Glee-21-Faberry

15 Take it all. Part 2


Notas iniciais
Peço desculpas pela minha demora. Dessa vez os motivos foram problemas sérios. Ontem eu tive tempo para me atualizar em glee. We care about you. *-* Quinn porque você tinha que dizer isso logo para ela? Por quê? Por quê? Os fãs enfartando em 3,2...0.o. Aposto que todo mundo ta viciado em Love Song. Santana vai para Nova York, FINALMENTE. As coisas estão começando a se ajeitar. Voltando a história, desculpem qualquer erro. Boa leitura.

“Take it all, with my love.”

O vidro da janela que guardava o quarto de Sam rugia à medida que a chuva forte soprava gotas generosas contra a transparência. O frio açoitou a pele de Quinn. Seus dedos resolveram hibernar resultando em dificuldade para virar as páginas gastas do diário.

Página trinta e quatro.

Os testes começaram a vingar. Oito pessoas apresentaram melhoras incontestáveis durante toda a observação minuciosa de seis meses. Eu sentia meus ossos tremerem de satisfação e orgulho. Estava pronta para testá-la em outras pessoas, países e por último no mundo.

Só que havia um porém.

Terrivelmente considerável.

Quinn borrifou ar quente contra os dedos de gelo. Esfregou-os para criar um atrito caloroso. Tentou colocar os pensamentos numa ordem coerente. Shelby havia feito uma descoberta incrível, mas suas palavras soavam preocupadas nesta página.

Um obstáculo surgira.

Virou para a próxima. Então as palavras de preocupação dissolveram-se em uma nota que não tinha nada haver com o assunto.

Rachel está cada vez mais agitada e saudável. Eu estava cantando na cozinha hoje e senti um chute. Sorri e continuei a canção, mas ela não parou de movimentar-se no meu interior. Então tive a ideia boba de mudar a música e coincidentemente as agressões pararam.

Foi um momento estranho e único.

Descobri que ela preferia músicas agitadas à jazz. Eu não sei como, mas senti um sorriso pequeno se alargando no meu ventre.

Talvez fosse só a minha imaginação.

Mas eu me senti realmente feliz.

Ao longo do diário tinham vários rodapés citando alguma coisa sobre Rachel. Era nesses momentos que Quinn sentia-se um lixo e parava a leitura, porque não deveria estar descobrindo isso antes dela. Não parecia justo.

Soltou um “graças à Deus” quando o despertador anunciou a hora de ir para o colégio.

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Santana estava deitada com a barriga voltada para o teto. Soltava longos suspiros enquanto Brittany corria as mãos pelo seu cabelo.

_ O que está te afligindo?

A latina levantou num pulo. Rodopiou o quarto com os braços cruzados debaixo do tronco. Sentiu as lágrimas teimosas quererem lhe escapar e engoliu-as por orgulho.

_ Não consigo entender a Quinn.

Britanny sentou na beira da cama. Seus olhos azul-bebê transpiraram compaixão.

_ Nunca passou pela minha cabeça que ela fosse se apaixonar justamente pela pessoa que nasceu para destruir._ pensou um pouco alto._ Isso é cruel.

Os olhos negros e céticos de Santana triplicaram de tamanho ao ouvir aquilo. Parecia um absurdo ainda maior quando proferido em voz alta.

_ Você não está falando sério._ rebateu._ Talvez ela tenha uma queda pela Berry, mas paixão? Ou qualquer outro sinônimo é ridículo. Impossível.

Ela apoiou o corpo contra a escrivaninha. Fechou os olhos já marejados. Sua amiga não podia ser irresponsável a esse ponto. O que mais a apavorava era o fato de que se o que Brittany cogitou fosse verdade, Quinn não teria coragem para realizar o que a profecia determinou.

Tremeu com o pensamento.

_ Suponhamos que o que Quinn sente pela Rachel seja maior do que conseguimos ver ou do que ela mesma já admitiu._ Santana a encarou emburrada._ Só uma hipótese, amor._ fechou a proximidade e enlaçou a mão dela._ Você ficaria do lado da sua melhor amiga ou continuaria a apoiar a profecia?

Santana desabou em lágrimas.

Ela não sabia a resposta.

____________x____________

Molly Morland fez uma aula de despedida. Metade dos alunos compareceu, até alguns que perderam em sua matéria. Muitos foram movidos pela curiosidade, outros só pela falta do que fazer. Ela sentou em seu “trono” faltando poucos minutos para o sinal anunciar o fim.

