Guarda-costas
108 Capítulo cento e oito
Notas iniciais
35 anos atrás
Kushina estava se preparando para o novo show, mas dessa vez a sua cabeça não estava no lugar certo, ela não estava com qualquer tipo de foco ou concentração e se o seu chefe descobrisse, ela não teria mais cabeça para se ocupar.
Contudo nem mesmo o medo daquela pessoa fazia com que ela voltasse ao normal, e tudo isso porque havia um maldito idiota lhe ameaçando por dinheiro e o clube onde trabalhava horas absurdas não estava pagando de forma suficiente para ela conseguisse manter a própria segurança.
Isso, porque os chefões já não estavam mais fazendo as suas obrigações, nem para guardar as putas deles.
Segundo os boatos que rolavam, nas ruas estava havendo uma guerra. Todos os dias novos corpos eram encontrados e qualquer um que trabalhasse para o lado oposto estava com sérios riscos de morrer apenas por passear em horários menos comerciais.
E quanto a isso ela não tinha qualquer escolha, ela sempre saia do clube um pouco antes de amanhecer, e agora ela tinha que pagar uma pessoa para que ela chegasse ao seu apartamento a duas quadras, sem ser estuprada ou morta...
Se ela conseguisse, ela adoraria sair do seu atual trabalho e encontrar algo melhor, pelo menos algum outro lugar que ela pudesse mostrar seus reais talentos na dança, um ligar que ela provavelmente não precisaria tirar toda a sua roupa para rodopiar.
Mas, aquele sonho ficou para trás a muito tempo.
Kushina olhou o espelho do seu camarim e suspirou, ela tinha apenas uma única foto que ela guardava consigo o tempo todo. Era um panfleto do balé de Konoha, o mais famoso de todo o Japão naquele ano. Quando ela saiu de casa, em direção a grande Tokyo, ser parte daquele panfleto tinha sido o seu objetivo.
Ser famosa, viajar pelo mundo, conseguir o máximo de dinheiro possível para jogar na cara de todo mundo que sempre duvidou das suas capacidades. Quem diria que no final, eles estavam certo o tempo todo? Ela nunca havia se tornado a renomada bailarina que queria, pelo contrário, a sua profissão era uma das mais sujas que ela poderia obter. Mas, também era a única coisa que ela sabia fazer.
— Kusy, por que a demora? Já temos alguém para você. — O seu supervisor apareceu no seu camarim na sua usual forma espalhafatosa.
Qualquer um que o visse de longe acharia que aquela pessoa era calma, dócil e gentil, mas Kushina não mais comprovada aquele olhar doce. Ela já havia sentido na pele as coisas que ele fazia com qualquer um que duvidasse do seu poder.
E a única coisa que ele precisava para isso era de algumas cordas, chicotes e qualquer coisa que parecesse remotamente com o pau de um homem. Segundo ele, aquelas eram sessões de como ensinar uma menina a ser mulher.
Ela nunca sentiu tanta repugnância em sua vida, nem mesmo pelos seus habituais clientes, ainda assim quando ele a olhou pelo espelho ela deixou o seu melhor sorriso aparecer.
— O chefe está aqui hoje, se você tiver um pouco de sorte e o satisfazer direito, você poderá conseguir umas boas gorjetas.
Kushina sentiu o seu perfeito sorriso escorregar um pouco do rosto. Ela já tinha feito muitos programas antes, mas ela odiava tratar com homens da máfia, eles eram sempre os mais agressivos, repugnantes e nojentos... Tudo que eles não podiam fazem em casa com as suas digníssimas esposas eles faziam com as prostitutas que eles pagavam.
Se eles pelo menos pagassem diretamente para ela, ela poderia suportar aquelas horas de humilhação, mas o dinheiro não ia para ela. Ia para o homem que agora penteava o seu cabelo cuidadosamente.
Dinheiro esse que nunca mais foi repassado para ela. Ela se lembrou novamente do homem que não havia pagado, ela tinha feito um acordo com ele, no final de todo menos 10% de suas comissões. Será que ele poderia aceitar 10% de nada?
— Eu não acho que me sinto muito bem...
Contudo, ele a cortou assim que uma desculpa apareceu na ponta de sua língua.
