Glee-21-Faberry
14 Take it all. Part 1
Notas iniciais
“If only you knew, everything I do is for you.”
O céu foi grampeado por nuvens laranja. Uma mancha violeta esbanjava beleza sobre o véu matinal. O vento compunha uma canção triste. O agrupamento de equipamentos necessários para uma apresentação. Um palco natural.
Um bocejo acordou a atriz principal.
Consegui.
Um papel congestionado de palavras lhe dava o mais sincero bom dia. Sorriu um mundo. Dormira miseras horas, não tinha dúvidas, mas não se importava nem um pouco. Estava alegremente exausta.
_ Até que enfim, loira.
Uma voz irritante surgiu às suas costas. Como de costume.
_ Do que fala esse poema?
Ela tentou tomar a preciosidade frágil das mãos pálidas, mas foi prontamente repelida. Santana deu um muxoxo de desaprovação. Quinn sorriu e levantou da cadeira. Suas costas reclamaram um pouco devido a péssima posição na qual adormecera.
Rumou frente ao espelho.
Sorriu para si mesma.
Seu último as na manga estava pronto. Só lhe faltava coragem para descartá-lo.
Por você.
Apesar de estar de frente para seu reflexo, o você não era ela. O “você” tinha uma estatura muito menor, gênio mais difícil e o sorriso mais sincero que um ser humano era capaz de criar. Aquela pessoa que fazia seu coração brincar de correr como uma criança numa partida de pique-pega.
O poema falava dela.
Era para ela.
Uma canção muda:
O amor é complicado até para os que os simplificam. Convenhamos, se fosse fácil não seria raro e tão pouco teria graça.
Seu mundo havia mudado depois que a conheceu. E motivo algum seria bom o bastante para fazê-la voltar à vida de antes. Tudo que ela queria estava bem ao seu alcance. Era hora de agarrar suas possibilidades e esquecer as responsabilidades.
Apertou o papel entre os dedos como se pudesse ouvi-lo sorrir.
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A sala era uma penumbra silenciosa. Olhares aglomerados encontravam-se no ar e engoliam um bloco de pedra. As pessoas foram sorteadas, para a ordem da apresentação ficar mais “justa”. Os primeiros engasgos, suspiros pesarosos e tremores entraram em cena.
Molly Morland permanecia sentada em sua mesa. Escrevendo com avidez a medida na qual os alunos recitavam o poema. Seu olhar era indecifrável.
Espero que ela tenha tomado o remédio hoje.
Quinn estremeceu em sua cadeira. Comprimiu o papel com mais força entre os dedos. Olhou para o lado e observou uma Rachel relaxada, acompanhando cada recital como se não estivesse prestes a passar pelo mesmo sufoco.
Elas não trocavam olhares.
Seria difícil para ambas. Porque sempre haveria alguma coisa indizível presa neles.
_ Rachel Berry._ a professora tirou o nome da urna.
Com segurança, ela caminhou por entre a multidão de condenados. Girou nos calcanhares e absorveu uma pequena bolha de ar. Abriu o livro numa página. Focou o olhar sempre perfeccionista e começou a soprar as palavras.
Ela contemplou o soneto 23 de Shakespeare.
Impecável. Era a palavra chave para a apresentação dela. Houve um sacolejar de palmas e até um sorriso mínimo vindo da professora. Rachel voltou ao seu lugar e se arrumou na cadeira, tentando achar uma posição mais confortável.
Foi uma euforia para Quinn vê-la declamar com tanta facilidade. Tinha certeza que ela havia passado. Seu sorriso parecia não caber na sala. Sacou o celular no bolso e hesitou antes de entrar na tela de mensagens.
Pessoas separadas podiam conversar?
Consolidou a dúvida, mas mandou a curta congratulação assim mesmo.
Quinn: Parabéns.
Não houve resposta. Pois bem, ela não esperava por uma. E de repente o silêncio foi desenhado. A urna de fogo sacudiu, cuspindo labaredas para todos os lados. Uma mão mergulhou para dentro do metal e batucou um pouco em seu estômago até fisgar o tesouro.
Um papel. Um nome.
O nome em papel:
Quinn Fabray.
E o mundo parecia prestes a acabar.
__________x___________
Todos os olhares recaíram sobre ela. Uma comichão de saliva entorpeceu sua garganta, deslizando com dificuldade, até cair no vazio de seu interior. Levantou e foi caminhando. Cada passo era uma facada em seus nervos.
Ela só ouvia o silêncio. O batuque desenfreado de seu coração parecia querer empurrá-la para trás, impedindo-a de cometer esse suicídio inevitável. Agora era tarde. Estava de frente para a turma inteira. Segurou o papel com firmeza, como se sua vida dependesse disso.
_ O que a senhorita têm para nós?
_ Eu..._ olhou para Santana, estirada em sua cadeira, divertindo-se com o desenrolar da cena._ Vou declamar um poema de minha autoria.
Molly deu um meio sorriso de aprovação.
_ Sobre o que se trata?
Então ela finalmente fez contato com Rachel. A pequena estava em sua cadeira, com os cotovelos descansando sobre a madeira e as mãos unidas embaixo do queixo, como se rezasse. Seus lábios mexeram ligeiramente, numa conversa muda, entregou duas palavras para Quinn.
As palavras sem som:
Boa sorte.
_ É sobre coisas que eu percebi e me mudaram para a melhor..._ fez uma pausa e fechou os olhos._ Que eu não tive tempo de dizer.
Ela engoliu em seco. Respirou fundo e reabriu as linhas avelã. Havia um misto de confiança e desespero. Jogou toda a sua concentração nas palavras e começou a tecê-las.
Há muito
“Você é a centelha de luz na escuridão insensata da mente.
Os raios de sol dos meus dias de chuva,
As lágrimas que definham o sofrimento,
As estrelas que guiam a alma.
A queda dos alicerces do orgulho.”
De repente o palco principal ficou vazio. Quinn não estava lendo no papel, apesar de continuar com ele preso entre os dedos, olhava e falava diretamente para Rachel. Várias cadeiras vazias ao redor. Olhos chocolate e avelã era o único detalhe relevante.
