Glee-21-Faberry
9 Set fire to the rain. Part 2
Notas iniciais
“Even now when we're already over, I can't help myself from looking for you…”
Uma junção disforme de cores preencheu o céu infinito que anunciava o início de um novo dia. Uma aquarela animalesca rodopiou por entre o branco das nuvens tingindo o mundo de luz.
Como isso é possível?
O reflexo pálido do espelho tateou a testa enrugada e notou a ausência de uma indevida pontada de dor que sempre a acompanhava. Quinn deixou um suspiro cair de encontro ao chão e apoiou os dois braços nas extremidades da pia, descansando a cabeça e apertando os olhos.
Foi ela.
Uma semana passou desde o incidente irracional que aconteceu entre ela e sua rival. Sete dias de intermináveis perguntas, porquês sem resposta e a ausência de seus habituais fardos.
Uma curiosidade irônica:
O ato de sua inimiga esburgou suas dores.
Elas quebraram qualquer tipo de contato depois do beijo. Evitavam cruzar os mesmos corredores e quando o faziam encaravam o chão para fugir da intensidade intimidadora dos olhares.
_ Divagando outra vez, irmãzinha?
Senhor, dai-me forças para não decapitá-lo!
_ O que você quer, Sam?
O garoto alargou o sorriso e bagunçou os cabelos ao se espalhar na cama macia, sem permissão.
_ Você não tem saído mais à noite.
_ E daí?
_ Sinal de que você e a sua musa devem ter brigado._ deu um sorriso triste._ O que houve?
Um jato de ar saiu dos pulmões dela. Rolou os olhos e encarou-o novamente.
_ Você continua com essa história?
_ Na mesma medida em que você continua negando._ deu de ombros._ O que ela fez?
Um bloco sólido de saliva colidiu de encontro ao estômago dela. Mexeu nos cabelos em visível desconforto e respirou fundo antes de perguntar.
_ Lembra da Melody?
O sorriso sempre cativante que ele carregava sumiu num sopro. Seu rosto galante e juvenil se borrou em uma pintura distorcida pela amargura da lembrança.
_ Não quero falar sobre isso..._ despejou áspero, levantando e indo em direção a porta.
Uma observação sobre Sam Fabray:
Ele já foi perdidamente louco por uma pessoa, que traíra o seu amor, fazendo-o desacreditar em tudo que diz respeito a esse sentimento.
_ Como era?_ fez uma barreira na saída._ Digo, estar apaixonado?
Quinn já tivera muitos relacionamentos, mas todos foram considerados carnais. Eram pessoas que lhe supriam a necessidade e depois de um tempo sumiam de sua vida, sem deixar um mínimo vestígio de saudade.
_ A pior coisa do mundo!_ ditou.
_ E como você sabe que está apaixonado por uma pessoa?
Ele rumou para fora do recinto detendo-se por um instante na soleira da porta para respondê-la.
_ Quando você não consegue parar de pensar nela!
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Uma torre de livros estava sendo devidamente empilhada no armário do colégio. As pequenas mãos morenas descartavam alguns e preenchiam o espaço vazio em sua mochila com outros.
O Peter vai adorar esse!
Guardou o último na bolsa quando uma mão pálida surgiu do nada e socou a porta de metal, fechando-a num solavanco.
_ Curioso que uma pessoa marcada para morrer estude tanto!_ a malícia escorreu por suas covinhas fundas.
_ Engraçado, eu penso o mesmo de pessoas que não tem nada para fazer e continuam se esforçando para não ser ninguém._ devolveu na mesma moeda.
Braços músculos empurraram a pequena de encontro à parede oposta de armários e serraram os punhos para iniciar a rixa física.
A identidade da personagem intrometida:
Kitty Fabray, 15 anos, prima de Quinn.
_ Vou fazer com que engula a sua insolência!_ rosnou.
_ Estou tremendo de medo._ debochou um ar tedioso.
_ O que está acontecendo aqui?
Noah Berry entrou em cena bem na hora em que os raios iam colidir, evitando uma catástrofe desnecessária. Encarou a garota pálida de expressão vazia e superior, viu-a dar as costas e sumir pelo corredor.
_ Tudo bem, Rachel?
_ Sim._ deu de ombros._ Já estou acostumada com as intimidações.
_ Isso não vai ficar assim._ arrumou a mochila nos ombros e rumou atrás da menina que atacara sua irmã.
Rachel rolou os olhos. Caminhou a passos lentos para a próxima aula e agradeceu aos céus por ter algo útil com que se ocupar.
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Concentrar-se no “agora” é um ato extremamente complicado de praticar. Na maioria das vezes as pessoas vagam perdidas no passado ou esperançosas no futuro, mas o presente é muitas vezes ignorado.
_ Senhorita Fabray?
Olhos verdes piscaram um par de vezes até voltarem à realidade da situação. Estava absorta em pensamentos inoportunos que eclipsaram a aula de literatura.
_ Desculpe, o que a senhora disse?
_ Gostaria que praticasse sua leitura como todos os alunos._ apontou o palco principal._ Aqui na frente, por favor!
Quinn engoliu um deserto de pavor e caminhou desanimada até o centro do espetáculo. Todos a encaravam enquanto tentava se manter lúcida e estável para recitar as páginas de “ Sonhos de uma noite de verão.”
_ Pode começar.
“'O Amor não enxerga com os olhos, e sim com a mente, e por isso pinta-se cego o cupido alado. Tampouco a mente do Amor tem faro para qualquer discernimento. Com asinhas e sem olhos, representa a pressa da imprudência.”
