Glee-21-Faberry

20 Someone like you


Notas iniciais
Boa noite. Chegamos ao último capítulo antes do epílogo. Obrigada de coração a todos que tiraram uma horinha do dia para vir aqui compartilhar essa história. Agradecimento especial a BLON e GLEEKASSIA pelas recomendações.

O final é sempre tão difícil de escrever quanto o começo, mas estou feliz de ter conseguido chegar onde queria e constatar que nada disso seria possível sem vocês.

Muito obrigada, leitores.

“Don't forget me, I beg, I remember you said, sometimes it lasts in love, but sometimes it hurts instead.”

Toda a sua vida se resumia em um único objetivo: Matá-la. Foi treinada assiduamente para o dia em que iria destroçar aquele mal. Todos os seus pensamentos eram voltados para ela, até mesmo seus mais ínfimos movimentos. Tudo era ela.

Seu único objetivo. Seu dever.

Mas as circunstâncias mudam os objetivos e consequentemente o destino. Quando foi que ela se perdeu? Quando ela se desviou do caminho? Eram os mesmos olhos vendo de uma maneira diferente.

Como pode ser tola a ponto de se afeiçoar ao seu objeto de destruição?"

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O mar desmoronava em revolta triunfante, o som das garças estava vivo ao longe. Uma ventania serenava mansa pelo vale. Um pouco mais abaixo, desespero. Corpos colidindo contra o concreto líquido.

Levando tudo embora.

“Quinn.”

Ela havia sumido. Caíra de uma altura considerável nas garras do oceano feroz. Rachel rumou de um lado para outro, diminuindo os olhos no intuito de ampliar a visão longitudinal.

Não fora eficaz.

“Berry.” Santana correu no encalço do lobo vermelho. “Olhe para mim...”


“Ela caiu.” Constatou incrédula. “Não pude fazer nada.” Algumas lágrimas brotaram nas bordas chocolate. “Eu a perdi.”

O lobo marrom prendeu o nervosismo dentro do peito. Só entraria em desespero quando encontrasse a amiga e constatasse o pior. Contra todas as expectativas, devia afogar-se em um último gole de esperança.

Pelo bem de todos.

“Hey...” Tentou usar as palavras, mas o semelhante de cor sangue não lhe dava uma oportunidade. Não podia culpá-la. “Rachel.” O choque de ouvir o primeiro nome vindo da boca dela a fez parar e observar com atenção. “Escute, eu a vi cair, mas nós precisamos encontrá-la para ter certeza de como ela está.”

“É alto demais.” Se referiu ao último pico.

“Eu sei.” Rumou para perto e encontrou seu olhar. “Mas temos que ser corajosas por ela, por favor. Respire fundo e acalme-se.” Atendeu ao pedido prontamente. “Se ela caiu aqui, a correnteza irá levá-la para a praia.”

Houve um esforço sufocante para assimilar todas as palavras. Rachel precisava correr e acalentar o pesar que o corpo estava produzindo para voltar a raciocinar. Santana maneou a cabeça e ela apenas a seguiu.

Juntas.

Desencorajando a realidade de fatos desceram a ribanceira a caminho da muralha de areia.

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Russel enxotou uma pata de aço contra os olhos de Adam. O lobo vermelho carmesim finalmente encontrou a terra. Sua boca foi consumida pela lama e a ausência de palavras. Tinha uma perna latejante e um corte generoso sobre a testa.

“Serei rápido.”

Contemplou o tilintar de garras do lobo branco soberano.

Aquela mira impecável desceu sobre os olhos negros, mas foi parada no meio do caminho por uma voz.

“Perdemos.” Muitos ao redor pararam de combater para dar atenção ao lobo branco-acinzentado. “Quinn caiu do sétimo pico...” Gritou a plenos pulmões. “A Berry estava no topo.”

Não podia ser verdade. O chefe do clã Fabray deixou os olhos caírem sob uma respiração cortante. Todos os dias treinando embaixo de sol e chuva foram em vão? As broncas maciças que fora obrigado a desferir na filha para que sobrevivesse não surtiram efeito?

“Minha filha.” Havia um misto de fúria e tristeza na áurea dele. De repente a profecia não importava mais. “A praia...”

Russel deixou o combate no segundo seguinte. Empurrou o chão com as patas vorazes, rumando em direção ao lugar em que provavelmente encontraria a única coisa que realmente importava.

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Rachel e Santana desembocaram numa vala sinuosa. O lobo marrom desviou das minas rochosas com um pouco de esforço provindo dos ferimentos extensos. Sentia a respiração falha enviar uma quantidade cada vez menor de oxigênio para o cérebro.

“Você está bem?”

Não houve resposta. Um declínio surgiu e a latina tropeçou nos próprios pesares, rolando pela terra lamacenta. O lobo vermelho recuou para ajudá-la.

“Lopez.” Analisou-a meticulosamente. “Você perdeu muito sangue.”

“Bela observação, Berry.”

Santana escondeu a fragilidade até quando foi possível, mas agora seu tempo estava se esgotando e Rachel não podia abandoná-la nesse momento fatídico.

“Vou buscar ajuda.”

“Não.” Ditou inflexível. “Quero notícias da Quinn. Você terá que ir sozinha.”

“E você?”

Foi um momento de cumplicidade. Duas pessoas que viviam governadas por brigas e não conseguiam estabelecer uma conversa decente, agora estavam se importando com o bem estar uma da outra.

Uma observação peculiar:

Você pode se surpreender com quem menos espera.

