Gotten
7 6. "Festa do Pijama" - Parte 1
Notas iniciais
Minha cabeça girava conforme as luzes piscavam e as pessoas – bêbadas e, talvez, até um pouco “animadas” por causa das pílulas coloridas à disposição em enormes bacias de porcelana decoradas – esbarravam em mim, dançando e tropeçando em seus próprios pés. Do outro lado do salão, eu podia ver Josh e Thomas engolindo um punhado de comprimidos de diversas cores e tamanhos, visíveis mesmo de tão longe.
Recostei-me ao balcão, segurando o meu copo de refrigerante como se, a qualquer momento, alguém pudesse derramar algum tipo de bebida alcoólica ali ou, quem sabe, pudesse pôr qualquer outra coisa ali dentro. Sei que estou sendo incrivelmente paranoica, mas é algo que não consigo controlar, por mais que eu queira.
Já procurei por Lanie em todos os cantos, mas ela parece ter evaporado da face do planeta; talvez tenha dado uma “fugida” com Javi, o que, de certa forma, imagino que seja verdade. Ao meu lado, de repente, apareceu uma jovem loira com um enorme decote e uma saia incrivelmente curta e lotada de lantejoulas e, por mais que eu quisesse ser deixada em paz – e estivesse irradiando isso para todos os que passavam perto de mim –, ela não pareceu entender o recado, porque puxou algumas pílulas coloridas e pálidas da enorme bacia posta no balcão atrás de mim e estendeu a mão lotada de comprimidos, remédios que eu nem sabia para o que serviam, para mim, acomodando um enorme sorriso em sua face.
Sacudi a cabeça, mantendo o contato visual – ou pelo menos, tentando – enquanto ela empurrava todos aqueles comprimidos garganta abaixo com algum líquido que, de verdade, eu esperava não ser algo com álcool na composição. De repente, quase todas as meninas – mesmo que bêbadas ou “altas” – viraram a cabeça para a porta, deixando que imensos sorrisos transparecessem, e eu não queria ser uma delas, mas não posso deixar de admitir que estou realmente curiosa. Apesar de… bem, apesar de já ter um ótimo palpite sobre o que – quem – quer que seja.
– Não vire a cabeça – ouvi a voz de Kevin ao pé do ouvido – Isso só vai aumentar o enorme e inflado ego dele e, acredite, não vai ser nem um pouquinho legal ouvi-lo falar sobre o quão maravilhoso ele é.
– Eu não ia virar a cabeça – menti, erguendo os olhos para ele, encarando os olhos de um azul pálido.
Um sorriso bobo pincelava sua face, esticando seus lábios e fazendo os músculos de suas bochechas se contraírem mais do que eu imaginei ser possível, deixando-o com uma expressão mais jovial e, de repente, peguei-me questionando o motivo que levara a toda aquela incredulidade sobre o fato de ele ter uma namorada.
– Talvez não devesse mesmo fazer isso – ele murmurou, enchendo o copo de plástico transparente com o líquido estranhamente vermelho que tinha visto mais cedo – Eu não gosto nem um pouquinho do que estou vendo… Kate, não é?…, e acho que você também não vai gostar, então, finja que eu sou uma boa companhia para que ele vá embora com qualquer uma e não venha encher o meu saco.
– Por que você me odeia tanto assim? – larguei o meu corpo sobre o balcão, e acredito que tenha caído no chão – De verdade, o que eu fiz pra você?
– Eu não odeio você – ele deu um gole na bebida e franziu a testa – Eu só não gostei de você ter praticamente me exposto para todo mundo que eu conheço, tá legal? Não sou novo na cidade, mas ainda não conheço muita gente e aquela é a minha galera! Você me expôs!
– Hã… me desculpe? – tentei – Eu só estava tentando me enturmar, não queria fazê-lo parecer estúpido ou exposto na frente deles, eu juro.
– Tudo bem – ele deu de ombros – De alguma forma, eu sei que você vai conseguir mudar a todos nós, e não digo isso como se fosse uma coisa ruim, entendeu? Eu só acho que você vai conseguir mudar o nosso estilo de vida, fazer com que nos ajeitemos e comecemos a pensar e agir como adultos. Então, obrigada.
– De nada, eu acho. – respondi, mas ele já tinha ido embora.
Cruzei os braços sobre o peito e suspirei. O volume da música, de repente, parecia ensurdecedor e eu sentia o forte odor de suor e sabe-se lá mais o quê começando a embrulhar o meu estômago. O gosto da bile emaranhou-se nas minhas papilas e a própria queimava a minha garganta; contrações faziam com que o vômito lutasse mais um pouco para sair. Cobri a boca com as mãos e comecei a, com dificuldade, abrir espaço entre o mundaréu de gente bêbada e suada.
