Glee-21-Faberry
8 Set fire to the rain. Part 1
Notas iniciais
“It was dark and I was over, until you kissed my lips and you saved me”
O dia acordou melancólico, chorando lágrimas gélidas sobre a terra maleável. Véspera do dia das mães.
_ Quinn, abaixe!
Num movimento astuto o lobo branco girou, escapando por um triz de uma coleção de navalhas, prontas para retalhar sua pele. Usou as patas dianteiras para afastar a fera e conseguiu detê-lo com a ajuda eficaz do lobo marrom.
_ Concentre-se, loira de farmácia!_ berrou Santana.
_ Não enche, Lopez!
Um momento de distração e um emaranhado de dentes foram cravados em sua barriga, encerrando o treinamento sob as ordens do fracasso.
_ O que está acontecendo com você?_ esbravejou o chefe do clã Fabray.
Uma hora de sermão foi o castigo que recebeu para começar o dia. Não estava conseguindo raciocinar direito desde a noite anterior, na verdade ela só tinha um pensamento em mente.
Mais precisamente, uma pessoa.
_ Os seus neurônios estão necessitando de mais ar, Fabray?_ reclamou a latina extremamente insatisfeita._ Ou eles já morreram?
Quinn fez um círculo com os olhos, estava farta de gritos atormentando sua razão e danificando sua audição.
_ Você é uma insuportável!
_ Claro que sou._ zombou._ E continuarei sendo até que essa profecia idiota termine e você cumpra com o seu dever.
As íris verdes arrebataram uma tonalidade diferente. Seu coração gritou sufocado. Era um peso muito grande para carregar sozinha.
_ Estou treinando ao máximo!_ jogou os braços para o ar, aturdida._ O que mais você quer de mim?
_ Saber o que está te distraindo! Você costumava ser imbatível nos treinos. Agora parece que está sempre cansada e desinteressada._ rebateu, aproximando-se dela para sussurrar._ Sou sua melhor amiga. Sabe que pode me contar tudo, não sabe? Eu sempre ficarei ao seu lado.
Não nesse caso!
Quinn soltou um suspiro exausto e bagunçou os cabelos aflita. Estava tão confusa com os acontecimentos recentes. Tudo o que via contradizia o que já tinha ouvido falar sobre sua inimiga e aquilo a estava corroendo por dentro.
_ Eu sei qual o problema dela!_ sibilou Sam, intrometendo-se._ Ele é moreno e deve ter aproximadamente um metro e meio.
_ Quem é essa menina afinal?_ argumentou a latina.
_ Alguma fantasia inescrupulosa do meu irmão!
_ Uma fantasia bem real ao que me consta!_ retrucou com um sorriso sacana.
A loira trotou para dentro de casa. Bateu a porta às costas, mas não antes de ouvir a última sentença absurda de seu irmão.
A constatação de Sam Fabray:
“Quando você irá se dar conta de que está apaixonada por ela?”
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Dormir tornou-se um ato impossível de se realizar noite passada. Ficou remoendo em seu íntimo a simples frase que havia proferido sem se dar conta. Algo que estava deixando-a ainda mais perturbada.
Eu chamei minha inimiga de linda! Deus, onde eu estava com a cabeça?
As nuvens choraram seu lamento enquanto a loira desligava o carro. Saiu para a tempestade e observou ao longe uma morena encharcada caminhando em direção a entrada do colégio.
Como vou falar com ela depois disso?
Precisava pensar e necessitava de silêncio num lugar calmo para tal ação. Então o destino ardiloso a mandou para o único espaço na escola onde havia paz.
Ela só não contava com a peça que a vida iria pregar. Dando-lhe um lampejo para encontrar uma resposta há muito almejada.
Um lugar propício para uma revelação:
O auditório.
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Quinn desfilou por entre as fileiras de cadeiras e sentou na mais distante. Tentou organizar os pensamentos fechando os olhos e absorvendo o silêncio de sua respiração.
Um acontecimento oportuno:
O silêncio foi preenchido por música.
