Notas iniciais
Segue a atualização de capítulo. O próximo é o último (?) Espero que gostem ♥

Dezembro, 1976

Poucos dias passaram até que fosse o dia da cirurgia. Eu não sabia como me vestir para a ocasião, então fiquei com um pijama velho que pouco usava e, antes mesmo de entrar no quarto de meus pais, já me sentia tenso. Eu quase nunca pisava ali, porém o fácil acesso a uma pia devido ao banheiro que havia dentro dele, tornou o cômodo o escolhido para que fosse realizado o procedimento. A visão do recinto completamente coberto por um plástico branco me fez engolir a seco. Era estranho ver o chão e os móveis cobertos e fazia minha mente ir para locais bizarros, como a possibilidade de meu sangue espirrar para todo lado, e nem mesmo a visão de Agnes saindo de dentro do banheiro desviou-me dos caminhos mórbidos aos quais meu cérebro me levava.

— Sr. Regulus, pode se deitar aqui.

Ela me indicou a cama que provavelmente havia sido transfigurada para se parecer com um leito de hospital. Meus pais haviam permitido isso? Obedeci de jeito mecânico, não conseguindo deixar de ficar tenso.

— Nervoso?

— Preciso responder?

Não era minha intenção responder com cinismo a preocupação dela, sabendo que era só parte de seu trabalho, mas a ansiedade fazia meu coração palpitar e a boca ficar seca. Eu já tinha entrado em termos com o fato de precisar fazer a cirurgia, mas agora prestes a encará-la, meus pensamentos saiam de meu controle.

— Precisa conversar?

Ela perguntou cuidadosamente, e eu respondi sem pensar.

— Não.

Disparei, e o recinto caiu no silêncio. Ouvia apenas o som de utensílios de metal sendo organizados e do que parecia uma prece vindo do banheiro, presumivelmente era Dr. Saito se preparando. Mesmo que eu não entendesse o conteúdo da oração, enquanto encarava o teto, me fez refletir.

— Na verdade… me fale alguma coisa.

Murmurei, quase constrangido com o pedido repentino, sem me atrever a me virar para fitar Agnes, embora sentisse o sorriso contido através de seu tom de voz.

— Sobre o quê?

— Não sei… só… — hesitei, encolhendo os ombros como se quisesse me afundar na superfície dura e fria abaixo de meu corpo. Eu não tinha ideia. Eu só queria ter algo para prestar atenção que não fosse minha espiral de pensamentos. Em como meu coração doía e tudo que eu conseguia pensar era Remus, Remus, Remus. —... converse comigo. Me conte algo sobre você.

— Certo… — Um instante de silêncio e eu quase me arrependi de ter pedido. — Meus pais são japoneses, por isso sei fluentemente o idioma, mas eu nasci aqui. Meu pai queria estudar a medicina ocidental. Eu quero seguir os passos dele e ser uma medibruxa que una métodos da medicina oriental e ocidental.

— Isso é… bem legal, na verdade.

— Obrigada. — Ouvia ela se movimentando enquanto conversava comigo, mas eu não tirava os olhos do teto. — E o senhor? O que pretende fazer?

— Eu vou assumir o legado da família Black.

Ela riu delicadamente como se reprovasse minha resposta automática, o que me fez franzir as sobrancelhas por instinto.

— Não digo isso… O que você quer fazer? O senhor não tem algum tipo de sonho?

Fiquei, mais uma vez, em silêncio. Meu estômago parecia dar uma volta, fazendo um nó se formar. Desde que fiquei doente, eu não me atrevia a fazer muitos planos. E com a cirurgia, ainda assim não conseguia vislumbrar um futuro. Eu poderia morrer, afinal, e a ausência de visão de futuro me ajudava a lidar com o fato. Ao menos, era o que eu pensava.

— Eu… não sei.

Pela primeira vez, me permiti a sinceridade, sentindo os olhos ardendo. Eu não queria sucumbir ao medo, mas eu estava assustado. Era para eu estar pronto, no entanto todos os sentimentos pesavam em meu peito, tornando difícil respirar. Mesmo que a cirurgia fosse um sucesso, o que aconteceria? Eu ainda seria eu? Eu conseguiria de fato viver? Ou voltaria a só sobreviver dia após dia, tentando atender expectativas e agradar aqueles ao meu redor?

Agnes repentinamente apareceu em meu campo de visão, me fitando do alto com um sorriso leve, o que me deu um susto e afastou aqueles pensamentos.

— Não precisa ser algo grande. O que quer fazer depois da cirurgia? Você deve conseguir pensar em algo.