— Você sabe que é a minha melhor menina, certo? Sempre tão comportada e perfeita. — Ele sorriu de forma afetada. – E você vai fazer tudo que eu mandar... – Para dar ênfase em cada uma de suas palavras, ele enrolou as mechas do seu cabelo em suas mãos e puxou com força, o seu pescoço foi curvado para trás com violência e tudo que ela sentia era dor. — Dessa vez, ele é muito importante para você estragar tudo com suas desculpas de puta velha, entendeu? Eu poderia muito bem dar esse trabalho para uma das meninas mais novas, elas acabaram de chegar e sequer foram usadas, mas ele não gosta de crianças...! Ele gosta de mulheres. Você é uma mulher, comporte-se como uma!
Ele largou o seu cabelo, sorriu para ela mais uma vez através do espelho e depois saiu pela porta. As outras meninas que estavam se preparando ouviram toda a confusão, mas simplesmente viraram o rosto. Nenhuma delas iria intervir naquela disputa, ninguém nunca ousaria.
Mas, Kushina já não mais se importava com aquela falta de empatia. Quem quisesse sobreviver aquele inferno já tinha jogado a humanidade no lixo a muito tempo. Assim como ela fez. Contudo, hoje ela estava se sentindo mais emocional que em outros dias.
“Puta velha” ela queria sorrir daquele xingamento, mas as lágrimas vieram primeiro. Ela só tinha dezessete anos, como isso a qualificada como velha?
Talvez sim, porque ela vinha fazendo aquilo a três anos, seu corpo já havia sido castigado o suficiente por muito tempo. Talvez aquela classificação fosse bastante acurada.
Ela respirou fundo, enxugou as lagrimas e engoliu o choro, ninguém iria ajudá-la naquela situação, então ela poderia muito bem utilizar aquilo ao seu favor, como sempre havia feito. Não era lá tão difícil conseguir umas gorjetas por fora, ou até mesmo conseguir um regular com aqueles homens.
Ela sempre havia desejado chamar a atenção de um deles, o suficiente para conseguir sair do arrastão e se manter em um quarto apenas para um deles. Ao menos aquilo ela podia suportar.
Ela trocou a roupa que antes tinha posto, utilizando uma de suas vestimentas mais atraentes e foi para o seu show particular.
Haviam cinco homens naquela sala sentados ao lado de um pequeno palco e quando ela entrou ao som de jazz, ela se forçou a pensar em sua apresentação e não no fato de que todos aqueles homens tinham idade para ser o seu avô.
Ela também dançou desejando que tivesse cheirado uma carreira de coca para a conseguir entrar no clima de autodestruição, mas ela não estava com dinheiro para mais drogas esse mês. Ela estava afundada em dívidas.
Os homens mal falavam, eles pareciam irritados com alguma coisa e até mesmo ansiosos. Passou uma música e nenhum deles olhou para ela, duas... Três... Meia hora de músicas já havia passado e ninguém aplaudia a sua performance ou mandava ela tirar a roupa.
A apreensão era tamanha naquela sala que até mesmo Kushina sentiu-se desanimar. O que eles estavam aguardando? Ela não podia perguntar, então simplesmente continuou dando o seu melhor no poste de dança.
Ela não poderia sair daquela sala sem pelo menos um daqueles homens satisfeitos ou o seu supervisor ficaria muito irritado. Ele pensaria que ela não havia agradado o suficiente e a sua já minúscula esperança de receber alguma coisa nesse mês simplesmente seria levado para o buraco.
Ainda assim, ninguém lhe observou por mais dez minutos, ate que a porta da sala se abriu de novo e mais dois homens entraram. Um deles bem mais velho e outro bem mais novo. Eles pareciam ser parentes pela semelhança do cabelo e dos olhos.
Os cabelos eram loiros, brilhantes e curtos. E diferente das outras pessoas que estavam ali, eles pareciam diferentes. Algo em volta deles era chamativo e perigoso.
O jovem percebeu o seu olhar e logo retornou e pela primeira vez naquela noite ela se sentiu envergonhada. Suas roupas eram curtas o suficiente para não esconder nada e ela não podia esconder a sua realidade. Então, Kushina abaixou a cabeça e continuou a dançar um pouco mais desengonçada.
Aquela noite seria uma das piores. Ninguém se interessava por ela e ainda havia uma pessoa entre eles que a fazia corar.
Um dos velhos correu para perto dos outros homens que chegaram e alguma informação foi compartilhada entre eles, pois logo todos estavam sorrindo e comemorando. Exceto o loiro que continuava sério e de cabeça baixa.
Kushina queria saber o que havia acontecido com ele, por que ele parecia tão triste? Kushina queria se matar por estar tão preocupada com algúem que provavelmente nunca teve que fazer nada na vida que não quisesse. Alguém rico, mimado que ganhou de tudo diretamente na boca.
