Gotten
18 17. Jantar
Notas iniciais
Anteriormente, em Gotten:
“- Eu estava bem, mamãe – aliviei – Rick ficou comigo o tempo todo, e ele não é como você e papai pensam que ele é… eu sei que é difícil enxergar além do que ele aparenta ser por fora, mas, quando você o conhece como eu o conheço…
— Quando eu puder conhecê-lo como você conhece, então ele é uma pessoa melhor? – posso estar de ressaca, mas eu ainda consegui detectar o tom de sarcasmo na voz de mamãe.
— Rick não é perfeito, e daí? – joguei meu corpo cansado e dolorido no espaço que o corpo de mamãe não ocupava na cama, escondendo a cabeça no travesseiro.
Àquele ponto, já estava irritada.” ch. 14
“- Para compensar tê-la deixado sozinha, o que você acha de um almoço?
Fingi pensar. – Interessante…
— Eu pago – ele piscou.
— Mais interessante ainda – brinquei.” ch. 16
Eu nunca pensei que fosse ser desse jeito.
Passei boa parte da minha vida perguntando se era bom o suficiente, se isso seria o certo para mim ou se eu seria só mais uma daquelas pessoas cujo coração é destinado a nunca sentir a potência de um sentimento tal qual o amor. E então, quando eu menos esperava, essa garota surgiu e bagunçou a minha vida como se fosse um furacão – e eu não posso dizer que não gosto.
— No que está pensando? – ela lambe o sorvete.
Depois do almoço, sugeri que fôssemos dar um passeio. Queria compensar por tê-la deixado sozinha depois de tudo o que aconteceu ontem à noite – uma das melhores noites da minha vida. Mal consegui dormir durante a madrugada.
— Nada demais – dou de ombros. – Só que eu tenho a namorada mais adorável do mundo.
Ela sorri e as bochechas enrubescem. Eu não sei onde acertei – de verdade. Não sei qual foi o caminho que escolhi que fez com que ela aparecesse na minha vida, e acho que preciso agradecer aos céus que isso aconteceu. Katherine Beckett é, sem nenhuma sombra de dúvida, a melhor coisa de toda a minha vida – e eu nunca vou deixa-la ir embora.
Analiso, pouco a pouco, as suas feições, e ela parece tão feliz. Os cabelos esvoaçando por conta da leve brisa da tarde, os olhos cintilando ao olhar para sabe-se lá o quê – eu não me importava –, os lábios levemente grudentos e brilhantes por causa do sorvete derretido que aos poucos começava a escorrer. Ela virou para mim e um sorriso sem graça surgiu em seu rosto.
— O que foi? – ela parecia genuinamente preocupada – Tenho algo no rosto?
Quis rir. – Não. Não tem nada.
Ela arqueou as sobrancelhas em dúvida.
— Eu só queria olhar ‘pra você. – respondi com toda a sinceridade. Agora eram as minhas bochechas que queimavam.
Kate deu uma risadinha e entregou o sorvete para mim, limpando as mãos melecadas na calça jeans. Depois, pôs-se de pé e começou a caminhar lentamente pela calçada vazia. Demorei instantes para me situar e, quando vi, ela já estava longe.
Corri para alcança-la, tentando arranjar uma forma de não sujar meus dedos com o sorvete derretido. Por fim, acabei desistindo e jogando tudo no lixo mais próximo. Ela riu quando me viu tentando limpar as mãos grudentas na calça jeans – já suja de graxa por conta do serviço. Mas, sem parecer se importar, ela estendeu a mão para mim e, mais rápido do que achei que reagiria, eu a envolvi na minha.
⪡…⪢
Já anoitecia quando eu a deixei em casa.
Kate desceu da moto e, relutantemente, entregou-me o capacete. Ela parecia incomodada com alguma coisa, e por mais que eu quisesse que ela me contasse o que era, também achei que não seria justo forçar a barra. Felizmente, antes que eu precisasse perguntar qualquer coisa, ela suspirou e disse:
— Você acha que pode ficar mais um pouco para o jantar?
Eu juro que meu coração parou no exato instante.
— O… o quê?
— Ficar para o jantar. – ela repetiu – Meus pais ficaram me questionando sobre isso. Nunca pensei que eu fosse ser o típico clichê que precisa dizer aos pais que “você não o conhece como eu conheço” e…
Tentei segurar o riso e talvez tenha falhado um pouco, porque de repente estávamos os dois rindo na frente da casa dela.
