Guarda-costas

114 Capítulo cento e quatorze


Notas iniciais
Boa leitura!

Kiba sentou-se a mesa esperando pela sua comida. Sua rotina de prisioneiro havia sido sutilmente mudada para uma de estocolmizado, porque não havia qualquer outra explicação para o fato de ele estar sentado de forma tão comportada, em uma cadeira, com uma porta a menos de dois metros de onde estava, esperando pacientemente um prato de comida que fazia seu estômago roncar apenas pelo cheiro.

A pessoa que cozinhava para ele deixava a composição ainda mais estranha. E nada era nada mais nada menos que a pessoa que o mantinha preso. Sabaku no Gaara.

Toda aquela estranheza já havia se tornado a muito tempo o seu novo normal e a noite anterior havia mostrado para ele o quanto ele já havia se acostumado com aquele tratamento. A cena ainda estava marcada na sua cabeça, porque era surpreendente até mesmo para ele... Gaara com a cabeça no seu colo, dormindo pacificamente, simplesmente dormindo, como se o mundo do lado de fora não estivesse explodindo por causa dele.

E ao invés de Kiba ser fiel a todas ameaças e planos que vinha arquitetando na sua cabeça, e tê-lo afastado de perto ou até mesmo, simplesmente, começado a discutir com ele sobre a sua situação atual, Kiba permitiu que ele continuasse dormindo confortavelmente onde estava, enquanto mexia no seu cabelo.

Ah, para completar a sua situação de sanidade, antes mesmo desse episódio, apenas algumas noites atrás, Gaara também havia o beijado. E Kiba havia deixado, mais que isso, até mesmo gostado, mesmo que nunca em sua vida fosse confirmar tal sentimento.

Se nada daquilo gritava estolcomo, nada no mundo faria.

Mas, nada disso, nem mesmo a sua segurança era a causa de sua preocupação no momento, porque ele sabia que no final das contas, depois que tudo que Gaara estivesse tramando passasse, ele simplesmente o soltaria em segurança. Isso, Kiba tinha certeza, porque ele havia aprendido a depositar sua completa confiança naquele homem.

O comportamento de Gaara, sim, era a única razão da sua imensa preocupação.

Ele parecia fraco? Não. Kiba imediatamente retirou aquela palavra da sua cabeça, não combinava nenhum pouco com Gaara, contudo ele parecia mais vulnerável. Essa era a palavra.

Kiba sabia que algo muito grande para ele estava acontecendo. Afinal, Gaara havia sequestrado Naruto, Sasuke e, até mesmo, a irmã mais nova de Hinata. Vulnerabilidade em um momento daqueles era a última coisa que Kiba esperava encontrar nele, afinal, com a sua vingança tão perto de ser completada, ele não deveria estar feliz?

Gaara terminou de ajeitar o prato que decorava. Era estranho ver um homem como ele fazer um prato tão lindamente decorado para alguém como ele. Ainda assim, acontecia. Gaara colocou o prato em meio a outros dois, depois pegou a garrafa de vinho que havia deixado de lado e a abriu.

O som da rolha estourando trouxe um sentimento ruim na sua boca, mas ele não queria pensar e dissecar em nada aquele sentimento, ele queria simplesmente sentar e comer como Gaara como duas pessoas normais. Duas pessoas que poderiam ter se conhecido em circunstâncias melhores se a vida tivesse levado ambos para esse lado.

— Prove. Veja se você gosta. – Gaara disse.

Kiba olhou os pratos na sua frente bastante surpreso. — O que é tudo isso?

— Deixe que eu te presento os meus melhores pratos. – Gaara apontou para o primeiro que parecia extremamente delicioso. – Esse é o primeiro, se chama Shimeji, eu fiz com salmão, arroz e cream cheese. – ele colocou um pouco no seu prato e Kiba provou sentindo a textura da comida na sua língua. Parecia simplesmente maravilhoso. – Isso é Guioza de carne. – Ele mostrou um prato que tinha a aparência de pequenos pastéis e que pareciam igualmente apetitoso. Kiba sequer precisou dizer algo, Gaara mergulhou o pequeno pastel em um molho que ele havia preparado e trouxe a boca de Kiba que sem pensar duas vezes apenas o provou.

A comida era tão boa que Kiba apenas fechou os olhos para apreciar o prato e sentiu o seu braço arrepiar.

— E, por último, tempurá. Eu soube que você gosta desse.

