Good Gone Girl

14 Capítulo 14 – Selo Dia Mais Constrangedor da Minha Vida.


Notas iniciais
OLAAAA NÃO, O CONTADOR DE PALAVRAS NÃO BUGOU! Este capítulo tem aproximadamente uns 4/5 mil palavras. O que é maior do que eu normalmente faço (com 2 mil e tal). Porque, como eu estou demorando tanto para escrever e postar, resolvi que vou fazer capítulos maiores para tentar compensar isso. O que vocês acham? Uma leitora linda recomendou e acho que vou tentar fazer porque acho justo ♥ Então, obrigada a quem comentou! Já estou trabalhando na resposta para os reviews: > Matry-chan > Uma leitora Qualquer (olha ae, seus pedidos foram aceitos) > Flávia > Mente Bugada BEIJOS! CURTAM!

Capítulo 14 – Selo Dia Mais Constrangedor da Minha Vida.

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Na hora eu não atendi a ligação.

Disse a mim mesma que não estava pronta para lidar com Sasha e Ellie fazendo comentários se eu atendesse. Eu já estava vermelha só de sentir o celular tocar e de saber quem era, como eu iria ficar se atendesse depois da última vez que eu vi ele? Simplesmente não teria como. Eu simplesmente teria um infarto e cairia dura ali. Já havia passado muita vergonha para uma tarde de domingo só.

Sasha e Ellie perguntam se eu não vou atender, mas digo que não deve ser nada importante. Elas não parecem acreditar, mas graças a Deus deixam isso para lá e resolvem falar de outras coisas. Digo a mim mesma que mais tarde eu retornaria a ligação dele, porém, eu não tenho coragem para fazê-lo.

Quando eu estou, enfim, sozinha no meu quarto, eu ainda não consigo ligar para ele.

Estou envergonhada.

Não acredito no que fiz, mesmo que não me arrependa de tê-lo feito.

Havia uma parte minha que cogitou atirar o celular para longe e enfiar a cabeça num buraco (como uma ema). Eu não queria ligar para ele. Ou melhor, eu queria (porque sabia que devia isso a ele), mas não tinha coragem. E essa era a antiga Isabelle não querendo arcar com as consequências daquela imprudência.

Essa parte medrosa quase ganhou.

Quase.

Tirando uma coragem de algum lugar desconhecido dentro de mim, respirei fundo e retornei a ligação... Tudo bem que, no processo, talvez eu tenha ligado e desligado antes de ele sequer atender. Mas foram umas cinco vezes que eu respirei fundo e disse a mim mesma que estava tudo bem; que eu conseguia fazer aquilo.

Mesmo com o coração batendo com tanta força, que ecoava em meus ouvidos. E mesmo com as mãos suando de nervosismo enquanto eu pensava no que ia lhe dizer, e no que ele iria responder, e no que eu iria lhe replicar...

Quando vejo tenho um roteiro montado em minha cabeça.

Um roteiro que eu repito até decorar.

Seria como aquela peça que fui obrigada a participar no oitavo ano: eu repetiria umas falas legais da personagem que seria a “Belle Descolada” e tudo iria sair conforme o ensaiado.

— Oi.

Droga. Ele havia atendido. Parte de mim rezava para que ele não o fizesse. Só de ouvir sua voz, meu coração (tão agitado até então) pareceu parar no meu peito.

— O-oi... – Eu gaguejei contra a minha vontade. Fazendo com que eu mesma fizesse uma careta para mim mesma. Essa não era a “Belle Descolada”. Eu limpei a garganta. – Então... Você me ligou?

O.K. Respirei fundo.

— Liguei... Como você está? – Ele perguntou educadamente.

Meu Deus, isso não estava no meu roteiro.

O que era bem besta porque, pelo amor de Deus, Alexander era um cara educado e legal que obviamente saberia perguntar como uma pessoa está antes de entrar num assunto do tipo “ah, precisamos falar sobre o nosso sexo do fim de semana passado, tem um tempo?”. Eu cobri o rosto com a mão. Este era um erro bem amador.

Você é burra, Belle. Muito burra.

