Guarda Costa
26 Butterfly
Notas iniciais
Noah caminhava lentamente até mim. Seu olhar sustentava o meu. Ela chegou perto, invadindo meu espaço pessoal, tomou meus lábios para si. Quando o ar nos faltou, ela se separou e me olhou, mas estava diferente. Estava mais jovem, seus cabelos longos e rebeldes, ela sorriu revelando o aparelho, mas o olhar de predadora se mantinha nos seus olhos negros. Antes que eu me questionasse, ela atacou o meu pescoço distribuindo beijos e chupões por toda sua extensão, voltando pouco tempo depois a dominar a minha boca.
Alguém veio por trás de mim, passou os braços pela minha cintura e começou a beijar o meu pescoço, ombros e a mordiscar a minha orelha. Ambos exploravam meu corpo com as mãos, causando-me arrepios e suspiros involuntários. Aproximei o rosto de quem estava nas minhas costas e acabei descobrindo que era Yuri, ele selou nossos lábios enquanto Noah tirava minha roupa. Finalizado o meu beijo com Yuri, os irmãos me colocaram na cama, tirando em sincronia as camisas, sem tirarem os olhos dos meus, e se deitando sobre mim.
Em um sobressalto acordei, sentei na cama e tentei acalmar minha respiração. Esses sonhos estranhos têm se tornado mais frequentes de um mês para cá. Desde quando eu e Noah começamos a sair nos finais de semana. Íamos a museus, parques ou apenas uma na casa da outra assistindo filmes e séries. Falando nela, ela estava roncando ao meu lado e, muito provável, babando todo o meu travesseiro.
Caminhei até o corredor e entrei no banheiro. Abri a torneira, lavei o meu rosto e o encarei no espelho. Fiz minha higiene matinal e sai do banheiro, a morena ainda não acordara. Preparei o café e arrumei a mesa, marchei até o meu quarto. Noah ainda estava esparramada na minha cama, roncando e babando.
– Noah, acorda. – Ela não se meche. – Noah. – Chamo mais alto, mas mesmo assim, nada. – NOAH. – Ela vira de lado, ajeita as cobertas e volta a roncar.
Não querendo gritar até ela acordar, pego minha arma secreta. Saiba de uma coisa caro leitor, Noah não acorda por nada neste mundo. Pode acontecer o que for, terremoto, uma bomba estourar ao seu lado, o Slash tocar um de seus solos com uma caixa de som enorme na sua orelha, que sua única reação vai ser se mexer e cobrir o rosto com a coberta ou travesseiro. Então, na segunda vez que ela dormiu aqui, eu comprei uma buzina de ar comprimido e só assim ela acorda, não me pergunte o porquê.
Peguei a buzina, que estava no fundo do meu armário, tampei o ouvido esquerdo com a mão esquerda, e o ouvido direito com o braço, mirei a buzina para cima e a toquei. No mesmo instante a morena acordou assustada e caiu de bunda no chão.
– Ai..- Passou a mão na bunda enquanto levantava.
– Bom dia. – Sorri com a maior cara de pau.
– Eu odeio dormir na sua casa.. – Reclamou me dando um rápido selinho e saindo do quarto.
Noah voltou do banheiro e se sentou comigo na mesa. Me servi do café, cortei o pão, passei manteiga e comecei a comer. Ficamos em silêncio enquanto comíamos tranquilamente. Apesar de estar tranquila por fora, minha mente repassava o meu sonho, várias e várias vezes, e a cena que mais me intrigava era Noah se mostrando mais jovem, como na foto que havia visto na casa de Isabelle.
– Você usava aparelho quando adolescente? – A surpreendi perguntando de repente.
– Sim, quando tinha quatorze anos. – Ajeitou os óculos por baixo da franja caída sob os olhos, franziu o cenho e complementou. – Por que?
Seus cabelos estavam um pouco maiores e começavam a fazer leves ondas negras. Quando ela me informou que já estava na hora de cortar, eu pedi para que não o fizesse para eu ver como ele fica quando comprido.
Dei de ombros e tentei falar com o máximo de desdém que pude.
– Apenas uma dúvida, já que nunca comentou.. – Ela serrou os olhos desconfiada.
– E essa dúvida tem alguma coisa haver com você me chamando entre suspiros? – Paralisei. Ela continuava a me olhar séria, abaixei a cabeça e concordei.
Houve alguns segundos de silêncio e então ela explodiu em gargalhada, ao terminar secando uma lágrima imaginaria, ela perguntou com o que eu sonhara, como não tinha nada a perder, contei. Ela ouvia cada detalhe em silêncio, concordava com a cabeça e tecia comentários nos momentos certos, e só então no final ela se permitiu fazer perguntas.
