Gotten
6 5. Duas Verdades e Uma Mentira
Notas iniciais
Anteriormente, em “Gotten”:
“Só de ler os nomes dos pratos do cardápio eu já sentia a ânsia tomando conta de mim; o gosto da bile ficou na minha garganta mesmo depois de ter jogado água goela abaixo. Respirei fundo ao olhar para Richard, que me olhava com ambas as sobrancelhas arqueadas.
– O que foi? – pude ouvir o desespero em sua voz.
– Nada, eu só… eu não estou mais com fome. – tentei contornar o assunto – Por que me trouxe para almoçar com você?
– Porque eu quero que me veja como um bom amigo – ele deu de ombros – Não quero que me veja só como o garoto que fica com qualquer uma ou que gosta de festas só pela adrenalina de ser acuado por qualquer uma.
– Dessa parte eu não sabia – tentei brincar, mas ele sequer sorriu.
– Eu quero que veja a outra parte de mim, Flor – ele soprou – Eu quero que veja que posso me preocupar com uma pessoa sem que esteja almejando transar com ela.
– Profundo – zombei – Eu nunca disse que não se importava com ninguém.
– Não, mas é o que todos pensam quando me conhecem – ele pegou a minha mão e acariciou-a com o polegar – Quero que confie em mim quando digo que ninguém irá lhe fazer mal, que nenhum babaca jamais irá tocá-la sem a sua permissão.
– Imagino que nem que eu queira – brinquei, e consegui fazer com que sorrisse.
– Imaginou certo – ele piscou e virou a cabeça para olhar os meninos da outra mesa; por um curto período de tempo, encolhi os ombros – Vamos sair daqui, Flor.
– Para onde vamos? – perguntei enquanto punha-me de pé.
Algo no sorriso dele não me transmitiu muita confiança, mas segui-o mesmo assim. Afinal, que outra escolha eu tinha?”
Uma toalha quadriculada estava jogada sobre a areia do parquinho e, ao redor de toda a comida, todas as pessoas que eu havia conhecido jogavam papo fora. Tentei recuar, mas o braço de Richard ao redor da minha cintura me impediu; olhei para ele, querendo fuzilá-lo com o olhar, mas não sabia exatamente como se fazia isso, então me contentei com uma careta. Ele riu da minha tentativa falha de tentar parecer chateada com ele e me guiou até onde todo mundo estava.
Risadas preencheram meus ouvidos assim que nos aproximamos mais um pouco e, logo, fui tomada nos braços por Lanie, que sussurrou palavras de arrependimento – apesar de ela não ter nada do quê se arrepender – em meu ouvido e alisou os meus cabelos com rapidez, como se, assim, todos os meus males pudessem ser extintos.
Se fosse assim, pensei, eu não teria tantos problemas.
Havia um menino ali, inclusive, que eu não fazia ideia de quem fosse, mas do jeito que olhou para Richard e do jeito que conversava alegremente com Javi, imaginei que fosse o menino do qual Lanie havia me explicado; o nome dele era Kevin, ou alguma coisa assim, não era? Sentei-me ao lado de Joshua, que tratou logo de passar um de seus braços sobre meus ombros, puxando-me para mais perto; deitei a cabeça em seu peito e deixei que alisasse os meus cabelos.
Recebi um olhar feio de Richard, mas não me importei, afinal, fora ele quem me trouxer aqui e, inclusive, fora ele também que me apresentara àquelas pessoas, então ele não tinha nenhum direito de ficar chateado com a nossa proximidade. Logo, Lanie distribuiu pratinhos de plástico que, imagino, voariam rapidamente. Também retirou da enorme cesta uma garrafa de bebida, fazendo todos uivarem em resposta; ela riu e distribuiu os copinhos descartáveis, despejando o líquido amarelo pútrido em cada um. O cheiro de álcool ficou insuportável, mas acho que, se quiser continuar vivendo com eles, vou ter que começar a me acostumar com tudo isso.
– E, para a dama ao meu lado – ela fez uma reverência desajeitada para mim, o que fez uma gargalhada explodir dos meus lábios –… uma água sem gás!
– Obrigada – eu ri, pegando a garrafa gelada de suas mãos – Tenho que admitir que me surpreenderam ao fazer isso aqui; tipo, a culpa do meu estresse não é de nenhum de vocês e tudo o mais, então eu…
– Ei – Joshua ergueu o meu rosto com dois dedos, forçando-me a olhá-lo; ouvi o som de um copo sendo amassado, mas não desviei o olhar – Nós somos seus amigos e queremos ver você contente; sabemos que a culpa não é nossa, mas também sabemos que, como amigos, temos que fazer um esforço para vê-la feliz. Isso tudo aqui foi ideia daquele babaca ali.