— Eu... Hum... Acho que estou bem... – Eu digo. Minhas pausas são tão longas que dá para substituí-las por “insegurança”. – Quer dizer, ainda estou viva mesmo depois de falar com Sasha e Ellie... Sabe, depois que elas ficaram boladas porque não aparecemos em Woodstock.

Há um momento de silêncio do outro lado, que me deixa em dúvida se este assunto o deixa nervoso ou tendo uma crise de pânico também. Eu acho difícil. Quando se olha para ele, a última coisa que dá para imaginar é ele tendo um ataque porque está falando de sexo com uma garota pelo telefone.

— Fico surpreso... Já que o que eu respondi quando ela me ligou a deixou um tanto... Insatisfeita – ele disse, com uma nota de diversão na voz. Então acrescentou com rapidez: — Não que eu tenha dito alguma coisa muito comprometedora.

Pergunto-me se ele teve receio que eu achasse que ele era como os outros garotos. Que sairiam espalhando para os amigos dizendo que comeu “a garota mais besta da universidade”... Pergunto-me se em algum momento (quando ele me deu carona depois do meu primeiro porre) eu lhe contei sobre Mike. Tento me lembrar, mas não consigo.

Não era como se ele tivesse me poupado do questionário das sedentas Sasha e Ellie, dupla dinâmica. Mas era uma atitude, no mínimo, admirável. Eu consigo pensar em pelo menos três garotos que não tiveram pudores em revelar detalhes íntimos para os amigos... Mas obviamente, Alexander estava fora das estatísticas.

— Hum... Bom – eu respondo. -... Obrigada?

— Acho que esse é o tipo de coisa pela qual não se agradece porque... Bem, é o mínimo – ele respondeu, num tom baixo.

Não sei porque, mas eu fico vermelha. Tipo, muito vermelha.

Como não sei o que responder, há um momento de silêncio na linha. Uma sensação de estranhamento e desconforto, que me fazem ter quase certeza que esse era um dos momentos mais tensos da minha vida. É um momento tão frágil como vidro, e até mesmo quando ele se quebra, parece fazer barulho.

— Acho que precisamos conversar... Sobre sábado – ele diz.

E, ai meu Deus, ele havia dito.

Então houve mais um momento de silêncio. Um momento em que eu congelei no lugar, quase como se entrasse em curto-circuito. Procurando por algo que me ajudasse a lidar com aquela situação incomum e embaraçante. E quando não encontrei nada, e já havia passado tempo demais para ele pensar que o deixei falando sozinho, eu disse:

— É... Acho que precisamos conversar mesmo...

— Ótimo, então abra a porta – ele mandou.

— Quê? – Perguntei confusa.

Acho que o ouvi rir do outro lado da linha.

— A porta – ele repetiu devagar, como se eu não houvesse entendido por causa do seu sotaque e não porque fosse uma ordem inesperada.

Mas eu havia entendido.

Olhei para a porta do quarto como se estivesse assistindo a um filme de terror. Com o coração martelando no peito, caminhei até a porta fechada e coloquei a mão na maçaneta. Pode parecer idiotice, mas contei até três antes de abri-la e confirmar que, sim, ele estava lá no corredor.

Lindo, maravilhoso, perfeito.

Perfeito de um jeito que não combinava comigo: os cabelos ruivos, a pele branca marcada por tatuagens das mais variadas formas, desenhos e cores, com o celular na mão e um sorriso de canto que não parecia certo estar ali dado ao meu estado de pânico diante de um pensamento: “Ele era errado em todos os jeitos imagináveis”. Não era o momento, não fazia o meu tipo e eu não queria me apaixonar...

Mas lá estava ele. Na porta do meu quarto, com aquele maldito sorriso de canto meio misterioso... E o que eu faço?

Eu fecho a porta na cara dele.

Um minuto de silêncio se passou entre nós dois, como se ambos fôssemos lentos demais para perceber as coisas que acontecem na hora e precisássemos de um momento para absorver. Foi um minuto de silencio que me fez repensar o último segundo da minha vida como “Isabelle, você tem séeeeeerios problemas”.

