Gotten
5 4. "Completo Inútil"
Notas iniciais
Anteriormente, em “Gotten”:
“- Quem é esse, Kit Kat? – ele pergunta com ironia na voz e eu vejo as sobrancelhas de Richard se elevarem.
– Que tipo de apelido é Kit Kat? – ele olha para mim e eu sinto as bochechas fervendo – Quem diabos é você?
– Eu deveria estar fazendo essa pergunta a você, babaca – retruca.
Antes que eu possa impedir qualquer contato dos dois, Richard avança para cima dele e não há nada que eu possa fazer para pará-lo. Lanie cobre a boca com ambas as mãos e vejo Javi e mais todos os outros meninos tentando retirar Richard de cima de William; meu coração palpita no peito e, antes que eu me dê conta, meu corpo está envolvido nos braços de Lanie, que deixa que eu apoie minha cabeça em seus ombros e espere até que os dois estejam em lados distintos da estrada.
Não faço ideia do que fazer depois, mas há uma coisa que eu não posso, em circunstância alguma, fazer: fugir da realidade.
Posso ter terminado com William, nós dois podemos ter seguido caminhos distintos e eu posso ter mudado de cidade, mas se há uma coisa da qual me lembro sobre ele é que sempre foi muito teimoso e sempre consegue tudo o que quer e, até onde sei, Richard também é assim… por mais que eu esteja fugindo de gente assim, parece ser um fardo que eu tenho que carregar.
E, enquanto mantiver contato com qualquer um dos dois, é isso que vou ter que presenciar todo o tempo: possessividade e ciúmes. Eles são os caçadores de recompensas e eu sou a joia preciosa; só o tempo poderá dizer qual dos dois conseguirá a recompensa.”
Richard e William se encaram como se pudessem matar um ao outro naquele exato instante e, para poupar seus esforços, coloco-me entre ambos; atraímos a atenção dos outros meninos, que começam a se aproximar de nós. Faço uma nota mental para me lembrar de agradecer a eles depois; olho para trás de William e vejo o grupo que costumava andar conosco enquanto estávamos juntos e, ao perceberem meus olhares, sorrisos aleatórios aparecem em suas feições.
Olho para Lanie, que entrelaça nossos dedos e mantém-se ao meu lado enquanto revezo meus olhares entre os dois meninos, que parecem sedentos por sangue agora. Aperto sua mão e recebo outro aperto em resposta; desvio o olhar para os grupos atrás de cada um e começo a sentir meus pulmões queimando.
Sem esperar que alguém vá atrás de mim, me solto do apoio de Lanie e começo a correr não sei para onde, só quero me afastar deles, me afastar do que pode estar prestes a acontecer, quero me afastar da confusão porque nunca mais achei que veria William.
Porém, não tenho sucesso na minha fuga porque logo sou embalada por braços fortes, que me prendem no lugar. Respiro fundo e tento me desvencilhar, mas não consigo, então desisto de lutar e só fico olhando para a enorme estrada, que parece se estender por mais mil quilômetros.
Meu coração palpita atrás das costelas e eu tenho medo do que pode acontecer caso vire a cabeça para ver quem me abraça e é por isso que mantenho a postura ereta e os olhos focados na rodovia; lentamente, sinto os braços me abandonando e, então, o canto dos pássaros enche meus ouvidos e acalma meu coração, que bate desenfreadamente, fazendo o sangue pulsar com força em meus ouvidos.
– Flor? – ele me chama, erguendo meu queixo para que eu o encare – Quem é aquele?
– William – dou de ombros – Já contei a você sobre ele, lembra?
– Lembro – ele ri com ironia – Ele é o babaca que trocou você por uma qualquer, não é?
– É – é a minha vez de rir – Mas parece que agora ele mudou de ideia!
– Não me diga que quer voltar para ele – ele pede – Por favor, não me diga que vai voltar para aquele saco de estrume porque ele não merece você.
– O que faz você pensar que eu voltaria para ele? – pergunto, cruzando os braços sobre o peito e olhando dentro de seus olhos.
– Não sei – ele dá de ombros e olha para mim como se fosse óbvio – Talvez por causa do beijo apaixonado que vocês dois trocaram ali há pouco tempo.
– Um beijo forçado, é o que quer dizer – corrijo – Olhe, eu preciso voltar pra casa; ainda está tudo uma bagunça e eu preciso de um tempo para averiguar tudo o que já aconteceu em tão pouco tempo.
– Eu levo você! – ele se oferece, dando um passo à frente e eu recuo, sentindo o corpo de mais alguém atrás de mim.
– Eu posso levar você, Kit Kat – William se oferece também e eu recuo um pouco mais; afastar-me dos dois é a única opção que tenho agora…
– Não, obrigada – eu revezo os olhares entre um e outro – Posso encontrar minha casa sozinha.