Alguns abalos entre sílabas e pausas amedrontadas foram notáveis durante a performance, mas ela parecia ler com um nível indiscutivelmente maior de entusiasmo.
_ Bem..._ a professora começou sua análise._ Precisa trabalhar um pouco mais em sua segurança._ olhou-a no fundo dos olhos, retirando os óculos e endireitando-se na cadeira._ Pode se sentar.
Ela não esperava por um elogio vindo da senhora Morland, mas o fato de não tê-la humilhado em público já serviu como certeza de que ocorrera um grande avanço na relação delas.
_ Senhorita Berry, sua vez!
As suaves palavras caíram dos lábios morenos fazendo com que todos se perdessem nelas. Tão verdadeiras e carregadas de sentimento que não era possível alguém ignorar. Quinn sentiu o coração acelerar e a pulsação aumentar em descompasso enquanto a observava soletrando os enigmas do livro.
_ Muito bom, Rachel!_ as rugas ficaram largas devido ao sorriso pulsante.
Eu preciso falar com ela!
Era inútil continuar negando que algo dentro dela havia mudado com relação à única pessoa no mundo que deveria odiar. Sentia que traçava um caminho negligente e perigoso, mas ao mesmo tempo precisava livrar-se dessa angustia incoerente.
Uma verdade irrevogável:
Algumas coisas são fortes demais para serem confinadas no silêncio.
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Ela sentia o corpo andar sem o mínimo de esforço, mas não podia controlá-lo. Não tinha um rumo certo, mas conhecia o fim da linha. Sentimentos antagônicos que fariam todo sentido no final.
Ótimo!
Teve que inalar uma quantidade absurda de ar quando virou um corredor e reconheceu sua única ocupante, arrumando suas torres de livros no armário e deixando alguns escaparem de encontro ao chão. Andou com rapidez até ela e abaixou capturando um e erguendo-o em sua direção. Os olhos de ambas finalmente se encontraram. Quinn deu um meio sorriso quando a mão delicada arrebatou cuidadosamente o objeto em suas mãos.
_ Berry...
_ Já disse para não falar mais comigo!_ ditou escondendo a face atrás do armário. Tentando ignorá-la.
_ Eu sei._ bufou, passando a mão pela porta metálica e fechando-a lentamente para descobrir o rosto que lhe fugia._ Mas nós precisamos conversar.
Quinn deu um passo em sua direção, alargando a proximidade, Rachel cruzou os braços e passou a encarar os pés.
_ O que você quer?_ perguntou seca._ Que eu esqueça tudo o que aconteceu de novo?
_ Não._ balançou a cabeça para os lados._ Quero entender o que houve._ Os olhares voltaram a fazer contato._ Eu...
Mas não houve possibilidade de uma explicação coerente, porque mais uma vez alguém a interrompera e a jogara com uma força brutal contra o emaranhado de armários da parede oposta. Dessa vez o intrometido era homem e tinha um odor fétido de cigarro.
Me jogar contra os armários virou moda agora?
_ O que pensa que está fazendo perto da Rachel?
Jesse segurou Quinn pela borda da camisa. Impedindo-a de se deslocar.
_ Nada que seja da sua conta, imbecil!_ cravou as unhas nas mãos dele e as afastou.
_ Você é tão insolente e ridícula quanto o seu pai!_ cerrou as mãos, pronto para descarregar o arsenal._ Como vai aquele velho sujo?
O garoto deu um sorriso malicioso. Quinn levantou uma sombrancelha e travou os punhos. Estavam prontos para começar uma guerra irrefreável, até que um corpo pequeno montou uma barreira entre os dois. Jesse hesitou, enrugando a testa em frustração.
_ Algum problema aqui?_ entoou a treinadora Sylvester que chegou ao corredor com a face torcida em tédio e as mãos descansando nas costas._ Estava persuadindo um aluno à por fogo na sala do gay clube quando ouvi uma barulhada aqui fora.
_ Nenhum._ o garoto pontuou e sumiu no corredor.
_ Vocês duas de novo!_ observou a ditadora._ Todas as vezes que nos encontramos vocês estão juntas, viraram amigas agora?
Quinn abaixou os olhos. A morena deu de ombros e ajeitou a mochila antes de seguir seu caminho para a próxima aula.
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Rachel jogou seus pertences sobre a cadeira da sala e rumou para o quarto mais alto da residência. O dia suspirava os últimos pontos de luz em seu caminhou quando girou a maçaneta e deparou-se com sua avó enrugando a testa de concentração, apertando o espelho com o dedo indicador inúmeras vezes.
_ Vovó!_ fechou a porta e entrou no quarto._ O que a senhora está fazendo?
_ Tentando ascender essa luz!_ coçou os ralos cabelos, impaciente._ Parece que a fiação está com defeito.
Visualizou a imagem que sua avó estava “pressionando” no espelho. O reflexo do interruptor. Finalmente entendeu suas intenções e alcançou o verdadeiro que descansava na parede, iluminando o recinto.
_ Melhor?
_ Muito._ sorriu com simpatia._ Obrigada querida, você é muito esperta!
Rachel corou delicadamente e rumou para a cama, sentando em frente à cadeira de balanço.
_ O que houve, minha neta?_ acompanhou-a no assento de madeira._ Você não está bem!
Parece que não sou a única esperta aqui!
Ela estava acostumada a carregar o peso do mundo nos ombros. Guardou muitos anos de sentimentos difíceis e amarguras dentro de si, mas agora estava achando quase impossível segurar as emoções que transbordavam em seu íntimo.
_ Minha cabeça está uma bagunça!
_ Hum..._ analisou-a._ Os seus problemas estão relacionados a alguém?