A pior parte foi ter que voltar a abrir a porta do quarto.

— Desculpa. Foi o vento – eu disse, apesar do meu rosto vermelho dizer o contrário.

O sorriso que ele deu deixava claro que ele sabia que não foi o vento.

— Ah, essas correntes de ar – ele disse arqueando uma sobrancelha, cúmplice.

Quase agradeço por ele me ajudar a me sentir melhor, mas preferi morder o lábio inferior e desejar por um momento que a terra se abrisse e me engolisse. Eu esperei, de verdade, que isso acontecesse... Mas, como não aconteceu, eu abro a porta e deixo ele passar para dentro.

Só para ter uma sensação de dèjá-vu quando ele entra no meu quarto. Ele ainda parece grande e deslocado aqui. O cômodo que divido com Chris é pequeno e quase todo em roxo e azul bebê, enquanto Alexander era todo grande e vestindo preto. Ele ficava bem de preto. Ficava bem em tudo, acho... E mais ainda sem nada...

O pensamento me faz corar.

Quando ele se aproximou na minha cama, as imagens de ontem, ainda vívidas na minha mente hiperativa, quase me faz ter uma crise.

— Desculpa! – Eu quase gritei, de tão mortificada que estava. – Você se incomoda se dermos uma volta? Eu estou meio... – Limpo a garganta. – Meio... Com sede.

“Aqui, toma o selo de pior momento da sua vida, você está fazendo por merecer” eu imaginei um diabinho dizendo isso e rindo da minha situação.

— Se você parar de pedir desculpas, eu te levo para onde você quiser – ele disse. Pode ser impressão minha, mas havia uma malícia ali? – Se você quiser também eu posso ir embora porque eu acho que estou te incomodando... de algum jeito.

— Não! – Eu digo rápido. Rápido demais. Mas não me importo, não parece justo deixar Alexander pensando que eu ser estranha é culpa dele. Então eu limpo a garganta, e digo: — Por favor, não me entenda mal... Não é você que está me incomodando.

Ele sorri.

Acho que está aliviado.

— Acho que vou me desculpar outra vez, porque eu sou meio... doida – eu digo. – A verdade é que neste exato momento estou morrendo de vergonha e não sei como olhar para você depois do que aconteceu... Estou mortificada... E quando eu fico assim eu acabo fazendo coisas estúpidas tipo: gaguejar, ou ligar várias vezes e desligar o telefone antes que você atenda, ou fechar a porta na sua cara ou não calar a boca como eu estou fazendo agora mesmo. Pode me mandar parar, viu?

A cada frase rápida que eu digo, aquele sorriso de canto em Alexander vai se alargando e se mostrando cada vez mais. Não havia dúvidas de que, de algum jeito, meu constrangimento o divertia. Difícil era dizer se isso era bom ou ruim.

— Eu posso falar então? – Ele pediu.

Seu tom é tão calmo, que ele parece totalmente o oposto de mim.

Enquanto dentro de mim há este turbilhão de sentimentos confusos e intensos (constrangimento, incertezas, dúvidas...), Alexander parece calmo, como quem já fez uma decisão ou como quem sabe o que quer. Ou como alguém que não espera muito.

— Você me deixa confuso – ele começou. – Há momentos em que parece que está tudo bem me ter por perto, e momentos em que você parece me querer há quilômetros de distância... Como neste exato momento.

Não sei se minha expressão demonstra o quão culpada eu estou me sentindo.

— Por favor, não entenda errado quando, como você disse, “parece que eu te quero há quilômetros de distância”... É só que... Eu não estou acostumada com essa situação – Eu faço um gesto amplo, esperando que ele entenda que me refiro àquele momento. – Eu nunca dormi com um cara que eu mal conheço... E eu acho que não sei ao certo como lidar, o que sentir... Parece ser um jeito errado... E acho que é porque eu tenho medo... De fazer alguma coisa errada.... Porque eu nunca passei por isso antes.