Os olhos verdes focalizaram um piano no canto escuro do palco. Uma pessoa estava sentada de costas, incitando as teclas a soprarem uma melodia. Seja lá quem fosse, não havia percebido a presença dela.
“I remember your barefeet down the hallway
I remember your little laugh
Race cars on the kitchen floor
Plastic dinosaurs
I love you to the moon and back”
Uma voz grave e feminina afinada encheu o espaço vazio. O piano acompanhou com calma e leveza o ritmo da música triste. Os pés pálidos desceram silenciosos por entre as fileiras afim de descobrir a quem pertencia a voz.
Remember I leaned in and whispered to you
"Come on baby with me, we're gonna fly away from here"
Ela parou atrás da cortina, enquanto a voz melodiosa tornava-se embargada, seja lá quem fosse a pianista era perceptível que estava ali cantando para aliviar a dor.
“You were my best four years.”
Havia uma garrafa de uísque pela metade sobre o piano. Lágrimas escorrendo por um emaranhado de rugas. Pedaços de um coração desintegrados pelo chão. Um arrepio incalculável desceu rasgando as costas de Quinn quando ela reconheceu a cantora.
Uma pianista destroçada:
Molly Morland.
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Quinn ouviu o choro ininterrupto e ficou sem reação. Aquela mulher que sempre lhe humilhara tinha um coração e lágrimas, por mais assustador que parecesse. E algo estava errado. Um leve pesar tomou conta dela.
_ Eu sinto sua falta!_ sibilou a professora para o objeto em suas mãos. Depois de alguns minutos descansou a cabeça no piano e fechou os olhos exaustos.
Com quem ela está falando?
A loira foi guiada pela curiosidade até o lugar onde sua temida professora estava, reparou que ela havia adormecido e chegou o mais perto que pode. Focalizou o objeto deitado nas teclas ao lado dela.
Um porta-retrato.
Quinn pegou-o e observou o sorriso inocente de um garotinho de pele parda e cabelos castanhos, brincando com um bichinho de pelúcia.
Quem é ele?
A professora resmungou ameaçando acordar e Quinn recolocou o porta-retrato no lugar. Deixando passar um detalhe muito importante que poderia ter respondido todas as suas perguntas.
__________x_________
A sineta anunciou o intervalo. Quinn caminhou por entre os corredores e adentrou seu esconderijo. Precisava contar o que tinha visto. E a seu ver só uma pessoa a entenderia. Esperou-a passar e puxou-a para dentro.
_ Uma hora você ainda vai acabar me matando do coração!_ bronqueou a pequena.
As palavras fugiram no momento. Elas ficaram se encarando por minutos.
_ Sobre ontem..._ a loira começou, passando a mão nos cabelos em desconforto._ Eu não sei onde estava com a cabeça, Berry! Desculpe pelo que falei!
_ Você não fez nada de errado para me pedir desculpas, Fabray._ deu de ombros.
A intensidade de olhares ficou cada vez mais evidente entre elas.
_ Não sei por que falei aquilo... podemos passar uma borracha nisso?
Rachel cruzou os braços e encarou os pés antes de assentir lentamente. Quinn deu um sorriso aliviado.
_ Eu preciso te contar uma coisa.
Ela levou quinze minutos para narrar em detalhes a cena estranha que havia presenciado mais cedo.
_ Ela estava chorando?
_ Muito._ respondeu._ Cheguei a sentir pena! O que será que aconteceu para ela ficar assim?
Os olhos chocolate ganharam vida voltando a encará-la para proclamar a ideia.
_ Não sei o que aconteceu, mas sei quem pode nos dizer!
Um pensamento inteligente:
Molly era professora, portanto seus colegas deveriam saber algo sobre sua vida. Principalmente os mais velhos.
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O campo estava enlameado de líderes atormentadas. Tentando se equilibrar no solo escorregadio enquanto o incansável mega-fone proferia sua insatisfação usual.
_ Seu bando de babuínos desengonçados!_ berrou a treinadora Sylvester._ Equilibrem a pirâmide do lado direito.
_ Treinadora?
Quinn e Rachel chegaram ao mar de lama e chamaram a atenção da velha senhora.
