Gotten
3 2. Confiança
Notas iniciais
"Não me faça pensar nele;
A maneira como ele tocava sua pele frágil;
Isso me assombra todos os dias..."
–Gotten, Adam Levine.
Os dedos do homem cravam em minha cintura e eu faço careta quando sou puxada para o chão junto com ele. Vejo o punho de Richard vindo em minha direção e ergo os braços para proteger-me do atrito; meus olhos são fechados com força e eu trinco os dentes, esperando que tudo acabe logo.
Há dois pares de mãos em minha cintura e eu solto um grito quando sou puxada como uma corda é puxada numa brincadeira de cabo de guerra. Meu rosto se choca contra o peito de um dos dois, e sou embalada num abraço.
Ouço muxoxos e xingamentos vindos do outro menino antes que Richard me forçasse a olhá-lo; ergo os olhos e não consigo conter as lágrimas, que já escorrem pelas minhas bochechas. Solto um alto soluço e desejo que ele não me solte, mas é exatamente o que ele faz, me passando para os braços de Lanie, que me aperta contra seu corpo baixo.
– Oh, querida! – ela alisa meus cabelos – Quem foi?
– Um babaca qualquer – diz Richard, limpando o sangue na calça jeans.
– Eu não devia ter vindo – suspiro – Tenho que ir pra casa, meus pais vão me matar se souberem o que está havendo aqui dentro…
Menti, mas eles não sabem disso.
Desvencilho-me dos braços de Lanie e luto contra os braços de Richard e Javier, que tentam me segurar conforme vou descendo as escadas e me espremendo mais uma vez entre as pessoas que dançam e bebem animadamente.
Corro para a rua, esperando que nenhum deles me siga, procurando o caminho de onde vim, mas as ruas são todas iguais. Não faço ideia de onde estou ou para onde posso ir para chegar em casa, então tateio os bolsos para procurar meu celular. Olho as horas e automaticamente desisto de ligar para meus pais, já é tarde e eles já devem estar exaustos por causa da mudança.
Respiro fundo e ouço as vozes chamando por mim; fecho os olhos com força e começo a correr, sem ao menos saber para onde estou indo. Em minha primeira noite na nova cidade, já fiz amigos e também quase fui abusada sexualmente pelo menos duas vezes.
Ótimo começo!
Não consigo correr tanto tempo e, quando percebo, estou parada ao lado de um parquinho. Os balanços se movem conforme o vento bate neles, dando um ar sinistro ao que teria de ser um local feliz e cheio de boas memórias. Ouço o arfar constante de alguém vindo detrás de mim e reteso os músculos quando sinto uma mão masculina em meus ombros.
– Por que você fugiu? – quando ouço sua voz, começo a relaxar os músculos.
– Porque eu precisava de espaço – retruco, virando para olhá-lo – Mas você não deve ter entendido o recado.
– Talvez eu tenha entendido o recado e tenha vindo atrás de você para que não fosse atacada por nenhum outro babaca – ele supõe – Por que está sendo tão fria agora? O que eu fiz ou o que aconteceu para deixá-la assim?
– Eu não me encaixo aqui – dou de ombros – Em Nova York eu tinha uma vida completamente normal, tinha notas perfeitas, namorava caras certinhos e era o exemplo de garota, mas assim que cheguei aqui, minha vida começou a desandar.
– Não entendo – ele ergue uma sobrancelha – Você quer voltar a Nova York?
– Não sei – dou de ombros – Como você se sentiria sabendo que seus pais provavelmente começaram a planejar uma noite sensual assim que você saiu de casa?
– Com nojo, talvez – ele ri, arrancando um sorriso de mim – Talvez ficasse com medo de voltar para casa.
– Exatamente – rio – Mas tudo o que quero, também, é voltar para lá. Quero dormir e nunca mais acordar, quero dormir para sempre!
– Por quê? – ele pergunta, se aproximando de mim, erguendo meu rosto com o indicador – Se você dormisse para sempre, eu faria o mesmo. Não me vejo sem você, Flor.
– Não pode falar isso – eu dou de ombros – Não agora.
– Por qual motivo? – ele ri.
– Porque nós nos conhecemos há muito pouco tempo – replico – Não tem como você não se ver sem uma pessoa sem saber o básico sobre ela.
Ele entrelaça seus dedos nos meus e começamos a caminhar até os balanços. Olho ao redor e, de repente, a paisagem não me parece mais tão assustadora, talvez até esteja parecendo um local de boas memórias. Nós nos sentamos em balanços azuis e ele solta minha mão, começando a balançar com rapidez; eu rio e balanço a cabeça quando ele pede que eu faça o mesmo.
– Você é uma criança – eu digo, com um enorme sorriso no rosto.
– Eu sei disso! – ele ri, levantando do balanço e indo para trás de mim.
– O que está fazendo? – pergunto quando sinto suas mãos em minhas costas.
– Vou empurrar você – ele diz e, antes que possa obter meu consentimento, já estou no ar.
Minhas pernas pendem do balanço e, como uma criança sempre aprende, comecei a inclinar o corpo e as pernas para frente e para trás conforme vou balançando e, quando percebo, estou indo mais rápido e mais alto do que jamais fui quando tinha dez anos. Começo a rir e sinto o vento ricocheteando meus cabelos para trás.
Peço a ele que pare e, lentamente, vou sentindo a diferença de velocidade; estou parando.
– Não conheço você – ele diz; encolho os ombros – Mas estou disposto a conhecer.
– Só não vejo um motivo bom para que me conheça a fundo – eu rio – Não consigo me ajustar no seu grupo de amigos e não acho que haja alguma pessoa aqui com a qual eu me dê bem.
– Quem sabe… – ele sorri e senta na areia à minha frente – Talvez nós tenhamos algo em comum, já pensou nisso?