– Hum.. – Comentou apoiando o queixo nas costas dos dedos da mão direita, seu olhar mudou, ela me olhava assim como no sonho. – Quer dizer que você me deseja?
Novamente, concordei. Não podia mentir que a queria. Ela, então, levantou-se lentamente, apoiou a mão esquerda na mesa e com a direita puxou o meu queixo e me beijou levemente, separando-se logo em seguida. Ela me encarou com ternura, poderíamos ficar lá o dia inteiro, mas infelizmente era segunda-feira e ambas estávamos atoladas de trabalho.
– Tenho que ir. – Falou quebrando o silencio, seu polegar passava no meu queixo.
– Tudo bem, vá, tô te impedindo não. – Respondi e ela sorriu largo.
Pode parecer frio o modo como eu falei, mas era assim que nos entendíamos. Nada daquela lenga-lenga de casal meloso, “ não vai, fica”, “Vou sentir saudades ”, Blablabla. Pelo contrário, era mais fácil nós nos despedirmos gritando, xingando e mandando a outra para tudo que é canto, do que ficar falando esse tipo de coisa clichê e sem graça.
A morena tomou banho, furtou algumas peças de roupa minha, me beijou e foi trabalhar. Ainda eram seis horas, eu tinha mais algum tempo antes de começar a me arrumar, decidi então arrumar a cama, lavar a montanha de louça (que está desde ontem, e que era função da minha namorada caloteira). Assim o fiz, terminando pouco tempo depois.
Tomei banho, vesti uma blusa vinho, calça preta e um chapéu também negro. Coloquei um anel em cada mão, delineie os olhos e corrigi as olheiras. Peguei a chave do carro e da casa, fui para o elevador. Desci até o subsolo, peguei o carro e dirigi ouvindo as músicas que tocava na rádio.
Chegando na produtora, Barbara estava me esperando. Assim que passei pela sua mesa, ela me seguiu falando os recados até chegar na minha sala. Quando terminou, me entregou os bilhetes e sentou-se na minha mesa ao meu lado.
– Agora me conta. Que cara é essa?
– Que cara? – Ri fraca. Ela me olhou seria como se dissesse “minha filha, se você fizer eu falar, vai vir junto com um soco”, meu sorriu se desfez. — Sonhei de novo com a Noah.
Ela se ajeitou enquanto eu sentava na cadeira. Contei-lhe cada detalhe do meu sonho e depois, no café da manhã. Ela ouvia com o cenho franzido, sinal que ela não deixaria nada me interromper. Por fim, ela sorriu maliciosa.
– Garota.. Você deu mole no café da manhã.
– Hã? Como assim? – Perguntei e ela suspirou decepcionada.
– Bia, não faz a loira burra. – A encarei feio. – A Noah falou “tenho que ir trabalhar” as sete e pouco da manhã, sendo que ela só entra as nove. Ela tava de dando a deixa pra você falar “não fica” e vocês se atracarem.
– Atracarem? – Caçoei.
– Cê entendeu, loira burra. – Ela se levantou, caminhou até a sua mesa e voltou com um livro enorme. – Aqui, sua desculpa pra ir pra casa dela hoje anoite.
Peguei o livro, na capa lia-se “Butterfly” por cima de uma imagem de uma mulher de máscara preta.
– Butterfly? – Questionei olhando-a.
– Um cara que eu tava saindo me deu. Quando li eu não gostei da escrita. Comentei com a Noah e ela quis ler. – Deu de ombro.
[***]
Olhei novamente para o livro, respirei fundo e toquei a campainha. Eu estava um pouco.. nervosa? Ansiosa talvez? Bom, eu sei que me sentia da mesma forma que na minha primeira vez, tanto com o homem como mulher.
Ouvi os passos se aproximando e a porta se abriu. Noah apareceu na porta. Ela estava com uma camisa vermelha com a escrita “U are stupid” em letras que a ocupavam inteira, short e estava descalça. Ao me ver, sorriu largo e abriu passagem para eu passar.
– Achei que hoje era o dia de folga. – comentou dando passagem.
Entrei e fui até a sala. Na TV estava uma cena pausada de uma série que eu não conheço. Na mesa de centro, estavam um balde de pipoca e uma garrafa de refrigerante junto com um copo de vidro.
– Era. É. – corrigi. – Mas.. Babs me deu o livro que você queria. – Mostrei o livro.
– Valeu.- Pegou e sorriu. – Mas você sabe que não tinha pressa. — Ela depositou o livro na bancada.
Eu me servi do refrigerante, beberiquei antes de depositar o copo de volta na mesa.
– Ah. Então ta, eu já vou indo.- Me virei para a porta.
Noah deu a volta e bloqueou meu caminho.
– Sem antes conseguir o que você quer?
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