Quantas vezes na vida julgamos uma pessoa como errônea e desordeira? Para, no segundo seguinte, ela vir com uma ideia triunfal que pode nos ajudar a mudar tudo para a melhor. Não limite seu coração, deixe-o fluir e tomar um susto maravilhoso quando o ser humano que um dia fora seu inimigo lhe estender a mão.

“Toda essa preocupação chega a ser bizarra.” Deu de ombros o melhor que pode. “Estou viva, respirando e sentindo dores em todos os lugares. Ficarei bem.” Forçou um sorriso. “Vá atrás daquela loira idiota e diga que eu estou lhe devendo uma surra.”

Rachel mordeu o lábio e assentiu incerta.

“Não morra, Lopez.”

O lobo vermelho correu para longe. Santana sentiu o cansaço engolfá-la, os membros ficaram dormentes debaixo da fina chuva que a alcançou. O peso sobre os olhos foi esmagador demais para manter-se firme.

Com extrema delicadeza, ela os fechou.

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Terra. Chuva. Areia. Sangue. Era uma mistura nova, irretocável. Um terror natural desbravando fronteiras lúcidas de almas. Restos mortais de corpos cansados. Não podia haver trégua de lado algum.

Estou perto.

O lobo vermelho nunca sentiu um aperto no peito tão sufocante. Virou uma esquina de pedras e desembocou numa cortina de terra coberta de árvores robustas. A praia ficava a poucos metros dali, já era possível ouvir o canto das ondas.

“Onde pensa que vai?”

Alavancou uma parada brusca. Seis lobos brancos montavam uma barreira de dentes ensanguentados e garras fartas. Mostraram um sorriso tenebroso antes de prosseguir com os discursos costumeiros.

“Você a jogou do precipício.” Ditou o integrante no centro.

“Eu não fiz nada.”

“Mentirosa.” Rebateu furioso.

Ele tomou a frente e tentou investir contra ela, mas foi bloqueado por uma nova e inesperada horda de cores diferentes.

A muralha oposta:

A sutileza lilás, imponência azul, insistência vermelha, alegria amarela, vivacidade branca e soberania cinza.

Os lados mesclaram-se.

Um tanto quanto estranho, mas totalmente oportuno. Tina, Mercedes, Noah, Brittany, Kitty e Sam formaram um escudo de proteção eficaz para o lobo vermelho. Projetaram-se contra seus próprios aliados em prol de uma causa maior.

“Prossiga.” Sam pediu a Rachel tomando a frente da defesa.

Antes de partir, como fora intimada, aproximou-se do lobo cor de sol e entregou-lhe algumas palavras: “Santana precisa de ajuda, está a uns quinhentos metros naquela direção.” Brittany assentiu agradecida.

Rachel empurrou as patas de trás e rasgou um atalho pela barreira branca. Um lobo de porte pequeno tentou impedi-la, mas foi imediatamente liquidado por Kitty. Houve uma nova colisão de garras.

O barulho foi aterrador.

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Películas de água dissolviam-se nos pulmões incandescentes do vento. A areia era uma papa amarronzada de pedras nanicas. O mar gritava suas dores lívidas. Depois de correr quilômetros conseguiu alcançar a praia.

Apertou os olhos para enxergar por trás da tempestade.

Quinn.

A visibilidade estava congestionada pelo poder imponente da chuva. Sentiu o órgão cardíaco batendo em todos os lugares quando o terror a invadiu. E se ela não estivesse ali? E se fora embora para sempre e nunca fosse encontrada?

Precisava afastar aqueles pensamentos.

O segredo para vencer o caos:

Mantenha-se calmo.

Você irá passar por uma situação difícil, não tenha dúvida. Um dia, as peripécias da vida irão alcançá-lo e nessa hora o melhor é respirar fundo e fazer o que for possível com todo empenho.

Então você poderá dizer: “Eu fiz tudo que pude.”

E ter certeza de que é verdade.

Rachel puxou o ar e acalentou os batimentos desenfreados do coração. Experimentou uma busca meticulosa com os olhos por todas as direções. Só via marrom e azul da água, até que detectou...

...Vermelho.

Rumou rápida até aquela cor faiscante que também lhe pertencia. Encontrou um corpo de mulher extremamente debilitado. Quinn estava jogada de lado contra uma pedra, tinha todos os membros distorcidos, um rombo gigantesco nas costelas do lado direito e um corte profundo abaixo dos olhos caminhando até o queixo.

E melhor de tudo, uma respiração ínfima.

“Você devia ter me matado.” Constatou encostando a testa na cabeça dela. “Por que fez isso?”

Não houve resposta, por falta de força ou tempo, ela foi alavancada para longe do corpo inerte. Sentiu as patas voarem até colidir contra a areia. Russel a puxou para longe da filha, tomando seu lugar.

“Ela está viva!”

Judy saiu do meio das árvores com um pano no colo e desespero na face. Tomaram a filha nos braços e traçaram caminho para o hospital de Lima.

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Brittany correu como nunca. Depois de uma luta difícil contra as pessoas que supostamente deveria defender, rumou para o norte numa carreira impressionante. Sam a acompanhou caso algum obstáculo surgisse no caminho.

“Não estou conseguindo vê-la, Sam.”

O lobo cinza farejou ao longe e pediu que ela o seguisse. Caíram numa vala estreita e desvendaram um corpo estilhaçado no chão. Imóvel. Brittany estreitou os olhos e não teve forças para prosseguir.

Santana não podia estar morta.

Era doloroso demais aceitar.

O lobo cor de sol abaixou a cabeça e começou a lamentar lágrimas dolorosas. Sam estava segurando todas as esperanças num último esforço. Rumou com as patas trêmulas para o lado do lobo marrom.