_ Sim.
_ Só existe uma maneira de resolver assuntos inacabados, minha querida._ pegou as mãos pequenas e afagou nas suas, dando-lhe um sorriso gentil.
_ E qual é?
A última sentença de vovó Abby:
“Dando continuidade a eles!”
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Quinn soltou o livro pesado sobre a cama. Tinha um sorriso saboroso nos lábios. Foram horas extremamente confortáveis por trás de uma história encantadora. Uma válvula de escape muito eficaz para os seus problemas.
Agora entendo porque a Berry lê tanto!
Coçou os olhos e espreguiçou-se. Foi até o banheiro e encarou o rosto cansado que lhe retribuiu um sorriso fraco. Lembrou inconscientemente dos dias que passara no hospital e de como eles foram os mais tranquilos e felizes que se lembrava de ter tido em anos, porque nunca teve tempo para diversão ou qualquer outra coisa que não fosse com relação ao extermínio de sua inimiga.
De uma maneira boa ou ruim, ela passou a vida inteira pensando nela.
Uma recordação oportuna:
O que Sam havia tido sobre estar apaixonado? Pois bem.
Sabia que não conseguiria estabelecer contato com ela, mas precisava ir até lá, ter certeza de que tudo estava bem. Mesmo ciente de que era o alvo principal do lobo negro não pode evitar sentir medo pelas crianças e porela.
Você não precisa saber que estou por perto, mas isso não quer dizer que não estarei.
Com esse pensamento em mente, o corpo pálido deu lugar a um conjunto de pêlos extremamente brancos, seus dentes distorceram-se em navalhas e suas mãos encontraram o chão em forma de garras.
O lobo branco correu noite à dentro.
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O céu estava prateado pelo sorriso da lua e o piscar das estrelas. As árvores balançavam preguiçosas em seus caules e o rio corria tranquilo, seguindo o curso da terra fértil.
_ Acho que está na hora de alguém dormir!_ sibilou Rachel, afagando a cabeça de Peter.
_ Não estou com sono._ falou no meio de um bocejo.
Ela riu. Arrumou os lençóis em seu corpinho frágil e apagou a luz do abajur ao lado.
_ Porque a tia Quinn não veio mais?
_ Acho que ela..._ escolheu as palavras com cuidado._ Está ocupada, cuidando de algum problema.
_ Problema?_ piscou algumas vezes, observando o teto._ Talvez você possa ajudá-la a resolvê-lo.
Ela teve que dar um sorriso para a simplicidade do pensamento. Ele era uma criança encantadora. Livre de qualquer maldade.
_ Eu não posso ajudá-la.
_ Poxa!_ puxou o lençol para acalentar o frio._ Ela gosta de você.
Rachel enrugou as sombrancelhas. Ouviu o absurdo proferido, mas preferiu levar na brincadeira.
_ Você acha isso?
_ Eu tenho certeza._ fechou os olhos e deitou de lado._ É que você estava muito ocupada lendo, não dava para reparar em como ela te olhava.
Algo ruiu dentro dela. Sentiu um frio incomum lhe subir o estômago e travar na garganta. Ia falar alguma coisa quando Donna chegou e pediu que ela se retirasse. Rumou para a saída do hospital, sentou na escadaria de madeira que dava acesso a entrada e descansou a cabeça nas mãos.
Isso não é possível!
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Não era de seu conhecimento, mas enquanto descansava na escada era vigiada por olhos avelã. Um lobo pálido estava escondido entre os arbustos, observando-a de longe. Garantindo sua segurança na escuridão da floresta.
Ela não está bem!
Tinham passado tanto tempo juntas que mesmo com as leves mudanças de humor e expressão da morena, Quinn já conseguia diferenciá-las. Dizer quando algo a incomodava e quando o dia parecia ter sido perfeito.
Eu estraguei tudo, Berry!
Abaixou a cabeça e choramingou baixinho. Por mais que insistisse em negar para o reflexo no espelho, sabia que no fundo a verdade sempre viria importuná-la.
Sua nova verdade:
Sentia falta da companhia dela.
O que você faz quando descobre que o ódio que retinha por uma pessoa já não é mais ódio? A moeda rodopiou e virou sua face. Aquelas duas pessoas marcadas para se destruírem já não tinham pretensões de realizar tal ato. As coisas viraram do avesso.
O que eu faço para mudar isso?
Ela não teve tempo para encontrar a resposta. Uma dor excruciante desceu ardendo seu braço, sentiu as patas abandonarem o chão quando foi arremessada sem pudor contra uma rocha. Trincou as costelas e olhou exasperada para a figura do lobo negro em seus calcanhares.
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Foi um esforço tortuoso ficar de pé. O lobo branco apoiou todo o corpo em cima da pata boa e virou-se para o covarde que a atacara pelas costas. Rosnou sua raiva e preparou-se para enfrentá-lo.
“O que está fazendo aqui tão sozinha, Fabray?”
“Você me conhece?”
Começou a andar em torno dela, a malícia escorria num sorriso macabro por sua boca ensanguentada. Olhava-a com uma área tão suja quanto seu coração.
“Claro que sim.”_ parou na sua frente.
“E o que você quer comigo?”
“Justiça!”
O lobo negro deu um impulso com as patas de trás e voou em cima dela.
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Um uivo agoniado foi trazido pelo vento e silenciado nos ouvidos de Rachel. Ela levantou num pulo e exalou uma corrente de puro pânico. Conhecia muito bem aquele som.
Fabray?
Correu para dentro e chegou depressa à ala oncológica. Chamou disfarçadamente a atenção da enfermeira para que ela fosse ao seu encontro.