Olhou para todos os presentes.

Havia um misto de felicidade líquida nos olhos de arame. Muito incomum.

_ O tempo concede pessoas e nos rouba outras._ começou, dedilhando os dedos._ As consequências da perda é que a pessoa talvez não supere muito bem e se torne amarga._ deu um meio sorriso._ Bom, como a professora de literatura de vocês.

Ela riu e a turma fez a tentativa arriscada de acompanhá-la.

O resultado deu positivo.

_ Peço minhas sinceras desculpas aos que importunei esse ano._ retirou os óculos e secou os olhos._ Os adultos tem essa mania boba de achar que estão sempre certos e não vêm que esse é o seu maior erro._ pousou os olhos em Quinn._ Desejo-lhes o melhor quando saírem por essa porta.

O sinal tocou. O batuque de pés foi ficando menor à medida que os alunos saiam. Molly fez um aceno e chamou sua aluna nota dez uma última vez.

Puxou a gaveta e retirou um pedaço de papel cor de sol.

_ Você evoluiu muito, senhorita Fabray._ ditou, direcionando-lhe um sorriso._ Quando foi recitar seu poema disse que havia se dado conta de coisas que a mudaram para melhor. Bom, eu acho que eu também recebi essa proeza.

Quinn sorriu branco. Não precisava de mais palavras para entender o que a mulher à sua frente queria lhe dizer. Ela tinha direcionado o poema para tudo que Rachel lhe ensinou, portanto Molly também mudara pela influência de uma pessoa.

A professora estava olhando-a agora.

Aquela que a salvara da escuridão da ignorância.

O eco da mente de Molly:

“Você.”

Essa deve ser uma das características mais belas do ser humano. Ser ajudado por quem menos espera. Uma controvérsia bonita. A prova de que não importa como você foi destruída, sempre há um caminho para voltar a viver.

Só precisamos de um braço amigo.

Alguém para acreditar.

Uma corrente invisível:

Rachel salvou Quinn. Quinn salvou Molly.

_ Fico contente, professora.

Novamente aquele sorriso inusitado borrou os cantos da boca da senhora Morland. Ela estendeu o papel para a aluna e pediu para que o lê-se depois, porque era apenas uma porta que poderia lhe proporcionar alguma felicidade caso ela decidisse abrir. Assim como ela havia feito no dia das mães quando lhe entregara uma rosa.

Uma rosa vermelha. Um papel.

Trocas simples que fizeram toda a diferença.

_ Boa sorte, Quinn.

Molly nunca havia lhe chamado pelo primeiro nome. Foi naquele momento que percebeu que algo bom entre elas já estava florescendo à algum tempo. Talvez um sinal de amizade ou um mútuo vislumbre de respeito e admiração.

Era bom e bastava.

Quinn caminhou com um sorriso no rosto e um pedaço de papel novo entre os dedos.

Desdobrou as pontas. Enrugou a testa para a mensagem. Uma pergunta. Pegou-a de surpresa. As palavras que lhe foram entregues tocaram seu coração, deram um pouco de esperança e uma lasca de otimismo. Nunca havia tido tempo para pensar a respeito do que tinha em mãos.

Mas agora. Talvez fosse hora de começar.

Guardou-o no bolso agradecendo mentalmente a quem o havia rubricado.

Um último conselho em rabiscos:

Você já pensou em ser escritora?

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A noite estava pregada por nuvens disformes. Algumas estrelas tentavam arrumar espaço entre a densidade gasosa, buscando reluzir seu sorriso brilhante. A lua cintilava intensamente, criando sobras de branco.

Quinn esticou uma toalha perto do lago.

_ Perfeito.

Convencera, a muito custo, sua namorada de que precisavam de um novo primeiro encontro. Já que o último resultara em gritos e duas tentativas de assassinato (Uma do garçom e outra de sua melhor amiga).

Rachel trajava suas roupas usuais. Deixando as pernas fartas a mercê do vento frio. Sentou-se sobre a toalha e olhou com curiosidade para o telescópio que permanecia solitário ao lado do seu piquenique noturno.

_ Onde você arrumou isso?

_ Peguei na casa da Brittany._ deu de ombros._ Emprestado.

Ela só não revelou a parte que sua amiga não estava ciente do empréstimo.

_ Qual o objetivo?

_ Você saberá daqui a exatos vinte e sete minutos._ olhou no relógio para conferir o tempo certo._ Temos tempo para jantar.

