Glee-21-Faberry
10 Set fire to the rain. Part 3
Notas iniciais
“But there's a side, to you, that I never knew, never knew.”
O véu negro que nublava o céu foi inteiramente preenchido por trilhas de cores. Muitos pontinhos vermelhos, alaranjados, brancos e azuis estavam dispersos, brincando de amarelinha. Um coral de estrelas.
Achei você!
Batidinhas leves ecoaram sutis pela ala hospitalar. Quinn estava parada na porta, esperando sua permissão para prosseguir.
_ Oi.
Uma cena diferente se montava a sua frente. Rachel jazia sentada na cadeira ao lado da maca, segurando a mão de uma criança amarelo fúnebre. Peter estava ligado a uma série de aparelhos e exalava exaustão.
_ Tia Quinn._ ele abriu um sorriso encantado._ Eu sabia que você voltaria.
Um leve rosado preencheu as bochechas pálidas. Ela observou as olheiras fundas do pequeno e depois radiografou a morena que continuava calada, com os olhos baixos. Aproximou-se da cama e deu um beijo na testa do menino, afagou seu rosto e virou-se para ela.
_ Posso falar com você?
Rachel assentiu. Deu um leve aperto na mãozinha frágil e rumou para fora do cômodo.
_ O que aconteceu?
_ Uma crise horrível._ ela fez um muro com os braços e manteve os olhos fixos no chão._ O câncer atacou-o novamente. Ele vomitou sangue e desmaiou uma série de vezes essa manhã.
Ela sentiu as palavras saírem carregadas pelo peso do medo. Aproximou-se dela por instinto e tocou na linha da palma da mão pequena com as pontas dos dedos. Sentiu a pele antagônica se arrepiar com o gesto.
_ Como resolvemos isso?_ Quinn tentou buscar uma reposta solúvel.
_ Cirurgia._ Rachel puxou a mão e recuou._ O problema é o custo.
Quinn viu o quão próxima e distante ela parecia, mas como poderia culpá-la? Tudo parecia uma confusão entre elas. As coisas tinham mudado rápido demais para que pudessem digerir devidamente sua nova realidade.
_ Os pais dele não podem pagar?_ argumentou.
Rachel finalmente levantou os olhos e bufou um lamento.
_ É complicado.
Um gesto de tristeza correu pelos olhos avelã. Ficou desarmada diante de uma situação lamentável. Sempre fora de sua natureza ajudar a quem pudesse, mas agora estava de braços atados. E sabia que a menina a sua frente sentia-se da mesma forma.
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O vento acariciou o belo rosto que lhe sorria. Estavam deitadas sobre a lataria verde, cada qual em sua respectiva extremidade, mantendo uma distância necessária. Quinn reparou na tristeza silenciosa ao lado e pensou na melhor abordagem para dissolvê-la.
_ Berry..._ sentou, dobrando joelhos._ Acho que vou ler uma história.
Rachel cruzou as sombrancelhas, estranhou a sentença e pensou ter ouvido errado.
_ Achei que você detestasse fazer isso._ pontuou.
_ E você está certa._Quinn puxou um livro da bolsa azul e abriu-o num conto qualquer._ Mas é por uma boa causa.
Uma observação linear:
Um simples verso pode salvar uma noite.
Sorriu e anunciou o título: A bela adormecida. Focou a primeira linha e cantou as frases primordiais de maneira calma e sutil. O tempo foi passando e as estrelas mudando de lugar à medida que ela corria pelo papel, soprando as palavras.
_ O que você achou?_ fechou o livro com um baque mudo.
_ Você está lendo bem._ sibilou.
_ Obrigada._ corou de leve._ Mas eu estava me referindo à história.
Rachel escondeu o rosto ao perceber o deslize que havia cometido. Coçou a garganta para aliviar o rubor que lhe alcançou e deu de ombros.
_ Gosto dela.
_ Sério?_ argumentou._ Eu achei muito chata. A mulher só dorme.
_ É melhor do que as suas piadas.
A pequena riu. Quinn bufou e fingiu estar indignada enquanto guardava o livro na bolsa. Voltou ao seu devido lugar e descansou a cabeça nos braços. Estava muito contente de ter desenhado um sorriso na face dela.
_ Fabray.
_ Hum?
Rachel virou o corpo para o lado. Observou-a encarando as estrelas e sussurrou a palavra que faltava.
_ Obrigada.
Quinn abriu um sorriso gigantesco. Continuou na posição que se encontrava e passou o restante da noite feliz por seu ato. Estava inegavelmente encantada pela menina de olhos chocolate, mas sabia que teriam que desenvolver o que nasceu de novo entre elas com extrema cautela, porque era muito delicado.
Uma lição valiosa:
Aquilo que se luta para conseguir sempre lhe trará maior alegria do que o que simplesmente lhe vem de graça.
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Rachel sentia seu coração dissolver à medida em que os dias passavam. Peter já voltara para seu devido quarto e sofrera uma melhora plausível. Mas ela sustentava um mau pressentimento. Perdera as contas de quantas vezes o vira naquela situação e sentia-se impotente por não poder ajudar.
Eu faria qualquer coisa para vê-lo curado!
Amava aquela criança com todas as forças. Eles tinham algo muito peculiar em comum e extremamente doloroso. Ela o compreendia melhor do que ninguém.
_ Olá.
Quinn chegou à porta da ala hospitalar. Recebeu vários beijos e abraços de todos os pequenos. A história da noite foi apaziguadora e finalizada por cócegas e risos. Ambas abandonaram a sala na hora habitual e rumaram para a porta da saída.