“Levou a razão embora e esburgou meus demônios.
Pois bem, de que me adianta a razão se ela nos afasta?
Verão de frio, inverno de calor,
Somos o avesso da exatidão.”
Rachel não conseguia desviar os olhos entorpecidos. Sua boca permanecia ligeiramente caída. O coração insistia em correr furioso. Quinn estava declamando para ela. Sobre elas. Isso era errado e tão emocionante. Nunca pensou que alguém conseguiria chegar tão fundo no labirinto de si mesma.
A loira roubou todas as suas muralhas e transformou em cinzas.
“Abaixei a guarda e chorei em silêncio,
Mas agora sorrio cantando...
Abro meu coração e deixo em suas mãos
A certeza incerta de que isso pode dar certo.”
Houve uma parada de corações mutua. As luzes dos holofotes voltaram a iluminar o ambiente. Todos reapareceram. Santana tinha a mandíbula no chão. Rachel parecia ter perdido a habilidade de respirar. Molly tinha os óculos na ponta do nariz, observando sua aluna da cabeça aos pés.
_ Sente-se._ pediu a professora.
A tortura prosseguiu. Um por um. Todos passaram pela forca.
_ Aguardem no corredor enquanto calculo suas notas.
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O corredor ficou abarrotado de murmúrios. Pessoas sorrindo, outros chorando e passando mal. Quinn caminhou até o bebedouro para hidratar a garganta. Independente da nota estava muito contente com sua apresentação.
Não houve um momento de hesitação, gagueira ou erro de entonação.
Sua melhora como leitora era inegável.
_ Hey...
Tomou um breve susto ao ouvir o armário de vassouras falando com ela. Caminhou até a porta e foi puxada para dentro. Houve um momento muito longo de silêncio. Respirações pesadas confrontando-se no ar, caindo em cor dourada no chão frio.
_ Foi extraordinário.
Quinn abriu aquele sorriso capaz de rasgar os lados da boca. Não precisava ouvir mais nada. Aquela aprovação era única. Inestimável.
Ponto para ela.
_ Você gostou?_ deu um passo à frente.
_ Muito._ Rachel sibilou.
_ Encontrei a minha inspiração.
Rachel corou como nunca. No fundo estava ciente de que o poema fora direcionado para ela. Sentiu o coração rasgar no peito. Soluções de emoção lhe transcorreram a pele. Ela não queria ouvir isso. Principalmente agora que tinham terminado. Não era justo.
_ Estou orgulhosa de você.
Um sorriso largo cantou uma canção alegre nos lábios de Quinn. Faltava o livro, mas ela não podia se dar ao luxo de descartar seu “as” de maior peso. Pensou numa solução alternativa. Encontrou uma arriscada.
Podia enxugar um pouco mais o poema.
_ Eu quero esses 30 dias._ sibilou, vendo a expressão no rosto a sua frente fechar._ Com você. Saiba que não vou desistir de encontrar um meio para deter a profecia._ seus olhos avelã aumentaram de intensidade._ Mas eu preciso de você comigo. Juntas, somos mais fortes. Vencemos o Jesse, também podemos enfrentar esse infortúnio.
Um muro de braços foi erguido entre elas. Rachel fechou os olhos e abraçou a si mesma.
_ Não faz isso.
_ Por quê?_ Quinn deu um passo à frente.
_ Estou tentando apaziguar um sofrimento inevitável.
_ Está funcionando? Você está melhor sem mim?
A resposta era óbvia. Ela maneou a cabeça para os lados. Soltou os braços ao redor do corpo.
_ Vamos facilitar as coisas._ Quinn abaixou uma de suas cartas._ Vou me jogar contra a maré. Deixar nas mãos da sorte. Se eu tirar a nota máxima no poema que apresentei, você sai comigo. Um encontro, sem profecia ou responsabilidades._ deu um sorriso torto._ Caso contrário, eu não vou importuná-la mais.
_ Quer resolver nossa situação desse jeito?
Quinn assentiu.
Tudo ou nada. Um último apelo ao destino.
_ Aceita?
Ela esticou a mão. O sinal bateu. Rachel olhou para os lados e tomou sua decisão.
O nó foi consolidado.
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Quinn viu-se sem alternativas. O poema era para ter deixado claro para Rachel que ela a usou como inspiração, isso somando ao que a morena disse: “Inspire-se em algo que você realmente ama”, deveria tê-la feito ver seus verdadeiros sentimentos por ela e a força implacável que possuíam.
Teve que incrementar seu plano. Sabia que Rachel estava aflita com o fato de que a relação delas viesse resultar num ferimento incurável em alguém elas amassem.
Ninguém sabia dizer ao certo as consequências que a profecia traria.
Então fez uma última jogada.
A mais louca de toda sua vida.
Estava esmagando os dedos de tanto cruzá-los impacientemente. Molly rodopiava pela sala. Fazendo suas críticas para entregar a nota aos alunos. Rachel recebeu nove, Quinn estranhou o fato, achou que ela merecia nota máxima. Santana resmungou quando foi martelada por um sete.
E a hora da verdade chegou à galope.
_ Quero que todos prestem atenção._ a mulher sentou em sua mesa e retirou os óculos, passando na blusa._ Eu vi o crescimento de muitos de vocês esse ano. Ensinei e aprendi._ seus olhos passaram ligeiramente sobre as formas avelã._ Estou com a nota de Quinn Fabray nas mãos e não sei como entregá-la.
O oxigênio tinha sido puxado por alguma força sobrenatural. Quinn estava ficando em cor vermelho vivo. Tinha se dado mal. Não podia haver outra explicação, mas o pior não seria perder de ano.
Seria perder “alguém”.
_ O seu poema foi redigido de maneira casual, sem palavras complicadas ou influência de Shakespeare._ recolocou os óculos no nariz de pinça._ Mas..._ olhou diretamente para ela._Consegui ouvir o seu coração falar.