Acho que eu nunca fui tão sincera em toda a minha vida... Óbvio que isso é uma figura de linguagem porque eu quase sempre sou sincera. Mas é um sentimento incômodo expor os sentimentos para alguém como Alexander. Que tudo o que faz por um minuto é alisar o meu rosto (fazendo-me ficar corada) e coçar o queixo.

— Então, para você, tem uma “forma correta” de se fazer as coisas? – Ele perguntou.

Eu franzi o cenho, e olhei para ele.

O rapaz estava com a cabeça inclinada e coçando o queixo como se me achasse uma pessoa interessante. O que era um tanto desconcertante e curioso ao mesmo tempo.

— Não... Acho que tem a única forma que eu fiz até então... – Eu digo. Antes de citar: – “Conheço os caras” > “Viro amiga deles” > “namoro com eles” >“descubro que são todos babacas”.

Penso em lhe citar a mais nova etapa que eu descobri “terminamos e eu sempre saio fodida na história”, mas eu não tenho coragem. Não quero que ele pense que estou me fazendo de coitadinha diante da crueldade dos rapazes... Mas em pelo menos, cem por cento do meu relacionamento eu sai fodida na história.

Alexander abafou a vontade de rir e isso me faz cogitar que ele realmente possa me achar interessante, ou no mínimo engraçada... E essa ideia me deixa mais aliviada do que eu gostaria de admitir. Pelo menos, faria sentido quanto ao que ele teria visto em mim, já que não parecemos ter muito em comum.

— Então... Se você pudesse descrever uma etapa que estamos agora... Seria algo entre o “conheço os caras” e “viro amiga deles”; ou algo entre “viro amiga deles” e “namoro com eles”? – Ele perguntou.

Eu franzi o cenho.

— Não sei. – Eu digo. – Não sei se te conheço bem o bastante para sermos amigos.

Só depois percebo que esta afirmação possa parecer meio cruel.

— Se isso faz você se sentir melhor, muita gente acha que não me conhece bem o bastante – ele retrucou num tom de deboche, dando de ombros, como se dissesse que não havia muita coisa a ser feita a respeito.

Seu jeito, esse mistério, me encanta. Mais do que eu gostaria.

— Talvez... nós possamos ser amigos? – Ele sugeriu, dando um passo para perto de mim. Não sei porque ele dá só um passo. Talvez tenha medo que eu saia correndo se ele se aproximar de mais.

Eu abaixo o olhar e pondero sobre isso.

Seria difícil considerar Alexander meu amigo... Se levarmos em consideração que já nos beijamos, que ele já me viu nua e que já dormimos juntos...

Eu fico vermelha.

— Talvez... Amigos... Que se beijam? – Eu proponho.

Minha voz saiu tão baixa que até duvidei que ele ouvisse.

— Talvez você devesse criar uma nova categoria para mim – ele propõe, se aproximando. – Algo a ver com amigos... Que se beijam... E transam.

Quando eu vejo ele está bem perto de mim. Tão perto que consigo sentir o calor do seu corpo, sua respiração no meu rosto e o seu cheiro de perfume e hortelã... E eu acho que ele vai me beijar. Não que tivesse como saber. Todas as vezes que nos beijamos, foram completamente imprevisíveis, como se fizéssemos uma aposta para saber quem surpreende o outro primeiro.

Eu fico hipnotizada por aquela proximidade e aqueles olhos claros.

— Parece bom – eu me vejo dizendo.

E quando percebo que digo em voz alta, eu fico muito vermelha de novo e abaixo o olhar. Mas Alexander parece apenas dar aquele sorriso de canto novamente.

— Então... Estamos entendidos? – Ele perguntou.

— Ahã... – eu digo, mesmo sem saber ao certo com o que estou concordando.

O cara ruivo na minha frente dá aquele sorriso de canto de novo, e então estende a mão para mim como se quisesse fechar um acordo. Eu confesso que hesitei em apertar a sua mão. Não porque eu estivesse pensando no que diabos estava fazendo (mas o que faria sentindo também), mas porque eu tive medo, por um segundo, do que eu iria sentir se pegasse na mão dele.