_ Fico feliz em vê-lo bem._ admitiu a loira._ Ele é muito forte.
_ É._ moldou os braços ao redor do corpo formando um cobertor contra o frio._ Tudo fica bem antes de acontecer outra catástrofe.
Ela se deteve e ficou na frente de Rachel. Obrigou os olhos marrons a encararem os seus e afagou de leve seu ombro tentando passar algum conforto.
_ Não pense assim.
_ Ele tem câncer, Fabray._ a voz saiu num fio._ Como você espera que eu reaja?
Os olhos avelã se fecharam. Bufou sua indignação. Ela não sabia a resposta. Se os papeis fossem inversos provavelmente estaria da mesma forma. Um vento gélido transpassou seus corpos fazendo os pelos acordarem.
_ Você está com frio._ Quinn notou a inquietação dela.
_ Tudo bem._ deu de ombros._ Já estou acostumada a baixas temperaturas.
Deitaram sobre o capô do carro. A loira olhou de esguelha para o lado e notou uma tremedeira sutil viva nas pernas morenas. O short jeans curto e a regata não eram trajes apropriados para o frio. Retirou o casaco e estendeu em sua direção.
_ Toma.
_ Não._ balançou a cabeça para os lados._ Se fizer isso você vai congelar.
Ela sorriu de lado e revirou os olhos. Jogou a jaqueta por cima da pequena como se estendesse um lençol, voltou para seu lugar na outra extremidade do carro e fez um travesseiro de braços para descansar a cabeça.
_ Estou intrigada com uma coisa._ Rachel ajeitou seu novo utensílio._ Quando Jesse nos interrompeu no corredor, lembro de ouvi-lo mencionar seu pai._ jogou o corpo para o lado._ O que ele tem contra vocês?
Quinn se mexeu incomodada. Suspirou alto e virou para o lado, encontrando o rosto interrogativo.
_ É uma história triste._ dedilhou a lataria, inquieta._ Não gosto de contá-la.
_ Não precisa fazer senão quiser.
_ Eu... conto._ finalizou, criando uma ideia._ Estarei abrindo uma parte da minha vida para você._ sorriu de lado._ Seria merecido algo em troca.
Rachel ergueu as sombrancelhas. Enrugou a testa pensando na proposta. Dividir algo com ela, por que a mesma o faria. Era justo, porém complicado.
_ Tenho uma história, mas não sei se devo dividi-la com...
_ A menina que nasceu para te matar?
Ela piscou uma série de vezes e assentiu. Quinn fez uma cara triste. Sabia que a insegurança dela tinha fundamento tanto quanto daria qualquer coisa para acabar com esse sentimento intrometido.
_ Eu te entendo, Rachel.
Os olhos chocolate ficaram maiores pelo susto ao constatar que ela sabia seu primeiro nome e mais estranho ainda era tê-lo mencionado. Viu Quinn encolher-se quando o vento correu por sobre sua pele.
_ Eu falei que você iria sentir frio sem a jaqueta.
_ Nem tente tirá-la, eu não vou aceitar de volta._ ditou, cruzando os braços sobre o tronco._ Tem que haver uma maneira de nós duas nos beneficiarmos.
A morena estreitou os olhos.
_ É só entrarmos no carro.
_ Não vai dar._ as mãos pálidas foram aos bolsos._ As chaves estão dentro da mochila que ficou no hospital.
A pequena bufou e sentou-se no capô. Engatinhou até ela e deitou ao seu lado, jogou a jaqueta por cima das duas e encarou o vasto céu. Sentiu um sorriso soprar ar quente no seu pescoço.
_ Adorei a sua ideia._ Quinn deixou escapar._ Agora estou bem melhor.
Rachel revirou os olhos e deparou-se com um utensílio muito familiar jogado no banco do carona. Atrás de suas cabeças. Uma mochila jeans. Abriu a boca incrédula. Tudo não passava de outra armação. Sentou tateando os bolsos de sua companhia e bateu contra um objeto metálico.
_ “A chave está no hospital, né?”_ puxou um chaveiro de dentro do bolso dela._ Você é muito espertinha.
Quinn riu e corou fortemente.
_ Fui pega no flagra._ sentou-se ficando de frente para ela._ Mas valeu a tentativa.
Os pequenos pés trotaram para dentro do carro. Sentando-se emburrada sobre o banco, Quinn observou-a com um sorriso convencido. Mais uma ideia brilhante bem executada.
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As semanas caminharam tranquilas por entre as nuvens. O sol abandonara a cidade dando lugar a uma temporada inesperada de chuvas. As gotas rodopiavam contentes caindo graciosas até seu último mergulho no solo.
_ O mundo parece que vai desmoronar.
Rachel levou um susto e deixou uma parede de livros cair de encontro ao chão de madeira. Olhou exasperada para a menina sorridente pendurada em sua janela.
_ O que você está fazendo aqui?
_ Vim te buscar._ entrou num pulo._ Está chovendo muito.
_ Eu não ligo de me molhar._ recolheu os blocos de papéis._ Tenho medo que alguém veja você entrando.
_ Está com vergonha de mim, Berry?_ brincou, encostando de lado na parede.
_ Você sabe que não é disso que estou falando.
Quinn sorriu. Conhecia bem os seus temores porque compartilhavam o mesmo fardo. Aproximou-se dela e viu o seu recuo costumeiro, deu um muxoxo de reprovação e ficou onde estava.