O mundo parou. Um sorriso ansioso e cético borrou os lábios de Quinn. Seu coração estava em ponto de bala, querendo desesperadamente pular para fora do corpo. Sentiu as bochechas pegarem fogo.
_ Nos últimos dez anos, nunca fiquei tão satisfeita quanto agora._ estendeu a folha para a loira._ Não sei o que a fez mudar, mas aconselho que não perca isso.
O papel tremeu em sua mão. O rabisco de dois números.
Uma forte combinação:
1 na esquerda e 0 na direita.
Nota máxima. Dez. Ela queria cantar, pular, assobiar e sorrir. Tudo ao mesmo tempo, mas se contentou em apenas ficar no seu lugar encarando o contrato de seu encontro. Vários tapinhas a congratularam no ombro.
Olhou para o lado.
Seu objetivo estava a meio caminho de se cumprir.
Sacou o celular do bolso e redigiu as palavras em seu âmago.
Quinn: Breadstix, dez horas. Por minha conta.
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Rachel olhou para próprio reflexo. Amaldiçoou-se dos pés ao último fio de cabelo. Como pôde criar um afeto tão grande pelo seu carrasco? Pensou que após a morte de Jesse não haveria nenhuma forma delas estarem ligadas. Então por que sentia esse aperto no estômago e via luzes de esperança quando a encarava?
Uma resposta silenciosa:
Existia uma conexão muito mais profunda entre elas.
Ela não sabia. Negligenciou o treinamento e consequentemente todo o conhecimento que ele proporcionava, mas não era o motivo crucial para estar alienada com relação ao que a prendia de forma tão completa a Quinn.
Essa era uma história antiga.
Que seria descoberta num futuro próximo.
_ Quem é você? E o que fez com a minha irmã?
Noah descansava a beira da porta. Com os braços unidos e um sorriso caloroso.
_ Bobo._ revirou os olhos.
_ Você está linda.
A pequena corou. Fechou a porta do armário e rumou para fora, seguida por ele. Como o cavalheiro que era, abriu caminho para sua passagem. Ela agradeceu e encontrou o frio da noite.
_ Sua namorada vai aprovar essa produção.
Rachel vestia um short jeans cinza com vários rasgos em sua costura. Uma camisa branca social e botas de cano alto. Maquiagem básica no rosto. Para dar mais volume aos cabelos desenhou alguns cachos pesados. Não era um traje muito apropriado para um encontro, mas ela não ligava.
_ Não estamos mais namorando.
O garoto dobrou as sombrancelhas e deu uma risada gutural.
_ Não entendi.
_ Eu perdi uma aposta.
Sua explicação foi “muito” coerente. Ele deu de ombros. Não queria muitos detalhes sobre o relacionamento da irmã, mas gostava de vê-la exalando felicidade e sabia que ela só ficava assim quando passava o dia com a menina do clã oposto.
Um mustang piscou no meio das árvores.
_ Não acredito que você perdeu._ ele fingiu um susto.
Ela revirou os olhos e rumou para o carro, mas não antes de sussurrar para o vento a resposta que queria ter dado ao seu irmão.
O antagonismo não proferido:
Ela estava torcendo para perder a aposta.
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A estrada estava sendo fracamente iluminada pelos olhos sempre atentos de Mu. Quinn dirigia, dividindo a atenção entre o asfalto e a passageira. Virou uma curva e os pneus atropelaram alguns olhos de gato.
_ Olhe para frente, Fabray.
_ Desculpe._ prendeu o sorriso._ Você está tirando a minha atenção.
Rachel fez um imenso esforço para não corar.
_ Esse é o primeiro encontro._ jogou os braços morenos no ar._ Tente não estragá-lo nos matando.
_ Primeiro? Quer dizer que teremos outros?
A morena deu um tapinha no retrovisor para impedir os olhos avelã de ficarem a espiando. Quinn optou por uma roupa casual. Vestido branco de renda e sapatilhas. Os cabelos rebeldes permaneciam soltos e bagunçados como sempre.
Não existia cerimônia entre elas.
Só estavam tentando ser quem eram. E isso bastava.
Uma observação digna de nota:
Porque a maioria das pessoas tenta ser quem não é só para agradar? Se o ponto principal é ser diferente.
_ Chegamos._ Quinn anunciou.
O restaurante era pequeno. O piso e paredes eram um conjunto de madeira rústica emoldurados por janelas de vidro. Velas de várias cores e aromas eram postas no centro de cada mesinha. Muito confortável e aconchegante.
Quinn puxou uma cadeira para Rachel.
Sentou na sua própria e esperou o garçom chegar. O cardápio foi prontamente apresentando. Tinham tantos pratos e nomes que Quinn estava um pouco perdida. Olhou por cima da pauta e viu Rachel intrigada com o menu.
_ Não sei você, mas não gosto de comer coisas que não consigo pronunciar._ revirou os olhos em chateação._ E a Santana disse que esse restaurante era legal.
A pequena riu e voltou atenção para o garçom.
_ Você teria um prato de batatas fritas e milk shake?
O homem estranhou o pedido, mas fez alguns rabiscos na folhinha amarela e assentiu as deixando a sós.
_ Problema resolvido._ Rachel deu uma piscadela.
Foi um momento adorável. Quinn não conseguia parar de sorrir. Precisava arrumar um jeito de tirar aquele esgar idiota da cara. Deu graças a Deus quando o garçom chegou com um prato de fritas enorme e dois copos generosos de milk-shake de morango.
Numa determinada hora, o jantar virou uma competição.
_ Duvido que consiga._ a morena desafiou.
_ Você vai ver, Berry._ Quinn mergulhou seis batatas na boca de uma só vez.
Suas bochechas inflaram. Ficou como uma criança de dois anos tentando mastigar uma cartela de chiclete inteira. Estava perdendo o ar no meio do percurso, acelerou os movimentos mandibulares para que o entulho de comida descesse e tomou um gole do milk-shake para ajudar. Levantou os braços em comemoração.
_ Eu sou demais.