Quando finalmente senti o ar puro no rosto, suspirei aliviada, sentindo o desconforto diminuindo consideravelmente. É, eu sei que não sou o tipo de “party girl”, mas tenho que começar a me acostumar a isso se quiser me enturmar, viver aqui, mas… bem, talvez não hoje.
Para todo mundo que ainda estivesse pelo menos um pouquinho sóbrio, eu estaria tentando me livrar de uma enorme quantidade de álcool que pudesse ter ingerido, mas ninguém me conhecia de verdade, ninguém sabia o asco que eu sentia do veneno que ingeriam como se fosse bom ou até mesmo para diversão. Não demorou muito até que eu percebesse que não estava sozinha ali fora, ouvindo um gemido vindo de perto… de muito perto. E, claro, eu sabia o que estava acontecendo ali e tinha a noção de privacidade, só… só que eu não conseguia mover as minhas pernas, meus músculos pareciam ter sido paralisados e eu não fazia ideia do motivo.
– Eu não posso – ouvi o choramingo de Rick, e estremeci, sentindo meu coração subindo pela garganta – Não consigo. Tá, é complicado, e eu sei que você não tá aqui comigo pra ouvir a minha historinha triste, então vai embora, tá legal? Eu não vou tentar explicar porque isso só vai me fazer piorar, vai embora.
Não sei aonde a menina se meteu, mas eu ouvi os choramingos dela ao se afastar dali, e também pude ouvir o choramingo baixinho que Rick soltou. Queria poder deitá-lo em minhas pernas, abraçá-lo e dizer que estava tudo bem, mas eu não podia fazer isso porque não fazia ideia do que estava deixando-o tão mal assim. Eu queria poder ajudar, mas primeiro eu teria que descobrir como sair dali. Estava de costas para ele, mas talvez, do ponto de vista dele, eu estivesse prestando atenção no que ele fazia ali, sozinho.
– Está olhando o quê? – ele perguntou, fungando e chutando a coisa mais próxima; pulei de susto e flexionei os joelhos, perdendo o equilíbrio – Ei, tá tudo bem aí?
Emiti um som estrangulado, pedindo aos céus que a curiosidade dele não fosse aguçada e que ele não viesse até mim. Agora, sentia-me horrível por ter visto a cena entre ele e a menina, e tudo o que eu queria era voltar para dentro da casa, em meio àquelas pessoas esquisitas cheias de álcool e drogas no organismo, pulando e sacolejando conforme a batida da música. Caí na grama de joelhos, comprimindo a barriga e completamente confusa; por que eu estava tão mal se não havia ingerido nada demais?
– Flor? – merda – O que aconteceu com você? Desde quando você está parada aí? Meu Deus!
– Não precisa se preocupar – soprei – Pode voltar à festa… vou tentar voltar para casa, está tudo bem.
– Não está não – ele ajeitou os meus cabelos e beijou a minha cabeça – Você está passando mal e eu não quero que você passe mal sozinha porque eu sei o quão ruim é isso. Vamos lá, Flor, vou levá-la embora.
– Não – murmurei – Eu não quero que vá embora, fique aqui, eu vou sozinha.
– De jeito nenhum – ele rebateu, passando os braços por debaixo das minhas pernas e colocando-me em seus braços – O que está acontecendo lá dentro?
– Não faço ideia – tossi, sentindo os pulmões queimando – Eu acho que… acho que eles puseram algum tipo de gás lá dentro.
– É claro – ele riu baixinho, ou pelo menos, pareceu-me algo do tipo – Vamos lá, vou levá-la para um lugar seguro até que esteja recuperada do efeito do gás, tudo bem?
– Acho que sim – gaguejei, sentindo a visão ficando turva – Ei, Rick?
– Sim?
– Você vai estar comigo quando eu acordar? – minha voz saiu como a de uma criança e nunca achei isso tão engraçado!
– Sempre – senti seu beijo molhado em minha testa, e então apaguei.
△
Fazia calor debaixo das cobertas e eu torcia muito para que o que me lembrava – sobre uma festa e correria até o lado de fora, gases e drogas dispostas em bacias de porcelana – fosse tudo uma grande invenção da minha mente perturbada, mas assim que respirei fundo, senti o forte cheiro de fumaça e nicotina, abrindo os olhos quase que imediatamente, colocando-me sentada antes mesmo de avaliar o local.