_ Eu pensei muito e resolvi contar a você o que aconteceu para Jesse ter raiva do meu pai._ Ela andou até a janela e observou a chuva imponente, manchando o céu de cinza._ Meu pai era o melhor amigo do pai dele. Eles se conheceram no ginásio e tornaram-se inseparáveis a partir de então. Numa noite de festa, beberam muito além da conta, pegaram o carro para ir para casa e numa curva lançaram-se na pista oposta e encontraram um caminhão.
Rachel ouviu a história e passou a desenhar a cena trágica na mente.
_ Quem estava dirigindo?
_ Meu pai._abaixou os olhos, amargurada._ Ele pagou a fiança e respondeu em liberdade._ voltou a encará-la._ Jesse perdeu o pai muito novo e culpa o meu por isso.
_ Ele não deveria ter dirigido embriagado.
_ Eu sei._ Quinn soltou um longo suspiro._ Ele cometeu um erro terrível, mas acho que já pagou o bastante por isso e não me refiro ao dinheiro porque isso não substitui a vida de ninguém. Acredito que o fardo te ter matado seu melhor amigo seja sua maior e mais tortuosa sentença.
A loira fechou os olhos e esperou pelas acusações habituais das pessoas para as quais ela contava esse infortúnio. Nenhum som foi proferido.
_ Você não vai me julgar?
_ Porque eu faria isso?_ retrucou a pequena.
_ Eu perdi a chance de ter muitos amigos por isso, Rachel. A filha do assassino. Quem iria querer se enturmar com uma pessoa com esse histórico?
_ A culpa não foi do seu pai._ pontuou._ Essas coisas lamentáveis acontecem sem que exista uma explicação. Ele não teve a intenção e você não deveria se sentir mal por uma coisa que não fez.
Quinn sorriu agradecida. Estava receosa com a possibilidade de Rachel se voltar contra ela depois de ouvir essa história. Teve certeza de que alguém um dia iria tocar nesse assunto e preferiu fazê-lo de uma vez. Ficou extremamente feliz com o resultado.
_ Obrigada.
Rachel fechou a porta do armário e indicou a janela para que elas saíssem na tempestade, rumo ao seu lugar de encontro noturno.
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Pés pequenos se mexiam inquietos de um lado pra o outro. Rachel não aguentava mais remoer as dúvidas insanas de seu dia-a-dia. Via-se numa batalha onde a cruz e a espada a estavam dilacerando.
_ Querida, você vai fazer um rombo no chão andando desse jeito.
_ Desculpe, vovó._ bagunçou os cabelos em agonia._ Eu me sinto muito perdida.
A bengala de vovó Abby fez um rangido agudo no chão. Ela se instalou na cama, sentando de frente para a afobação em forma de menina.
_ Conte-me o que houve.
Não dava para esconder mais. Precisava descarregar aquele peso. Contou-lhe tudo o que ocorrerá nos últimos meses. Toda a reviravolta insana ocorrida entre ela e sua “inimiga”. Suas dúvidas e anseios.
_ Ela me contou uma coisa tão particular, vovó.
_ Compreendo, querida.
_ Sinto que ela confia em mim._ encostou na parede e apertou a testa._ Mas como posso retribuir, se até poucos dias um de seus objetivo na vida era me destruir?
As rugas sorridentes de vovó Abby ganharam vida. Ela bateu na cama para que sua neta a acompanhasse, Rachel o fez e contemplou o silêncio curto. A velha senhora estava pensando em como sua neta podia parecer uma pedra por fora e por dentro ser tão maleável quanto água.
Um pensamento compartilhado:
Às vezes as pessoas fecham seu coração com medo de se machucar. Mal sabem elas que isso é o que alimenta sofrimento.
_ Porque você não lhe dá uma chance?
_ Não sei se posso._ apertou os olhos e fechou as mãos com força._ Tudo isso me parece um sonho do qual estou prestes a acordar.
A avó enlaçou sua mão e lhe deu um sorriso esperançoso.
_ Então você deve aproveitá-lo até o fim.
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A chuva pesada estava esmurrando a lataria de Mu. Transformou o solo em lama, impossibilitando a caminhada pelo mesmo. Quinn folheava o caderno, sentada no banco do motorista, rabiscando páginas e mais páginas sem nunca chegar ao lugar que queria.
Escrever é tão difícil.
_ Tem uma coisa..._ Rachel começou uma pequena explicação._ Que eu gostaria de compartilhar com você.
Quinn virou o rosto e passou a encará-la.
_ Sério?
_ Sim._ afirmou, fechando o livro e girando o corpo._ É importante, talvez ajude você a entender algumas coisas sobre mim. Sempre quis ter alguém para dividir isso, mas... é muito frágil.
_ Tudo bem._ sorriu de prontidão._ Quer dizer que você confia em mim?
_ Estou avaliando isso._ revirou os olhos._ Mas eu quero tentar.
A proximidade eclipsou a cautela. Quinn levou as mãos até o rosto a sua frente e afagou a face quente com as costas das mãos, sentindo um tremor começar na maciez da pele a ser tocada.
_ Fabray...
_ Eu não vou te beijar._ desceu os dedos dedilhando o queixo delicado dela._ Mesmo que eu esteja morrendo de vontade de fazer isso. Sei que é muito cedo para entender que eu já não a vejo da mesma forma que via à um mês atrás.
Rachel permaneceu paralisada. Olhando-a tocar-lhe a face com extremo cuidado como se fosse de porcelana e pudesse ser destruída a qualquer momento. Depois de intermináveis segundos a morena voltou para o seu lugar e encostou a testa contra o vidro congelado. Suspirou baixinho e fechou os olhos.