Eles não eram sempre assim?
Um pouco de raiva subiu no peito de Kushina, algo como amargura, porque ela nunca teve nada daquilo, tudo que ela sempre conheceu foi a raiva dos outros e o amedrontamento que alguém vulnerável sentia nas mãos de uma pessoa mais forte.
— Um brinde ao Minato que nunca nos desaponta! – Um dos homens disse mais alto, alcançando até mesmo os ouvidos de Kushina.
— Os Sabakus fizeram a sua parte também. – disse o homem que eles chamaram de Minato.
O homem mais velho loiro olhou severamente para Minato. – Não tire seus créditos, criança. Você foi o único que colocou uma bala na cabeça daquele filho da puta!
Minato pegou a bebida em cima da mesa e escolheu não brigar com os homens na mesa. Eles pareciam felizes demais às custas de alguém que parecia estar a ponto de chorar. A desatenção de Kushina à música, bem como a sua clara lentidão em realizar os seus movimentos chamaram a atenção de um dos homens na mesa.
— Ei, lindinha, sente aqui ao meu lado. – Um dos homens disse a ela, mas a pergunta foi tão súbita que ela não agiu rápida o suficiente e hesitou em se aproximar da mesa. O homem pareceu ter percebido, porque o sorriso no seu rosto pareceu mais predador que gentil. – O que foi está com medo?
Kushina se aproximou mais rápido sem hesitação. Ela sabia quem era aquele homem. O chefe. Ou melhor, o dono do bordel, porque de forma alguma ele parecia ser o chefe daquela mesa. Contudo, antes de se aproximar ainda mais para aqueles braços nojentos, uma mão segurou o seu braço.
Kushina tremeu com aquele toque. As mãos dele eram geladas e fez todo o seu corpo estremecer, por qual motivo, ela não queria imaginar.
— Deixe-a. – Minato era o homem que a segurou pelo pulso, mas as suas palavras estavam direcionadas para o homem que a chamou.
Kushina estava prevendo uma briga das grandes, mas ela não tinha certeza do motivo, por que parecia muito que ela poderia ser o motivo?
Não. Não tem como.
Ainda assim ela não voltou a se mover para os braços daquele homem. Porque por mais que ele fosse o maior entre as putas para quem ele trabalhava, naquela mesa, quem mandava era o loiro mais velho, provavelmente pai do Minato.
Naquele momento, ele olhava para o seu filho em desaprovação, mas a sua atitude mudou rapidamente e ele suspirou exasperado.
— Não vamos criar tanta confusão por causa de uma menina.
Outro homem interviu com um grande sorriso no rosto, ele parecia calmo, mas Kushina tinha observado antes como o seu olhar pareceu excitado, apenas com a possibilidade de briga. – Sim, vamos nos acalmar, tem buceta para todo mundo.
E assim a briga acabou e Kushina sentou-se ao lado de Minato. Ele largou a sua mão e colocou uma bebida em sua frente que ela aproveitou para beber de uma única vez. Ela não podia beber do bar sem pagar, exceto se o cliente a oferecesse diretamente. E ela precisava daquela bebida mais ainda que nunca.
Alguém estava brigando por ela? Sério.
Kushina permaneceu quieta pelo resto da noite apenas escutando todos eles glamorizarem violência e beberem celebrando corpos mortos. Todos eles na visão da jovem Kushina pareciam tão horríveis. Mas, aquele homem loiro, chamado Minato, que permanecia com a cabeça baixa e de vez em quando lhe oferecia mais um copo de bebida, parecia diferente de todos os homens que ela sempre conheceu.
Ele não era um porco nojento que só queria se enfiar entre as suas pernas. Ele parecia uma pessoa decente, se é que aquilo era possível. Naqueles breves segundos, pela primeira vez em sua vida, ela de fato quis ir para a cama com um dos seus clientes, apenas por aqueles breves momentos de gentileza que ela provavelmente nunca mais presenciaria.
Ele se aproximou dela e ela sentiu todo o seu corpo arrepiar. – Quer sair daqui? Antes que um desses idiotas pulem em cima dessa mesa apenas para te tocar e eu tenha que matar todos eles.
Ela sorriu, mas logo olhou para ele com olhos esbugalhados, ela não sorria bobamente. Nunca. Mas, ele sorriu de volta, pegou a sua mão e saiu da mesa com ela ao seu lado. E Kushina não olhou para mais nenhum homem ao seu redor.
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