Guarda-costas
19 Capítulo dezenove
Notas iniciais
Hinata assoprou o seu cabelo da testa. Ela estava fazendo aquilo a quase duas horas e o tédio estava começando a deixá-la inquieta.
Ela ainda estava vestida casualmente de camiseta e calças jeans, a mesma roupa que usava quando saiu do hospital e qualquer pessoa que passasse pela frente do escritório de Naruto no prédio principal do Complexo de Empresas Uzumaki, perceberia que ela não pertencia àquele lugar.
Mas, com Naruto trancado na sua sala a mais de quatro horas sem intervalo, ela não podia muito mais do que esperar na sua porta, ignorando os olhares esnobes jogados na sua direção.
Assim que eles haviam chegado no prédio e Naruto se trancado na sala, ela havia tentado ocupar o seu tempo, andando por todo o canto do complexo, sendo acompanhada de perto por um dos homens de preto que continuavam a se comportar como seguranças de Naruto.
Como se ela não estivesse lá.
Quando havia se enfadado de passear após alguns minutos, ela se contentou em apenas sentar e esperar na sala da recepção em frente do escritório dele, fazendo um monte de nada no processo, exceto, talvez observar a movimentação do andar. O que não era pequena.
Várias pessoas entravam e saíam do escritório de Naruto, sendo levadas e trazidas pela bonita secretária de Naruto que cada vez que passava na sua frente parecia querer lhe fuzilar com o olhar.
O escritório de Naruto era enorme, com grandes paredes de vidro por onde ela podia enxergá-lo sempre que quisesse, exceto as vezes em que ele acionava a privacidade da sala e todas as paredes mudavam de transparentes para foscas.
Ele já havia feito aquilo duas vezes durante aquela tarde e ela não conseguia se livrar da sensação de desconforto que sentia todas as vezes que o perdia de vista.
Durante aquele tempo, ela também aprendeu algumas coisas de Naruto.
Aquele era o seu primeiro dia na empresa, por isso muitas pessoas entravam no seu escritório para cumprimentá-lo e dar boas-vindas. Mas, muito diferente do que elas, provavelmente, esperavam do seu novo chefe, elas não recebiam qualquer tipo de agradecimento cortês pelas boas-vindas e saíam da sala a beira de um ataque de nervos.
Isso ela conseguia entender bem, porque ela também quase sofreu um ataque de nervos do seu primeiro encontro.
Nesse ponto, eles aprenderam uma faceta de Naruto que ela já conhecia muito bem, mas não foi apenas isso que ela observou apenas naquela tarde.
Ela aprendeu que quando Naruto estava trabalhando, ele era super focado. Não prestava atenção para ninguém, senão a tela do seu computador. Por isso sempre que a sua secretária tinha alguma coisa para passar para ele, ela precisava esperar ele terminar o que quer que estivesse fazendo ou deixar anotado em um post it em cima da mesa.
Naruto também nunca parava, nem que fosse apenas para levantar e se alongar pelas longas horas sentado. Ele também não ia ao banheiro ou comia qualquer coisa. A única coisa que quebrava um pouco a sua atenção do trabalho era a xícara de café que a secretária em meia em meia hora tinha que recarregar.
E, assim, ela aprendeu que ele morreria de gastrite antes dos quarenta.
Nessas poucas horas de observação, ela resumiu que ele possuía um sério problema de múltipla personalidade que afetava diretamente cada um do seus estados de humor.
Sendo que alguns dos seus humores era destinados apenas para ela. O canalha… O idiota… O confiante… O malvado... E até mesmo o psicopata… Muito diferente do homem sério que ela observava, naquele momento.
O problema era que a cabeça dela estava tiltando tentando conciliar o homem que fazia uma festa de TopLess com várias mulheres e a imagem do comprometido homem de negócios.
Algumas mulheres estavam andando pelo andar, olhando sorrateiramente para a sala de Naruto, elas estavam fofocando no ouvido uma da outra e sequer notaram a sua presença.
— Ele é o novo chefe? Que bonito!
— Sim, será que ele gosta de asiáticas? Ele passou tanto tempo fora.
— Se for assim, é melhor você não se aproximar muito, os seus seios estão muito longe do padrão ocidental.
Uma das mulheres deu um leve tapa nas mãos da outra e sorriu junto com a amiga. — Que maldade!
Hinata automaticamente desceu o olhar para o próprio peito e tentou juntá-los com a mão. Eles nunca lhe pareceram pequenos, ela até mesmo usava sutiã por debaixo da roupa. O que definitivamente era um incômodo enorme.