— Falei demais, né?
— Talvez um pouquinho, mas tudo bem. – respondi. – Eu entendo.
— Meus pais querem te conhecer direito. Só isso.
Assenti. Não é como se eu tivesse alguma outra coisa para fazer, afinal de contas. Minha rotina não consistia mais de: trabalho, festas, bebida, sexo, e de novo e de novo por vários dias a fio. Agora eu tinha algo que queria proteger e que era só minha. Agora, finalmente, a minha vida tinha algum sentido.
Kate sorriu e esticou o braço para mim novamente. Desci da moto e entrelacei os nossos dedos enquanto caminhávamos até a porta da frente. Prendi a respiração instintivamente quando ela girou a chave na fechadura – talvez eu não estivesse tão pronto assim para encarar os pais dela.
Comecei a sentir as mãos suando e mordi o interior da bochecha. A casa parecia silenciosa e quis voltar. Definitivamente não estava pronto para isso – era óbvio o quão diferente eu era dessa família e, ainda mais, o quanto eu não era digno de ter a filha deles como namorada. Ela é demais ‘pra mim – afinal de contas, eu sou só um mecânico que mal consegue viver com o que ganha e ela é… ela.
— Rick? – ela sussurra, apertando a minha mão, quase como se quisesse me assegurar de que estava tudo bem.
— Hã?
— Relaxa – ela diz – Eles não vão arrancar a sua cabeça.
— Eu espero – sussurro, esperando que ela não ouça.
— Não vão.
Engulo em seco quando ouço, finalmente, o som de pratos sendo postos à mesa e quando o aroma de uma refeição caseira enche as minhas narinas. Eu nunca tive isso, e agora é algo que me assusta. A normalidade de uma família, o aconchego de chegar em casa e ter uma família te esperando com um prato quente de comida e conversas sobre o dia que cada um teve. Começo a tremer involuntariamente e sinto os dedos de Kate apertando a minha mão como uma âncora que me traz de volta à realidade.
—… e o juiz resolveu adiar a audiência. – ouço a voz do pai dela.
— Já tivemos casos mais difíceis do que isso – a mãe responde. – De qualquer forma, acho que a melhor coisa a ser feita é revisar toda aquela pasta do caso e talvez até mesmo… onde foi que eu coloquei os copos?
Entramos na sala de jantar e os pais dela automaticamente se viraram para nós. Posso dizer com toda a certeza do mundo que nunca estive tão envergonhado em toda a minha vida. Os dois ainda estavam com as roupas de trabalho, enquanto Kate estava perfeitamente arrumada com os jeans e a camiseta. Eu, por outro lado, estava com as roupas ainda levemente sujas de graxa e com os cabelos bagunçados. Um nó começou a se formar na garganta e eu não tinha certeza se conseguiria continuar ali.
— Ah – o pai dela finalmente quebrou o silêncio – Finalmente estamos conhecendo o rapaz que roubou a minha menininha.
Eu.
Quero.
Morrer.
Kate riu baixinho e apertou a minha mão de leve. A mãe dela sorriu e voltou a procurar os copos enquanto eu, sem graça, olhei para os pés e analisei os tênis sujos de graxa e poeira. Por que eu não tinha trocado pelos sapatos que guardava no trabalho?!
— Vai se juntar a nós no jantar?
— Uhh, sim. – consegui responder. E, rapidamente, tentei parecer mais educado: – Se não for nenhum incômodo… senhor.
Ele me encarou por alguns segundos. Meu coração literalmente parou de bater.
Depois ele começou a rir como se eu tivesse contado a piada mais engraçada do mundo.
— Ora, deixe disso – ele ainda gargalhava enquanto caminhava até nós com o avental de cozinha ainda por cima das roupas pomposas – Pode me chamar de Jim.
Ah. Ok então… eu acho?
Kate soltou da minha mão e foi ajudar a mãe a procurar os copos que – surpreendentemente – ela ainda não tinha encontrado. Jim estendeu a mão para mim e eu a aceitei. Olhei para ele relutantemente, sentindo as bochechas queimando e o coração pulsando dentro do peito. Eu queria ter feito uma impressão melhor, mas acho que ele não se importa tanto assim com isso quanto acreditei que se importasse.
— Escuta… — ele começou. Eu empalideci. – Quais são as suas pretensões com a minha garotinha?