Eu sou uma garota tão tímida e antiquada que para mim (pasmem) apertar a mão de um cara é quase a mesma coisa que dar as mãos para ele... Porque, afinal, o que havia de tão diferente em um aperto de mão, com você andar de mãos dadas com a pessoa?

E mesmo quando eu aperto a mão dele, sinto aquele calor e carga elétrica subir por meu braço. Digo a mim mesma para me controlar... Eu devo ser uma pessoa muito estranha e idiota, e completamente insana.

— Agora podemos tomar seja lá o que você quiser – ele disse, em um tom mais leve e mais animado, se afastando de mim. – Você estava... Como era mesmo? Meio com sede.

Eu fico vermelha, porque eu sei que ele está zombando com a minha timidez.

— Vamos naquela cafeteria da última vez? Eu pago – ele oferece passando por mim e abrindo a porta do meu quarto para nós.

O gesto é tão casual que sinto meus músculos relaxarem um pouco.

— Tudo bem – eu concordei, me debruçando para pegar meu casaco na cadeira da escrivaninha. – Desde que não seja café... E nada com café... Eu odeio café.

Ele dá aquele sorriso de canto e segura a porta até eu passar para fora, e então a fecha. Há um jeito educado com que ele faz isso, que me chama a atenção... Talvez porque os poucos garotos que fizeram isso comigo geralmente ficam esperando com uma cara que diz “passa logo para eu fechar a porta, desgraça”.

— Espera – Alexander disse como se estivesse se lembrando de algo. – Vez passada você tomou café comigo... E não falou que não gostava de café.

Com os olhos, ele me censurou.

— Seria grosseria – me justifiquei, encolhendo-me. – Você me ofereceu café.

Ele faz uma careta.

— Da próxima vez não te ofereço nada. Só te dou o cardápio e mando escolher.

Não sei se ele está bravo de verdade ou se só está zombando de mim, mas pelo sorriso que ele dá em seguida, acho que é a segunda opção. E isso me faz me acalmar um pouco... Quase voltando a respirar normal.

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Quando eu ando com Alexander, parece que todo mundo fica olhando.

Não sei se é porque somos um contraste andando lado a lado. Como cores complementares: “laranja e azul”, “roxo e amarelo”, “vermelho e verde”. Cores que não parecem combinar, mas que (uma do lado da outra) parecem se realçar. Alexander é muito alto, todo Rock In Roll, enquanto eu sou pequena e mais inofensiva que uma chinchila. Talvez, tão besta quanto uma.

— Desculpa, hum, eu esqueci de perguntar se você está bem – eu digo.

Alexander arqueou uma sobrancelha para mim.

— Você meio que falou “Oi, tudo bem?” e eu respondi “To bem” e não perguntei “E você?”... Não gosto de ser esse tipo de pessoa – eu expliquei.

Ele deu um meio sorriso.

— Isso estava te incomodando, não estava? – Ele me provocou.

Eu desviei o olhar, porque não queria que ele visse a verdade no meu rosto.

— Está tudo bem sim – ele respondeu, se divertindo por ter adivinhado. – E eu já pedi para você parar de se desculpar.

Eu somente apertei os lábios. Comprimindo a vontade de dizer “desculpa”.

— Não diz isso para alguém com compulsão por pedir desculpas. Não sabe que dá vontade ainda mais de pedir desculpa por ficar pedindo desculpas? – Eu digo.

— Quê?

— Exatamente.

Ele dá aquele meio sorriso divertido novamente, e então abre a porta da cafeteria para nós. Ela está particularmente um pouco cheia hoje, mas não nos importamos muito. Como eu não sei o que vou pedir (e não gosto de café) eu vou para a fila com Alexander para escolher alguma coisa no grande letreiro pendurado atrás das atendentes.

Alexander me recomenda todas as bebidas doces que ele consegue ler no menu. Ele me recomendou um Frapuccino de Chocolate, que, de acordo com ele, se eu pedisse sem café, ficava com gosto de milk-shake. Esta ideia me agradou e resolvi escolhê-lo. A atendente olha para nós dois com um misto de tédio e surpresa (ela arqueia uma sobrancelha para nós).

Eu sinceramente acho que todo mundo pensa que somos um casal estranho.