Novamente, Gaara pegou a comida no seu hashi e levou a boca de Kiba que apenas aceitou o pedaço de comida.

— O que achou?

Kiba sorriu genuinamente surpreso e satisfeito com tudo aquilo. Como ele poderia não gostar? Ninguém nunca tinha cozinhado para ele daquela forma, apenas para satisfazer a sua fome, sem segundas intenções.

Era estranho para Kiba pensar que aquele homem que era provavelmente o vilão nas histórias de muitas pessoas, conseguia simplesmente cozinhar uma boa refeição para ele.

— Você sabe que está tudo incrível. – Kiba respondeu atacando um pouco mais a comida. – Por que você não me disse antes que cozinhava? Eu tinha te acorrentado a cozinha mais cedo.

Gaara sorriu ironicamente. – Você acha que é fácil assim me fazer ir para cozinha? Você teria que trabalhar muito para fazer isso acontecer novamente.

Kiba parou de colocar tão precipitadamente coisas na sua boca e olhou para o Gaara com a boca cheia de comida.

Kiba mandou a sua própria mente acabar com o pensamento de que Gaara havia simplesmente cozinhado sem segundos pensamentos, porque, pelo visto, naquele cérebro endemoniado rondavam terceiras e quartas intenções em continuidade infinita.

Kiba forçou-se a engolir de vez a comida e bebeu o vinho na sua taça de um único gole. Gaara sorriu e colocou um pouco da comida para si e mais um pouco no prato já vazio de Kiba. Gaara comia cordialmente, muito diferente de Kiba que simplesmente avançava aleatoriamente nos pratos de comida que estavam a sua frente.

Gaara provavelmente deveria o considerar um selvagem e ele não podia fazer nada quanto a mudar aquele pensamento. Kiba não vinha de uma família abastada que o educasse na mais alta classe. Ele veio de baixo, lidou toda a vida com gente suja e mal caráter, e isso, inconscientemente, acabava deixando uma marca um tanto grotesca na pessoa que se ele tornou.

Os olhares pensativos de Kiba não foram ignorados, porque Gaara imediatamente parou de comer e fitou seus olhos.

— O que foi? – Ele perguntou. — Algo não está bom?

Kiba sorriu sem humor. Ele adoraria que a sua mente virasse a chavinha e simplesmente pensasse nos incríveis sabores que explodiam na sua língua. Mas, a sua mente foi novamente a um lugar escuro.

“O que você está fazendo?” Kiba queria perguntar sentindo novamente a sensação ruim se acomodar no seu estômago. Era difícil entender o que se passava naquela cabeça ruiva e se Kiba fosse o mesmo de algumas semanas atrás, ele teria coragem o suficiente para sanar sua curiosidade. Mas, ainda assim, ele não fez. E mudou de assunto, mantendo a forma casual que os dois conversavam.

— O que você gostaria que eu fizesse para que você cozinhe mais vezes para mim? Eu estou pensando seriamente em tentar. – provocou.

Gaara tossiu com a comida que degustava e Kiba sorriu, imaginando os pensamentos que percorriam a mente suja daquele homem.

— Eu quero dizer, quantas contas bancárias você que eu desvie? Quantas agências do governo você quer que eu invada apenas para buscar informações para você? Talvez mais alguns pratos desses me faça ter inspiração o suficiente para invadir a Interpol e limpar a sua ficha, sem qualquer rastro.

Gaara se recuperou rapidamente e sorriu novamente.

— Eu acho que essa proposta é um pouco baixa demais para a tempurá que eu preparei. Você deveria apostar mais alto no seu jogo, Kiba.

— Eu não sou um apostador, Gaara. – Kiba respondeu, sentindo a sua bochecha esquentar um pouco, contudo sem perder a chance de continuar falar o que queria. – Quando eu quero algo, eu não deixo que algo tão banal como a sorte seja um fator determinante em conseguir o que eu quero.

— E o que você quer, Kiba? – O assunto perdeu o tom de comédia e se tornou mais pesado, algo que flutuava entre eles, capaz de retirar qualquer resistência de timidez. – Se você me dizer, eu faço.

A proposta estava ali, tão claro quanto a água e Kiba não era estúpido o suficiente para não saber o que exatamente ele estava propondo. Ainda assim, os sentimentos de flerte foram rapidamente substituídos pela sua preocupação anterior e antes que pudesse se impedir, ele disse:

— Eu não quero que você vá.