“Acorde.” Pediu. Nada aconteceu. “Santana.” Havia um misto de tortura e piedade na voz dele. Conheciam-se como irmãos. Ele não podia aceitar perdê-la dessa maneira, tinha que dar uma última cartada. “Se você estiver morta, Brittany ficará sozinha e adivinha quem irá consolá-la?”

Nesse instante o silêncio foi quebrado. O lobo cinza levou uma patada no peito e ganhou um sorriso mortífero. Santana ainda estava muito fraca, mas não o bastante para negligenciar sua honra.

“Fique longe da minha namorada, seu promíscuo idiota.”

“Santana.” Brittany não podia estar mais aliviada.

Rumou para perto dela e deitou com a cabeça no vão do pescoço marrom. Queimou as lágrimas na testa oposta e sibilou muitos: “Eu te amo.”

“Bem-vida de volta, Lopez.” Sam sorriu sacana. “Vamos tirá-la daqui.”

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Um homem adentrou as portas do hospital carregando nos braços tensos uma filha quase extinta. A camisa branca estava abarrotada de sangue e lágrimas. Colocou-a delicadamente numa maca que seguiu caminho para o centro cirúrgico.

_ Ela vai ficar bem._ Russel tentou consolar Judy. Envolveu-a num abraço terno. Só podia esperar e rezar para que tudo desse certo._ Tem que ficar.

Eles permaneceram naquele conforto mútuo até que as portas principais foram novamente abertas para a entrada de Rachel Berry. Houve uma quebra de contato. Ambos entreolharam-se com cautela.

Donna chegou naquele instante.

_ Ela teve uma parada a caminho da sala._ Revelar o estado da paciente antes de qualquer abordagem médica fugia as regras do protocolo, mas a enfermeira não pode evitar. A paciente era Quinn e estava por um fio _ Estão tentando trazê-la de volta.

Russel não se preocupou com o fato da “assassina” da filha estar ao seu lado quando saíram correndo na mesma direção. Chegaram até um centro que continha uma janela dando visibilidade do outro lado.

Viram quando o médico levou o desfibrilador ao peito pálido. Cada vez que plugava aumentava a potência a níveis extremos. Uma. Duas. Três. Quatro vezes. Até que as mãos caíram em sinal de desistência e ouviram o veredicto final.

A constatação médica:

Hora da morte: 18:40.

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Brittany virou alguns corredores buscando informações. Acabara de deixar Santana e Sam no quarto ao lado para procurar pela outra amiga. A batalha tinha cessado com a queda da primogênita mais forte. Muito feridos estavam sendo trazidos para o hospital.

Um caos habitual.

_ Com licença._ Pediu a enfermeira mais próxima._ Meu amigo precisa de curativos no braço e tem uma menina que pode parecer um pouco antipática, mas no fundo ela ótima. Pode auxiliá-los para mim?_ a mulher assentiu firme._ Só mais uma pergunta. Você sabe se tem alguma paciente chamada Quinn Fabray aqui?

Donna assentiu triste e indicou o caminho.

No final daqueles corredores infinitos encontrou a figura de Russel gritando a plenos pulmões com os médicos e Rachel sentada no chão com os braços suportando a cabeça num choro mudo.

Finalmente entendeu.

Não precisava ver para crer.

Quinn já não estava mais ali. Foi impossível segurar as lágrimas. Sua amiga estava morta e nada podia ser feito a respeito. Não é fácil descrever a ardência que um coração atura quando recebe uma notícia como essa.

É uma dor esmagadora.

Acompanhou Rachel no desespero e enfiou as mãos nos bolsos buscando um ponto de apoio. Os dedos bateram contra algo que fez um barulho característico. Um pedaço de papel.

A carta.

Um último favor a alguém que ela amava. Honestamente, não sabia o que isso importava agora, mas prometeu entregá-la. Assim seria. Rumou até a morena cabisbaixa e lhe entregou o envelope.

_ Ela queria te salvar._ disse para tentar ajudá-la._ Você está aqui. Minha amiga não morreu em vão.

Foi um ultimato para tentar encontrar um consolo ou justificativa que acalentasse o sentimento doloroso de perda.

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Santana pegou um travesseiro com a mão boa e atravessou-o na cara de Sam. O garoto desviou com perícia, já acostumado com mulheres furiosas jogando objetos nele.

_ Você poderia fazer o favor de ser menos pervertido enquanto estiver no meu quarto?_ lançou o controle remoto da TV._ Exijo respeito no meu leito de descanso.

Ele jogou as mãos para o alto em rendição.

_ Eu só pedi o telefone dela.

_ E se ofereceu para “ajudar” a buscar os curativos._ rebateu ceticismo._ Ela está cuidando dos meus ferimentos, se eu morrer porque a distraiu, volto para ter matar.

Sam cruzou os braços e revirou os olhos para a enferma.

_ Dramática.

_ Imbecil.

Antes que a discussão e troca de elogios prosseguisse, Brittany chegou ao quarto. Quando observaram-na, caíram em silêncio absoluto. Santana foi a primeira a desabar, conhecia a namorada muito bem e podia descrever seus gestos.

Choro incontido só podia ter um significado.

_ Não._ Sussurrou baixinho quando ela a abraçou._ Diz que não é verdade.

_ Eu queria que não fosse.

Sam ficou pálido e no instante seguinte desmaiou.

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Rachel sentou na balaustra da escada principal, lágrimas borravam toda periferia dos olhos e as mãos tremiam em uníssono quando puxou o papel amarrotado do bolso. As últimas palavras de Quinn trocavam de uma mão para a outra.