_ Tive uma ideia melhor._ ditou._ Não vou lhe contar a história. Vou lhe mostrar.
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Rachel olhou para o relógio e viu o ponteiro pequeno dormir preguiçoso no número quatro. Estava arrumando sua “biblioteca” quando uma figura de cabelos rebeldes bateu com os nos dos dedos na sua janela.
_ Abre.
Ela foi até o local e ergueu o vidro dando passagem para sua visitante. Quinn pulou para dentro, aterrissando suavemente. Olhou para ela e abriu-lhe aquele sorriso costumeiro.
_ Então, aonde nós vamos?
_ Você já vai descobrir.
Rachel se virou para pegar seus pertences quando ouviu um barulho de madeira estalando, seguido por um grito abafado. Girou nos calcanhares e visualizou sua avó investindo a bengala contra Quinn.
_ NESS?_ deu-lhe uma pancada na cabeça._ VOCÊ DE NOVO?
_ Senhora, se acalme.
Quinn correu para trás da escrivaninha envernizada. Abaixou, tentando desviar de todos os golpes que lhe eram infligidos.
_ Vovó, ela não é o monstro.
Rachel tentou segurar os braços de sua parenta, mas ela a empurrou para o lado. Levantou a arma acima da cabeça, preparando o novo arsenal.
_ Quem é ela então?
_ Quinn Fabray.
_ A menina que vai te matar?_ enrugou a testa.
_ É... quero dizer...
Mas ela não teve tempo para explicações. Com uma rapidez fora do comum vovó Abby rodopiou a mesa e voltou a acertar seu alvo com as forças renovadas. Rachel se viu alienada.
Socorro! Ai... minhas pobres costelas.
Quinn se jogou na cama. Colocando os braços na frente do corpo para tentar amenizar os golpes. Viu a mulher levantar o objeto o mais alto que podia e gritou desesperada.
_ ESPERA._ a velha senhora hesitou._ Eu não vou machucá-la.
_ Por que não?_ questionou, imbatível._ Esse é o seu dever.
_ Eu gosto da sua neta.
Ambos os olhos chocolate cresceram com essa declaração. Rachel sentiu seu coração começar a correr. No fundo, sabia que ódio não era o que a guiava até ela. Não mais. Só não pensou que fosse admitir que era um sentimento bom com essa intensidade.
_ Fico satisfeita em ouvir isso._ abaixou a bengala e lhe deu um sorriso doce._ Acho que vou comer uma maçã.
Em sua loucura normal, vovó Abby abandonou o cômodo, sorrindo, como se nada tivesse acontecido. As meninas se entreolharam assustadas. Quinn soltou todo o ar preso nos pulmões.
Anotando mentalmente: Nunca mexer com a avó da Berry.
Algumas pessoas podem dizer que o ato da idosa foi de extrema insensatez, mas a verdade é que ela tinha um ponto para provar e conseguiu o resultado desejado.
A intenção de vovó Abby:
Fazer Rachel enxergar que o que estava bem na sua frente era real.
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O carro cantou pneus na estrada. Rasgou o vento, esmurrando a terra fofa. Algumas gotas de chuva lhe umedeciam o pára-brisa até serem jogadas para os lados pela velocidade.
_ Tem certeza que o estamos no caminho certo?
_ Claro que sim._ retrucou, olhando a cachoeira que despencava sobre elas._ Eu sempre venho aqui.
Quinn acelerou, subindo uma ladeira mortalmente íngreme. Jogou o carro para a esquerda e encontrou alguma estabilidade quando a terra virou uma planície. Parou-o sob o pedido da passageira e olhou ao redor curiosa.
_ Nós estamos no quarto pico?
_ Sim._ Rachel olhou para os dedos e apertou a maçaneta com força. Decidida, abriu a porta para o aguaceiro que o céu chorava e caminhou pela terra escorregadia. Quinn a seguiu tomando cuidado para não perder o equilíbrio.
_ O que estamos fazendo?
_ Indo visitar uma pessoa.
A morena não identificou seu anfitrião e continuou cursando o trajeto. Subiram cada vez mais alto e encontraram alguma proteção com um punhado de árvores que envolvia uma pequena clareira. Quinn afastou os cabelos dos olhos e estacou quando a sua guia parou. Olhou para os lados em busca de outro ser humano no meio daquele caos feito de água. Não havia ninguém.
_ Rachel, o que nós...
_ Era isso que eu queria lhe mostrar.
Ela ficou parada esperando que Quinn se aproximasse. Assim foi feito. Um susto trovejou a espinha da loira quando ela finalmente entendeu quem elas estavam indo privilegiar com sua presença.
_ Essa é a sua..._ engoliu em seco._ Mãe?
Os braços morenos colaram firmes no corpo e ela assentiu uma tristeza profunda. A cena que se desenrolava era protagonizada por duas meninas, terra fofa, chuva forte e uma enorme pedra com vários dizeres.
A escritura da pedra:
Shelby Berry:
1969-1994
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O mundo parecia ter parado. O único barulho legítimo era o da chuva. Quinn sentiu um tremor vindo de suas laterais e sabia que não tinha haver com o frio. A mãe de Rachel estava morta. Uma constatação horrível.
_ Você tem alguma noção do que é nunca ter tido um abraço maternal?
A resposta era óbvia. Quinn sempre teve uma mãe. Uma pessoa para lhe acolher durante os pesadelos, sorrir durante suas conquistas e amá-la todos os dias um pouco mais. Rachel por outro lado nunca teve qualquer uma dessas bênçãos.