Uma cesta foi prontamente revistada. Saíram de lá pedaços de bolo de chocolate, suco de laranja e torta de maçã. Rachel riu internamente, a loira sempre a surpreendia, mas não de uma maneira ruim.

_ Eu não sabia do que você gostava._ desculpou-se corando levemente._ Trouxe tudo de bom que eu encontrei no caminho.

_ Tudo bem, Fabray._ deu de ombros._ Eu sou indecifrável.

Quinn esticou a mandíbula e enrugou as sombrancelhas.

_ Eu sei muito sobre você, Berry.

_ Mesmo?

Um desafio foi lançado silenciosamente. Quinn sentou-se de frente para ela. Seus joelhos se encontravam e permaneciam unidos enquanto a brincadeira rolava.

_ Sei que não gosta de sujar seus pés, por isso prefere andar de botas. Você gosta música agitada, mas não dispensa uma batida lenta. Quando acorda franze o nariz se tiver sol nos seus olhos._ Rachel assentiu e deixou-a prosseguir._ Sempre coloca os outros antes de si mesma, por isso imagino que seu sonho seja seguir os passos da sua mãe, em outras palavras, tornar-se médica. Acertei?

Rachel jogou os braços para o alto. Perdera aquela partida. Constara, felizmente, que Quinn sabia muito sobre ela. Uma sensação boa lhe fazia cócegas ao ver o quanto ela se importava.

_ ESTÁ NA HORA!

Houve um sobressalto. Quinn levantou num movimento ansioso e caminhou até o telescópio para conferir se estava numa posição adequada. Sorriu com o bom trabalho que tinha feito. Vira no noticiário mais cedo que um cometa de nome estranho passaria justamente naquela noite no céu dos Estados Unidos.

Solidificou a ideia de mostrá-lo a Rachel que amava tanto o céu.

Furtou temporariamente o telescópio da amiga.

_ Vem._ estendeu a mão para a pequena, mas na pressa acabou metendo o pé contra o apoio do utensílio e o telescópio despencou rio abaixo. Quinn olhou atônita para o objeto, boiando na água.

_ Jesus, Maria e José.

As próximas horas prosseguiram assim.

Resumindo o acidente:

1- Elas não viram o cometa.

2- Quinn conseguiu recuperar o telescópio depois de pular na água fria.

3- Ela estava congelando.

Quinn tremia da ponta do pé até o último fio de cabelo. Suas costas estavam tensas e ganhando leves pontadas de câimbras. As costelas comprimiram-se dificultando sua respiração.

Um cobertor velho foi prontamente jogado em cima de seus ombros.

Rachel começou a desabotoar os botões da camisa encharcada.

_ Por que você está tirando a minha roupa?_ cada palavra era pontuada por um calafrio.

_ O sangue dos seus membros não pode voltar muito rápido para o seu coração._ ela retirou o tecido e deixou o tronco definido da loira exposto, coberto apenas pela roupa de baixo. Embrenhou-se na cintura de Quinn puxando-a para um abraço._ Você pode sofrer uma parada cardíaca. Preciso te aquecer.

Quinn agradeceu mentalmente a aula de biologia, noticiário ou canal educativo que tivesse ensinado a morena essa humilde tarefa. Ela definitivamente não podia reclamar do que estava acontecendo agora.

Na verdade pensou em encontrar mais alguns rios para pular.

_ Queria que você tivesse visto o cometa.

Ela se afastou apenas o necessário para encontrar os olhos avelã. Sorriu e deu um beijo na maçã de seu rosto.

_ Existe alguma previsão para a sua volta?

_ Sim._ Quinn respondeu tristonha._ Daqui à cinco anos.

Rachel afagou o rosto cansado dela.

_ Nós vamos vê-lo nessa data.

Claro que Rachel estava brincando e tentando manter o otimismo do momento. Quinn sabia, mas simplesmente assentiu, tomando-a com outro beijo. A profecia estava cada vez mais próxima e as chances de verem algum habitante celeste diminuía a cada segundo.

O relógio estava ganhando peso.

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_ Você tem um sonho, Quinn?

A madrugada se estendia sobre a calmaria das montanhas. As meninas estavam aninhadas contra a lataria do carro, realizando seu hábito de observar as estrelas. A pergunta a pegou desprevenida.

_ Não._ respondeu categoricamente._ Eu nunca tive tempo para pensar sobre isso.

_ Por causa da profecia.

Quinn virou de lado. Puxou-a pelo braço e escondeu o rosto no emaranhado de cabelos negros.