Grunhi quando a pontada na parte de trás da cabeça me atingiu e joguei os cobertores para longe, abraçando o meu próprio corpo quando ouvi a dobradiça da portinhola do quarto sendo aberta. Nesse exato momento, quis morrer.
Richard saiu do que eu imaginei ser um banheiro com uma toalha rodeando sua cintura; automaticamente, escondi o rosto nos cabelos e olhei para mim mesma – graças a Deus, estava vestida. Tomando toda a coragem do mundo, ergui a cabeça e olhei para ele, que parecia paralisado à frente da porta, com uma das mãos segurando a toalha com força como se estivesse com medo de deixá-la cair a qualquer momento.
– Por que eu estou aqui? – perguntei, torcendo o nariz – É aqui que você mora?
Ele não respondeu, e parecemos ficar em silêncio – um constrangedor silêncio – por minutos até que eu começasse a ficar irritada.
– Por que não está me respondendo? – cruzei os braços sobre o peito, fazendo careta para ele – Por que estou deitada na sua cama?
– Você passou mal na festa – ah, a festa que eu pensei ser um simples pesadelo era real – Havia, sei lá, um gás esquisito que ela normalmente coloca nas festas que dá… desculpa, eu tinha me esquecido disso. Deixei você lá dentro sozinha e Lanie, pelo visto, também o fez. Prometo que nunca mais vou fazer isso, tudo bem?
– O quê? – eu ri, achando a situação incrivelmente engraçada – Do que você está falando? Gás?
– É tipo uma droga transformada em líquido que as pessoas usam como estimulante nas festas, Flor – ele dá de ombros como se fosse uma coisa óbvia; para ele, poderia ser, mas eu não fazia ideia de que as pessoas faziam isso – Mas não são todas as pessoas que fazem isso, no caso de você estar se perguntando.
– Estou com medo de voltar a uma festa depois disso – solto uma risadinha, mas me arrependo disso assim que a parte de trás da minha cabeça começa a doer mais uma vez; fecho os olhos e sinto o colchão afundar à minha frente e, quando torno a abri-los, nossos rostos estão próximos, bem mais próximos do que eu gostaria que estivessem.
Mas não consigo – e também não sei se meu corpo deseja isso – afastá-lo porque estou hipnotizada pela profundidade do azul em suas íris. Posso afirmar com toda a certeza do mundo que nunca vi olhos mais azuis em toda a minha vida; mesmo os de Will não chegavam a esse ponto, a esse brilho que ele tem agora, enquanto encara os meus próprios olhos – verdes e sem graça.
– Sua cabeça está doendo? – ele pergunta, desviando os olhos para as próprias mãos, entrelaçadas sobre a toalha branca – Porque eu tenho alguns analgésicos para dor de cabeça no banheiro. Você também pode tomar um banho, se quiser, e eu posso te emprestar uma roupa minha.
– O quê? – engasguei.
– Está bem tarde, Flor – ele riu baixinho – Você apagou no meu colo e deu o maior trabalhão pra trazer você pra cá. Aliás, sabia que você faz uns barulhinhos enquanto dorme? É muito fofo.
– Pare de falar dos meus barulhinhos – briguei – Por que não posso ir pra casa? Que horas são?
– Poder você pode, não vou prendê-la aqui – ele riu baixinho, passando as mãos pelos cabelos molhados – É só que não acho que seus pais vão gostar de recebê-la às três e meia da manhã com uma dor de cabeça dos infernos e cheiro de bebida. Mas, se quiser ir, tudo bem.
– Não – torci o nariz mais uma vez ao respirar fundo perto dos meus cabelos e sentir o cheiro forte de cerveja – Mas também não quero ser um pé no saco pra você; aqui é pequeno, já pude perceber isso. Onde é que você vai dormir, sabichão?
– Eu durmo no colchão aqui embaixo – ele piscou – Mas agora, vou trazer os analgésicos e você vai pro banheiro tomar um banho. Tem toalhas limpas perto da pia; vou deixar as roupas lá quando eu as encontrar, tudo bem?
– Mas você não pode entrar no banheiro enquanto eu estiver tomando banho – revirei os olhos como se fosse uma coisa óbvia, mas então percebi que, para ele, podia não ser.
– As cortinas não vão me deixar ver nada, Flor – ele riu baixinho – Relaxe, eu não vou me aproveitar de você.
– Eu não pensei que fosse – menti, tentando esconder o rubor nas bochechas; ele inclinou o corpo para perto de mim e beijou a minha testa.
– Vai logo.
E eu fui.
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