O silêncio se prolongou e a frase pesou entre os dois. Gaara perdeu um pouco da leveza que estava presente no seu rosto, contudo não completamente. Ele colocou um pouco mais de bebida na taça de Kiba e mais um pouco da comida que havia preparado.

Kiba não obteve resposta e ele sabia que não conseguiria. Porque o que quer que fosse que Gaara tinha planejado, não poderia ser impedido por ninguém. E quem seria ele para exigir qualquer coisa de Gaara? Ele nunca seria capaz de dizer para ele, “não vá por mim”.

Falar alguma frase daquele tipo era uma estupidez imensa.

— Não se preocupe, depois que tudo acabar você poderá ir ou ficar. Qualquer que seja a sua escolha.

Gaara respondeu seriamente olhando nos seus olhos e Kiba via sinceridade no seu olhar e na sua fala. Aquela nunca havia sido a sua dúvida. A sua dúvida era se Gaara estaria presente para libertá-lo pessoalmente, mas, novamente, quem era ele para perguntar qualquer coisa daquele tipo?

A covardia era sua única opção.

— Que bom, — Kiba respondeu, forçando o seu melhor sorriso. – eu não gostaria daquela mulher me vigiando novamente. E você me deve mais alguns aperitivos.

Depois de toda aquela refeição Gaara ligou o som, uma música calma de jazz começou a tocar. Kiba nunca tinha imaginado o tipo de música favorita de Gaara, ou casais banais do tipo. Os dois passavam tanto tempo juntos, mas ainda assim, dificilmente sabiam algo um do outro.

Kiba pegou a sua taça e encheu outra para Gaara, levando ambas para o sofá. Os dois sentaram um ao lado do outro de tudo pareceu muito normal para ele. Algo que os dois poderiam praticar cotidianamente? Talvez. Como amigos...

Eles eram amigos? Amigos não se beijavam, mas dizer que eles eram amantes era demais não?

— Gaara...

Kiba virou-se para falar algo para ele, mas não teve qualquer tempo. Gaara segurou o seu rosto suavemente e trouxe a boca de Kiba em encontro a sua. Os lábios de Gaara roçaram no seu fazendo a sua pele imediatamente arrepiar e aquecer.

A mesma sensação, muito melhor.

Kiba não era nenhum inexperiente naquele gesto e sentindo o seu bom senso inebriado pela bebida, ele simplesmente desistiu de qualquer compostura e aprofundou por conta própria o beijo. Ele abriu a boca e afundou a língua na boa de Gaara.

Não havia nada que pudesse salvar o ar entre aqueles dois, tudo parecia pura eletricidade que percorria o corpo de Kiba e o deixava cada vez mais perdido. O cheiro, o toque, o sabor, era tudo como ele jamais tinha imaginado. Era perfeito.

Mas, assumiu a sua posição e parou ele mesmo o beijo. Ele encostou a testa na sua e desceu o rosto para o seu pescoço, sentido o cheiro da sua nuca. Kiba se segurou com força na camisa de Gaara e deixou o seu corpo ser levado para trás pelo de Gaara.

Kiba sentiu o nariz de Gaara descer por seu ombro e seu peito, mas logo ele parou novamente. Apenas encostando o seu ouvido exatamente em cima do coração acelerado de Kiba.

Nenhum dos dois falou nada, apenas o silêncio os acompanhou naquele momento. Não havia mais conversa pesada, preocupação ou medo, tudo acabou ali. Eles tiveram uma boa refeição, uma boa bebida, um excelente beijo. Eles também sorriram e fingiram com todas as forças que não estavam dando adeus um para o outro.

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— O que você está olhando? – a voz falou no seu ouvido.

— Eles estão no sofá, mas ninguém está com eles.

— Parece que Gaara quer ficar sozinho com o namorado. Não há guarda nem em cima nem em baixo. – poderíamos simplesmente atirar nele.

— E como vamos saber onde estão os nossos irmãos?

O outro lado suspirou.

— Deixe comigo, Itachi. O plano vai dar certo e no final disso, Hanabi e Sasuke vão estar de volta.

Hinata permaneceu olhando Kiba e Gaara abraçados no sofá, eles pareciam tão próximos um do outro que fez ela se lembrar de alguém que não gostaria. Alguém que fazia a sua raiva borbulhar.

— Me avise quando estiver pronta. – A comunicação desconectou.

— Eu estou sempre pronta, idiota.

Notas finais
Para quem vocês estão torcendo?