Rachel bateu palminhas e sorriu melodiosamente. Quinn derreteu. Era aquele sorriso sincero de novo. Brotando do nada. Espalhando uma felicidade que sequer sabia existir.
_ Minha vez.
A morena dobrou as mangas e pegou o copo levanto todo o conteúdo gelado aos lábios. Com uma perícia extrema conseguiu consumi-lo em questão de segundos. Seus olhos encheram de água e a cabeça doeu, mas ela conseguiu cumprir a prova.
_ Você venceu._ Quinn bateu palmas e sorriu.
_ Eu nunca fiz isso._ olhou ao redor, elas deviam estar falando muito alto._ Acho que todos do restaurante estão olhando para nós.
Era verdade.
_ Devem estar com inveja, porque estamos nos divertindo mais do que eles._ Quinn piscou para ela e levantou abruptamente._ Senhoras e senhores._ chamou atenção de todos com os braços abertos._ Querem se juntar a nós numa competição? Duvido que possam dar conta da melhor e mais rápida devoradora de batatas fritas da região e da melhor e mais bonita sugadora de milk-shake. Alguém se atreve a tentar?
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Você deve imaginar qual foi o desfecho do desafio. Muito murmurinho. Um garçom furioso. Duas meninas expulsas do restaurante. Saíram com a mão na boca tentando abafar o riso. Rachel teve que usar o capô do carro como apoio para segurar a barriga que tremia em diversão.
_ Achei que o garçom fosse cortar nossas cabeças com aquela faca._ Quinn comentou.
_ Nós tiramos a chance dele quando saímos correndo.
Entraram no carro e dirigiram despreocupadas ao longo do vale. Dava para ver o extenso rio e os contornos borrados da lua sobre o reflexo da água. Quinn parou num lugar familiar. A antiga colina. Onde ficavam vigiando a entrada do hospital.
Sentaram sobre o capô para contemplar as estrelas.
_ Eu tenho uma coisa para você.
Quinn enfiou a mão na mochila ao lado e tirou um embrulho retangular. Depositou nas mãos de Rachel, vendo a surpresa contida nos olhos chocolate.
O papel foi suavemente descolado.
Um livro sorriu para ela. As palavras sumiram.
_ Gostou?_ Quinn perguntou depois de um tempo.
_ Onde... como... o...?_ Rachel não estava conseguindo encontrar coerência.
Ela repassou a história que mãe havia lhe contado. Viu as mudanças profundas dos olhos opostos. Um misto de incredulidade e felicidade líquida. A pequena apertou o livro contra o peito e silenciou as pálpebras, respirando pesado.
_ Isso é inacreditável e...maravilhoso.
Estava prestes a chorar.
Quinn constatou que nunca a havia visto derramar uma lágrima.
Depois de alguns minutos de reflexão, colocou o livro de lado e fez algo inesperado, sorriu e avançou nos lábios de Quinn. Caíram de costas contra o vidro. Rachel pediu o lábio inferior delicado com urgência, enlaçou-o entre os dentes e o tratou docemente com a língua. Quinn puxou-a pela cintura.
Arrastaram-se contra a noite. Trocaram de posição num determinado momento. Quinn tomou as rédeas do beijo. Amordaçou a boca volumosa na sua. Mudou de posição para encontrar o encaixe perfeito e terminou o contato, afagando-a com as mãos.
_ Senti sua falta._ murmurou.
Rachel estava prestes a responder quando uma voz gélida as interrompeu.
_ Não consigo acreditar.
Separaram-se no susto. Suas respirações perderam o compasso quando deram de cara com uma Brittany de braços cruzados e sombrancelhas flutuantes e Santana Lopez de punhos fechados, encarando-as com um misto de ira e incredulidade.
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O silêncio ecoou pelo vale. Quatro meninas trocavam olhares em intervalos corriqueiros de tempo. Todas tremiam, mas por motivos diferentes. Quinn ajudou Rachel e descer do capô e ficaram de pé.
Olhos interrogativos.
Lábios crispados em repugnância. Inacreditável.
_ Eu suspeitei por um bom tempo._ Santana começou um silvo rouco._ Mas eu fechei os olhos e tentei me iludir com a possibilidade de estar errada._ deu um passo a frente._ Eu enganei a mim mesma.
Santana e Brittany estavam rodando a área no carro da latina quando encontraram o mustang de Quinn dormindo numa colina próxima. Aproximaram-se para espiar e depararam com algo mirabolante.
Quinn e Rachel.
Não era possível.
_ Você ficou louca?_ dirigiu-se para a loira.
_ Eu posso explicar.
_ Um mês para cumprir o papel que você treinou a vida inteira para desempenhar._ apontou para Rachel._ E você fica com a anã? Que jogo é esse, Quinn?
_ Não é jogo algum._ rebateu, ficando um pouco a frente de Rachel._ Gosto dela de verdade.
Brittany deixou o maxilar encontrar o chão. Santana trincou de ódio.
_ Só pode estar brincando comigo._ seus olhos borraram-se de vermelho._ Isso é alguma armação deles para controlar você. Não tem outra explicação.
Calúnias. Rachel resolveu intervir. Não ficaria calada sendo injustiçada.
_ Retire o que disse, Lopez.
_ Venha me fazer retirar, Berry.
As duas tentaram avançar, mas foram algemadas pelas mãos de suas respectivas companheiras.
_ Eu sei que você é “pequena”, Berry._ cuspiu a provocação._ Mas não sabia que era baixa a ponto de destruir uma família.
_ Chega.
Um minutos depois o braço de Quinn não segurava mais um corpo humano. Havia no lugar dele um lobo vermelho, com as narinas inflando e olhos chocolates fervilhando. Santana sorriu em satisfação. Soltou-se do aperto de Brittany e acalcou a metamorfose em segundos.
Elas voaram no céu escuro e colidiram no ar.
Uma luta insensata.
Rolaram na terra e foram se embrenhando na floresta.
_ Droga._ Quinn saltou indo ao encontro dos lobos.
_ O que vamos fazer?_ Brittany interrogou na corrida.