— O que você está fazendo?
Hinata olhou para cima e Naruto estava se aproximando de onde ela estava, olhando-a de forma estranha. Ela largou os seus seios e se levantou rapidamente.
— Nada demais.
— Hum… — ele começou a andar em direção ao elevador dando um aceno para a secretária que curvou a cabeça se despedindo. — Eu também escutei a conversa daquelas duas mulheres, pirralha.
Hinata sentiu-se levemente embaraçada, mas mesmo assim perguntou curiosa. — E é verdade?
Naruto sorriu, esperando os seus dois homens entrarem no elevador com eles. — Digamos que no seu caso não importa... Você não se encaixa nem no padrão ocidental nem no oriental.
Hinata lhe olhou irritada e apertou no botão do andar mais próximo. Naruto se encostou na parede e lhe olhou divertido, o elevador parou no andar que ela apertou e ela se dirigiu para os homens de preto.
— Vão dar uma volta, tenho que falar com ele sozinha.
Os dois olharam para Naruto de forma apreensiva e ele acenou com a cabeça para que os dois saíssem.
Assim que as portas fecharam, Hinata sentiu-se um pouco mais leve e aproveitou a oportunidade de tirar o tédio da tarde.
Hinata usou o braço mais perto para dar um soco no estômago de Naruto e ele conseguiu segurar facilmente o golpe com uma das mãos. Não tendo resultado, ela tentou atacar as partes baixas e novamente ele conseguiu se defender.
Mas ela já estava preparada para isso.
Para se defender do seu chute na virilha, ele precisou curvar o corpo e ela utilizou isso como uma janela de oportunidade. Hinata puxou seu ombro para baixo e com a cabeça, acertou exatamente no seu queixo.
A boca dele se fechou com o golpe e ele mordeu a parte interna da sua bochecha.
Ele a empurrou para longe com força e ela bateu na parede do elevador sorrindo. Ela tinha pensado naquele golpe por alguns dias, enquanto estava deitada no hospital e agora que ela tinha finalmente conseguido utilizar, ela se sentia realmente feliz.
Naruto afiou os olhos, enquanto massageava o queixo e deixou o tablet que estava nas mãos escorregar para dentro do bolso do seu casaco antes de alcançá-la para iniciar a briga deles. O sorriso de Hinata morreu, mas não conseguiu impedir o que seria a sua punição.
Ela tentou se desviar e colocar certa distância entre os dois com o braço, mas ele a puxou em um abraço e a tirou do seu pé, até que estivesse na altura do seu rosto, utilizando a parede do elevador para mantê-la equilibrada.
Ele lhe olhou de maneira maliciosa, antes de aproximar a testa dos dois e esfregar uma na outra com força.
— Para, seu idiota! — Ela gritou, sentindo-se duplamente punida pela testa de ferro dele e pelo abraço de urso.
Naruto não se importou com os seus gritos e continuou sorrindo maldosamente na sua direção. Aquela tortura continuou até que o elevador chegou no andar de subsolo da garagem e ele, finalmente, a deixou ir, colocando-a sobre os seus pés no chão.
Ela recuperou o fôlego e tentou ajeitar o cabelo da melhor forma possível e a sua roupa que havia saído do lugar — Por que você sempre faz isso? Brigue como uma pessoa normal.
Ele deu de ombros. — É divertido.
A porta do elevador se abriu e um casal idoso estava esperando na frente, os dois pareciam confusos e olhavam para ela e Naruto em alternância. O casal de idoso começou a sorrir e Naruto lhes ofereceu uma piscadela, antes de dizer deu boa noite e sair do elevador.
Hinata não entendeu o sorriso no rosto do velho casal, mas seguiu Naruto, sem cumprimentá-los. Ela ainda estava furiosa com a sua humilhante punição.
Ela não conseguia entender porque ele insistia em usar aquele truque sujo com ela. Ela se sentia como se estivesse sendo colocada no patamar de uma criança de cinco anos toda vez que ele terminava com ela.
E não havia nada pior para ela do que se sentir uma criança.
— Vamos jantar alguma coisa. Eu vou deixar você escolher. — ele disse indo em direção do seu carro.
Hinata esqueceu rapidamente a sua raiva ao ser lembrada de comida e correu para o seu lado. — Vamos comer ramén.
Ele revirou os olhos, mas não discutiu. Os dois entraram no carro e foram embora sozinhos, deixando os homens de preto para trás.