Ele esticou o braço e apontou para Richard, que tinha um copo rasgado nas mãos e as bochechas infladas pelo excesso de líquido posto na boca; eu ri baixinho e assenti, sentindo as lágrimas começando a queimar os meus olhos. Gaguejei, colocando a garrafa sobre a toalha, e me pus de pé, murmurando alguma coisa sobre precisar ficar sozinha por alguns minutos, e comecei a me afastar de todo mundo.
Meu coração martelava no peito e o sangue pulsou com violência em meus ouvidos quando sentei sobre um hidrante velho; quando cheguei aqui pela primeira vez, imaginei que nunca fosse me ajustar, que nunca pudesse arranjar amigos aqui, porque todos eram tão diferentes de mim que nem valia a pena tentar, mas agora… agora eu sei que todos os meus julgamentos foram errôneos e que eu não podia desejar nada mais senão aquelas pessoas que estão sentadas em roda, nada mais senão aquelas pessoas que, em menos de duas horas, conseguiram arrumar um piquenique só para me ver sorrindo.
Folhas foram pisoteadas atrás de mim e eu virei a cabeça, lutando contra o rio de lágrimas que insistia em correr, e vi Joshua com os braços abertos, oferecendo-me seu abraço, oferecendo-me seu carinho. Sem pensar duas vezes, pus-me de pé e deixei que me embalasse nos braços, apertando-me com força e beijando a minha cabeça; envolvi seu corpo com os meus braços trêmulos e respirei fundo, aspirando o perfume de amêndoas que exalava de sua pele.
– Eu estou aqui para você – ele anunciou – Saiba disso.
– Tudo bem – eu ri baixinho; reunindo toda a minha força de vontade, afastei-me de seus braços e respirei fundo – Já podemos voltar.
– Tem certeza? Eu não me incomodo de ficar aqui com você – ele içou uma sobrancelha, deixando um sorriso malicioso rasgar seu rosto; eu ri e bati em seu peito, começando a caminhar – Ei, tudo bem! Não precisa usar violência!
– Você mereceu – eu disse, tentando conter um sorriso, mas sem muito sucesso – Richard tinha mencionado um jogo antes, hoje de manhã, enquanto estávamos indo encontrar vocês.
– Duas verdades e uma mentira? – ele riu – É o que nós normalmente fazemos quando estamos entediados, mas se você quiser, podemos jogar! Será divertido conhecer mais da sua história…
– Não tem nada de interessante na minha história, pode ter certeza! – eu ri – Por que você veio atrás de mim?
– O Rick ia vir – ele explicou – Mas eu achei que ia parecer perseguição da parte dele e resolvi ver qual era o problema, então encontrei você chorando. Ainda não entendi o motivo; quer me explicar?
Balancei a cabeça e desviei o olhar para os meus pés no asfalto que, agora, pareciam bem interessantes.
– Imaginei que não – ele apertou a minha bochecha e voltou correndo para o parque, onde todos o receberam com murros no peito e xingamentos que imaginei serem constantes, pois ele não se abalou ao ouvi-los.
Eu ri quando Lanie me puxou para baixo, forçando-me a sentar na terra escura ao seu lado; Josh se sentou à minha frente, piscando para mim, o que fez com que um imenso sorriso aparecesse em meu rosto. Richard não pareceu tão confortável com aquela situação, já que tossiu ruidosamente e depois soltou um pigarro alto; Lanie mandou que Thomas o acotovelasse e eu ri ao ver a expressão irritada dele quando viu o cotovelo indo até seu peito.
– Se não quiser perder seu membro mais sagrado – ele apontou para as calças de Thomas –, sugiro que não faça o que lhe foi pedido. Sabe o quão maluco eu posso ser; não tente nada comigo, porque sabe bem que se arrependerá depois.
Credo, pensei, mas não disse nada.
– Por que estamos sentados em uma roda? – perguntei, coçando os olhos.
– Eu ainda devo a você o Duas Verdades e Uma Mentira, Flor – murmurou Richard, do outro lado da toalha; sorri para ele e sacudi a cabeça. – Tudo bem, quem começa?
– Eu! – Lanie ergueu a mão e riu baixinho, cutucando-me com o cotovelo – Tudo bem, vamos lá, adivinhem, seus porcos: gosto muito de ser abraçada, tenho os amigos mais idiotas do mundo e tenho medo de conhecer as ficantes do Rick.
– Espero muito que a última seja verdade – Javi murmurou e eu comecei a rir, contagiando a todos.
– Desculpem – gaguejei, ainda tentando acalmar a mim mesma – É que… aimeudeus, me desculpem!
– O que é tão engraçado? – Richard perguntou emburrado, cruzando os braços sobre o peito; aquela cena típica de menino mimado foi o que me fez rir ainda mais – Tudo bem, a última é verdade, mas as duas outras também são. Onde está a mentira?