_ Ela morreu durante o meu nascimento._ engasgou a última sentença.
_ O que aconteceu?
Flashback on
O hospital estava na claridade e correria habitual de sempre. Shelby Berry (médica e pesquisadora) sorriu para os resultados de sua mais nova descoberta. Estava progredindo em seu projeto e tinha certeza que no final poderia beneficiar uma quantidade incontável de pessoas.
_ Oi, amor!_ Adam, seu marido, e também parceiro de trabalho entrou no consultório segurando uma rosa branca._ Você está linda.
_ Sempre gentil.
Ele a beijou e chegou a levantá-la do chão.
_ Eu tenho duas ótimas noticias para te dar.
_ Então fale.
Ela esticou um exame ultrassom onde aparecia uma imagem pequenina. Os olhos dele marejaram no mesmo instante.
_ Eu não acredito.
_ É uma menina.
Não poderia ter sido uma novidade melhor. Além de mais um filho. Teriam uma menina. Como a profecia exigia.
_ Essa é a melhor novidade do mundo!_ ele deu um beijo casto em seus lábios e sorriu apaixonado._ Eu amo você.
_ Na verdade eu tenho outra novidade maravilhosa.
Shelby pegou um punhado de anotações e mostrou a ele cada detalhe de seu novo projeto. Se ele estava surpreso antes, agora não existiam palavras para descrever o seu fascínio.
_ Quando os testes vão começar?
_ Agora.
Flashback off
_ Espera..._ Quinn estava tentando seguir o raciocínio._ Sua mãe estava envolvida numa pesquisa?
_ Sim, mas não é esse o ponto._ passou os dedos sobre a pedra e fechou os olhos._ Adam disse que ela começou a tomar uma série de remédios. De alguma forma essas pílulas me fortaleciam, mas sempre há um contrapeso._ ela apertou a mão contra a solidez da rocha._ À medida que eu me fortalecia minha mãe ficava fraca. Os comprimidos começaram a fazer mal à ela.
_ Então, porque ela não parou de tomá-los?
_ Adam._ ela girou nos calcanhares e ficou de frente para ela._ Não deixou.
_ O quê? Mas...
_ Você não entende?_ a pequena fechou os punhos, tremendo de raiva._ Tudo gira em torno da profecia, eu estava ficando cada vez mais forte, é só nisso que eles podiam pensar. Minha mãe não importava desde que eu nascesse sã para te matar. Adam forçou-a a tomar todos os remédios até o fim e ela não conseguiu suportar o parto.
Quinn teve a sensação de ter uma charada muito complicada resolvida. De repente todas as perguntas sobre ela se solidificaram em algum fundamento. Estava na hora de começar a resolvê-las.
_ Por isso você se nega a treinar?
_ Sim._ ela mantinha os olhos no chão._ Eu nunca daria continuidade a uma coisa que matou alguém que eu amava. Mal consigo olhar para a cara do meu “pai”._ ela suspirou um redemoinho de lamento._ Minha pobre avó viu a filha definhar lentamente e perdeu o juízo.
Mais uma ligação se estendeu sobre os olhos avelã. Molly Morland. Sempre achou que o fato de Rachel ler indiscutivelmente bem fosse sua razão para tratá-la de maneira especial, mas ela estava enganada. Molly não tinha um filho e Rachel não tinha uma mãe. Uma coincidência dolorosa.
_ Nossa professora de literatura...
_ Ela sabe._ respondeu de prontidão._ Estava lecionando na época e viu a tragédia em todos os jornais, mas nunca tocou no assunto porque eu pedi._ Rachel jogou um mecha de cabelos molhados para trás da orelha._ Tem só mais uma coisa que você precisa saber. Lembra que me perguntou da minha ligação com Peter?
A loira assentiu. Rachel contou que Peter foi abandonado no hospital com apenas 2 anos de idade. Uma criança sem família. Pai. Mãe.
Por isso ela o compreendia.
Os olhos avelã arrebataram uma tonalidade piedosa indefinida. Estava de frente para uma menina que pensara ser ruim durante toda a sua vida e agora descobrira que ela sempre precisou de ajuda, mas nunca teve. Sempre sozinha.
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O silêncio que invadiu o mustang foi extremamente incomodo. Quinn estava dividindo sua atenção entre a estrada lamacenta a e menina sentada no banco do carona. Não conseguia parar de pensar na conversa recente.
_ Posso te perguntar uma coisa?
Rachel olhou-a pelo canto dos olhos e assentiu suavemente.
_ Como você sabe de toda essa história? Pelo que entendi você era apenas um bebê quando aconteceu.
_ Essa é a pior parte._ sua voz saiu num corte._ Adam me contou tudo com uma frieza inacreditável. Dizendo que eu deveria seguir a profecia para que a morte da minha mãe não fosse em vão._ ela respirou fundo e finalizou._ Eu só tinha oito anos.
Até mesmo elas tinham algo em comum. Quinn sabia muito bem o peso de perder a juventude carregando aquele fardo insensato. Começou a treinar e quebrar ossos desde os seis anos e não parou até então.
_ Eu compreendo você.
A noite já estava se estendendo no horizonte. Negra e cinza. Uma espécie de mistura gótica. Os raios e trovões cortavam o céu em intervalos cada vez menores. O mundo parecia triste. Rachel bufou olhando para aquele caos celeste.
_ Sinto falta das estrelas.