_ Estranho, acabei de perceber que a única coisa que passei a vida toda pensando foi você._ disse mais para si mesma._ Não é por acaso que me apaixonei.

_ Eu gostaria que você tivesse um.

A loira lembrou-se do papel que lhe fora entregue mais cedo.

_ Bom, a senhora Morland me falou... uma coisa._ corou fortemente._ Perguntou se eu já pensei em ser escritora._ deu de ombros._ É bobagem, eu sei.

Houve um movimento rápido. Rachel sentou na lataria e encarou-a de cima.

_ Eu acho que você seria uma ótima escritora.

Quinn a acompanhou. O rosto queimou em meio aos flocos frios de vento. O céu brilhou com mais intensidade. Seu coração deu um salto.

_ Obrigada._ sorriu acanhada._ Vou pensar no assunto.

Rachel fechou a proximidade e dissolveu os lábios contra a maciez oposta. Dedilhou o rosto dela até chegar à parte de trás e enrolá-la com ternura. Quinn deixou-a tomar conta do seu lábio quente. Sentiu um calor fulminante espalhar-se em suas bochechas.

_ Nosso encontro deu errado de novo._ falou em meio às carícias._ Nada do que eu planejo dá certo.

Uma observação compartilhada:

Você já deve ter percebido. Coisas espontâneas têm um desfecho melhor.

_ Então não planeje..._ Rachel sussurrou contra sua pele e deixou um beijo molhado lá._ Apenas faça.

Foi um momento de desenfrear corações. Quinn desaprendeu a respirar. Suas íris cresceram como uma bola de chiclete recém confeccionada. Ela encontrou o olhar de Rachel e leu o desejo incluso.

Não tinha mais dúvidas.

Estavam pensando exatamente igual.

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Não dava para saber e pouco importava como elas haviam chegado até o banco de trás do carro. A parte relevante é que Quinn abraçava a cintura de Rachel e beijava ansiosamente seu pescoço ouvindo cada toque ser pontuado por um suspiro.

Rachel despejou as pernas ao redor dela e buscou um ponto de aconchego.

Sentiu as mãos pálidas caminhando em suas costas. Afagando cada ponto sensível que descobria. Num determinado momento afastou os ombros de Quinn e encarou-a nos olhos.

Um porém precisava ser trazido à tona.

_ Sabe o que estamos prestes a fazer?

Quinn assentiu. Ela sabia a razão para Rachel perguntar aquilo. Parecia que elas tinham chegado ao ponto sem volta. Uma linha invisível que se ousassem cruzar não teria como regredir.

_ E a profecia?_ Rachel perguntou preocupada.

_ Dane-se a profecia._ afirmou confiante._ Eu quero você. Não tenho intenção alguma de te perder. Eu já fiz a minha escolha._ transpassou a verdade pela intensidade verde._ Qual é a sua?

Naquele momento o mundo girou mais rápido.

Rachel descansou os lábios contra os dela anunciando sua decisão. Quinn retribuiu. As roupas foram sendo deixadas de lado. As carícias tornaram-se cada vez mais necessárias e hábeis.

Profecias. Espíritos. Morte. Isso tudo parecia tão longe.

Só o amor importava agora.

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O sol amarelou as plantas rasteiras perto da casa dos Lopez. Quinn chutou um montinho de mato no caminho da porta. Seus cabelos rebeldes estavam mais vivos, a camisa azul-bebê estava toda mastigada e um sorriso de alagar vales tomou conta de seu rosto.

Andou pela casa à passos surdos. Lentamente, girou a maçaneta do quarto, pronta para cair na cama, mas parou quando percebeu a presença de dois olhos familiares inspecionando-a por inteira.

Sam ergueu as sombrancelhas e deixou a mandíbula cair.

_ Vocês duas fizeram.

Seu lado protetor e racional simplesmente foi esmagado pela sua característica mais forte. Perversão. O sorriso malicioso roubou seu rosto e seus braços formaram dois blocos no ar.

_ Não sei ao que se refere, Sam.

_ Uhum._ revirou os olhos._ Como você explica esse roxo no pescoço?

Quinn passou por todos os tons de vermelho existentes.

_ Devo ter batido.

_ Contra uma boca enorme?

O travesseiro mais próximo de Quinn amassou o rosto dele. Seu sorriso galante cresceu fortemente em meio as gargalhadas. Ela o encarou atônita. No fundo, sentia falta de seu lado divertido e desanuviado. Não que fosse admitir.

_ Vou tomar um banho.

_ É bom._ o garoto concordou._ Você deve estar precisando.