E nem somos um “casal” propriamente dito.

Depois de pegarmos nossos cafés e frapuccinos, procuramos uma mesa para sentarmos, e novamente, só resta aquelas perto da janela. Que não se trata de uma mesa, mas de um balcão com bancos altos. Serve para nós.

Realmente, frapuccino tem gosto de chocolate gelado, com chantilly e granulado. Eu adorei. Acho que já sei o que vou passar a pedir.

— Hum, eu posso fazer uma pergunta? – Eu pedi.

— Só se eu poder fazer outra depois – ele respondeu.

Eu ponderei. Parecia justo.

— Qual o seu nome completo? – Perguntei.

— Alexander Wells Kensington – ele respondeu fazendo uma careta. Como se não gostasse da sonoridade esnobe que tinha. – Pode me chamar de Alex. Todo mundo chama.

Eu dou um sorriso.

— Minha vez – ele diz, esfregando as mãos. – Você falou sério quando disse que queria fazer uma tatuagem ou só estava deslumbrada com as minhas e com a cabeça cheia de bebida?

Sua pergunta me fez franzir o cenho e eu levo alguns segundos para responder. Ou melhor, nem para dizer a resposta, porque antes que eu diga, Alex suspira e diz:

— É, eu sabia que havia sido no calor do momento mesmo.

— Você nem me deixou pensar! – Eu reclamei.

Ele arqueou uma sobrancelha e disse:

— Mas se você quisesse fazer, não haveria nem porque pensar.

— Você é assim? – Eu pergunto.

— Eu sou do tipo que quando quero uma coisa, vou lá e faço. As pessoas dizem que eu gosto de arriscar – ele respondeu com aquele meio sorriso. – Acho que foi por isso que minha primeira tatuagem foi aos dezesseis anos, escondido dos meus pais. E meus amigos diziam que era por isso que nossa banda de ensino médio se chamava Blind Spot.

Eu ouço o que ele fala enquanto dou um gole da melhor bebida do mundo.

— Você tinha uma banda – eu repito meio pasma.

Claro que ele teria uma banda, né? Olha para ele. Duvido que houvesse algo que Alexander ainda não houvesse feito na sua vida. Ou melhor, duvido que houvesse alguma coisa descolada que ele nunca tivesse feito.

— Há muito tempo – ele respondeu, como se não quisesse entrar no assunto.

Eu gostaria de ter uma história legal para falar... mas eu não tinha. Minha infância havia sido solitária e normal, ainda mais depois que minha irmã viajou para morar com a minha mãe. Eu lembro que até mesmo no ensino médio (quando eu cheguei a tentar me encaixar) tudo o que eu tinha eram livros que eu adorava, e vídeo-games... E uns amigos que iam e vinham, depois de terem me usado.

Eu não gostava da pessoa que eu era no colégio.

Não porque eu era uma vagabunda sem coração, que ficava zombando das pessoas e me sentindo melhor que todo mundo... Mas porque eu simplesmente não fazia nada. As coisas eram que aconteciam comigo e eu só... Esperava. O quê? Eu não sei. Mas parecia que esperar era a única coisa que me fazia sentir melhor no colégio.

Esperar que um dia as pessoas parassem de implicar comigo; esperar que um dia a escola não fosse tão ruim quanto ela parecia ser... Esperar que um dia as coisas ficassem melhores porque nos livros, elas sempre ficam.

Uma onda percorre o meu corpo, e não é pela presença de Alexander.

De repente, sou tomada apenas por um pensamento: não quero mais ser a "garota que espera"; quero ser mais como "blind spot", um tiro no escuro. Talvez eu devesse correr mais riscos, fazer mais coisas sem pensar... Porque, seguindo as regras, eu ainda não havia me encontrado e muito menos me encaixado.

— Eu quero fazer a tatuagem – eu disse para ele, de repente.

Alex até chega a se engasgar com o café e eu bato nas suas costas.

— Você está falando sério? – Ele perguntou.