_ Se vocês vieram pedir para eu reinstituir seu uniforme é melhor que tenham me trazido dinheiro ou a couve-flor que Will Shuester chama de cabelo.
_ Não!_ retrucou Rachel, assumindo o comando._ Precisamos conversar um assunto sério.
A mulher estreitou os olhos em descontentamento e ordenou que as líderes dessem duzentas voltas no campo. Para aquecer. Ordem digna de uma tirana. Em seguida marchou para sua sala com as meninas em seus calcanhares.
_ O que vocês querem comigo?_ perguntou, sentando em seu trono.
_ Gostaríamos de saber se aconteceu algo de ruim com a senhora Morland? A vi aos prantos no auditório agora pouco.
Sue abaixou os óculos e apertou os olhos. Assentiu, levantou e pegou um jornal velho adormecido na estante, jogando-o em seguida sobre a mesa.
_ Por isso.
A primeira página carregava uma manchete trágica. Uma reportagem antiguíssima sobre uma vítima atingida por um raio em Lima. Um pequeno garotinho de apenas quatro anos. Chamado Ronan Morland.
_ Ele era filho dela?_ a voz de Quinn tremeu.
_ Sim._ a treinadora abaixou os olhos novamente._ Amanhã é dia das mães e ela não tem ninguém para parabenizá-la.
Rachel observava o jornal ao lado, focada em um detalhe muito importante, que clarearia tudo.
_ Fabray!_ apontou para o rosto do garotinho sorridente._ Olhe com atenção!
Do que a Berry está...
Foi com um arrepio assombroso que Quinn encontrou o detalhe mais importante de todos. Todas as suas respostas foram solucionadas naquele instante. O mundo se tornou mais claro quando ela percebeu o item que faltava.
O menino e ela tinham algo em comum.
A característica compartilhada:
Olhos verdes pontilhados de ouro.
Tudo passou a fazer sentido. Por isso a professora tinha uma admiração incomum pelos seus olhos. Os olhos dela lembravam-na dele. E ao mesmo tempo essa lembrança devia ser dolorosa o suficiente para que Molly maltratasse a loira erroneamente. Não é uma maneira de justificar as ações injustas da professora, mas é um meio de explicá-las.
_ Obrigada, treinadora!_ Quinn levantou decidida, rumando para a porta._ Nós já vamos.
_ Pensei que vocês se odiassem!_ observou Sue.
As meninas pararam e entreolharam-se, Quinn deu um sorriso de lado e maneou a cabeça. Contrariando-a.
_ A senhora pensou errado.
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Rachel estava deitada no capô do carro. Lendo as páginas gastas de “Te amarei para sempre”. Quinn ficou na outra extremidade, rabiscando um caderno e formando montanhas de papel amassados com poemas inúteis.
Você me confunde, Fabray.
Observou-a disfarçadamente pelo canto dos olhos. Ela havia dito algo extremamente inesperado noite passada: “Você é linda!”, continuava soando em sua mente como um eco cansativo.
Quer dizer que você não me odeia mais?
Ela ouviu o que Quinn havia dito para Sue mais cedo, só não sabia se era verdade ou apenas uma maneira da loira escapar de uma explicação perigosa.
_ O que foi, Berry?_ foi pega no flagra.
Rachel se recompôs e voltou a dar atenção ao livro.
_ Nada._ deu de ombros, virando uma página._ Estava pensando, agora que sabe o que a Senhora Morland tem contra você, o que vai fazer?
Quinn endureceu a expressão e voltou a rabiscar o caderno. Usando um pouco mais de força.
_ Você verá amanhã!
A pequena sentou no capô e encarou-a séria.
_ O que ela fez com você todos esses anos foi errado, mas vingança não diminuirá a sua raiva, nem a dor dela._ entoou a morena.
As sombrancelhas loiras ergueram-se, enrugando sua testa.
_ Eu já sei o que vou fazer e não vou mudar de ideia._ proclamou, irredutível.
Um suspirou de pesar caiu dos lábios carnudos, a pequena voltou a sua posição inicial.
_ Eu tenho uma piada!_ falou a loira, em sua animação incontida.