Quinn olhou-a de esguelha e sentiu seu coração arder. Estava triste por ela. Queria poder fazer alguma coisa para aliviar todo aquele pesar que Rachel fora obrigada a carregar sozinha. Pensou em sua última sentença e uma ideia lampejou em sua mente. Ela sorriu ao constatar que já sabia o que fazer para animá-la.
Uma resposta silenciosa:
“Você não irá precisar mais sentir falta delas.”
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No dia seguinte o céu continuava insistindo em cair. A chuva havia alagado boa parte da cidade porque não dera uma trégua nas últimas semanas. Quinn estava em seu quarto ajeitando uma quantidade incontável de papéis quilométricos.
Pronto. Agora é só ir lá e colocar sem que ela perceba.
Amarrou os papéis numa corda grossa e pendurou-os nos ombros. Levou-os até o carro e depositou no banco de trás. Voltou para pegar a jaqueta e rumou pelo corredor cantando uma música calma. Deteve-se a porta da biblioteca e fez o que não era de seu costume.
_ Mamãe?
_ Olá, querida._ a mulher fechou o livro e abriu um sorriso magnífico._ Entre.
Assim ela fez. Caminhou até a frente de sua poltrona e perdeu os olhos na figura de sua mãe, sentada confortavelmente, abraçando um livro com o rosto interrogativo.
_ Será que eu posso te dar um abraço?
Judy continuou sem entender, mas se levantou de prontidão e arrebatou os ombros da filha, puxando-a para perto. Quinn enrolou as mãos na cintura da mãe e sentiu seus ossos partindo ao meio. Ela entendia a dor de Rachel na teoria, mas agora passou a senti-la na pele.
_ Quinn, o que houve?
Elas continuaram assim. Quinn a apertou com mais força e sentiu as lágrimas começarem a escorrer pelo rosto. Aquele abraço que dissolve todos os seus demônios, esburga os pesadelos e abre um porto seguro no meio da tempestade. Esse momento único. Rachel jamais poderia ter. Não era justo.
_ Eu só queria dizer..._ sua voz começou a falhar._ Que te amo, muito.
_ Eu também, amor.
A mulher se afastou milimetricamente e usou os polegares para secar suas lágrimas. Sorriu para ela tentando lhe passar algum conforto. Judy podia passar a maior parte de seu tempo enfurnada nos livros, mas quando seus filhos precisavam sempre estava à disposição.
_ Tenho que sair agora._ sibilou passando a manga da camisa no rosto.
_ Tem certeza? Você não me parece bem.
Quinn lamentou por nunca terem passado muito tempo juntas. Ela não queria ser daquele tipo de pessoa que só dá valor ao que tem quando perde. Uma pena elas não terem nada em comum para partilhar.
Espera um pouco...
Uma alto-correção:
Agora, elas tinham algo em comum. Era só olhar ao redor.
Livros. Quinn precisava desenvolver a leitura e quem melhor que sua mãe, uma leitura fluente, para ajudá-la? Sorriu apagando as lágrimas do rosto.
_ Quando eu voltar, você me deixa ler um livro para a senhora?
_ Claro._ disse surpresa._ Eu vou adorar.
Quinn rumou sorridente para o carro. Girou a chave e correu pela estrada. No caminho pensou que estava muito contente de estabelecer uma união mais forte com sua mãe e mais ainda em constatar que isso só havia ocorrido porque uma certa pessoa havia lhe ensinado o valor da leitura.
Está na hora de retribuir, Rachel.
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Quinn subiu pelo telhado e agradeceu a sorte ao constatar que Rachel havia deixado o trinco da janela aberta. Empurrou para o lado e entrou, caindo com um baque surdo no chão de madeira. Caminhou sorrateira até a porta, no intuito de fechá-la, mas parou quando uma luz foi acesa revelando a presença de outra pessoa.
Essa não!
_ A porta é lá embaixo, senhorita Fabray._ falou vovó Abby.
E ela está armada.
_ Eu estava... só queria...
_ Não tem ninguém em casa._ cortou-a._ Dê quanto tempo precisa?
Quinn levantou as sombrancelhas. A velha senhora estava ajudando-a. Não esperava por isso, mas ficou extremamente satisfeita ao receber.
_ Duas horas.
_ Quer uma ajuda com essas coisas?_ perguntou apontando para os papéis.
_ Vai ser um trabalho muito cansativo..._ começou a falar e viu a expressão da senhora a sua frente ficar emburrada._ Não que a senhora não consiga fazê-lo, mas pode fazer mal a sua coluna.
_ Acha que porque sou uma velha de 80 anos não sou capaz de fazer isso?
Putz, oitenta? Sério? Eu responderia se não fosse pela bengala.
_ Mãos à obra, Fabray.
Vovó Abby jogou a bengala de lado( Quinn agradeceu mentalmente por aquele ato) e elas começaram a trabalhar. Utilizaram pinceis, cola e muitos outros utensílios para realizar sua façanha. Depois de concluído, limparam a bagunça.
_ Obrigada, Senhora Berry.
_ Não precisa agradecer._ limpou as mãos e lhe deu um sorriso._ Estou impressionada com o que você fez por ela.
Quinn corou. Arrumou suas coisas e abriu a janela, preparou-se para dar o pulo e olhou uma última vez para a senhora que a observava.
_ Isso nem se compara com o que ela já fez por mim.
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Rachel havia acabado de sair de sua última aula. Matemática fora o tédio de sempre, mas ela não precisava se preocupar, suas notas das primeiras provas foram tão boas que ano já estava garantido. Saiu para a chuva do fim de tarde e foi recebida por um carro conhecido.