Um último adeus.

Rasgou a borda do envelope com extrema insegurança, fez uma força extra para absorver as informações antes de dar inicio a leitura.

Rachel,

Eu tive uma ideia brilhante, se você estiver lendo está carta, tudo indica que funcionou. Passei a noite passada em claro, pensando no que tinha que fazer e colidindo contra a minha incapacidade de sucesso. Qualquer dano que eu pudesse causar a você seria meu próprio declínio, mas uma de nós duas precisava morrer.

O que não queria dizer necessariamente que a vitima tinha a obrigação de ser Rachel. Houve uma troca.

_ Você tomou o meu lugar.

Foi então que a ideia surgiu. Você tinha que me matar, mas também nunca conseguiria por vontade própria. Só que “querer” não entrava na clausula da profecia, você só teria que causar a minha morte e pronto, assim sendo, caso me atropelasse acidentalmente no dia certo, os espíritos teriam o sangue tão almejado dentro das regras.

Por isso eu te guiei até o sétimo pico e fiquei na parte mais frágil, precisava que você viesse até mim, com o acréscimo do seu peso o chão cairia e você seria responsável pela minha morte, porque caso ficasse no mesmo lugar, nada teria acontecido.

O papel foi dobrado e esmagado entre os dedos sôfregos. Quando viu Quinn na ponta no penhasco todos os pensamentos lógicos sumiram, só quis tirá-la de lá e seu gesto de proteção causara as rachaduras no chão.

Se tivesse hesitado em se aproximar...

_ A culpa é minha._ deixou as lágrimas rolarem pelo colo._ Eu devia ter ficado parada._ Ela estava com raiva, ódio daquela carta._ Você não me deu escolha, já tinha me conformado em morrer, como vou conviver com isso?

Sei que deve estar nervosa, mas preciso que se acalme, ainda não acabou. Tenho uma última carta esperando para ser descartada. Lembra quando Jesse me atacou e você me salvou? Estávamos nos evitando, porque eu tinha te beijado e não conseguia dizer o porquê e você surgiu com uma ideia... Você lembra, Rach?

Ela lembrava.

Uma conversa muito distante:

_ O que foi aquilo que você me pediu para fazer?

Rachel se referia ao procedimento de retirar o próprio sangue e injetá-lo em Quinn. A explicação foi detalhadamente apresentada e a confiança parecia aumentar a cada palavra formada na conversa.

_ Quer dizer que esse “Choque de adrenalina” foi o que ti salvou?

_ Foi._ deu de ombros._ Você não conhece porque nunca treinou.

_ Hum..._ ajustou o corpo na cadeira._ Acha que isso poderia funcionar como um desfibrilador? Digo, se uma pessoa for dada como morta à pouco tempo e o realizarmos. Teria como salvar sua vida?

Quando pergunto aquilo, pensou em quantas pessoas sem esperanças poderia salvar com essa manobra nova, não fazia ideia de que alguns meses depois sua teoria seria testada. Por ela mesma.

Imediatamente.

Guardou o papel no bolso do casaco, faltando terminar de ler uma parte. Girou nos calcanhares para a entrada do hospital num último ato de esperança.

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Correu pelos corredores abarrotados de pessoas feridas. Os clãs estavam misturados e banhados de sangue. Virou uma esquina e trombou com Noah deitado numa maca com a mão segura por Kitty e Vovó Abby balançando sobre a bengala.

_ Olá, querida._ deu um sorriso cativante._ Porque a pressa?

_ Preciso ser rápida._ atropelou as próprias sílabas._ Pode me ajudar?

Ambas rumaram para a ala hospitalar onde o corpo vazio de Quinn estava. A porta de vidro descansava totalmente aberta e apenas um médico permaneceu na sala, desplugando os aparelhos silenciosos.

Vovó Abby piscou uma vez. Saiu do esconderijo e gritou apoiando-se na parede. O homem observou-a de dentro da ala e foi em seu socorro deixando apenas o monitor cardíaco em posição.

_ Senhora._ puxou-a pelo braço servindo de apoio._ Está se sentindo mal?

_ Não._ sibilou, mudando de expressão no instante seguinte._ Mas você irá.

Com uma perícia extrema, desbancou a bengala para o alto e começou a martelá-la na cabeça do pobre médico uma série de vezes, dizendo: “Toma, toma, toma... para de gritar, seja homem.” Ele não conseguiu reprimir os “socorros” diante daquela velha louca.

Rachel aproveitou a distração do responsável pelo caso e foi rasteira até a sala. Encontrou um corpo deveras branco e paralisado. Aquilo foi um baque terrível, sentiu as pernas fraquejarem, mas não podia parar.

Ainda não.

_ Seringas.

Puxou um pote da mesa metálica contendo tudo que precisava. Escolheu uma agulha longa e adaptou-a na ponta do objeto. Mirou o próprio braço e encheu o tubo com sangue até o topo.

Respirou fundo escolhendo um caminho melhor para o coração de Quinn. Preparou-se para injetar quando a porta foi rudemente aberta. Russel Fabray passou galgando ao seu encontro.

_ Afaste-se da minha filha.

Teve um segundo. Mal conseguiu discernir onde tinha adaptado a agulha quando apertou o líquido e foi bruscamente arrastada para longe. Colidiu contra o concreto da parede e teve o pescoço emprenhado por mãos de aço.

_ O que pensa estar fazendo? Não basta tê-la matado?

_ Tire as mãos de mim.

Foi um momento estranho. Uma luz forte invadiu o cômodo e jogou o homem para longe. Rachel caiu sentada e olhou-o exasperada. Aquela força desconhecida havia surgido dela.