_ Por favor, guarde-a para você.
_ Essa é engraçada.
_ Você disse isso nas últimas dez._ bufou._ E nenhuma prestava.
_ Ótimo, vamos fazer uma aposta._ esticou a mão pálida na direção dela._ Se você rir terá que me pagar um sorvete, mas senão eu te pago um! Topa?
O lábio de Rachel contorceu-se em tédio.
_ Isso é ridículo!
_ Está com medinho, Berry?
Como é que é?
Ela estreitou os olhos e esticou a mão para selar o pacto. Dez minutos depois Rachel estava mergulhada em uma casquinha de baunilha suculenta. Um troféu feito de alegria.
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O dia das mães infestou a escola de cartazes e presentes, mas Molly Morland não estava com os humores em comemoração. Não era para menos.
_ Abram na página 340.
Um coral de livros foi folheado. Molly guiou a orquestra lendo as primeiras cinco linhas e passando o trabalho para algum aluno logo em seguida. A mulher tinha olheiras profundas marcando o contorno dos olhos e uma tristeza incomum.
_ Muito bom, Leroy._ Fez um elogio ao menino que havia lido. Todos arregalaram os olhos em desentendimento._ Vou liberá-los mais cedo hoje.
Ninguém se moveu. Olharam de uns para os outros só para ter certeza de que não haviam enlouquecido. Uma atitude anormal dessas merecia uma revisão inescrupulosa.
_ VOCÊS FICARAM SURDOS?_ berrou, levantando-se exasperada._ TODOS PARA FORA!
Uma manada de pés correu para a porta da sala, chegando sãos e salvos ao corredor. Quinn ficou atrás de um emaranhado de armários e chamou a atenção de Rachel para que ela fosse disfarçadamente ao seu encontro.
_ Ela deve estar muito mal!_ sussurrou a morena._ Não posso persuadir você a mudar de ideia?
_ Você nem sabe o que vou fazer, Berry!_ cruzou as sombrancelhas dando um sorriso de lado._ Ela merece isso.
Uma mão morena segurou o pulso de Quinn impedindo que ela prosseguisse. Os olhos chocolate tinham um vestígio de lamento misturado a pena. Um arrepio alegre brincou com a pele pálida, acariciando-a. Um bloco de saliva colidiu de encontro ao estômago da loira.
_ Não faça nenhuma besteira.
Um sorriso sacana invadiu os lábios de Quinn. Ela caminhou silenciosa de volta para a sala. Rachel esperou à porta.
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Um filho é um pedaço de si mesmo, quando arrancado impossível de ser substituído. A dor da perda era algo difícil de lidar, isso muda uma pessoa, faz com que a raiva sempre a acompanhe e o amor não tenha mais sentido algum.
Uma revelação inesperada:
Molly Morland era uma mulher de sorrisos sinceros, até que a morte veio e os apagou para sempre.
A saudade é o pior dos sentimentos. Ela transpassa o peito como uma faca afiada e insiste em plantar raízes em seu jardim. Quando se expande torna-se um peso insustentável, até mesmo para a mais forte das almas.
_ Professora!
Os olhos inexpressivos e fundos observaram sua aluna aproximando-se dela, com a mochila pendurada nos ombros e um sorriso calmo.
_ Veio aqui pedir que eu tenha pena de você na hora de lhe dar a sua nota, Fabray?_ a aspereza da voz continuava imutável._ Está perdendo o seu tempo.
Quinn negou veemente e abriu o fecho da bolsa, capturou algo realmente inesperado e depositou suavemente sobre a mesa.
O presente embrulhado na mochila:
Uma rosa vermelha.
O impacto do momento fez com que todas as palavras de insulto morressem na garganta de Molly. Ela olhava incrédula de Quinn para a rosa e vice-versa.
_ Feliz dia das mães senhora Morland!
Deu meia volta e caminhou com um sorriso inquieto no canto da boca. Quinn não se lembrava de ter se sentido tão bem em toda a sua vida.