Respirei fundo e ela logo voltava a se afastar, aquele ponto de mudança serviu para alterar um pouco o fluxo mental em que estava. Não precisava ser grande…

— Eu… quero jogar uma partida de quadribol. E quero sair com o Barty… tomar um sorvete, quem sabe…

Ela continuou me fazendo perguntas simples, me incentivando a falar. Que posição que jogava. Quem era Barty. Qual o meu sabor de sorvete favorito. Pareciam tópicos idiotas falando sinceramente, mas me tirou do ciclo de pensamentos mórbidos e desesperadores, e eu sabia que precisava ficar calmo para a cirurgia, caso contrário meu nervosismo podia gerar complicações. O médico havia deixado isso claro. A técnica podia ser bem fajuta, mas deu certo, e quando percebi, ambos estavam prontos, vestidos com aventais, máscaras, luvas e toucas. O Dr. Saito me entregou uma poção, a qual tomei obedientemente. Vi uma luz ser acesa bem em cima dos meus olhos, fazendo com que doesse, e não percebi quando apaguei enquanto pensava sobre Bartemius, sorvete e quadribol.

Acordei me sentindo grogue.

Demorei a conseguir entreabrir os olhos, percebendo que era fim de tarde pela forma como o sol tingia o recinto com tons suaves de alaranjado. Como era inverno, imaginei que deveria ter sido um dia agradável, já que o sol resolveu aparecer. Me sentia desnorteado, piscando lentamente enquanto tentava me encontrar. Pela textura das cobertas e a maciez familiar do travesseiro, eu estava em meu quarto, como logo confirmei ao abrir os olhos e piscar, focalizando a visão. Minhas pálpebras pesavam. Movimentei apenas a cabeça: todo meu corpo doía, os músculos doloridos e travados pela falta de uso, mas quando virei o rosto, vi minha mãe sentada em uma poltrona que eu tinha certeza que não fazia parte da decoração usual do meu quarto, os olhos fechados como se dormisse.

— Mãe?

Chamei sem entender, minha garganta doendo quando tentei falar. Minha voz soou rouca e baixa, mas foi o suficiente para fazer Walburga se levantar de sobressalto e eu entendi que ela de fato estava dormindo.

— Regulus! Como se sente? — Se aproximou rapidamente da cama, mas antes que eu respondesse, ela gritou por Monstro, o que me fez apertar os olhos por sentir os ouvidos sensíveis latejarem.

… A cirurgia!

De súbito me recordei, mas não consegui sentar. Mesmo que o impulso tenha sido me apoiar na cama, meu corpo vacilou e senti os braços de minha mãe me apoiarem, auxiliando-me a sentar. Ela serviu um generoso copo d’água e me entregou, fitando-me com aflição . Enquanto virava o conteúdo, Monstro chegou, Walburga mandou que buscasse Orion e nem tive tempo de olhar para o elfo doméstico que logo sumia de vista novamente. Só quando esvaziei o copo que pigarreei, sentindo minha voz retornar.

— Quanto tempo eu dormi? — perguntei, tentando me localizar no tempo, mas fiquei satisfeito de, apesar das dores acometendo meu corpo, a voz ter voltado ao normal.

— Dois dias e meio, mais ou menos.

Assenti, no fundo, não estava surpreso. Meu corpo doía pela falta de uso, como percebi. No mais, me sentia… normal. Depois de acalmar meus pais e garantir que eu estava bem, afinal eu via o cansaço especialmente no rosto de minha mãe — que não era de sair cochilando em poltronas, não fazia o estilo dela — descobri que teria de tomar uma poção cicatrizante pelos próximos dias, o médico voltaria para me examinar, mas tudo havia corrido bem.

Eu me sentia confuso. No entanto, disseram que era normal e eu não deveria me preocupar. Ainda assim, quando Dr. Saito e Agnes voltaram, não pude deixar de querer tirar algumas dúvidas.

— Então as flores não vão voltar?

— Não. O senhor está curado, Sr. Regulus.

Franzi o cenho. Por algum motivo, me sentia incomodado. Minhas lembranças estavam embaralhadas e eu não conseguia entender como tudo aquilo começou.

— E… nós sabemos a causa?

Agnes me olhou solenemente antes de voltar-se para traduzir o que eu havia perguntado ao médico.

Ele perguntou a causa.

Vi o médico franzir o cenho, mas eu não conseguia entender o que diziam através de suas expressões.

Desconhecida. Se não se lembra, é melhor que continue assim. Melhor evitar estresse.

Agnes assentiu antes de se voltar para mim.

— A causa é desconhecida. É uma doença rara, como sabe, então não tem muitos estudos. De toda forma, Saito-sensei recomendou que descanse e evite estresse até que se recupere totalmente.

Assenti, decidindo não questionar. Algo parecia… estranho. Alguma coisa parecia fora de lugar, porém ao tentar pensar, senti minha cabeça latejar e, após dizer isso a eles, o médico me deu uma poção para dor que acabou me fazendo adormecer. Meu último vislumbre foi Agnes se aproximando, cobrindo-me e em seguida erguendo a varinha em punho.