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Hinata dirigiu até a barraquinha de ramen que os dois haviam comido uma semana atrás, chegando lá, as mesas estavam lotadas de pessoas. Ela já havia esquecido como aquele lugar era popular em uma noite de sexta feira, momento em que as pessoas saíam do trabalho e retiravam o estresse da semana nos pratos deliciosos do tio.
Hinata procurou pelo balcão e duas pessoas já estavam saindo, então, com agilidade ela puxou Naruto por entre as mesas e chegou rapidamente no lugar que tinha avistado, empurrando Naruto na cadeira livre ao lado da sua.
Naruto retirou o casaco do terno e deu para ela.
Ela o olhou desconfiada pelo gesto e perguntou. — O que é isso?
— Daqui a pouco, você vai começar a bater os dentes.
Ela pegou realmente estava com frio, a sua blusa não era apropriada para o quão fria a noite havia se tornado. Os dois pediram as suas habituais tigelas duplas e Hinata esperava ansiosamente com os hashis já preparados em mãos.
O cheiro era delicioso e Hinata sentiu seu estômago doer de fome. Como ela tinha conseguido passar toda a tarde sem comer nada era um mistério.
Os dois primeiros pratos de ramén ficaram prontos em minutos e Hinata rapidamente pegou os dois, antes de Naruto se mover. Eles tinha sabores diferente e Hinata os mistou em um só, depois acrescentou um pouco alguns tipos diferentes de pimenta e condimentos, e lhe entregou a metade da mistura.
Ele olhou para o prato desconfiado. — O que é isso?
— A forma correta de comer Ramen. Dois sabores deliciosos juntos é muito melhor que só um.
Ele remexeu no macarrão. — Tenho quase certeza que isso mata.
Hinata suspirou, pegou um pouco do prato dele e o aproximou da sua boca. — Prova, antes de falar.
Naruto olhou desconfiado para a sua guarda-costa e abriu a boca, quando percebeu que ela não desistiria de lhe fazer comer. Hinata o olhou ansiosa, enquanto ele mastigava e esperou o momento que o sabor explodiria no seu paladar, mas assim que ele começou a mastigar o macarrão, ele começou a tossir desesperadamente.
— Meu Deus, isso é horrível.
Hinata o olhou desgostosa e tentou puxar a tigela de volta, mas ele surpreendentemente a impediu.
— Dá pra mim. Se é tão ruim assim, eu vou comer tudo.
Ele sorriu e deu um tapa nas suas mãos insistentes. — Não. É meu. Sinto que se eu comer esse prato, eu posso enfrentar qualquer coisa.
— Você tem o paladar de uma princesa.
— Eu tenho o paladar de um ser humano.
O tio da barraca começou a sorrir da interação dos dois e colocou uma lata de cerveja na frente de Naruto e água na frente de Hinata.
— Você é muito corajoso por comer essa bomba, meu rapaz. — ele disse em solidariedade, enquanto era fuminado pelos olhos de Hinata. — Eu mesmo já experimentei isso e não consegui passar da segunda bocada.
— Vocês não sabem como apreciar a comida. Uma vergonha!
Naruto comeu outra bocada. — Eu sinto que eu não tenho mais paladar.
— A cerveja é pela conta da casa se você conseguir comer toda essa tigela. — o tio do ramen voltou os olhos para Hinata e sorriu para ela. — Faz um tempo que eu não te vejo por aqui.
— Ah… — ela disse, engolindo tudo que estava na sua boca e lançando um olhar de esgueira para Naruto. — Ele me deu problemas.
O tio do ramen gargalhou. — Tenho certeza que foi o contrário.
Naruto sorriu tomando da sua latinha de cerveja.
Hinata, por outro lado, estava chateada com a insinuação. — Vá atender seus clientes, tio. Ou o senhor vai falir.
— Vire sua boca para lá, pirralha.
O tio saiu, deixando os dois comendo sozinhos as suas tigelas. Hinata terminou a sua primeiro, como de costume e alcançou as outras duas que já a esperavam, repetindo o mesmo processo de mistura e preparo e entregando a parte de Naruto.
Hinata o olhou em desafio, assim que ele havia terminou a sua primeira tigela e viu que já havia outra preparada na sua frente. — Vamos coma, princesa. — ela provocou.
Naruto empurrou a sua testa com força, quando ela se aproximou demais leh provocando e deixou a tigela exatamente onde ela estava. Ele não ia comer, mas nenhum pouco daquele veneno. Hinata gargalhou, sentindo-se vitoriosa e comeu as duas tigelas até estar completamente satisfeita.