_ O que houve, Rachel?
_ Acho que o lobo negro está por perto..._ despejou tudo de uma só vez._ Se você vir alguma coisa fora do normal, chame a polícia! Entendido?
A mulher assentiu transparecendo pavor no fundo dos olhos. Com uma rapidez absurda a pequena arrebatou duas roupas próprias dos pacientes e jogou-as dentro da mochila virando-se e correndo até a porta principal.
_ Aonde você vai?_ gritou Donna.
Ela não respondeu. Saiu para a noite densa e rezou para que chegasse a tempo.
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Uma pata arrebatou o ombro esquerdo do lobo branco que perdeu o equilíbrio e colidiu de encontro ao chão. Uma seleção de incontáveis navalhas lhe rasgaram a pele, fazendo seu íntimo gritar.
“Não imaginava que seria tão fácil te matar!”
Ele deu um sorriso torto. Esperou-a se por de pé para novamente arremessá-la, dessa vez contra um galho quebrado de uma árvore. O corpo debilitado do lobo branco fincou na madeira, fazendo com que o pedaço se soltasse e pendesse cravado em sua cintura.
“Droga!”_ choramingou, uma dor lancinante lhe transpassou a espinha.
“Pensei que fosse ser mais divertido lutar com você!”
Brigando para manter o orgulho intacto, as patas brancas fizeram um último esforço para tentar levantar o corpo cansado. Em vão. Ela caiu novamente, sem forças para reagir.
“Como esperei por esse momento!”_ aproximou-se, saboreando os últimos sopros de vida de sua vítima.
“Então o faça, seu cretino!”
Levantou a pata negra no ar e preparou o golpe final. Desceu rasgando os céus de encontro à cabeça aos seus pés, mas ao invés de acertá-la, sentiu algo lhe afligir as costelas e caiu de lado. Pôs-se de pé enraivecido e encarou seu novo oponente.
O lobo vermelho.
“Berry!”_ Quinn era uma mistura de alívio e temor.
“Não se meta!”_ ele bateu a pata escura no chão, encarando os olhos chocolate a frente._ “Não é você que eu quero destruir”
“Não me interessa!”_ estufou o peito, ficando as garras na terra._ “Se quiser ela, terá que me matar primeiro!”
O lobo negro bufou contrariado e por um segundo pensou em terminar o serviço, mas não estava nos seus planos machucá-la. Foi com muito desagrado que virou e correu mata adentro. Sumindo de vista.
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Depois de suspirar todo o ar preso em seus pulmões e ter certeza de que estavam seguras, Rachel cessou a transformação e vestiu uma roupa branca. Aproximou-se do lobo branco manchado de vermelho, analisou a madeira em seu interior e arrancou-a com um solavanco sob os murmúrios do mesmo. Arrebatou um lençol de dentro da bolsa e cobriu-a.
_ Volte ao normal!_ pediu._ Tenho que levá-la para o hospital agora.
Um minuto depois o lobo sumiu dando lugar a um corpo prejudicado de mulher. Rachel postou-se ao seu lado e ajudou-a a se vestir com uma blusa branca que lhe cobria um pouco mais acima das cochas.
_ Consegue por o braço em volta do meu pescoço?
Ela assentiu fraca e algemou o pescoço moreno. Rachel ergueu-a do chão e começou a caminhada de volta para seu refúgio.
_ Porque você veio?_ os lábios rosados murmuraram.
_ Eu ouvi o seu uivo.
_ Isso não responde a minha pergunta, Berry._ tossiu um pouco de sangue no chão._ Eu achei que nunca mais iria querer falar comigo depois do que aconteceu...
_ Você não está em condições de termos essa conversa!_ ditou, cravando um ponto final no assunto.
Quinn descansou a cabeça no vão do pescoço dela e acalentou os olhos.
_ De qualquer maneira, obrigada!_ sussurrou exausta._ Por ter vindo me buscar.
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Rachel chegou ao hospital e gritou por socorro. Donna trouxe uma maca de prontidão. Olhou exasperada para o corpo destroçado a sua frente e interrogou a pequena.
_ O que aconteceu com ela?
_ Foi atacada._ Falou empurrando a cama para um dos quartos._ Onde estão os médicos?
_ Os poucos que restaram já foram para casa!_ falou às pressas._ Ela está sangrando muito.
_ Eu sei.
A morena bufou. Ia ter que se virar com o que tinha. Deslizou até o quarto e começou a vasculhar os armários a procura de remédio e fios de sutura.
_ Berry..._ Quinn falou com a ínfima consciência que ainda lhe restava._ Isso é inútil, eu já perdi sangue demais._ apontou para um jogo de seringas em cima mesa de cabeceira ao lado._ Pegue uma.
As mãos pequenas arrebataram uma e seguiram as coordenadas de Quinn com extrema atenção. Encheu a ampola com seu próprio sangue e respirou antes de direcioná-lo ao lugar certo.
_ Tem certeza que isso vai funcionar?_ perguntou com receio.
_ Confie em mim, Berry.
Com uma leve pressão, a agulha parou dentro da veia que levava sangue ao coração de Quinn, enchendo-o de vida nova.
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As primeiras horas da noite foram preenchidas por calafrios e gritos de agonia. A recuperação estava sendo deveras dolorosa. Donna engessou seu braço direito e suturou devidamente todos os ferimentos.
_ Você a trouxe na hora certa, Rachel!_ falou a enfermeira, sentada ao seu lado._ Um minuto a mais e ela estaria perdida.
A morena engoliu em seco enquanto observava sua “inimiga” se contorcer de dor na cama.