O ser dominante.

Inspecionou as próprias mãos.

_ Você tirou tudo de mim._ bradou ele, levantando furioso._ Não me importo de morrer.

Avançou contra ela novamente, mas um barulho distinto o fez parar. A pequena menina e o grande homem entreolharam-se apavorados. O silêncio foi preenchido por um som calmo e contínuo.

Um bip.

Encararam o monitor cardíaco ainda ligado por cima da bancada. Ele cantava, perdeu o direito de ficar mudo, porque agora estava plugado a algo verdadeiramente presente.

Quinn voltara.

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Os médicos correram com tubos e olhos incrédulos. Pediram que os integrantes da cena abandonassem o quarto e aguardassem uma reposta. Passada meia-hora o responsável pelo caso abandonou a sala e foi ao encontro dos dois.

_ Ela está estável._ ditou segurando a prancheta._ Não sei como isso aconteceu.

Relatou que a paciente possuía todos os membros quebrados e prontamente engessados, um corte profundo na face e todas as costelas do lado direito emendadas. Desculpou-se pelo fato de não saber como a menina havia morrido e voltado.

Um detalhe escondido:

Rachel jogou a seringa fora.

Não podia explicar o procedimento sem expor o próprio povo. Pela segurança dos que amava se livrou das provas. Parece familiar?

_ Não posso dizer que ela vá acordar, mas espero que sim._ mostrou que apesar de todo o esforço a menina continuava em coma._ È um milagre.

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Os dias passaram, Sam foi acordado por Donna na semana seguinte. A enfermeira deu pulinhos ao contar a novidade e ganhou um beijo exasperado do enfermo que não conseguia parar de sorrir.

Santana e Brittany ficaram confinadas no mesmo quarto. Os ferimentos mais profundos estavam cicatrizando e os superficiais não existiam mais.

_ Foi vê-la hoje?

_ Sim._ Brittany beijou a palma da mão dela._ Nada ainda.

_ Ótimo._ ditou emburrada._ Quando ela acordar, eu estarei lá e vou dar-lhe uma coça por não ter me contado sobre esse plano idiota.

Os pais da vítima permaneceram em seu leito. Trocavam de turno em diferentes espaços de tempo. Judy era a bola da vez. Carregava um livro entre os dedos e palavras nos lábios.

Batidas na porta.

_ Com licença._ Rachel estava de pé na entrada, trajava calça jeans e uma camisa vermelha de flanela, nos braços carregava um livro de capa preta e folhas amareladas._ Posso ficar com ela por alguns minutos?

Judy tirou os óculos e esfregou os olhos. Esticou a coluna ao levantar e rumar para uma maquina de café expresso dando privacidade as que ficaram. Rachel ocupou um lugar ao lado da maca.

Puxou um pedaço de papel amarrotado pelo diário.

O final da carta:

Se eu voltar ou não, preciso que leia o diário da sua mãe. Há uma coisa importante que você precisa saber. Desculpe por todas as coisas ruins que já lhe fiz. Amo você, Quinn.

_ Eu li tudo._ sussurrou agradecida._ Tenho certeza de que pensou no Peter quando descobriu sobre a cura. Sabia que eu não seria forte o bastante para fazer isso sozinha e me ajudou._ arrastou a ponta dos dedos sobre a mão pálida._ Fui tão injusta, você me perdoa?

Não houve resposta.

Só um abrir de porta.

_ Rachel._ Donna desenhou uma fresta. _Preciso que venha ver uma coisa.

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Estavam de frente para portas de vidro com um nome cravado na entrada. Rachel olhou cabisbaixa para o alvoroço de crianças correndo lá dentro. Aquilo a fazia tão feliz, mas agora não fazia mais sentido algum.

O integrante mais importante sumira.

_ Não consigo entrar, Donna._ falou ainda encarando os pequenos._ Sem ele, parece vazio.

A enfermeira abraçou Rachel e secou uma lágrima que rolou canto abaixo.

_ Entre._ insistiu.

Peter já estava morto a essa altura. Não precisou perguntar e nem queria saber onde fora enterrado. Era cedo demais para aceitar isso, estava muito preocupada com outra pessoa para ter o coração quebrado novamente.

O primeiro passo para dentro da sala foi marcado pelo parar mutuo de pés apressados. Aquela constelação de olhares sorriu delicadamente para a visitante. Não houve empurrões ou abraços de urso, mas uma série de mãos a puxou para o fundo do recinto.

Uma observação categórica:

Rachel precisava ver com os próprios olhos para acredita.

Uma muleta minúscula foi arrastada na tentativa de dar um passo. Ossinhos recuperados fizeram o esforço necessário para encontrá-la e os olhos mel tão queridos encheram o mundo de vida.

_ Oi, tia Rachel.

Ela levou a mão à boca para impedir-se de gritar de susto ou surpresa. Contra todas as possibilidades, Peter estava ali. Vivo. Ela caiu de joelhos e recebeu o abraço terno do garotinho sorridente.

_ Meu Deus._ sussurrou entre soluços._ Como isso é possível?

Donna olhou-a com as sobrancelhas no ar.

_ Ela não te contou?

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As portas do quarto quase foram arrancadas das dobradiças. Dois médicos conversavam alegremente do lado de fora quando viram uma figura de vermelho passar como um furacão.

_ Você..._ Rachel caminhou até Quinn e parou ao lado despejando lágrimas e palavras atropeladas._ Vendeu aquela sucata velha e doou o dinheiro para a cirurgia do Peter._ afirmou com a voz nos céus._ Não pense que tem o direito... de... me fazer feliz para logo em seguida me abandonar._ Ela abaixou e tomou a mão pálida enchendo-a de lágrimas._ Sinto sua falta, até mesmo das piadas idiotas que, de alguma forma, eram a melhor parte do meu dia.