– Não! – eu rio – Você começa.
– Já sabe meu nome, não preciso dizer, preciso? Bem, me formei há dois anos e herdei o galpão de um tio… minha mãe faleceu quando eu tinha uns quinze anos e meu pai, nunca o conheci, nunca senti falta dele. Meus tios me acolheram como um filho e, ano passado, acabaram falecendo na autoestrada 9 depois de se chocarem contra um motorista bêbado. Minha vida é aquele galpão e essas festas.
– Sinto muito – minha garganta parece estar sendo apertada com força – Eu não fazia ideia que… céus, e eu aqui reclamando dos meus pais em casa.
– Não tem problema, eu convivi com a dor há bastante tempo, sei como lidar com ela – ele dá de ombros – Além do mais, nunca me senti tão mal com a morte deles porque eu sabia que ia chegar algum tempo.
– Desculpe, mas, como sua mãe faleceu? – pergunto – Pode soar meio invasivo, mas…
– Tudo bem, Flor, estamos aqui para nos conhecer! – ele sorri e coloca uma mão sobre meu joelho – Ela faleceu no trabalho, era artista. Morreu no palco.
Cubro a boca com as mãos e fecho os olhos com força, imaginando o momento. Começo a arfar sem ao menos perceber e, quando percebo, estou soluçando e há trilhas de lágrimas escorrendo pelo meu pescoço, chegando ao tecido da blusa.
– Deve ter sido horrível – consigo reunir o fôlego para balbuciar – Desculpe, eu só…
– Ei – ele limpa minhas bochechas – Não precisa chorar, está tudo bem. Já passou, já me acostumei com a falta dela.
Balanço a cabeça e mordo o lábio inferior para não soluçar; forço a mim mesma a parar de chorar, mas não dá muito certo, então ele me puxa para seu peito e começa a alisar meus cabelos, beijando minha cabeça. Todos os problemas que eu achei que tinha, agora não são nada comparados aos problemas que ele teve que suportar… sozinho.
– Sua vez – ele nos separa e olha em meus olhos.
– Já sabe meu nome – reviro os olhos – Tive que sair da escola quando meus pais resolveram vir para cá, estava no meio do último ano, mas já sabia toda a matéria… bem, sou filha única e meus pais adoram me mimar por esse fato. Além disso, não sou boa fazendo amigos porque tenho vergonha de tudo, até de mim mesma.
– Você tem amigos, Flor – ele acaricia a minha bochecha com o polegar – Nós somos amigos, não somos?
– Somos – eu sorrio, abaixando a cabeça.
Por todo o tempo que o conheci antes de conversarmos de verdade, achei que fosse só mais um daqueles meninos idiotas que só gostam de bebidas e cigarros porque são proibidos, e os usam para julgar alguém. Achei que fosse mais um menino que usasse histórias tristes para ficar com meninas diferentes, mas ele não precisa delas para consegui-las porque, pelo o que vi, elas se jogam aos pés dele. Levanto um pouco a cabeça e olho-o nos olhos. Suas pupilas estão dilatadas e, sabendo o mínimo sobre biologia, sei que isso significa. Das duas uma: ou ele está com medo, ou está olhando para aquilo que ele ama e, sinceramente, estou torcendo para que não seja a segunda opção.
– Quero ir para casa – sussurro e ele beija a minha cabeça mais uma vez e me ajuda a ficar de pé.
Ele entrelaça seus dedos nos meus e começa a me guiar pelas ruas iguais, dizendo os nomes de cada uma e suas propriedades, o que a torna diferente das demais, mas não vejo nada que possa me ajudar a identificá-las quando estiver sozinha.
– Eu tinha um namorado – digo de repente – Lá em Nova York.
– Eu não perguntei, Flor – ele ri, colocando seus braços sobre meus ombros.
– Mas eu quero falar e, aliás, você estava não perguntando muito alto – digo, içando os olhos para encará-lo – Ele terminou comigo porque, disse ele, que tinha encontrado uma menina melhor… era a opinião dele sobre ela, nunca cheguei a conhecê-la, mas acho que ela traficava ou algo do tipo.
– Alguns são sem noção – ele dá de ombros.
– Você fica com uma menina diferente todas as noites e sequer liga para elas no dia seguinte – retruco e faço-o rir.
– Touché! – ele gargalha – Mas, se eu encontrasse uma menina como você, uma menina que não fosse como todas as outras, eu largaria tudo, toda a minha vida atual para ficar com ela.
– Falando assim, você até parece um menino que anda na linha – brinco, batendo meu quadril no dele.
– Ei! – ele reclama – Sou o mais certinho de todos no grupo!
– Continua sendo um rebelde sem causa – deixo que um sorriso transpareça.
Não entendi ainda por qual motivo contei a ele sobre William, mas foi bom tirar aquele peso dos ombros. Nunca tinha contado a história verdadeira do nosso rompimento a ninguém, nem mesmo aos meus pais, para quem disse que ele queria outras coisas da vida, queria se aventurar e que iria se mudar para outra cidade e, para a minha total alegria, apesar de não terem caído muito bem nessa história, resolveram não me perguntar.
– Fez você se sentir melhor, não fez? – ele ajeita meus cabelos, olhando em meus olhos – Contar a verdade sobre o rompimento.
– Não tem provas que eu não tenha contado para alguém antes – dou de ombros – Mas, sim, é bom poder confiar a alguém a verdade sobre o que realmente ocorreu.
– Fico feliz de saber que confia em mim – ele beija minha testa – Amigos são para isso, Flor, e você sempre vai poder confiar em mim.
– Sempre? – pergunto, içando os olhos para encará-lo; ele sorri e balança a cabeça em afirmação.
– Sempre.
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