— Pague dessa vez, eu não tenho dinheiro. — ela disse, assim que terminou.
— Que eu me lembre eu paguei da última também.
Naruto retirou da bolsa algumas notas e colocou embaixo da tigela, os dois se levantaram, mas Hinata não seguiu para o carro, puxando-lhe para o lado oposto do estacionamento.
Ela parou em uma barraquinha de sorvete, pedindo um para Naruto e dois para ela.
— Depois de um comida dessas, obviamente, deveríamos comer algo doce. — ela disse animada, enquanto entregava a Naruto a sua casquinha.
Naruto provou um pouco do sorvete, deixando o sabor doce trazer de volta o sentido da sua boca. — Faz bastante tempo que não como um sorvete.
Hinata sorriu, limpando com a língua a ponta dos seus dedos que já estava grudando com sorvete derretido. — Já se vê o porquê da sua cara azeda o tempo todo.
Naruto aproveitou a sua distração e empurrou a cabeça dela em direção ao sorvete sujando a ponta do seu nariz.
Ela lhe lançou um olhar sério. — Isso é muito maduro, meus parabéns.
Ele sorriu. — Por algum motivo irritar você sempre é o ponto alto do meu dia.
Hinata o olhou desconfiada com a declaração, não que ela estivesse com raiva porque a sua irritação era fonte constante de alegria para o loiro, mas sim porque o tom de voz que ele utilizou, por mais estúpido que pudesse parecer, guardava uma nota muito próxima a tristeza.
E Hinata achava que ninguém tinha permissão para utilizar aquele tom, enquanto estava tomando sorvete.
Hinata parou na sua frente e apoiou a mão no seu peito.
— O que aconteceu com você, enquanto eu estava no hospital? — ela perguntou, observando como os olhos azui piscaram para ela. — É como se eu não conseguisse te reconhecer. Desde hoje de manhã, você tem agido tão estranho.
Naruto ficou em silêncio, antes de tomar um pouco mais do seu sorvete e depois de um tempo respondeu com o mesmo sorriso no rosto. — Eu acho que qualquer coisa que falarmos agora esta em um nível muito superior de entendimento para o seu cérebro, pirralha. Não pareça tão profunda.
Naruto desviou dela e continuou andando, mas Hinata perguntou impulsivamente algo que continuava voltando a sua cabeça.
— Quem é você?
Os passos de Naruto pararam e ela tomou a oportunidade para se colocar na frente dele de novo. As coisas que Sakura falou martelando na sua cabeça, ao mesmo tempo que ela tentava imaginar porque Sasuke havia lhe contratado para aquele serviço.
— Eu não entendo. As vezes, você faz coisas que me fazem ter medo de você, como naquela vez no escritório que eu escutei você falando com o Sasuke. — ela começou. — Além disso, eu estou começando a achar que você não é apenas um herdeiro playboy de uma família rica. E… Eu também... também escutei coisas sobre você… Sobre a sua família… Sobre a morte do seu tio. E eu não sei no que acreditar, então, eu estou perguntando para a única pessoa que pode me responder. Quem é você?
Naruto permaneceu olhando-a com o mesmo sorriso brincando nos seus lábios. — Eu te disse que você só podia escolher um única coisa de presente quando me salvou. Você quer trocar a sua escolha? O carro por saber quem eu sou?
Hinata revirou os olhos com força e deu um soco forte no ombro de Naruto. — Eu não estou brincando, porra!
— Nem eu… — ele ficou em silêncio, enquanto fitava agitados olhos perolados da sua guarda-costa. E depois ampliou o seu sorriso. — Pelo visto, você não parece querer desistir do carro.
— Ah, cala a boca!
Hinata virou-se e começou a andar na frente, terminando o resto do seu sorvete. Naruto a seguiu de perto, até o momento que ela parou e se encostou em um parapeito, olhando o horizonte. O vento batia forte naquele ponto e Hinata se encolheu mais ainda dentro do casaco de Naruto.
— Você realmente se importa com isso? — ele perguntou.
Hinata continuou em silêncio e Naruto se aproximou do parapeito ao seu lado. — Eu não gosto quando as pessoas falam comigo sobre você e, não ajuda, quando eu não consigo discernir se o que eles falam é verdade ou não. Eu já sei que você só é um idiota comigo e que é super sério sobre um monte de coisa chata…
Ele a interrompeu. — Vá direto ao ponto, pirralha. Enrolar não combina com você.
Ela se virou, encarando diretamente os seus olhos inexpressivos. — Você é da máfia?
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