Richard parece desapontado com o que eu disse, mas preciso mesmo de um tempo só para mim, preciso pensar e preciso desabafar com alguém que me conheça bem o suficiente para conseguir me dar esses conselhos; preciso da minha mãe agora. Quando começo a me afastar deles, braços me seguram e eu desvencilho meu corpo deles, começando a correr para conseguir fugir de tudo aquilo.
Eu preciso de tempo.
△
Abro a porta da frente e dou de cara com meus pais folheando álbuns de fotos de quando ainda eram jovens; lágrimas queimam meus olhos e mamãe percebe isso, porque larga os álbuns e envolve meu corpo em seus braços, apertando-me contra si. Enlaço seu corpo e deixo que as lágrimas comecem a cair; papai logo se junta a nós, beijando minha cabeça e alisando meus cabelos.
Papai solta nossos corpos e diz que vai fazer um café para nós, desaparecendo na cozinha; mamãe aperta meu corpo com mais força e beija minha cabeça mais uma vez, sussurrando para mim que tudo vai ficar bem, mas não sei se posso confiar em suas palavras, não sei se posso confiar em ninguém agora.
Quando ela finalmente solta meu corpo e desaparece na cozinha, subo as escadas com rapidez, ignorando minha visão embaçada. Jogo-me sobre uma caixa de papelão e escondo o rosto nas mãos, deslizando até o chão, onde fico deitada até que esteja segura de meu próprio equilíbrio; tento reprimir um soluço, mas não consigo porque o impulso é bem mais forte do que eu. Ponho uma mecha de cabelo atrás da orelha e levanto a cabeça, olhando para a janela empoeirada do meu quarto.
Há tão pouco tempo, estávamos andando na estrada, felizes demais para pararmos de caminhar, felizes por estarmos na companhia de pessoas que amamos, mas tudo isso foi destruído para mim no exato momento em que William pisou na mesma estrada que eu. Por mais que eu queira construir uma nova vida agora, aqui, será impossível caso ele também esteja na cidade e é por isso que deixo as lágrimas rolarem pelas minhas bochechas; eu quero que ele desapareça da minha vida, que seja extinto do mundo, que nunca mais volte a me importunar. Mas também sei que isso não vai ser possível porque o conheço bem demais para saber o quão insistente pode se tornar.
Passo as mãos sobre o rosto e soluço ao me levantar, encaminhando-me ao banheiro; antes que possa entrar, porém, uma pedrinha atinge meu braço. Cato-a do chão e olho pela janela; Richard está parado lá embaixo com um pequeno sorriso no rosto. Jogo a pedra de volta e bufo, afastando-me dela. Encosto-me à parede e fecho os olhos com força, afastando as lágrimas e pedindo aos céus que ele não tenha a brilhante ideia de subir até o meu quarto como um herói de um romance épico.
Ouço-o chamando meu nome em gritos e, quando torno a abrir meus olhos, tanto meu pai quanto minha mãe estão parados no batente da porta, segurando biscoitinhos amanteigados e canecas de café; ajoelho-me no chão e espero que se aproximem, mas nenhum deles o faz. Eu estiquei o pescoço para encará-los e ouvi meu nome sendo pronunciado mais uma vez; mamãe sorriu para mim e eu mal pude acreditar no que ela queria que eu fizesse.
– Não! – movi os lábios sem produzir som.
– Sim! – meus pais moveram os lábios juntos e, de alguma forma, aquilo me irritou um pouco.
Pus-me de pé mais uma vez e enfiei a cabeça pela janela, vendo como ele estava um caco; os cabelos estavam grudados no rosto por causa do suor e ele cobria o rosto com um dos braços, protegendo os olhos do sol forte. Apoiei-me no parapeito e esperei que começasse a falar alguma bobeira, mas ele só sorriu e ficou me olhando; revirei os olhos e comecei a voltar para dentro.
– Espere! – ele pediu e eu atendi, mostrando-me a ele mais uma vez – Por favor! Podemos sair para almoçar? Eu ainda quero mostrar a cidade a você!
– Por que eu deveria? – grito de volta – Tudo o que esse passeio me trouxe foi melancolia; não deve ser um bom sinal. Sair com você não parece ser o melhor programa de domingo.
– De fato – ele sorri – Não é, mas eu preciso disso!
– O quê? – engasgo – Qual é!
– Por favor!
Algo chama sua atenção em nossa varanda, porque ele desvia os olhos dos meus por alguns segundos e, quando volta a olhar-me, um sorriso malicioso rasga seu rosto em dois. Viro a cabeça para trás, só para ver-me no quarto vazio; meus pais devem ter descido as escadas enquanto ele me convencia a sair com ele e, agora, haviam aberto a porta para ele. Bufei ao ouvir os passos se aproximando e mantive-me presa ao parapeito da janela.