_ Entra.
Ela correu para o mustang e fechou a porta.
_ Você perdeu o juízo? E se alguém nos vir?
_ Não tem ninguém aqui._ deu de ombros._ E não dá para ver nada com essa chuva.
Uma contrariedade necessária:
Havia alguém parado no estacionamento. Observando aquela cena com o queixo caído. Tentando entender o que acontecia.
O corpo moreno buscou uma posição melhor no banco e se acomodou. Quinn dirigia despreocupada, cantando uma canção calma. Rachel reparou em como a voz dela era sutil e doce. Daqueles tipos de sons que você gosta de ouvir antes de dormir.
_ Está um pouco cedo para irmos para o hospital.
_ É verdade._ Quinn constatou, consultando o relógio._ O que você quer fazer?
A pequena teve uma ideia e mudou o curso de seu destino. O carro correu por mais alguns quilômetros até chegar a uma construção familiar. O bar universitário.
_ Achei que você não gostasse de beber._ falou, enrugando a testa.
_ Existem outras coisas para se fazer num bar, Fabray.
Quinn deu de ombros e a seguiu. Adentraram um recinto lotado. O palco estava ocupado com um piano negro e dois violinos incitando a orquestra. Um agrupamento de mesinhas redondas estavam dispersas pelo lugar e um balcão em meia-lua suportava copinhos clássicos de tequila.
_ Rachel Berry._ o dono do bar as recebeu._ Como você está?
_ Muito bem, Gus.
_ E a sua amiga, quem é?
Rachel olhou para ela que sorriu em resposta.
_ Essa é a Quinn.
_ E ela já passou pelo teste dos novatos?
A morena negou veemente. Uma sombrancelha loira atingiu o alto de sua testa ao ouvir essa sentença. Teste? O homem saiu em direção ao palco.
_ Tem alguma coisa que eu deva saber?
_ Você já vai descobrir.
Um incomodo arrepiante passou pela garganta dela. Não tinha um pressentimento bom sobre os próximos acontecimentos.
_ Boa tarde._ O homem chamado Gus falou no microfone._ Fui informado de que temos nova clientela e todos sabem é uma tradição antiga os novos frequentadores cantarem no palco.
A multidão começou a gritar animada. Quinn deixou a mandíbula cair no chão, bagunçou os cabeços em desconforto e jogou a cabeça para os lados.
_ Eu não vou fazer isso.
_ Por quê?
_ Não conheço ninguém aqui._ sussurrou._ Vou morrer de vergonha.
_ Não seja boba.
Rachel puxou a mão tremula e levou-a até o palco. Quinn estava xingando mentalmente todos os palavrões que conhecia. Sentou num banquinho e sentiu seu coração parar ao encarar aquele amontoado de gente.
_ Conhece essa música?
A pequena apontou para uma pasta ao lado do microfone. Quinn assentiu insegura. Sentiu a sudorese lhe atingir o pescoço.
_ Espera._ ela puxou a mão morena que ameaçou a deixar o palco._ Eu não vou cantar sozinha.
Rachel pensou um pouco e deu de ombros. Voltou-se para Gus e gritou.
_ É permitido um dueto da primeira vez?
_ Não._ ditou ele._ Mas já que é para você, vou abrir uma exceção.
Quinn soltou um jato de ar que estava comprimido nos pulmões. A pequena a acompanhou no banco e começaram a dividir as estrofes. Rachel ia fazer as honras e no refrão a loira a acompanharia.
_ Não vou conseguir fazer isso.
_ Uma menina que consegue lutar com lobos, com certeza pode dar conta de uma multidão de bêbados. Não precisa ter medo. Você não está sozinha.
O piano gemeu uma batida. Começou a esmurrar suas cordas dando vida aos sons. O violino agitado, o acompanhou, lutando por espaço. Notas colidiram no ar, dançando no mesmo ritmo. Rachel fechou os olhos e concentrou todo seu íntimo para ditar a melodia.
“This is for those who wait…”
Com o passar dos agudos o piano se tornou mais exigente. Aumentando a velocidade de suas passadas. O violino parecia igualmente desesperado. Uma corrida de emoções em forma de música.
“When my heart find a home
I want to hope but sometimes I just don't know
I know I'm not the only one.”
Rachel deixou a última nota vagar solta para que Quinn a pegasse e prosseguisse no mesmo tom. As duas tomaram fôlego e simultaneamente fecharam os olhos.
“So you sing a lullaby
To the lonely hearts tonight
Let it set your heart on fire
Let it set you free
When you're fighting to believe in a love that you can't see”
A morena calou-se e fez com que a ela terminasse sozinha, aumentando o contraste, concretizando a beleza do som. Quinn prosseguiu, como uma criança que aprende a dar seus primeiros passos.
“Just know there is a purpose
For those who wait”
A canção foi finalizada sob os aplausos da platéia. Quinn abriu os olhos e sorriu fortemente por tudo ter dado certo. Olhou para o lado e viu que Rachel a observava e também batia palmas.
_ Você foi muito bem.
_ Eu nem acredito._ descansou a mão sobre o peito._ Meu coração parece que vai sair pela boca.
Rachel sorriu ao vê-la naquele estado de euforia. As duas ficaram se encarando numa proximidade perigosa. Quinn sentia-se tão bem que teve vontade de puxá-la e beijá-la ali mesmo, mas que era um ato inconcebível.