Agora um livro voou de encontro a sua cabeça. Ele sorriu e levantou correndo para a porta.

_ MINHA IRMÃ FINALMENTE ABANDONOU O DESERTO.

Ainda bem que ele já tinha saído. O próximo objeto a disposição de Quinn era um abajur.

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A noite caiu às pressas. Estava bonita e coberta de estrelas. Um convite atrativo para os bons observadores. O sorriso da lua estava mais cinza e brilhante. O vento suspirava manso, ninando as árvores em seu leito.

Rachel estava jogada de bruços em sua cama. Suas costas estavam nuas e expostas. Quinn pontuou um beijo na base de sua coluna, a morena sorriu.

_ O céu está bonito.

_ Uhum._ Rachel sussurrou._ É noite de lua cheia.

Quinn deitou ao lado dela e puxou o lençol para cobri-las. Mexeu na franjinha negra, Rachel riu.

_ Quer ir lá para fora?

_ Não._ deu de ombros._ Não sei por que, mas aqui parece estar mais agradável.

Os olhos avelã reviraram e sorriram para ela. A luz cinzenta iluminando o rosto de Rachel aumentava seu brilho natural. Seus enormes orbes chocolate pareciam mais intensos, com uma calmaria alegre.

_ Você sabe como a lua nasceu, Rach?

Ela balançou a cabeça para os lados.

_ A melhor parte dos treinos era a hora em que parávamos para ouvir as histórias antigas do nosso povo. Têm muitas e eu não lembro de todas, mas essa me marcou.

Ela ajeitou um braço de baixo da cabeça de Rachel e fez um carinho em seus cabelos com a mão livre.

_ Estou ouvindo._fechou os olhos para senti-la melhor.

_ Os espíritos criaram a terra e povoaram-na com seres diferentes. Viram o trabalho árduo e bem feito pronto e não conseguiram parar de sorrir. As risadas possuíam calor e foram se agrupando no ar. Cresceram e expandiram-se formando uma pequena bola de fogo, que hoje em dia conhecemos como o sol.

A pequena enrugou as sombrancelhas.

_ Pensei que a história fosse sobre a lua.

_ Calma._ pediu bagunçando-lhe os cabelos antes de prosseguir._ O sol era majestoso, imponente e soberano. Todos o amavam, mas quando tentavam por os olhos nele acabavam por machucá-los. Os seres terrestres não podiam observar a beleza daquela estrela escaldante. Os espíritos entristeceram com esse fardo e derramaram lágrimas, que se agruparam e formaram um espelho escuro. Ele era pequeno, porém extremamente carismático. A lua.

Rachel subiu a cabeça alguns centímetros para ouvir mais atentamente.

Uma nota complementar:

O brilho da lua é a alma do sol.

_ Através da lua os seres terrestres puderam observar a magnitude do sol._ sorriu terna._ Eles são amigos até hoje. Separados não conseguem existir, mas juntos são eternos.

Quinn embrulhou-a com os braços quando um vento frio passou cortando o calor que emanava dos corpos unidos. Suspirou ar quente no pescoço moreno que sofreu um lapso de arrepio.

_ Eu adorei.

_ Seres antagônicos podem ficar juntos por um bem maior._ Quinn pontuou em meio a um sorriso doce._ Parece familiar?

_______________x_______________

A vidraça congelou quando o vento a beijou sedento. O frio imponente desceu pela cidade de Lima. Quinn estava enrolada com várias camadas de cobertores. Sentava meio torta na cadeira da escrivaninha e tentava se concentrar nas páginas cansadas do diário.

Depois de algumas folhas falando de como sua gravidez estava sendo conduzida, Shelby voltou a o assunto que a afligia.

Apresentei a minha descoberta para o conselho do hospital. Mostrei os resultados promissores que os testes apontaram. Todos pareciam muito satisfeitos, congratularam-me, disseram que a cidade de Lima ficaria para a história e que a vida de milhões de pessoas seria poupada.

Mas havia um preço.

Eles queriam saber a “origem” da cura. E para revelá-la, eu precisaria expor o meu povo. Tenho certeza de que se contasse a verdade, primeiro haveria o ceticismo comum aos cientistas, depois eles iriam querer provas.

Pessoas da ciência são dispostas à tudo em nome de um bem maior.

Tudo. Se precisasse caçar, amordaçar e cortar as pessoas com esse dom para estudá-las, assim seria. Eu simplesmente não podia permitir algo tão bárbaro. Como eu me sentiria se lhes desse uma ferramenta para nos destruir?