– Justamente a primeira – Joshua se pronunciou, sorrindo amplamente – Ela não gosta de ser abraçada, é para o que ela vive; abraços são, para ela, como comida, pra gente normal.
– Garoto, se você disser essas palavras mais uma vez, eu juro que castro você! – ela ameaçou, e eu contive a risada explosiva que corroia a minha garganta – Leio muitos livros de medicina e sei matar você e fazer parecer um mísero acidente; não mexa comigo, garoto esquisito.
– Saiba, garota esquisita, que eu também leio livros de medicina – ele piscou para mim e icei as sobrancelhas diante daquilo – Caso alguma coisa aconteça com o meu lindo…
– Ninguém quer saber, cara, que nojo! – riu Kevin, batendo-o no peito – Tá, agora é a minha vez, né? Ok… hum, eu tenho uma namorada linda, gosto de videogames e nunca me meti numa briga.
– Essa é difícil! – zombou Thomas – Até onde eu sei, tanto a primeira quanto a última podem ser mentiras…
– Cruel – murmurei, chamando a atenção de todos – Isso foi cruel, sabia? Eu acho que a última é mentira.
– Como você sabia? – ele gaguejou, olhando para mim como se eu tivesse acabado de dar um tapa em seu rosto.
– Você é fácil de ler – eu ri – Como um livro aberto!
– Você é estranha – ele praguejou, cruzando os braços sobre o peito.
– Er, obrigada? – sorri, sentindo as bochechas queimando; olhei ao redor e vi todas aquelas expressões divertidas e, no meio de todas elas, uma que poderia me dar medo se eu soubesse que era para mim – Quem vai agora?
– Você, Flor – Richard sorriu para mim, relaxando os músculos e estalando os dedos.
– Tudo bem – dou de ombros e mordo os lábios, tentando pensar em alguma coisa que satisfaça a todos eles – Er… bem, fui praticamente obrigada a vir para esta cidade, não gosto da minha companhia atual e às vezes me sinto mais responsável do que os meus pais.
– Espero que a do meio seja mentira – Lanie me cutucou com um enorme sorriso pincelando seu rosto e eu ri, passando um braço sobre seus ombros – Eu sabia! Você ama todos nós!
– É claro que ama – Joshua sorriu para mim, fixando seus olhos nos meus – Nós somos amáveis demais para que ela não o faça.
– Convencido – repliquei, extraindo uma risada dele – Esse jogo até que é legal! Mas é meio cansativo, não é?
– Podemos jogar algum outro – Kevin deu de ombros – Mas acho que é tão chato quanto, além de ser muito obsceno.
– De obscenidade, Kevin, já temos o Rick aqui se esfregando com todas aquelas bonecas Barbie siliconadas – Lanie observou, e eu ri – Ah, por falar nelas, Kate…
– Opa! – eu ri, afastando-me dela e ajeitando a postura – O que eu tenho a ver com elas?
– Nada! – ela riu também, dando um soquinho no meu braço – É só que, bem, hoje uma delas vai dar uma festa e, como fui praticamente intimada a ir, achei que fosse gostar de ir também, o que acha? Não sou uma companhia assim tão ruim e prometo não me meter em encrencas.
– Eu vou – dei de ombros – Só espero que não seja tão assustadora quanto aquela que fui quando cheguei.
– Ah – Richard sorriu para mim como quem sabe de tudo –, você não tem ideia!¹
Escondi o rosto nos cabelos e agradeci ao vento por estar ao meu favor, jogando os meus cabelos para frente do rosto; Joshua se pôs de pé e caminhou até mim, ajudando-me a ficar de pé e envolvendo os meus ombros com um de seus braços. Deixei que fizesse isso e sorri quando ele ajeitou meus cabelos atrás das orelhas; Richard se pôs de pé pouco tempo depois e cerrou os punhos.
Corei furiosamente quando, de repente, todos estavam de pé, olhando para mim como se eu fosse o prêmio da noite.
– Posso levá-la em casa? – ele sussurrou em meu ouvido, e senti o calafrio percorrer a minha espinha; olhei para ele e encarei seus olhos escuros.
– Pode – sussurrei de volta enquanto ele olhava para todos com um sorriso vitorioso no rosto.
Não me atrevi a olhar para Richard porque sabia que ele estaria com aquela mesma expressão magoada no rosto, com os punhos cerrados e o maxilar trincado; queria poder dizer a ele, agora, que não há motivos para que ele sinta ciúmes porque eu não sou dele, porque eu tenho a minha própria vida e, se eu quero que Joshua me leve em casa, se quiser que ele ocupe o lugar de alguém na minha vida, então assim eu farei.
Porém, ao deixá-lo ali como um cãozinho perdido, senti o meu coração apertar e não entendi bem o motivo porque, apesar de estar gostando de ser abraçada por Joshua, minha cabeça e meu coração pareciam estar à milhas de distância.
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