Ele não começou a falar e, certamente, eu não iria; estava chateada demais para começar uma conversa. Senti a respiração quente em meu pescoço e virei a cabeça para olhá-lo; seus olhos estavam fixos num ponto da cidadezinha de interior ao longe e eu procurei o que havia de tão interessante na paisagem, mas só o que vi foram casinhas iguais.
– Desculpa – peço – Eu não devia ter ficado chateada com você.
– Mulheres são muito complicadas – ele diz com seriedade e eu bato em seu ombro – Ei! Seu tapa dói, tudo bem? Você ainda não me respondeu… podemos almoçar juntos?
– Eu não quero sair – murmuro, sentando no chão empoeirado – Por que quer tanto que eu almoce com você?
– Porque quero mostrar que posso ser mais do que o dragão que você acha que eu sou – ele dá de ombros e eu abaixo a cabeça, sorrindo – Não sou um completo inútil, Flor.
– Não, você não é – olho em seus olhos e mordo o lábio inferior – Não é um completo inútil; você serve de mau exemplo.
– Ei! – ele riu, tocando o peito como se eu tivesse atirado nele – Isso doeu!
– Você mereceu – pisquei lentamente, entrelaçando meus dedos e passando a olhá-los como se fossem a coisa mais interessante do mundo – Eu almoço com você, mas com uma condição.
– Qualquer que seja – ele se ajoelha à minha frente e olha em meus olhos, com um sorriso brotando em suas feições.
– Não vamos chamar atenção, por favor – peço, fechando os olhos com força – Tudo o que eu quero agora é desaparecer, deixar de existir, então… sem chamar atenção.
– Feito – ele lambe os lábios e me ajuda a ficar de pé e mal acredito no que estou fazendo.
△
Richard puxou a cadeira para que eu me sentasse e eu sorri para ele enquanto sentava, já pegando o cardápio para averiguar o que serviam. Ouvi o burburinho da outra mesa e olhei para mim mesma; minhas roupas não eram adequadas para um restaurante, mas não eram assim tão ruim. Olhei para Richard para me certificar de que ele também tinha percebido aquilo, mas assim que desviei o olhar para ele, seus olhos encontraram os meus e ele sorriu.
– Não se incomode com eles, Flor – ele balbuciou – Só estão achando engraçado eu ter trazido você para almoçar antes.
– Antes? – e foi então que me toquei do óbvio.
Os babacas naquela outra mesa estavam achando que ele tinha me trazido aqui para, depois, transar comigo. O que, de fato, até era meio óbvio que se pensasse, já que ninguém tinha me visto na cidade antes, e Richard era um galinha nato. Rapidamente, minhas bochechas coraram e eu abaixei o olhar para o cardápio novamente, sentindo meu estômago embrulhar e minha garganta comprimir.
Só de ler os nomes dos pratos do cardápio eu já sentia a ânsia tomando conta de mim; o gosto da bile ficou na minha garganta mesmo depois de ter jogado água goela abaixo. Respirei fundo ao olhar para Richard, que me olhava com ambas as sobrancelhas arqueadas.
– O que foi? – pude ouvir o desespero em sua voz.
– Nada, eu só… eu não estou mais com fome. – tentei contornar o assunto – Por que me trouxe para almoçar com você?
– Porque eu quero que me veja como um bom amigo – ele deu de ombros – Não quero que me veja só como o garoto que fica com qualquer uma ou que gosta de festas só pela adrenalina de ser acuado por qualquer uma.
– Dessa parte eu não sabia – tentei brincar, mas ele sequer sorriu.
– Eu quero que veja a outra parte de mim, Flor – ele soprou – Eu quero que veja que posso me preocupar com uma pessoa sem que esteja almejando transar com ela.
– Profundo – zombei – Eu nunca disse que não se importava com ninguém.
– Não, mas é o que todos pensam quando me conhecem – ele pegou a minha mão e acariciou-a com o polegar – Quero que confie em mim quando digo que ninguém irá lhe fazer mal, que nenhum babaca jamais irá tocá-la sem a sua permissão.
– Imagino que nem que eu queira – brinquei, e consegui fazer com que sorrisse.
– Imaginou certo – ele piscou e virou a cabeça para olhar os meninos da outra mesa; por um curto período de tempo, encolhi os ombros – Vamos sair daqui, Flor.
– Para onde vamos? – perguntei enquanto punha-me de pé.
Algo no sorriso dele não me transmitiu muita confiança, mas segui-o mesmo assim. Afinal, que outra escolha eu tinha?
Fale com o autor