Por tudo isso, tomei uma decisão, que mudaria tudo.

Escondi a cura no...

Para o desgosto de Quinn, faltava um pedaço da página. Fora rasgado. Exatamente naquele ponto crucial. Folheou algumas à frente e voltou. Nada.

Não havia continuação.

_ O que você está lendo?

O susto lhe proporcionou uma irritante taquicardia. Fechou o diário num pulo e virou-se com as bochechas em chamas.

_ Nada._ deu de ombros._ O que foi, Sam?

Ele avaliou sua reação entre o ceticismo e o desinteresse. Escolheu a segunda opção. Não queria criar mais confusão.

_ Eu queria conversar sobre a Berry.

Quinn jogou as sombrancelhas no ar. Não esperava por essa.

_ Tudo bem._ sentou-se novamente._ O que você quer saber?

_ Percebi que tenho agido como um idiota nesses últimos dias.

_ Concordo.

Sam jogou uma almofada nela e deu uma risada.

_ Eu só olhei o lado da profecia._ concluiu._ Não pensei que você realmente pudesse gostar dela. Fui um hipócrita, porque eu realmente sei como é isso. Já tive uma vez.

Ele se referia à Melody. A ex-namorada que o traíra por outro homem tão sem coração quanto ela. Sam nunca se recuperou.

_ Você a ama?_ Sam indagou sério.

Ela nunca pensou realmente naquele fato, mas depois de tudo o que enfrentou para salvá-la. Todos os ferimentos emocionais e físicos. Não havia dúvidas sobre a resposta.

_ Tanto, Sam._ sua voz saiu embargada, mas não falhou._ Muito mais do que eu podia ou me achava capaz.

A verdade estava lá, em formato avelã, líquida e serena como água. Sam levantou e tomou-a pelos ombros.

_ Eu posso imaginar o peso que você está carregando. Sou seu irmão mais velho e vou ajudá-la. _ recuou para encará-la._Se houver um jeito, qualquer um, de vocês ficarem juntas e as pessoas que amamos bem, saiba que eu vou usar minhas últimas forças para realizá-lo.

_ Obrigada._ Quinn afundou no ombro dele._ Eu te amo.

_ Eu também.

Quer se desculpar com alguém que ama?

Um pequeno conselho:

Faça-lhe uma surpresa. Dê-lhe um abraço.

Foi um momento para ficar grampeado na memória. Eles estavam sós no quarto, mas não sozinhos, porque havia um par de ouvidos e olhos negros na soleira da porta. Uma mão morena tocou a maçaneta e fez um movimento para entrar.

Santana respirou fundo e deixou a mão cair.

Não podia fazer parte dessa insanidade.

As lágrimas pingaram em seu rosto cansado quando ela deu vários passos para longe do quarto.

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O mustang trepidou pela estrada sinuosa e parou à poucos metros da casa dos Berry. Quinn o desligou para esperar sua namorada. Elas combinaram de ir ao hospital visitar as crianças.

_ Que beleza!

Ouviu uma exclamação masculina. Tinha um garoto moreno parado ao lado de Mu. Babando em sua lataria.

_ Obrigada?

_ É um mustangue 1970, verde-musgo._ ele estava estupefato._ Um clássico. Acho difícil de encontrar um desses hoje em dia.

Quinn sorriu. Abriu a porta para encontrar Noah Berry analisando os pneus gastos de seu bebê de lata.

_ Quanto você quer por ele?

De repente ela passou do estado de felicidade para o de ofendida. Seu carro não tinha preço. Preferia doar um rim ao se desfazer do mustang.

_ Ele é inestimável.

_ Podemos negociar._ insistiu._ Eu tenho minhas economias.

Ela estava prestes a respondê-lo malcriadamente, quando Rachel apontou na porta da casa e veio até eles com os orbes marrons transbordando curiosidade.

_ Vocês estão interagindo?

_ Não fique com ciúmes, maninha._ Noah jogou as mãos para o alto._ Ela não faz o meu gênero.

Rachel estreitou os olhos.

_ Falou o garoto que namora a prima mais nova dela.

Quinn ergueu as sombrancelhas e deixou a mandíbula despencar.

_ Kitty?

Os irmãos Berry entreolharam-se. Rachel deu de ombros.

_ Longa história.

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Quinn manobrou para a direita saindo da boca de um buraco particularmente grande. A estrada que as guiava para o hospital tornara-se cada vez mais impenetrável. Rachel contou a história do namoro secreto entre Noah e Kitty. Os olhos avelã riram.