Uma informação acrescida:

As piadas de Quinn eram uma forma de tentar fazer aquele sorriso lindo de Rachel voltar.

Houve um abraço e descanso de cabeça no vão do pescoço branco. Rachel chorou e sussurrou com o coração apertado.

_ Quero você de volta._ fechou os olhos._ Eu te amo... muito mais do que me sinto capaz. Amo você.

Ela reprimiu um lapso de cócegas abaixo do queijo e levantou os olhos. Achou que estava à beira de um delírio bom e afastou-se. O susto foi tão grande que Rachel pulou para trás e quase caiu.

Quinn estava acordada. Sorrindo.

_ Meu carro não é sucata velha, Rach.

_ Você estava fingindo?

_ Até ontem era verdade.

Cena estranhamente familiar, tirando a parte em que Rachel aproximou-se da namorada e afundou os lábios nos delas por tanto tempo quanto pôde. Quinn não podia mexer os membros danificados, mas retribuiu ao máximo.

_ Eu tive que ficar em coma para ouvir isso.

_ Desculpe ter demorado tanto.

_ Tudo bem._ falou brincalhona._ Eu sempre soube.

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Quinn chamou os pais para por um assunto em pratos limpos. Sentaram ao lado da cama e Rachel manteve-se nos pés para observar a conversa. Judy não conseguia parar de chorar e Russel de sorrir.

Seja como for, estavam felizes.

_ Rachel não queimou nossa casa._ relembrou o fato passado._ Foi o Jesse St. James.

Toda a história foi revelada. Desde o momento em que se conheceram e souberam que não podiam mais lutar uma contra a outra, na verdade era bem o oposto. No fim, teriam que ficar juntas, pois se completavam.

Russel olhou para a primogênita Berry, caminhou até ela com os braços caídos, parou a alguns centímetros e foi de encontro ao chão de joelhos, fechou os olhos e começou a chorar como nunca mostrara ser capaz.

_ Desculpe._ sussurrou com a voz pesada._ Não fazia ideia.

Uma verdade viva:

As pessoas cometem erros.

Somos humanos, falhamos com muita frequência, até mais do que gostaríamos. Para concertá-los talvez baste pedir perdão e esperar ser atendido para depois levantar a cabeça e continuar tentando acertar.

Rachel sorriu e também ficou de joelhos. Em pé de igualdade. Circundou as mãos em torno do pescoço do mais velho num abraço e viu-o agradecer entre soluços.

Quinn sorriu de onde estava.

Houve muitas visitas no meio tempo que passou. Santana cumpriu parte da ameaça, jogando um pote de algodão na cabeça da amiga e dizendo: “Da próxima vez que tiver uma ideia idiota dessas, eu mesma vou te matar.” Brittany abraçou-a e sussurrou palavras mais amorosas.

Sam foi vê-la no dia seguinte, auxiliado por Donna.

_ Eles estão namorando?_ perguntou a Rachel.

_ Não sei dizer.

Peter estava melhor e também conseguiu fazer uma visita breve, o que trouxe a tona um assunto a muito esquecido.

A cura.

Adam e Vovó Abby foram os últimos a visitá-la. O pai estava ao lado da filha, no pé da cama, ouvindo atentamente toda a história que já haviam passado para os pais de Quinn.

_ Uma pena não sabermos onde está.

_ Concordo._ Puxou a filha para um abraço._ Foi muito engenhoso o que você fez para salvá-la, sua mãe sempre me disse que você tinha um propósito maior. Ela estava certa.

Quinn estava estirada na cama. Os braços, já curados, unidos sobre o peito e a testa fincada em total concentração. A última sentença de Adam desencadeou uma corrente infinita de pensamentos possíveis. Várias peças montaram um quebra-cabeça gigantesco.

Ela sabia que estava morrendo... Tomou os remédios por conta própria... Rachel era citada em várias partes do diário... Ela tem um propósito maior... Um frasco contendo sangue... O que criei de mais importante está guardado no que tenho de mais importante, mas não pude criar...

Todas as pistas culminavam em apenas um lugar, ou melhor, uma pessoa.

_ Rachel._ Quinn levantou as sobrancelhas convicta._ Esse tempo todo, eu não acredito.

A pequena ficou honestamente preocupada com a súbita felicidade sem razão da namorada. Caminhou até ela e aferiu a temperatura. Não estava delirando.

_ Você está bem?

_ Sei onde está a cura.

Todos os olhares cresceram em uníssono.

_ Onde?

_ Aqui._ Quinn puxou a mão dela e beijou a base._ Os remédios que ela tomava eram a cura. Está guardada no seu sangue. Esse é o seu propósito_ havia uma áurea de felicidade crescente no recinto._ Ela não parou de tomá-los porque sabia que ajudaria a salvar milhões de pessoas e não podia contar sem expor o próprio povo._ Apertou a mão oposta com um sorriso._ Sua mãe era extraordinária.

_ Milhões de pessoas._ Rachel sibilou encantada. E melhor de tudo._ Peter.

Todos ficariam bem.

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Todas as lacunas pareciam ter sido preenchidas, mas ainda sobrara um inconveniente. Os espíritos. Pós-guerra, dariam a palavra ao ser dominante, instigando-o a decretar o veredicto final para o clã perdedor.

Uma cena nova:

Os espíritos de Elisa e Sarah pegaram emprestado o corpo das conselheiras dos clãs.