_ Separá-las._ seu coração acelerou desenfreado._ Segure sua namorada que eu cuido da Rachel.
Correram até uma clareira pouco iluminada pelo luar. O combate de cor marrom e vermelho continuava passando diante delas. Respiraram fundo simultaneamente.
_ Espero que saiba o que está fazendo.
Quinn ouviu a última sentença de sua amiga. Doeu muito, porque ela sabia ser uma indireta para o seu relacionamento com sua “inimiga”. Não tinha relação alguma com a abordagem. Só que agora ela não se permitiria remoer essa informação. Tinha coisas mais importantes para fazer.
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Santana arremessou Rachel contra uma árvore, sem pudor. Arranhou a lateral de seu corpo com um golpe maçante, esmurrou seu focinho para o lado na intenção de machucá-la o mais fundo possível. O lobo vermelho reagiu. Investiu a mandíbula contra a pata direita do lobo marrom que uivou dolorido.
“Não vou deixar você destruir o que somos.”_ a latina pontuou.
Rachel ficou de pé. Acalmou os nervos e fez contato com os olhos de sua inimiga.
“Eu não quero destruir ninguém.”
“Mentira.”_ pulou no ombro de Rachel e lhe deu uma mordida atroz.
Apertou a mandíbula, sentindo o sangue inimigo alcançar seus lábios. Vitória. Um uivo agoniado vibrou em seus ouvidos, mas foi eclipsado quando uma cabeçada a jogou de lado. Rolou na terra.
Levantou com fúria renovada.
O lobo branco a havia afastado.
“Rachel.”_ Quinn encostou o focinho no pescoço do lobo vermelho na intenção de confortá-la. “Estou aqui.”
O lobo marrom correu na direção delas, mas o lobo branco entrou no caminho e deu uma patada no rosto para pará-la. Santana cambaleou alguns passos para trás. Olhou para o lobo branco como se tivesse acertado sua alma. Sentiu o carinho fraternal que retinha ruir em lágrimas.
“Não acredito que você a escolheu.”_ havia um choro preso na garganta latina.
“Santana...”
O lobo marrom correu para longe, até sair da linha de visão. Um lobo amarelo pequeno chegou à cena. Brittany finalmente completara a transformação. Quinn indicou o caminhou com a cabeça e o pequeno ser cor de sol o seguiu.
“Vou te tirar daqui.”
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Rachel gritou em desconforto quando o álcool queimou sua pele. Quinn soprou o ombro ferido na intenção de apaziguar a dor. Estavam sentadas no quarto estrelado. A loira limpou a ferida e emoldurou um curativo no silêncio de sua companhia.
_ Eu tinha medo que isso acontecesse.
Quinn parou o que estava fazendo para encará-la.
_ O que, Rachel?
_ Você ter que se virar contra sua família por minha causa.
Uma chave de braços acomodou a cintura de Rachel. Quinn a puxou com cuidado. Tomou sua mão e beijou com delicadeza por longos segundos.
_ Não pense assim._ murmurou._ Santana não me deu escolha. Eu não escolhi ninguém. Só protegi quem precisava para evitar que se machucassem._ puxou o queixo dela com cuidado._ Ela vai entender. Não agora, mas eu sei que vai.
_ Eu..._ Rachel sussurrou sôfrega. Levantou se afastando. Rumou para perto da janela sentindo o vento acariciar-lhe a pele por trás do curativo._ Isso só vai piorar. Seu irmão e suas amigas sabem..._ Jogou os braços no chão._ E se mais alguém descobrir?
Quinn sorriu um lamento. Teimou em se aproximar dela. Puxou sua mão boa delicadamente. Colocou-a no centro do quarto. Bem embaixo das estrelas maiores. Correu os dedos sobre o queixo ferido numa carícia muda._ Eu lhe dei um céu, Rachel Berry._ sorriu, sem nunca perder o olhar oposto._ Por favor, não tire o meu.
Como ela poderia negar isso? Permitisse viver sem uma pessoa que lhe fazia tão bem. “O céu dela.” Era desta maneira que a definia agora. Tão simples e terna. Um beijo selou o pedido.
_ Olha para mim._ Quinn acariciou sua mandíbula._ Quero que você desfrute do livro que eu te dei hoje. Espero que ouça as palavras da sua mãe como se ela estivesse no meu lugar agora. Vou te dar boa noite e pedir que cante uma canção para que eu consiga dormir. Você pode fazer isso por mim?
_ Parece bom._ sussurrou, seus narizes pincelaram.
_ Não pense em nada ruim._ pediu e deu um meio sorriso._ Stress dá rugas.
Rachel não conseguiu matar o riso.
_ Suas piadas estão melhorando.
_ Não acredito._ falou, fingindo estar ofendida._ Quando não é para rir você se deleita. Está merecendo um castigo, Berry.
Todo pânico do momento se dissolveu, quando Quinn deitou-a na cama e iniciou uma série de cócegas em sua barriga. Os risos melodiosos da pequena preencheram o quarto. Contagiaram as paredes forradas por estrelas florescerentes que pareceram brilhar com mais intensidade.
_ Eu preciso ir.
Quinn fez força para levantar, mas foi puxada para um beijo de despedida. Rachel afundou-se contra os lábios macios dela.
_ Nos vemos amanhã?
Um último beijo confirmou a pergunta.
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Quinn adentrou a porta da casa dos Lopez para a sala bem iluminada. Seu coração veio trotando o caminho inteiro. Temia que a latina pudesse contar o segredo para o seu pai. Rezou para que a amizade prevalecesse acima até mesmo da honra.
_ Eu não acredito._ ouviu um lamento vindo da sala.
Santana estava sentada no sofá. Os braços apoiando a cabeça. Um choro mínimo lhe escapava pelos dedos enquanto suas costas eram afagadas pelas mãos de Brittany.
_ Santana._ Quinn sussurrou.
Ela levantou os olhos alagados e sua expressão de desespero caiu para dar lugar ao descontentamento. Marchou até a loira e desferiu um jabe no lado direito do seu rosto. Quinn deu dois passos para trás, mas não retribuiu.
