Ele sentia algo em sua boca, descendo pela sua garganta quase como se tivesse o impedindo de respirar, mas o ar continuava entrando e saindo de seus pulmões normalmente.
Aquela sensação de impotência o assustou mais que qualquer coisa, mas a consciência de seu corpo começou a voltar pouco a pouco. Ele conseguiu escutar os seus arredores. Os sons de bip bip que vinham de algo posto ao seu lado e, ocasionalmente, o som de alguma pessoa que chegava perto dele.
Ele não sabia onde estava, não sabia sequer se todas aquelas coisas que escutava eram reais, era como se ele estivesse flutuando, sem qualquer peso em seu corpo, apenas escutando e trocando entre consciente e inconsciente.
O cheiro que vinha para o seu nariz era de puro desinfetante e álcool. Ele já havia sentido aquele cheiro antes, ele só não conseguia identificar onde.
O tempo foi passando lentamente, ele não sabia quanto. Mas, ele sentiu que as suas habilidades sensoriais estavam se recuperando bem mais rápido que o seu corpo. Ele tentou novamente movimentar os seus membros e, dessa vez, com muito esforço, ele teve um pouco de sucesso com a sua mão direita.
Sasuke sentia algo grudado na costa da sua mão, ele ainda não sabia o que era. Ele subiu lentamente com seus dedos tocando no seu abdômen, e a única coisa que ele tocou foram tecidos e bandagens. Ele tentou se lembrar tudo que havia acontecido antes de ter acordado naquela cama, mas tudo era como um grande vazio na sua cabeça.
Algo havia acontecido, ele sabia esse tanto. Mas o que era?
Sasuke continuou se esforçando a puxar sua mão até o objeto que estava incomodando a sua garganta, mas antes mesmo dele conseguir alcançar o seu pescoço, uma mão puxou os seus dedos para baixo. Sasuke tomou um susto com aquele abrupto acontecimento e tentou abrir os olhos de novo, ainda sem sucesso.
A mão que lhe impediu de continuar a alcançar a sua boca, continuou segurando seus dedos firmemente para que ele não conseguisse voltar a se mover.
Alguém estava ao lado, aquilo era óbvio, mas quem? Aquilo parecia um mistério para ele.
Sasuke tentou sentir o cheiro, para tentar descobrir se era alguém que ele conhecia. Se era um inimigo ou conhecido, mas nada vinha na sua cabeça. Ele tentou juntar todas as suas energias para abrir os olhos em uma terceira tentativa e, finalmente conseguiu enxergar por uma pequena brecha. Mas, a única coisa que conseguiu ver foi uma absurda claridade.
Uma mão tocou delicadamente na sua cabeça, retirando alguns fios de seu cabelo grudado na sua testa. Aquele toque lhe parecia tão familiar, o que era ainda mais estranho, pois ele não conseguia se lembrar de ter sido tocado assim em algum momento de sua vida.
Ele só podia estar sonhando, não havia qualquer explicativa.
Ele permaneceu naquele estado de semiconsciência por mais alguns instantes, aproveitando o toque quente na sua testa, desejando saber quem a sua mente havia escolhido para iludi-lo daquela maneira. Mas, nenhuma informação lhe foi dada.
A mão foi embora e Sasuke pensou que a sua cruel realidade estava finalmente de volta.
Seu raciocínio estava voltando para o lugar e ele começou a juntar as poucas informações que tinha. Provavelmente, ele estava muito machucado. Em um hospital... O cheiro que ele sentia, as pessoas indo e voltando falando coisa que ele pouco entendia, os sons ao seu redor...
Um hospital, com certeza.
A mão voltou novamente, dessa vez segurando a sua. Ele estranhou, porque aquilo não parecia mais um sonho.
Com a sua mente acordada, Sasuke tentou se mexer de novo e novamente, apenas a sua mão direita mostrou algum resultado. Ele tocou algo... Dedos... Um anel?... Quem era a pessoa que estaria ao seu lado em um momento assim? Ele não havia ninguém daquele tipo. Nenhum guardião, nenhuma família.
Ninguém que se incomodaria em estar ao seu lado quando ele acordasse depois de voltar dos mortos.
Em um súbito espasmo, algo atacou a sua mente. Uma lembrança rápida que lhe cortou o cérebro e tomou a sua respiração. A sua cabeça doeu com uma intensidade assustadora e ele apertou os olhos com mais força ainda. O som de bip bip aumentou acentuadamente e a mão que segurava firmemente a sua, foi colocada em seu peito, empurrando-o para baixo.
O seu corpo se mexia sem que ele quisesse, em um estado de convulsão. E aquela pessoa continuou tentando segurá-lo e acalmá-lo ao mesmo tempo. Sasuke sentiu a sua garganta apertar em um sentimento que lhe era desconhecido. Era como uma sobrecarga que o seu corpo simplesmente não conseguia controlar.
Os barulhos ao seu redor apenas aumentaram ainda mais. Vozes, passos, algo sendo arrastado... Em meio a toda aquela loucura, ele tentou escutar a voz da pessoa que lhe acompanhava, tentando lhe acalmar enquanto sua mente e corpo sucumbiam a um feroz estado de pânico, mas ele não conseguia distinguir uma voz da outra.
Será que mesmo aquele seu breve momento de claridade havia sido mais uma parte de sua ilusão? Era muito mais provável que ele estivesse louco do que a possibilidade de alguém estar cuidando dele.
Ele queria rir da sua própria estupidez e, logo, sentiu a escuridão se aproximando novamente da sua consciência, arrastando-lhe para si. E, pela segunda vez, ele agradeceu àquele chamado, suplicando que dessa vez ele não voltasse a enxergar a luz.
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