_ Acha que ela vai ficar bem?
_ Vai._ sorriu confiante._ Graças a você!
Apertou de leve seu ombro antes de abandonar o quarto. Rachel sentou na cadeira ao lado da maca. Sentiu-se incomodada com o sofrimento da menina que salvara. Levou inconscientemente a mão até a dela e acariciou as costas pálidas com a extremidade do polegar.
_ Calma!_ sibilou._ Está tudo bem agora.
Ela sentiu o corpo a sua frente relaxar instantaneamente. Ainda estava febril, mas não tão agoniado quanto antes. Um bom sinal. Deitou a cabeça ao lado da cama e fechou os olhos, deixando-se ser levada pelos sonhos.
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Uma luz fraca acordou aos olhos verdes. Ela piscou incessantemente até focalizar o ambiente ao redor. Estava largada numa maca branca, com suturas espalhadas pelo corpo, um braço engessado e sua habitual companhia.
Berry?
Ela olhou para a morena descansando suavemente ao seu lado. Sentiu um calor bom acariciar sua mão esquerda e reparou que estava levemente afagada por outra. Ficou olhando o membro pequeno pousado sobre o seu por tempo indeterminado, até que seus pensamentos foram cortados por uma voz recém-chegada.
_ Bom te ver acordada, Quinn._ falou baixinho._ Como se sente?
_ Oi, Donna._ sorriu simpática._ Estou bem melhor!
A mulher passou os olhos nas mãos unidas, mas preferiu ignorar, o que estava acontecendo ali não lhe dizia respeito.
_ O sol já está quase nascendo!_ checou a temperatura dela e sorriu ao confirmar a extinção da febre._ Quer que eu acorde a Rachel ou você mesma faz isso?
Ela olhou para a pequena ao lado. Sorriu ao ver o quão cansada e tranquila ela parecia. Sentiu que seria um pecado perturbá-la.
_ Acho melhor deixá-la dormir mais um pouco.
_ Tudo bem.
Donna se retirou e deixou as duas sozinhas novamente. Quinn apertou de leve a mão que ainda lhe confortava e fechou os olhos, caindo em sono profundo.
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O sol brilhou por trás das cortinas brancas. Iluminou o recinto onde repousava a vítima do ataque da noite passada. Contornou seu belo rosto lhe dando um beijo de bom dia. Quinn acordou e notou que sua única companhia era a claridade. Espreguiçou-se como pôde e tentou ficar sentada.
_ Oi._ Rachel surgiu na entrada do quarto com um copo de café fumegante nas mãos._ Como você se sente?
_ Melhor._ abaixou os olhos evitando cruzá-los com os dela.
_ Donna virá trocar os seus curativos.
A enfermeira entrou nesse exato momento. Fez um checape completo da paciente e constatou a melhora absurdamente rápida que teve.
_ Que saúde invejável, Quinn!
Você nem pode imaginar!
_ Obrigada._ sorriu de lado._ As crianças estão bem?
_ Sim._ Donna respondeu._ Está na hora do café da manhã delas.
Rachel fez menção de sair para fazer uma visita à ala oncologica, mas sua mão foi puxada, freando seus pés. Voltou-se para a menina debilitada e olhou para o nó a sua frente.
_ Fica._ Quinn fez o pedido. Elas entreolharam-se novamente, exalando uma intensidade sem explicação. A enfermeira as observou com o canto dos olhos e sentiu que era hora de abandonar o cômodo.
_ Eu vou visitar as crianças.
A morena sentou ao lado da cama e abaixou os olhos. Sentiu um leve incomodo ao constatar que já sabia que teriam que trazer um assunto delicado à tona. Sem mais delongas.
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A cozinha da casa do clã Fabray estava empesteada de pessoas exasperadas. Sam e Santana encontravam-se com os braços cruzados num canto, confinados na segurança do silêncio. Judy permanecia sentada a mesa, com as mãos suportando a testa. Russel berrava seu desagrado.
_ Onde ela está?
A pergunta foi direcionada a todos, mas nenhuma resposta foi proferida. O telefone anunciou uma chamada e Judy saiu correndo ao seu encontro. Seus olhos cresceram de tamanho à medida na qual ouvia as palavras do outro lado.
_ Estamos indo!
Desligou e fisgou o casaco caminhando até o marido.
_ Era do hospital.
Depois de quinze minutos todos os presentes correram para seus carros e aceleraram em direção ao seu mais novo destino matinal.
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Quando um assunto incomodo é reavivado depois de um longo período de tempo é realmente complicado ir direto ao ponto. A melhor abordagem é sempre começar por outro caminho até chegar ao fim da linha.
_ O que foi aquilo que você me pediu para fazer?
Rachel se referia ao procedimento de retirar o próprio sangue e injetá-lo em Quinn. A explicação foi detalhadamente apresentada e a confiança parecia aumentar a cada palavra formada na conversa.
_ Quer dizer que esse “Choque de adrenalina” foi o que ti salvou?
_ Foi._ deu de ombros._ Você não conhece porque nunca treinou.
_ Hum..._ ajustou o corpo na cadeira._ Acha que isso poderia funcionar como um desfibrilador? Digo, se uma pessoa for dada como morta à pouco tempo e o realizarmos. Teria como salvar sua vida?
_ Bom, isso só funciona com gente da nossa raça._ enrugou a testa tentando se lembrar de algum conselho que respondesse aquela simples pergunta._ Talvez, eu nunca ouvi falar de alguém que tenha feito isso, mas... pode dar certo.