Santana encaixou outro golpe no queixo pálido. Sentiu o osso tremer e o sangue empapar-lhe os dedos, mas não parou. Puxou Quinn pelos ombros e jogou-a por cima da mesa de vidro. O corpo decolou e aterrissou sobre o material frio que trincou em mil pedaços.
Uma chuva de cristais.
Quinn foi dilacerada em várias partes do corpo. Choramingou quando foi puxada pela camisa.
_ Deixe eu explicar._ pediu à latina.
Um murro lhe tirou sangue do estômago. Quinn caiu novamente. Sem forças para reagir. Santana a puxou pelo pescoço e a jogou contra a parede, sufocando-a com os braços.
_ Como você pôde?_ cada palavra era pontuada com uma lágrima.
_ Eu sei que é difícil de aceitar._ fez uma força sobrenatural para falar._ Mas o que temos é real. Precisa acreditar em mim.
A latina a puxou e esmurrou contra a parede novamente. Ambas tinham lágrimas nos olhos. Compostas por ódio, vergonha e dor.
_ Por quê?
_ Porque eu te amo, Santana._ Quinn falou com a voz cortada e rosto quente._ Preciso de você, agora mais do que nunca.
Brittany olhava a cena em seu canto. Anos de convivência com as amigas lhe prepararam para cenas como essa. Não devia intervir. Elas tinham que se resolver sozinhas. Santana libertou a amiga do aperto.
Quinn se recompôs.
Deixou que a latina descarregasse a raiva que sentia dela, porque sabia que era o único jeito de apaziguá-la, ou talvez lhe dar a satisfação que tanto almejava. Um pedido de desculpas completo.
_ Você vai dormir no quarto com o Sam._ Santana ditou e rumou para o seu próprio.
Houve um bufar longo. Lágrimas apertadas. Os cortes ardiam em torno dela, mas a dor que mais a importunava era ver sua melhor amiga tão desapontada. Sentiu os joelhos serem gentilmente afagados. Brittany lhe deu um meio sorriso.
_ Vou cuidar dela._ assegurou._ Se precisar de alguma coisa é só chamar.
Ela agradeceu com um gesto.
Rumou para o quarto mais alto da casa. Abriu a porta devagar. Sam estava deitado de bermudas na cama e felizmente sozinho. Olhou para o estado catatônico dela e levantou num salto.
_ Quinn!
_ Será que eu posso dormir aqui?
Ele foi até ela e rodeou sua cintura. Colocou-a na cama e deitou ao seu lado. Ofereceu um braço para que ela apoiasse a cabeça e a confortou com o outro. Beijou o topo de sua cabeleira para acalmá-la.
Ele era um bom irmão.
O melhor que ela poderia querer.
Rachel ligou mais tarde. Sam não aprovou, mas não questionou. A conversa foi curta, Quinn não contou sobre a briga e pediu a canção para seu glorioso e necessário sono. As estrofes de “The sun will rise” foram seu conforto naquela noite.
Um alento para a alma:
A voz de Rachel e o abraço de Sam.
Sim, o sol nasceria em poucas horas.
Tudo ficaria bem.
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O dia acordou agitado. O incidente passado teve de ser explicado aos pais de Santana, porque havia uma mesa em pedaços no meio da sala. Para a surpresa de Quinn a morena manteve o segredo.
_ Vocês tinham que ver o tamanho do maldito gambá que correu pela casa. Subimos em cima da mesa às presas e ela não aguentou o peso.
Os pais aceitaram céticos.
Quinn olhou de esguelha para Santana e sibilou um “obrigada”. Como resposta a latina virou o rosto e rumou para o próprio quarto, chocando a porta contra a fechadura.
Um lamento caiu dos lábios rosados.
Lealdade sim. Perdão não.
Sentiu-se andando num vácuo, pois seu chão havia desaparecido por trás da madeira. Santana era seu braço direito, melhor amiga, irmã de coração. Quando uma pessoa significa tantas coisas é impossível não sentir solidão com sua ausência.
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Quinn dirigia sem realmente conseguir prestar muita atenção na estrada. As árvores passavam com velocidade, tornando-se borrões verdes aos seus olhos. Rachel estava jogada no banco do carona, atrás das páginas gastas do seu novo livro. Antigo de sua mãe.
Passou a noite em claro.
Consumindo cada palavra dele.
_ O que é isso no seu pescoço?
Virou de lado e puxou um pedaço de transparência da pele de Quinn. Uma gota de sangue veio de brinde.
_ Um caco de vidro?_ entortou as sombrancelhas.
_ Não foi nada.
_ Como você pode dizer isso? O que aconteceu?
À muito contra-gosto Quinn desabafou. Contou sobre e briga. Amenizou a parta mesa, alegando que Santana havia acertado-a com um copo de vidro. Provavelmente seria menos impactante.
_ Não acredito que ela te machucou.
_ Eu a feri mais._ ditou, com os olhos na estrada._ Ela pensa que a trai.
_ Por minha causa.
Olhou pelo retrovisor pescando os olhos chocolate. Rachel estava andando para trás novamente. Ela não podia permitir. Jogou o carro no acostamento. Retirou o cinto e puxou-a pelo pescoço, descansando os lábios nos dela. Sentiu a pele oposta tremer e gritar em desespero.
_ Sentiu isso?_ murmurou com seus rostos colados._ Essa sensação vale todo o meu esforço. Não tenho arrependimentos com relação ao que estou fazendo para nos ver juntas. Se precisar enfrentar a ira da minha melhor amiga e o desagrado do meu irmão para ter você perto de mim, que seja._ beijou o topo de sua cabeça._ Eles vão entender, dê-lhes um tempo.
_ E você? Quanto ainda vão ter que te ferir?
Quinn deu de ombros e sorriu.
_ Eu sou uma sobrevivente, Rachel Berry._ beijou-lhe às costas da mão._ Confie em mim.
Rachel assentiu. Ficaram nessa troca de carícias o restante da tarde. Uma chuva fina batucou o teto do carro, despertando-as do devaneio.