Imediatamente, comecei a gaguejar e não fazia ideia do que responder. Ele, por sua vez, riu novamente como se eu fosse o melhor humorista desta geração, o que me deixou com uma enorme interrogação acima da cabeça.
— Pai – Kate advertiu. – Pare de tentar constrange-lo.
Jim deu de ombros e voltou para a bancada murmurando algo como “elas nunca deixam que ele se divirta”. Apressei-me para ajudar as duas a terminar de arrumar a mesa para tentar melhorar a minha primeira impressão.
(Eu achei os copos!)
⪡…⪢
Ninguém conversou durante o jantar.
Quando terminamos, Kate juntou a louça e carregou tudo até a cozinha. Pus-me de pé para ir ajuda-la, mas os pais dela, ainda sentados, chamaram o meu nome e parei onde estava, completamente petrificado. “É agora”, pensei. “Eles vão me mandar ficar bem longe dela porque não gostaram de mim”.
— Sente-se. – a mãe dela pediu.
Fi-lo imediatamente.
O frio na barriga agora era quase insuportável. A mãe dele brincava com a aliança, sem manter contato visual comigo.
— Nós queríamos conhece-lo por diversas razões.
Engoli em seco.
— Você tem… um histórico – Jim murmurou.
— Um histórico bastante impressionante. – a mãe dela completou.
Eu.
Quero.
Morrer. (de novo)
— Eu…
Jim levantou um dedo e eu parei de falar imediatamente. A mãe dela ficava me encarando agora como se eu fosse um animal enjaulado ou algum tipo de objeto de pesquisa. Remexi-me na cadeira, tentando ao máximo evitar o contato visual.
— Nós não nos importamos com isso.
O quê?
— O quê?
Eles compartilharam um olhar e sorriram.
— Desde que soubemos da mudança, sabíamos que Katie não ficaria feliz com isso – o pai dela começou. – Ela nunca foi uma menina tão aberta a esse tipo de coisa. Mudança é uma coisa que a assusta muito.
A mãe dela assentiu.
— Ficamos com medo de que ela se isolasse ou… bem, ou acabasse se envolvendo com pessoas ruins.
— O que você pareceu ser no início – ela completou.
Engoli em seco. Eu não podia culpa-los por pensar assim – afinal de contas, eu não sou lá a melhor das pessoas, e tenho completa noção disso.
— Mas ela passou a ser mais comunicativa – continuou – Passou a chegar todos os dias e conversar conosco sobre como tinha sido o seu dia e quais tipos de passeios ou amigos tinha feito e nós…
— Nós tínhamos sentido falta desse lado dela.
Franzi o cenho.
— Você faz jus ao clichê de…
—… ele não é tão ruim assim – completei. – Kate conversou comigo sobre isso.
Eles pareciam espantados. Era a primeira vez que eu falava alguma coisa diretamente para algum deles. Respirei fundo e tentei articular os meus pensamentos – eu queria que eles me vissem com outros olhos. Queria que passassem a me ver como uma boa pessoa, como alguém em quem poderiam confiar – não mais como o problemático que vivia em festas e tendo casos de uma só noite. Aquela pessoa, eu percebo agora, não era eu. Aquela pessoa era um reflexo de muitas coisas com as quais eu não sabia como lidar – e quando ela surgiu, eu soube como começar a mudar. Nós somos o próprio clichê, e eu não me importo nem um pouco.
Ficamos todos em silêncio por um tempo. Só conseguia ouvir o som da água e da louça vindo da cozinha.
— Eu quero que saibam… — tentei começar, mas as palavras teimavam em não sair. Tentei começar de novo. – Eu quero que saibam que o meu histórico ruim não define, nem um pouco, a pessoa que sou agora. Eu errei em muitas coisas, mas eu juro por tudo em que acredito que agora, de uma vez por todas, vou passar a não cometer esses erros novamente. Quando vocês se mudaram para cá e eu conheci a filha de vocês, algo dentro de mim estalou e eu soube que… bem, eu soube que não era aquilo que eu devia estar fazendo. Ela mudou quem eu era e me transformou em quem eu sou hoje. Ela é…
Pausei e atrevi olhar para eles. Os dois pareciam estar sorrindo e a mãe dela parecia até estar com lágrimas nos olhos.
— Ela é tudo pra mim. – concluí. – E vou fazer tudo que estiver ao meu alcance para fazê-la feliz.
Isso pareceu bastar.
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