— Acho que estou – eu disse me levantando da mesa, para ele entender que eu queria. E queria ir agora. Meu corpo estava tomado por adrenalina e correntes elétricas. Uma vontade estranha de fazer alguma coisa e fazer agora. – Podemos ir?

Ele me olha de soslaio.

— Só se você me disser porque – ele pediu.

— Eu posso dizer no carro? – Eu retruquei, ficando vermelha.

Um meio sorriso se esgueira pelo canto da sua boca.

— Claro que pode – ele disse. – Espera só eu acabar o meu café, lindinha.

O jeito com que ele fala “lindinha” me faz corar, mas eu aceito e volto a me sentar no seu lado. Porém, ainda estou inquieta, por conta daquela carga de adrenalina e correntes elétricas. Não consigo ficar quieta. Eu dou uma olhada pelo ambiente da cafeteria um tanto cheio do que era comum. E então me volto para Alexander.

Ele está me observando como se achasse que tinha algo estranho comigo, mas não quer que eu perceba o seu olhar. Assim que eu olho para ele, ele desvia para a janela que exibia a calçada e um prédio da área de saúde. Então tudo o que eu consigo ver nele são aquelas tatuagens no seu pescoço.

Há uma ideia na minha cabeça...

Mas há uma relutância... Uma vergonha. Que eu respiro fundo e digo a mim mesma: “fecha os olhos e faça”. Então eu me inclino sobre ele e lhe dou um beijo no pescoço, em cima de uma tatuagem de serpente. Quando começo, é bem mais fácil continuar. Não é um selinho, é um beijo molhado. Eu abri a boca e passei a língua para sentir a textura da sua pele, e depois mordisquei de leve.

Eu sinto quando ele fica tenso e não sei se é porque ele gostou ou não.

Quando eu me afasto, ele está me olhando estranho, com a respiração pesada.

— Se eu fosse você, tomava cuidado — ele sussurrou para mim. — Você está me atiçando em local público... E eu não tenho hora nem lugar.

Há algo no modo como ele diz isso, e no jeito como ele me olha (agora eu entendi aquele olhar: é desejo), que me hipnotiza por um momento. Lembrando-me do nosso sexo no meu quarto. Do seu olhar naquela noite, dos meus gemidos e dele próprio.

Um arrepio percorre minha espinha, e eu fico vermelha.

Preciso desviar o olhar antes de perder a cabeça. Então eu mordo o lábio e olho pela janela... Só para ver que, do outro lado da janela, está um grupo de garotos atléticos e altos, e no meio dele está Mike. Olhando para nós dois com uma vontade (nem sequer mascarada) de bater em alguém. O que não faz muito sentido. Eu já o vi com outra garota na outra noite, acho que isso era o suficiente para que eu entendesse que ele estava em outra. Ou pior: que ele nunca esteve na minha.

Mesmo assim, me sinto congelar diante do olhar dele.

E é nessa hora que Alexander se levanta.

— Bora – ele diz ainda com aquele olhar de desejo. Acho que ele não viu o olhar assassino de Mike (ou talvez não se preocupe com isso).

Quando eu me levanto, ele passa o braço pelos meus ombros e encara Mike. Deixando claro que sim, ele havia visto e que estava pouco se lixando para o cara loiro, alto e atlético do outro lado da janela. Ou melhor, que estava gostando de fazer um pouco de inveja a ele.

— Então esse é o famoso Michael Furrey – ele disse com diversão.

Eu fico corada e apenas concordo com a cabeça.

— O cara que namorou você por causa da aposta? — ele perguntou.

Eu fico mais vermelha ainda. É. Pelo visto eu havia dito a ele...

— Não me leve a mal, mas você merece coisa melhor — ele sussurrou.

Eu me arrepiei quando ele falou perto do meu ouvido, quase cheguei a estremecer. Pensei até em perguntar o que ele achava que era “coisa melhor” do que Mike, mas não perguntei porque parecia pessoal demais... Talvez até mesmo comprometedor demais se ele falasse que ele era melhor que Mike.

Então eu apenas o vejo mostrar o dedo médio para o garoto e me guiar para fora da cafeteria, se deliciando com a expressão raivosa do loiro.