_ Eu gostaria de ter algo com que me preocupar._ Rachel soltou vendo as sombrancelhas de Quinn se unirem._ Digo, quando vigiávamos o hospital tínhamos um dever, não que eu queira outro Jesse para tentar nos matar, mas..._ olhou para o chão do carro._ Estou me fazendo entender?
_ Mas nós ainda temos coisas para resolver juntas.
Ficaram sentadas de frente para a outra. Seus pés se tocavam alegremente.
_ Eu não tenho mais dores de cabeça._ Quinn soltou._ Desde o dia em que a gente se beijou pela primeira vez. E temos o fato da sua mãe ter..._ freou ao reparar que poderia ser forte demais usar a palavra “morte”._ Feito o que fez. Gostaria de entender. Tudo.
Dois novos desafios:
1. Entender a conexão que tinham.
2. E a razão por trás da morte de Shelby Berry.
Rachel puxou uma delicada remeça de ar e acariciou os pulmões. Shelby era o seu assunto mais delicado, como um cristal extremamente frágil descansando na beira de uma mesa. Ela queria descobrir o que aconteceu, mas simultaneamente inundava-se de medo.
_ Podemos ir ao hospital visitar o Peter e..._ encarou-a com falha na voz._ Tentar de novo.
O desafio dois seria o primeiro a ser explorado.
E o último a ser desvendado.
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Peter parecia bem mais confiante e animado quando as meninas lhe fizeram uma visita. Fazia dias que não passava pelo sufoco de vomitar sangue ou ficar amarelo fúnebre.
Um bom sinal.
Uma observação triste, porém necessária:
Uma coisa ruim sempre antecede uma coisa boa. E vice-versa.
Estranho essa necessidade que a felicidade tem de trocar de lugar com a tristeza. Parece que cada uma tem seu tempo de validade. Chegam, nos consomem de esperança ou sofrimento e depois fazem a sua troca. Só consigo pensar em uma razão para que ocorra esse delicado ciclo de emoções.
Coloquemos assim. Você nunca teria necessidade de saber qual é a direita se não houvesse esquerda.
Uma depende da outra para existir.
Senão como você saberia a diferença?
A sala extremamente branca da antiga e renomada médica do hospital permanecia em seu silêncio rotineiro. Rachel tremeu ao dar o primeiro passo. Foi guiada e incentivada por sua companheira. Negou-se a olhar para o espelho de flores. Não queria ver sua mãe lhe espiando novamente.
_ Vamos dar uma olhada nas pesquisas dela, tudo bem?
Rachel assentiu com um pé atrás. Quinn derramou um torniquete de papéis sobre a mesa e começou a folheá-las sob o olhar contemplativo da pequena.
_ Não consigo entender todos esses dados, mas..._ bateu de leve na pilha._ Ela parecia estar trabalhando numa coisa grande.
O ar comprimiu o peito de Rachel. Descobrir sobre sua mãe era tão excitante e tortuoso, porque sempre a viu de uma maneira e agora parecia que nunca parava de conhecê-la. Como se existissem várias dela.
_ Eu vou tomar um ar.
Anunciou. Abandonando o recinto. Quinn suspirou cansada. Não estavam tendo um bom progresso, não culpava a pequena, porém elas não tinham tempo sobrando para desfrutar de uma reabilitação.
A profecia se aproximava a cada minuto.
Desculpe, Rachel. Não podemos nos demorar mais nisso.
Sozinha, folheou todas as páginas. Arrebatou todas as gavetas na intenção de absorver o quanto pudesse. Nada lhe fazia muito sentido. Precisava de um dicionário para traduzir todos aqueles dados complexos.
E o destino prontamente concedeu um.
Uma torre de folhas desabou perto de uma mesa solitária. Ela abaixou para recolher, uma das folhas caiu atrás do móvel, xingou uma dúzia de impropérios pelo enforco de recuperá-la. Estava presa contra a madeira e a parede.
Teve que movê-la.
Ouviu um baque surdo. Algo caiu no chão.
O que é isso?
A mesa possuía uma espécie de gaveta falsa na sua parte de trás. O material havia sido maltratado pelas peripécias do tempo e a ousadia de cupins. Quem se importa com a parte que fica inclusa dos móveis afinal?
A gaveta quebrou em pedaços e um pacote tombou no chão.
Quinn recolheu o conteúdo embrulhado. Recolocou-o na mesa. Rasgou o papel que o escondia e seu coração parou numa batida quando desvendou o que era.
Um diário.
Abriu na primeira página e absorveu o gosto antigo das primeiras linhas.
Querido diário, página um:
Tive o intuito de ajudar as pessoas durante toda a minha vida. Precisava contar. Achei melhor que fosse para páginas mudas. Só alguém para sentar e escutar. Por isso, estou rubricando o que vivi nesses últimos anos, mas o mais importante para ressaltar é que eu consegui.
Não era uma informação muito esclarecedora, mas era alguma coisa. Um princípio. Quinn tremeu de emoção. A sua resposta a levava ate outra pergunta: O que Shelby Berry havia conseguido? Folheou rapidamente todas as páginas. Havia 114 papéis carregados de palavras, desenhos, gravuras e notas de rodapé.
Um enigma de soluções.
Fechou o caderno e jogou-o na mochila. Rumou para fora do cômodo atrás da pequena. Tinha que contar para ela e entregá-la. Encontrou Rachel sentada na entrada do hospital. Seu rosto caído e peito arfante.
A novidade deu lugar à preocupação.
_ Você está bem?
Quinn acompanhou-a e puxou sua mão para lhe proporcionar algum alento.
_ Sim._ respondeu sem muita certeza._ Só preciso de mais tempo.
Justamente o que não tinham.
_ Encontrou alguma coisa?_ Rachel virou-se para perguntá-la.
O sorriso que Quinn esboçou caiu num sopro. A afirmação ficou trancada em sua garganta. Como iria contar que tinha o diário? E se Rachel ficasse receosa em lê-lo? Se simplesmente o pegasse e guardasse no armário para tentar quanto estivesse boa? Elas só tinham 28 dias para o início do fim.