_ Parece que não somos as únicas rebeldes da família._ a motorista constatou.

Rachel concordou. Abriu a mochila que descansava aos seus pés e puxou um livro. Abriu em uma página enquanto sua namorada continuava a tagarelar.

_ Esqueci de contar a nova piada.

A pequena fechou os olhos e bufou. Não estava nem um pouco infeliz que ela tivesse esquecido.

_ Pitoco foi ao circo com seus amigos._ Quinn começou tentando fazer suspense. Rachel prosseguia em sua leitura._ Durante a apresentação o leão acabou se soltando. As pessoas começaram a correr de um lado para o outro em total desespero. Até que um homem olhou para o pobre Pitoco e gritou: “O aleijado. O aleijado.” Pitoco olhou-o de cima a baixo com os olhos em chama e respondeu: “Deixa o leão escolher.”

Rachel nem se indignou a levantar os olhos do livro. Quinn capturou-a pelo reflexo do retrovisor revirando os próprios.

_ Não acredito que você não riu.

_ Sério?

A loira estreitou os olhos e deu de ombros.

_ Quando for procurar um sonho, risque comediante da lista de possibilidades._ Rachel pontuou com os olhos vagando pelas páginas de “Orgulho e Preconceito.”

Quinn estava prestes a protestar quando o toque do celular a impediu.

_ Oi, Donna._ Rachel atendeu e sua expressão antes divertida caiu num suspiro para atônita. Ouviu tudo atentamente, respirando pesado. Desligou depois de alguns minutos e colocou a mão sobre o peito.

_ Rachel?

_ Aconteceu alguma coisa com o Peter.

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Donna retirou os óculos e esfregou os olhos exaustos. Seu plantão estava prestes a acabar quando um incidente terrível acometeu o hospital. Um de seus mais queridos pacientes agora estava deitado numa cama isolada. Sem previsão para sair.

Uma garota morena empurrou as portas de vidro e foi correndo em sua direção.

_ Rachel.

_ Onde ele está? O que aconteceu?

A enfermeira bufou um lamento.

_ Ele teve uma crise muito forte._ Rachel empalideceu._ Vomitou sangue e caiu ao lado da maca quando desmaiou. Sofreu uma fratura no braço por conta da queda. Está na UTI.

Rachel estava prestes a desmaiar quando algo segurou suas costas. Quinn chegou à tempo de ouvir a parte trágica da história e amparar sua namorada.

_ Posso vê-lo?_ sua voz estava embargada.

_ Sinto muito._ Donna negou._ Ele não pode receber visitas no estado frágil em que está.

Houve uma virada brusca. Rachel se libertou dos braços de Quinn e correu porta à fora. Segurou os cabelos travando o choro na garganta. Sentia-se enjoada e furtivamente tonta. Sua respiração era o mais puro descompasso.

Isso não está acontecendo. Ele não, por favor.

Existem certos tipos de dor difíceis de suportar.

Ela corrói a alma e destroça o espírito, sabendo que você viverá o suficiente para apreciar o estrago.

Não é justo.

Não podia fazer nada. Mãos atadas. Coração apressado. Estava fora de vista quando passou a caminhar em quatro patas. Ganhou dentes maiores e mais brilhantes e um cobertor cor de sangue.

O lobo vermelho arremessou-se entre as árvores.

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Correr devia ser o ato mais inconcebível de realizar no momento, mas era tão revigorante. Afasta os pensamentos. Permite que sua mente se concentre apenas na respiração pesada que o guia. As patas rumaram para um vale extenso. Desceu uma subida íngreme direto em uma pedra solitária.

Continuou ao redor do rio zangado.

Sempre em frente. Sem conhecimento de seu destino.

Parou quando suas patas tremeram. Abaixou a cabeça numa prece silenciosa.

“Ele é forte.”_ falou para si mesma. “Vai sair dessa.”

Um lobo cor de neve alcançou-a minutos depois. Caminhou até seu lado e parou, sentando nas patas de trás. Encostou a cabeça levemente na do lobo vermelho. Sentiu o choramingo oposto sendo reprimido.

O silêncio prosseguiu. Rachel precisava de um tempo.

Quinn sabia.

“Quer ficar sozinha?”

Os olhos chocolate apareceram por trás das órbitas. Surpreendentemente, ela negou.

“Não.”_ escondeu o rosto no pescoço branco. “Podemos ficar assim por um tempo?”