O silêncio inoportuno recaiu sobre elas. A morena começou a dedilhar suas cochas em puro sinal de desconforto, foi a vez de Quinn puxar conversa.
_ Sobre aquele dia no bar..._ sussurrou, encarando o lado oposto do quarto._ Eu não tinha o direito de forçar você a falar sobre a sua mãe. Desculpe por isso.
Rachel assentiu suavemente.
_ Você não estava completamente errada._ a pequena pontuou._ Eu abandonei minhas responsabilidades. Nem sequer gosto de bebida alcoólica, queima minha garganta e me deixa com muita sede, mas eu não estava raciocinando direito.
_ Todo mundo perde a linha alguma hora._ lhe abriu um sorriso compreensivo._ Você teve seus motivos para isso.
_ Eu sei, mas isso não minimiza o meu erro._ lembrou-se de mais um pequeno detalhe._ Eu também não deveria ter lhe batido ou tacado pedras e galhos. Acho que perco a cabeça quando fico com raiva.
_ Eu que o diga, Berry._ fez uma careta._ Até hoje encontro algumas pedrinhas enterradas no meu cabelo.
Elas permitiram-se dar um meio sorriso recíproco. Tinham colocado quase todas as cartas na mesa, mas faltava uma: O “as” da questão. Era hora de descartá-la. Rachel abriu a boca para finalmente apaziguar suas dúvidas, mas infelizmente foram interrompidas por Donna.
_ Com licença._ a enfermeira deu batidinhas na porta._ Seus pais estão aqui, Quinn.
As pupilas verdes cresceram de tamanho numa proporção assustadora. As meninas se entreolharam e perguntaram mentalmente a mesma coisa: E agora? Uma catástrofe demoliria o hospital caso a família Fabray as visse juntas.
_ Se esconda debaixo da cama, Berry.
_ Eu não tenho medo deles._ bufou um sopro de tédio.
_ Por favor._ Quinn puxou-a pela mão novamente e forçou a conexão de olhares.
Há muito contragosto a baixinha agachou e sumiu por debaixo da barra metálica de lençóis que compunham a maca, simultaneamente uma latina irada adentrou o quarto jogando seu descontentamento para todo o lado.
Foi por muito pouco.
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Uma nova cena foi composta no hospital da cidade de Lima. Além de uma enferma e uma enfermeira alienada o quarto fora ocupado por novos integrantes. Amigos e parentes. Todos exigindo uma explicação.
_ O que aconteceu com você?_ Russel tinha uma carranca disforme na frente da filha. Inabalável.
Pensa rápido cérebro ou estamos perdidos!
_ Eu estava no terceiro pico ontem à noite..._ começou a elaborar a mentira._O senhor sabe que as beiradas são extremamente frágeis por causa da erosão e das chuvas fortes que açoitam a região, acabei chegando perto demais da borda e a terra ruiu sob os meus pés. Cai e fui levada pela correnteza até a praia. Donna estava passando por lá na hora..._ apontou a enfermeira que permanecia sem entender nada._ E me trouxe para cá.
O homem cruzou os braços na frente do corpo. Permanecia cético porque um detalhe não fora explicado.
_ E o que você estava fazendo lá?
Ela o conhecia bem o suficiente para saber que só ficaria satisfeito com uma resposta.
_ Um treinamento extra por minha conta._ despiu a trama.
A expressão de desconfiança e ira dissolveu-se num piscar de olhos, dando lugar a um sorriso mortalmente satisfeito.
_ Estou orgulhoso de você._ afagou os cabelos da filha._ Está levando isso à sério, como eu queria. Não se preocupe, está perto de acabar. E nós vamos vencer.
Um abraço a encontrou desprevenida, sabia o quão feliz ele ficava quando ela desempenhava um bom treinamento. Doeu ouvi-lo dizer que estava orgulho por algo que ela na verdade não tinha feito. Muito pelo contrário. Mas o pior não foi a mentira.
A parte mais terrível:
Ela podia jurar que ouviu um lamento ínfimo vindo do chão.
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Quinn teve alta naquele mesmo dia. Caminhou para a saída da sala e agradeceu o silencio e colaboração de Donna. Deu uma última olhada para a parte inferior da maca antes de sair. Santana a acompanhou, passaram pela ala de oncologia e esbarraram num menininho de olhos mel.
_ Tia Quinn!_ abraçou suas pernas._ Como você está?
_ Quem é esse?_ interrogou a latina.
_ Um garotinho muito simpático aqui do hospital._ puxou-o pela mãozinha e fez as apresentações._ Santana esse é o Peter!
O garoto corou e se escondeu atrás dela.
_ Ela me dá medo._ sussurrou ele.
Temos isso em comum!
_ Criança esperta._ Santana falou, soltando uma risada teatralmente maléfica e bufando em seguida._ Vamos?
Saiu caminhando devagar pelo corredor. Quinn piscou para Peter e lhe deu um pedaço de papel rabiscado dizendo para que entregasse a contadora de histórias do hospital. Agradeceu e seguiu a amiga até a Pick up vermelha.
_ Há quanto tempo você conhece aquele menino?
_ Desde ontem.
_ Vocês pareciam muito íntimos para duas pessoas que se conhecem à tão pouco tempo.
A loira bufou sua inquietação habitual.
_ O garoto era simpático, mas eu sei que você não consegue entender esse tipo de coisa._ dedilhou a porta, impaciente._ Você não estava com pressa?
Com a testa levemente enrugada e o canto dos olhos fiscalizando as mudanças de expressão de Quinn, ela girou a chave e acelerou. Se antes estava desconfiada, agora tinha certeza de alguma coisa estava muito errada nessa história.