Não podia correr o risco.
Tinha que descobrir o que Shelby tinha em mente. Sozinha.
Tomou uma decisão errada solidificada por uma boa intenção.
_ Não._ sibilou, sufocou um aperto incomodo no peito._ Nada.
Sentiu a mentira esmurrá-la. O diário pareceu gritar dentro da mochila. Aquilo era terrível, afastar Rachel de algo que era de sua mãe e consequentemente muito mais seu do que dela. Só que ela não podia se dar ao luxo de esperar que ela se recuperasse para depois ler.
Não quando o relógio corria contra elas.
Essa decisão foi um tiro no escuro. Futuramente, a bala pegaria em alguém.
Tudo tem sua consequência.
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Quinn estava deitada no quarto. Ouvindo o leve rouco de Sam acima de sua cabeleira. Providenciou uma “cama” improvisada, sua coluna agradeceu silenciosamente. Olhou de esguelha para o corpo descansado ao lado.
Ele dormia profundamente.
Pulou para fora. Sentou à mesa de estudo e acendeu seu abajur numa luz escura. Abriu o diário com cuidado, impedindo a formação de qualquer som inapropriado.
Página dois.
A segunda parte não falava muito mais do que a primeira. Era uma mera história, mas não menos importante. Shelby contava sobre uma viagem que fez a Europa. Um hospital de oncologia especializado em crianças estava trabalhando com as células das mesmas.
Estava frio. Coloquei as luvas para aquecer as mãos, enquanto caminhava pelos vastos corredores do hospital. Passei por um vidro e a imagem com qual me deparei fez todo o meu sangue congelar. Um menininho, provavelmente entre os quatro anos de idade, despindo uma quantidade exorbitante de sangue. O que restava de seu cabelo de palha caia sobre suas bolas azuis de olhos sôfregos.
Uma luva podia resolver o meu problema, mas ele não tinha uma “luva” apropriada. Não parecia justo.
Foi naquele momento que minha vida mudou. Disse a mim mesma que enquanto respirasse faria todo o possível para ajudá-lo e a quem mais precisasse.
Havia uma gravura de um DNA no canto da página. Ela girou mais algumas. Muitas histórias passaram diante de seus olhos. África, Suíça, Alemanha e de volta a Lima. Shelby devia ser uma aventureira com a obsessão saudável de querer mudar coisas ruins para boas.
Chegou à página seis.
O meu povo é diferente. Muitos dizem que fomos amaldiçoados, eu discordo, diria que foi uma benção. Não posso revelar muito mais, somos discretos e gostamos da serenidade do segredo. Mas o que pude perceber foi à capacidade com a qual nos recuperamos.
Claramente, ela estava descrevendo as pessoas que podiam se transformar em lobo. Quinn não precisava ser um prodígio para saber disso, mas o crucial foi que Shelby acabara de citar uma qualidade inestimável dos lobos.
Seu poder de cura.
_ Ela estava estudando nossas células._ chegou à conclusão. Falou um pouco alto, como se anotasse mentalmente as partes mais importantes.
O riscar de páginas continuou a ser explorado. Quinn lia atentamente e separava na cabeça as partes com peso. Tudo lhe parecia um grande e complexo quebra-cabeça que precisava ser montado.
Número onze.
Comecei os testes assim que voltei para casa. Tinha muitas teorias. As primeiras, como de costume, foram um fracasso, mas ao invés de sofrer um abalo quanto mais eu caia, maior era minha vontade de levantar.
Estudei a diferença entre nossas células e as humanas. Os resultados foram formidáveis. A célula humana tem a capacidade de sofrer mutações, mas a maioria delas é sempre ruim, como o meu maior adversário no momento: O câncer.
Já a dos lobos não sofria modificações. Eram sempre as mesmas, mais fortes e imponentes. Com um poder maior de substituição. Regeneração.
Foi então que a idéia me abateu com uma força esmagadora.
Quinn bateu a perna ansiosa. Virou mais algumas páginas repletas de informações valiosas. Recombinações genéticas. Testes fracassados. Resultados promissores. Ela devorava cada informação com um quê de ansiedade inabalável. Sentiu a respiração ficar pesada com o decorrer de linhas.
Página quinze. Um número importante.
Por muitos motivos.
Hoje dever ser o dia mais feliz da minha vida. Primeiramente, porque descobri que estou grávida. Uma menininha. Decidi dar-lhe o nome de Rachel. Imagino que será uma sonhadora com gosto para a leitura porque já estou lendo alto para que ela ouça.
A segunda razão e não menos importante, foi que estava fazendo o teste rotineiro e encontrei uma combinação nova, inseri em uma cobaia particular que possuía células cancerígenas e acompanhei seu desenvolvimento. Dois meses depois fiapos de cabelo começaram a aparecer em sua cabeça crua.
Continuei aplicando, duas doses diárias. As dores de cabeça, náusea e vômito foram embora. Ele já se sentia mais disposto. Foi então que resolvi fazer uma ressonância.
O resultado fez meu coração parar...
Foi exatamente assim que Quinn se sentiu no momento. Não conseguia ouvir seu coração, ou seja, ele estava batendo muito rápido ou não estava. O que acabara de ler a fez ficar sem fala e encheu seus olhos de água.
Era extraordinário e inacreditável.
Levantou no susto e deixou o abajur cair. Sam acordou sobressaltado, olhou ao redor na penumbra com uma expressão alienada.
_ Jesus, Maria e José.
_ Está tudo bem, Sam._ Quinn prontamente escondeu o diário na bolsa e voltou para a cama._ Volte a dormir.
Meio trôpego preferiu dar de ombros e virou de lado. Adormeceu em segundos. Quinn, no entanto, não conseguiu pregar os olhos a noite inteira. A informação que colhera era excitante demais para deixá-la dormir.
Uma revelação aterradora.
Aquela descoberta mudaria o rumo da história. Traria um mundo melhor.
A descoberta de Shelby Berry:
A cura para o câncer.
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