_ Viu? Não é um bicho de sete cabeças._ citou, simples._ Quando for declamar o seu poema lembre-se dessa sensação de conquista e esqueça todo o resto.
Então esse era o ponto de levá-la até o bar. Fazê-la confrontar seu medo e sair vitoriosa. Ajudá-la mais uma vez sem esperar nada em troca. Quinn olhou-a com um encanto exasperado, precisava agradecer por todos os seus atos. Agora.
_ Tenho uma coisa para você.
__________x___________
O carro adormeceu perto da residência dos Berry. Quinn olhou ao redor para se certificar de que não havia ninguém e pediu que Rachel a seguisse. Tinha um detalhe crucial para que a surpresa fosse completa. Ela precisava da ajuda do escuro. Por isso decidiu entregá-lo no início da noite.
_ Você escondeu o que vai me dar no meu quarto?
Elas subiram pelas telhas e rumaram para a janela.
_ Basicamente.
Empurrou o vidro e estendeu a mão para que a morena tivesse apoio e pulasse para o outro lado. A seguiu e caminhou até a porta, fechando-a.
_ Porque a luz está acesa?
Quinn sorriu abertamente. Voltou a janela e observou o dia fúnebre que persistia em tomar conta do céu, ocupando o lugar daqueles pontinhos brilhantes que sempre traziam felicidade a pessoa a sua frente.
_ Eu quero me desculpar._ sussurrou._ Por todas as coisas ruins que eu já lhe fiz.
_ Não precisa pedir desculpas.
_ Você é uma boa pessoa._ Quinn prosseguiu, aproximando-se dela._ Passa o dia cuidando de crianças com câncer e ainda arruma tempo para ajudar a suposta pessoa que iria te destruir.
Rachel permaneceu no lugar. Engoliu em seco quando sentiu ar quente próximo ao seu rosto.
_ Consigo ver quem você é de verdade agora._ afagou sua bochecha com a superfície da mão macia._ Eu mudei a minha maneira de pensar e vou te provar.
_ Porque você está fazendo isso?
_ Eu já respondi essa pergunta quando sua avó me fez.
A loira parou perto do interruptor e girou nos calcanhares para ficar de frente para ela. Olhou-a com admiração e ternura. Aquela menina de vermelho tinha um coração do tamanho do mundo. Ela não merecia passar por todos os horrores que tinha passado.
_ Você me disse que sente falta do céu estrelado._ colou as costas na parede e abriu um sorriso quilométrico._ Então, cheguei à conclusão de que seria melhor você ter o seu próprio.
As luzes foram apagadas. Alguns pontinhos de luz verde fluorescente apareceram no escuro. Estavam dispersos no teto e paredes e pareciam ficar cada vez mais reluzentes à medida que a penumbra se instalava. Um amontoado de estrelas. Mesmo no breu, Quinn pode ver o sorriso surpreso que invadiu os lábios morenos ao ver o seu presente.
O presente secreto:
Um céu cheio de estrelas que ela poderia apreciar todas as noites.
_ Eu passei por uma loja onde vendiam papeis de parede semana passada e vi esse. Estrelas. Automaticamente, lembrei de você._ corou no escuro._ Agora você não vai mais precisar se sentir sozinha.
_ Isso é..._ Rachel perdeu as palavras em algum lugar enquanto rodeava o cômodo apreciando a nova decoração._ Maravilhoso. Não sei como agradecer.
_ E nem precisa.
Quinn caminhou até o seu encontro. Parou a sua frente e fitou os olhos chocolate.
_ Eu sei que existe um arsenal de barreiras e nenhuma razão coerente para que “isso”..._ apontou de uma para a outra._ aconteça, mas eu quero. Preciso saber se você também sente o mesmo.
_ Eu..._ ela pensou em tudo que a levara ate aquele momento. Em todo o trabalho que a menina a sua frente tivera para fazê-la sorrir. Os conselhos sábios de sua avó e as palavras delicadas de Peter e tomou sua decisão._ Sim.
Era só dessa afirmação que ela precisava. Quinn fechou a proximidade. Levou uma mão até o rosto moreno e juntou seus lábios em sofreguidão. Puxou-a pelos braços e empurrou-a até que elas encontrassem a parede, ganhando nova estabilidade. Não havia calmaria naquele beijo, foi pura intensidade e desejo emanando de ambos os lados. As estrelas protagonizaram a cena, sorrindo para elas.
O mundo parecia mais bonito.
Os corpos enterraram-se um no outro. Quinn suspirou o perfume do hálito de menta e acariciou a língua oposta com a sua. Levou as mãos à cintura pequena e apertou com força sentindo seu ato resultar num afago.
_ Vamos com calma._ Rachel sibilou quando elas se uniram pela testa._ Preciso me acostumar com essa ideia.
_ Eu sei._ sorriu, dando-lhe um selinho._ Nós duas precisamos.
Quinn passou o polegar pelo rosto juvenil e beijou com delicadeza as costas da mão pequena. Elas sentaram na cama e conversaram sobre seus próximos passos. Combinaram de deixar a profecia em segundo plano por enquanto, pois precisavam encontrar uma maneira de resolver um problema mais urgente.
O problema primordial:
Desvendar a identidade do lobo negro.
_ Está tarde, melhor irmos para o hospital.
Rachel assentiu. Juntas, saíram para a noite molhada. A pequena deu uma última olhada pra sua janela e observou a fraca luz de sua nova decoração. Sorriu o mundo quando constatou que não importava que horas voltasse nunca mais ficaria sozinha, pois suas estrelas a estariam esperando.
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