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O esconderijo foi abandonado. Seus pequenos pés caminharam lentos e preguiçosos até o setor de oncologia. As crianças permaneciam correndo e sorrindo por um mundo de aventuras naquele pequeno cômodo.
Essa é a melhor visão do mundo!
Rachel se permitiu sorrir. Estava realmente alienada com relação a sua “ inimiga”. Sentia uma necessidade insana de estar perto dela, por que só assim tinha a sensação de que a solidão a abandonava, mas ao mesmo tempo sabia que seus esforços por uma aproximação eram inúteis, porque sempre haveria uma profecia no caminho. A conversa que ouviu no quarto só serviu para fortalecer essa certeza.
_ Oi!
Peter voou em seus braços e deu-lhe um beijo demorado na bochecha. Apertou seus ombros, sorrindo para o seu olhar.
_ Tudo bem, Tia Rach?
_ Sim._ deu de ombros._ Que história vai querer ouvir hoje?
_ Antes disso, eu tenho uma coisa para você._ sentou na cama e puxou um papelzinho do bolso, entregando-o a ela.
A menina cruzou as sombrancelhas. Alcançou o bilhete e correu os olhos pelas palavras.
“Vou estar na praia. Ás dez horas de amanhã. Me encontre lá para continuarmos nossa conversa.”
Quinn.
O papel foi devidamente amassado por seus dedos e arremessado na lixeira. Ela deu meia volta e sentou na cama, brincando com a ponta do lençol.
_ Você não vai?
Deu uma risada fraca ao perceber que ele tinha lido.
_ Não._ respondeu calma._ Acho que isso não mudará nada.
_ Como você sabe?
Ela sorriu levemente e lhe afagou a cabeça, deitando sobre a cama e abrindo o livro numa página qualquer.
_ Você é muito novo para entender isso.
_ Talvez..._ se juntou a ela._ Mas no seu lugar eu iria preferir ter certeza, do que achar que sei o que vai acontecer.
Uma observação inusitada:
As crianças são seres extremamente sábios, porque ao contrário dos adultos, pensam com o coração.
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A noite chegou exalando um sopro de inverno. Uma menina estava despojada em sua cama, encarando o título do livro que havia lido. Impondo um propósito para ele.
_ Quer dizer que agora você lê romances?
_ A sua percepção é invejável, Sam._ zombou, entediada._ Você deveria arrumar um livro para pensar em alguma coisa útil.
_ Eu estou lendo um.
_ Pornografia não conta.
_ Cada um com seu gosto!_ jogou as mãos para o alto._ E só para você saber a leitura é extremamente dinâmica. E a prática revigorante.
Eu realmente não queria saber isso!
O garoto encostou de lado na estante do quarto. Desenhou um sorriso convencido.
_ “Treinamento extra”?_ levantou uma sombrancelha._ Precisa melhorar suas mentiras, irmãzinha. Essa não colou!
_ Idiota.
_ Esqueceu de esperto e atraente._ sentou na cama, jogando-a para o lado._ Gosto que citem todas as minhas qualidades!_ bagunçou os cabelos dela._ Você foi vê-la, não é mesmo? E ela te bateu?
Quinn bufou e mudou de posição, ficando de costas. Encarando a parede oposta e fechando os olhos.
_ Está tão perdida por essa menina que não consegue nem falar sobre o assunto._ ele levantou e olhou para a noite carimbada de pontos brilhantes._ Reparei o quão feliz você chegava em casa quando saia a noite para vê-la e o quão deprimida e chata fica quando vocês brigam.
_ Você está com a imaginação tão fértil que já passou a acreditar nela.
_ Ok._ cruzou o quarto e votou a se aproximar._ Essa garota que minha “imaginação criou”..._ fez aspas com os dedos._ É o motivo da sua felicidade atual. Se ela fosse “real”, você a deixaria ir embora?
Dessa vez ela ouviu e perdeu todas as palavras. Sentiu um incomodo frio e grosseiro lhe diluindo o estômago. Virou para encará-lo e debateu-se com um ponto de interrogação maquinado pelas circunstâncias.
_ Não existe garota alguma, Sam.
_ Estamos fazendo suposições, Quinn._ balançou a cabeça para os lados._ Responda a pergunta.
_ Acho que não._ apertou os joelhos contra o peito, pensativa._ Só se fosse errado.
_ E como poderia ser?_ O garoto caminhou até a entrada do quarto e escorou o corpo na porta para ditar a última sentença._ Eu posso não ser um poço de sentimentos e ter perdido isso à muito tempo, mas sei que não é inteligente jogá-lo fora quando aparece._ Jogou os braços para o lado e piscou._ Você está de diante de uma coisa pela qual vale a pena lutar.
Abandonou o cômodo. Uma respiração cortante saiu dos lábios crispados dela, sentia-se cada vez mais perdida e menos coerente. Sabia que tinha uma escolha impossível e um medo terrível das consequências que ela poderia gerar.
Um pequeno conselho:
Nunca deixe sua mente atrapalhar os planos da sua alma.
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Um rubrico de fumaça acordou os pássaros e açoitou o asfalto até que ele se extinguisse. Quinn abriu a porta do mustang e fincou os pés na área fofa. Estava um dia acinzentado. Olhou para o relógio solitário que tinha o ponteiro menor descansando no dez.
Cadê ela?
Vinte minutos passaram. A maré aumentou e o vento tornou-se cada vez mais exigente, derrubando as folhas das árvores e varrendo a areia. Quinn sentou numa pedra e passou a contemplar as ondas que ficavam maiores a cada segundo.
Vamos lá, Berry.