Vovó Abby e Conselheira estava sentadas no chão diante do vale no sétimo pico. Os rostos pareciam mais fundos e lívidos. Na outra extremidade estavam os clãs Fabray e Berry.

Rachel tomou a frente da artilharia.

_ Onde está a primogênita do clã inimigo?_ perguntou vovó Abby com uma voz que não era dela._ Não estou sentindo o espírito dela.

Quinn saiu do meio da multidão.

Tinha uma muleta embaixo do braço e determinação nos olhos.

_ Estou aqui.

_ Você devia estar morta._ interpôs a mulher com os dentes travados.

No instante seguinte Rachel roubou a frente de Quinn evitando que qualquer um pudesse fazer algum mal a ela. Respirou fundo e entregou as palavras.

_ Estão aqui para me ouvir._ ditou imponente._ Não para questionar.

Quinn fez de tudo para que Rachel ganhasse o poder dominante, assim teria total controle da situação e não seria tocada ou iria permitir que qualquer outro fosse. Sua morte temporária serviu para enganar os espíritos e fazê-los entregar o poder a Rachel.

Trazê-la de volta não interferia na profecia. Ela fora cumprida. Quinn morrera pelas mãos da pessoa certa no dia correto, ressuscitá-la não anulava o fato de que estivera morta, mesmo que por apenas alguns minutos.

Tudo arquitetado dentro das regras.

Rachel tinha a palavra.

_ Ela tem um ponto, Sarah.

Conselheira maneou a cabeça em sinal para que ela prosseguisse.

_ Vejam onde a luta por poder nos trouxe?_ falou diretamente para os espíritos._ Todas as pessoas que morreram em nome de uma coisa tão fútil e sem importância. O que vocês começaram terminar aqui. Não quero mais derramar sangue e muito menos ter o direito de dominar qualquer um.

Um pequeno aprendizado:

Ódio não se resolve com mais ódio.

_ O que você quer então, Rachel?

Ela abaixou os olhos e virou-se para seus semelhantes.

_ Nosso povo já foi um antes._ concluiu._ Gostaria que isso fosse verdade novamente. Se eu tenho o direito a pedir algo, quero a unificação dos clãs.

Ambas as mulheres entreolharam-se e voltaram para a menina depois de alguns segundos de reflexão.

_ Como pretende uni-los?

_ Casando com Quinn Fabray.

Todos os olhares triplicaram de tamanho. Quinn quase engasgou com o próprio ar. O que acabara de passar? Rachel estava a pedindo em casamento na frente de todos?

_ Se ela me aceitar._ completou simples. Havia um sorriso travesso nos lábios macios e Quinn sabia que era o sorriso dela. Caminhou até ela e tocou-lhe a face com ternura._ O que você me diz?

_ Que eu deveria ter tido essa ideia brilhante.

Quinn puxou-a com o braço bom e tomou-a pelos lábios. Houve um assobio, provavelmente confeccionado por Sam, um esgar que com certeza viera de Santana e comemoração por todos os lados.

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A maré estava numa calmaria coerente, o vento cantava uma música suave, os grãos de areia uniam-se e dançavam alegres. A praia parecia igual à todos os dias, exceto pelo aglomerado de cadeiras brancas de madeira espalhadas nas laterais e arranjos de flores ao redor de um tapete rosa no centro do salão.

_ Ai, Sam é para endireitar o grampo, não perfurar meu crânio._ Quinn reclamou da tiara que soltara dos cachos loiros._ Mais para a direita.

_ Eu não levo jeito para essas coisas.

_ Percebi.

Nesse instante uma pessoa conhecida apareceu e para o alívio de Quinn era uma mulher e poderia ajudá-la nessa missão impossível. Molly Morland puxou a tiara das mãos desajeitadas de Sam e posicionou de forma impecável em dois segundos.

_ Melhor?

_ Desisto._ o garoto jogou as mãos para o alto._ Esse negócio de mulher é muito complicado para a mente curta de um homem._ avistou Donna ao longe e deu um sorriso lateral._ Se me derem licença, farei uma coisa que entendo perfeitamente.

Molly assentiu e Quinn revirou os olhos.

_ Obrigada por ter aceitado meu convite.

_ Eu não perderia por nada.

Houve uma troca de olhares infinita. A mulher sorriu amplamente como a muito não costumava fazer. Estava orgulhosa da aluna e de alguma forma Quinn sabia que naquele momento ela estava vendo muito além de seus olhos.

Estava revendo seu filho.

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Quinn tremia diante de todos os familiares. Estava de pé numa extremidade do altar improvisado. Vovó Abby administraria a cerimônia. Seus pais permaneciam conversando com Adam na primeira fileira. Sam havia acabado de chegar com os cabelos bagunçados ao lado de uma Donna extremamente corada.

Esse menino é impossível.

_ Você vai fazer um buraco no chão desse jeito.

Brittany estava ao lado da amiga tentando lhe passar alguma calma. Santana chegou nesse exato momento com um sorriso capaz de iluminar o mundo.

_ Segure a baba, Fabray._ ditou carregada de narcisismo._ Transformei sua namorada num anjo.

Todos os integrantes ficaram de pé quando a música preconizada por violinos começou a tocar e Rachel adentrou o salão na outra extremidade trajando um vestido branco amarrado no pescoço e caindo um pouco acima das cochas, uma trança modulada até a cintura e maquiagem impecável.

Brittany teve que cutucar Quinn para que ela andasse quando a música de entrada começou. O casamento entre lobos não era usual como estamos costumados a ver. Os integrantes ficavam cada um numa extremidade do salão e entravam no mesmo instante.