“Quanto for preciso.”

A tarde disse adeus. O sol dormiu atrás das montanhas. Elas continuavam naquele abraço sem braços. Quinn passou o focinho na orelha de Rachel carinhosamente. A pequena suspirou em resposta.

“Estou melhor.”

“Bom.”_deu um meio sorriso._ “Ele vai ficar bem.”

“Eu queria ser capaz de fazer alguma coisa para ajudá-lo.”_ Rachel falou baixinho._ “Qualquer coisa.”

Quinn lembrou-se do diário. A cura. Peter provavelmente precisaria de uma cirurgia de alto custo para amenizar o impacto do câncer, mas se ela conseguisse achar a cura, talvez a operação pudesse ser descartada.

“Ele vai ficar bem.”_ repetiu. “Confie em mim.”

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O diário sofreu um abalo ao ser jogado com fúria sobre a solidez de madeira. Quinn arrastou a cadeira para ficar colada a escrivaninha. Abriu na página em que parou com uma determinação arfante.

Precisava agir rápido.

Seu objetivo tornara-se muito mais complexo.

O garotinho de olhos mel que sua namorada amava estava por um fio.

Um desafio inusitado:

Encontrar o local onde a cura estava escondida.

Folheou algumas palavras que a seu ver tornaram-se insignificantes. Shelby continuava a citar Rachel ao longo do diário, mas Quinn preferiu ignorar essas partes.

Oitenta e nove.

Eu estou morrendo. Não nego ou me arrependo. O que estou fazendo vai afetar apenas a mim, mas salvará milhões de vidas futuramente. Tenho muitos motivos, mas esse foi crucial para que eu escrevesse o diário.

Ela parou instantaneamente. Shelby falava sobre os remédios que estava tomando ao longo da página, mas não mencionava sua descoberta. Quinn travou a mão contra o móvel. Seus dentes fecharam-se em uma serra.

Porque você rasgou a página que continha a cura? Por quê?

A noite virou junto com as páginas.

O sol sorriu acanhado por trás das montanhas. Mãos pálidas apoiavam uma cabeça exausta, sonolenta e latejante. Quinn criou um bocejo triunfante. Seu coração deu um salto quando chegou à última página.

Está é minha última anotação. Um adeus silencioso. Estou fazendo o que considero melhor para a segurança das pessoas que amo e pelas pessoas que jurei ajudar. Guardei o caderno em um local apropriado. Espero que ele pare em mãos sábias e que está pessoa consiga usar sua inteligência para fazer o certo.

A cura existe. Está muito bem guardada. Se a pessoa conseguir encontrar a chave para abrir a fechadura que vou lhe dar agora, com certeza merecerá ser dono desse saber.

Seja lá quem você for só lhe peço solidariedade e compaixão.

Havia uma nota de rodapé no canto. Antes de ler o último parágrafo, Quinn deu uma passada de olhos. Duas palavras rubricavam o início: Para Rachel.

Eu nunca vou ouvir você chorar, sorrir ou falar, mas já te amo tanto. O amor maternal é algo que a ciência não pode explicar, mas fico grata por esse belo mistério. Desejo que você cresça forte à cada dia, que viva rodeada por amigos e família, e que encontre alguém para amar.

Sou a pessoa mais feliz do mundo porque tenho você.

Com amor, mamãe.

Quinn sentiu os olhos arrebatarem uma estranha umidade. Rachel merecia ler aquilo. Saber que sua mãe pensava nela o tempo todo, mesmo tomando remédios que a estavam matando por uma razão desconhecida.

Então ela voltou sua atenção para o último parágrafo.

Seu espanto foi avassalador quando descobriu que as últimas palavras de Shelby Berry eram uma charada.

_ Isso só pode ser brincadeira.

Leu cada letra. Bateu as abadas do caderno e jogou-o com tudo contra a parede mais próxima. Depois de gastar horas de um tempo que não tinha, terminou com mais perguntas que respostas.

Rachel nunca iria saber a razão por trás da morte da mãe.

Peter estava perdido.

Deitou a cabeça contra mesa e fechou os olhos em uma prece.

O diário descansou no chão frio. Amassado em uma página amarela. A última pista estava fracamente visível. Falando sem ser ouvida.

Página 114:

“O que criei de mais importante está guardado no que tenho de mais importante, mas não pude criar."

Notas finais
Eu amo Faberry. Cada vez mais. Faltam seis capítulos para finalizar essa fic e mais um epílogo. No total serão 21. Beijos, até o próximo.