Uma gota úmida atingiu seu lado direito da face, seguidas por incontáveis pingos da mesma proporção. As nuvens começaram a chorar seu lamento.
Que ótimo!
Ela bufou vencida. Levantou e foi caminhando até Mu com um desanimo cada vez maior.
_ Você por um acaso é feita de açúcar?
Ainda de costas sorriu aliviada ao ouvir aquela voz. Se recompôs o melhor que pode e deu meia volta para encará-la. Rachel trajava uma camisa social branca e um short jeans curto e estava descalça. Os cabelos pendiam soltos e ligeiramente úmidos sobre suas costas.
_ Achei que você não viesse mais._ caminhou ao seu encontro.
_ Eu também pensei isso._ deu de ombros._ Mas estou aqui!
Elas voltaram a se entreolhar de maneira intensa. Precisavam dar inicio aquele assunto, mas era inegavelmente complicado.
_ Eu... sobre o que aconteceu..._ Quinn tentou se explicar, mas começou a se perder no caminho._ Foi...
_ Porque você me beijou?
Rachel jogou a pergunta no ar sem um pingo de clemência. Direto ao ponto. Não daria para fazer de outra forma e ela sabia que a loira não iria conseguir chegar a isso. Quinn bagunçou os cabelos, abriu e fechou a boca uma série exageradas de vezes, mas nenhuma palavra alcançou seus lábios.
_ Já sabia que isso não daria em nada._ a pequena desfez os nós dos braços e virou de costas._ Eu vou embora.
Antes que ela pudesse prosseguir, mãos envolveram seus ombros e a puxaram de volta. A chuva ficou cada vez mais forte. Quinn segurou-a perto de si, impedindo sua deixa.
_ Nós não terminamos essa conversa.
_ Não existe uma conversa._ ditou, implacável._ Só eu estou falando. Você não parece ter coragem para isso.
Quinn encarou-a na mesma moeda. Desceu as mãos pelos seus braços, sentindo a pele quente se arrepiar quando chegou à extremidade dos pulsos.
_ Foi porque eu gostei, Berry!
O mundo parou. Um jorro de incredulidade carimbou o momento. As respirações entraram em descompasso simultaneamente. Não dava para acreditar.
_ O quê?
_ Isso mesmo que você ouviu.
_ Você só pode estar enlouquecendo._ afastou-a milimetricamente com a ponta dos dedos. Sentiu o choque da revelação corroer suas veias._ Eu estava tentando te ajudar, ai você simplesmente... Não da para entender.
_ Está achando que é fácil para mim? Que eu não acho que estou surtando?_ passou a mãos nos cabelos encharcados._ Eu tentei, mas não consigo parar de pensar no seu beijo.
Rachel permanecia estática, incrédula e perdida.
_ Você vai me matar daqui a alguns meses!_ apontou o dedo em sua direção._ Ou já se esqueceu?
Quinn perdeu as estribeiras. Enlaçou a cintura dela e empurrou-a com firmeza de encontro a uma árvore. A profecia sempre ficava no caminho de tudo que ela queria, mas não iria ficar nesse.
_ Você acha mesmo que eu ainda tenho forças para fazer isso?_ levou uma mão até o seu queixo e levantou com delicadeza, deixando-se ser levada pelo momento._ Nada do que me falaram sobre você é verdade e eu precisei de muito tempo para ver o que estava bem na minha frente.
_ Fabray...
_ Estou apavorada com tudo que está acontecendo._ contornou o vão do seu pescoço com a ponta dos dedos, acariciando sua nuca._ Preciso que você me ajude a entender.
_ E a profecia?
_ Tem que haver outra maneira de resolvê-la e eu vou encontrá-la._ enlaçou os cabelos negros com os dedos e sentiu seu coração sendo esmagado contra o peito._ Mas não é isso que importa agora.
O encontro dos lábios foi delicado e guiado pela calmaria. Quinn uniu seus corpos apertando sua cintura e carregando-a para perto. Capturou seu lábio inferior e tratou com cuidado, acariciando toda a região ao seu alcance. Sentiu o pescoço ser tomado por mãos firmes e a proximidade aumentar cada vez mais. Sorriu no meio do beijo.
_ Quem é que está sem palavras agora, Berry?
Separaram-se para buscar o ar que faltava e voltaram a unir as peles. Dessa vez Quinn pediu passagem pela boca carnuda a sua frente, sem força ou vontade alguma de resistir Rachel concedeu. A quentura das línguas se encontrando foi um contraste perfeito com a chuva gelada que sorria. Um som rouco escapou da garganta morena e morreu na boca oposta. Muitos minutos correram e elas quebraram o beijo. Uniram-se pelas testas e tentaram recompor os pulmões com ar.
_ Isso é tão..._ Rachel selecionou as palavras com cuidado._ Inesperado.
_ E bom._ sua respiração voltou a forma regular._ Nem sei que nome dar, mas é a melhor coisa que eu já senti.
_ Eu preciso pensar.
Um lamento caiu dos lábios rosados. Ela afastou o rosto e fechou os olhos.
_ Eu sei.
Rachel olhou-a uma última vez, emoldurou os braços na frente do corpo e começou a caminhada de volta para casa.
_ Espera._ Quinn gritou e ela girou nos calcanhares._ Posso ir até o hospital hoje à noite?
Ela abaixou a cabeça e escondeu uma alegria inusitada que a alcançou. Olhou da outra extremidade da praia e assentiu delicadamente. Um sorriso gigante tomou posse dos lábios opostos. O destino olhou aquela cena muito complacente consigo mesmo, estava fazendo um trabalho fantástico e alterando o curso da história.
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