Como iguais.

Chegaram ao centro onde havia um círculo de rosas vermelhas e brancas misturadas. Quinn beijou a mão de Rachel em sinal de respeito e admiração.

_ Santana está se gabando por ter feito sua produção.

_ Sério?_ riu baixinho._ O que você acha?

_ Que ela está certa.

Vovó Abby deu início à cerimônia. Começou com palavras sábias sobre cumplicidade e união, até olhar para as lâmpadas dentro dos diversos lampiões em forma de balão ao redor.

_ Cheguei a conclusão de que minha casa deveria ter lâmpadas tão potentes quanto essas.

_ Vovó..._ Rachel interpôs, vendo que ela tinha se perdido._ O casamento.

_ Certo._ Prosseguiu, sem mais erros._ Hora de trocar as alianças.

Santana e Brittany tiveram a honra de entregar os anéis dourados com formato de dois lobos entrelaçados, dançando até fundirem-se em um só. Rachel foi a primeira a recitar os votos.

_ Eu tinha medo de me apaixonar, porque sabia que quando o fizesse, minha vida não seria suficiente, eu seria dependente de outra._ enlaçou o anelar de Quinn._ Você mudou tudo, não me arrependo, farei cada dia da sua vida um pouco melhor, assim como você faz os meus. Eu te amo, Quinn.

Depositou um beijo sobre o anel e esperou. Quinn corou fortemente, havia esquecido os votos, Santana deveria tê-la lembrado como madrinha de honra, mas agora era tarde.

Teria que improvisar.

_ Lembra da história da lua?_ Rachel assentiu sorridente._ Você é o meu sol.

Foi só isso.

E bastou. Depois de repetir o gesto da noiva, ficaram de frente uma para a outra com o coração pulsando em satisfação. Vovó Abby concedeu a permissão para consumarem a união.

_ Eu te amo, Rachel.

Puxou-a pela cintura, enquanto a pequena lançava os braços ao redor do pescoço pálido, houve um último encontro de olhares antes de juntarem os corpos num beijo profundo e calmo. Luzes lilás-esbranquiçadas surgiram do chão, rodopiaram-nas bagunçando seus cabelos e subiram em direção aos céus.

O clã Summer renasceu.

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A festa começou com música alta e pessoas com pés nus dançando na areia fria. Santana aborreceu-se com a mão de Sam descendo inapropriadamente até a cintura de Brittany e jogou o salto na cabeça dele.

_ Mantenha suas mãos imundas longe da minha garota.

_ Ponha esse ponche no chão, Lopez.

Certas coisas nunca mudam.

Tina e Mercedes estavam ao lado das pedras conversando animadamente com Noah que tinha os braços rodeados em Kitty. Vovó Abby balançava sua bengala no alto e cantava desafinada no meio do salão, era a mais animada da festa.

Adam puxou a Senhora Morland para uma dança. Russel e Judy resolveram acompanhá-los.

_ O que você acha desse final?_ perguntou Judy.

_ Maravilhoso._ olhou para os lados e estreitou os olhos._ Onde está a Quinn?

Respondendo a pergunta dele:

Á caminho do quarto pico.

As meninas já haviam fugido há muito tempo. Quinn correu colina acima com as mãos alvoroçadas na frente do corpo. Chegou ao topo com a respiração cortante e dobrou os joelhos para não cair.

_ Ganhei._ Rachel jogou os braços para o alto de cima de uma pedra.

Venceu a corrida.

_ Como? Eu achei que você tivesse ficado para trás.

_ Peguei um atalho._ olhou ao redor._ O que você quer mostrar?

Quinn estendeu a mão que foi prontamente tomada. Subiram a encosta, cada vez mais alto. A luz cinza da lua iluminou o trajeto, quando chegaram ao cume o passeio acabou.

_ Pedi a sua avó que conversasse com os espíritos e permitissem te dar um presente._ verificou o relógio._ Está na hora.

Uma fagulha branca formou um pequeno turbilhão de partículas no ar que foram crescendo e unindo-se em várias outras partes. O resultado foi o aparecimento de um ser humano transparente.

Rachel não podia acreditar.

Uma palavra caiu de sua boca.

Tudo que conseguiu dizer:

“Mãe.”

O espírito de Shelby Berry estava diante delas, com um sorriso dominante. Ela caminhou hesitante até a mulher de branco. Esticou a mão para tocá-la e tomou um susto ao perceber que podia.

_ Rachel.

Colidiram num abraço, profundo, eterno. Carregado por uma saudade desconhecida. Não precisavam conhecer-se para amar, talvez seja uma das coisas mais bonitas sobre a família.

_ Estou orgulhosa de você._ sussurrou e voltou à atenção para a outra menina._ Cuide bem dela.

Quinn assentiu.

Houve um beijo longo e um sumiço repentino. Rachel sorriu entre lágrimas. Correu para trás e abraçou a esposa antes de beijá-la quantas vezes fosse capaz.

_ Obrigada por isso.

_ Você merecia conhecê-la.

Quinn puxou-a nos braços e girou-a no ar antes de arrebatar outro beijo. Muito mais intenso.

_ Vamos para casa?

O quarto estrelado foi atropelado por risos e calor. Rachel passou as mãos pelos cabelos alvoroçados de Quinn quando a mesma depositou um beijo prolongado no seu rosto. Houve uma conversa contendo as palavras “adoção” e “Peter” na mesma frase.

Juntas, descobriam que impossível não é desculpa.

E vale à pena lutar pelo que acredita.

Notas finais
Ótima semana. Vejo vocês no epílogo.