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O mustangue 1970 cantou pneus pela estrada sinuosa. O rádio estava ligado no máximo, a voz que saia era acompanhada pela melodia das cordas vocais de Quinn. Rachel estava no canto do carona, observando-a pela extremidade dos olhos.
_ Porque você está me olhando assim, Berry?_ deu um sorriso satisfeito.
_ Foi muito bonito o que você fez.
Quinn a olhou momentaneamente e voltou a atenção para a estrada.
_ Acho que estou sendo bem influenciada._ deixou escapar.
_ E quem está te influenciando?
_ É um segredo._ sorriu brincalhona.
Rachel esticou os lábios levemente. O ato gentil de Quinn havia despertado algo dentro dela, uma sensação boa, indizível. Nunca esperou generosidade da “inimiga”, mas ficou satisfeita em saber que ela retinha alguma.
_ Chegamos._ estacionou o carro a uma boa distância da residência dos Berry._ Nos vemos no hospital mais tarde?
Os olhos chocolate confirmaram.
_ Claro.
O carro fez a ré e partiu pela estrada, sumindo de vista.
Uma contrariedade curiosa:
Elas não iriam se encontrar no hospital.
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Os raios de sol estavam se dissolvendo pelo vale. Os últimos sopros do dia davam boas-vindas à escuridão acalentadora da noite.
Droga!
Rachel socou a porta do armário. Sentou-se em sua cama amontoada de livros e colocou os mais importantes dentro da mochila. Hoje era um dia particularmente difícil para ela.
_ Como você está?_ perguntou Noah descansando no vão da porta.
_ Muito bem._ deu de ombros._ Sempre estou bem.
O garoto caminhou em sua direção e tomou suas mãos nas dele.
_ Vai visitar a mamãe?
Os olhos chocolate cintilaram. Ela assentiu abaixando a cabeça e dando um nó nas mãos dele.
_ Eu vou com você!
Noah levantou e envolveu a irmã num abraço protetor. Sabia que Rachel tinha uma máscara de aço pelo lado de fora, mas que por dentro estava ruindo lentamente e era orgulhosa demais para pedir ajuda.
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A biblioteca da casa dos Fabray era coberta por paredes de livros. Uma poltrona descansava solitária no canto direito da sala, próxima a lareira crepitante. Um lugar calmo e aconchegante.
_ Mamãe?
Judy Fabray fechou o livro e deu um sorriso fraco para a filha.
_ Olá, Quinn!
A loira se aproximou e retirou mais uma rosa da mochila, entregando em seguida para ela.
_ Feliz dia das mães!_ entoou.
_ Obrigada!
O silêncio constrangedor ocupou o espaço entre elas nos minutos que seguiram. Quinn amava sua mãe com todas as suas forças, mas elas eram aquele tipo de pessoas que são ligadas pelo sangue e nada mais. Não gostavam de nada em comum, portanto não tinham assunto.
_ Que livro a senhora está lendo?_ perguntou desfigurando o gelo do momento.
_ “O morro dos ventos uivantes”.
_ Hum..._ caminhou por entre as estantes ocupadas por inúmeras palavras e se deteve ao chegar a uma sessão com livros antigos. Os títulos lhe eram estranhamente familiares._ A senhora gosta dessa escritora?
Judy levantou os olhos momentaneamente e assentiu sorrindo.
_ É uma das minhas prediletas!_ havia uma pontada de animação em sua voz._ Você gosta dos livros dela?
Bom, não sou bem eu que gosto...
_ Adoro!_ mentiu._ Será que a senhora me empresta esse?
_ Claro que sim, querida.
E voltou a dar atenção a sua leitura. Quinn colocou o livro de baixo do braço e caminhou para fora do cômodo. Deitou em sua cama e abriu-o na primeira página.
Vamos ver o que tem de tão interessante nos livros dessa mulher.
Ela não poderia saber, mas aquele exato momento marcou o deslanchar de um futuro incrível. Jamais imaginado.
Um conselho para a sua vida:
As palavras têm poder, é só saber usá-las.
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A noite caiu, cortejada pelo som das corujas e o balanço lento das árvores que dormiam sob a guarda do vento. Uma menina loira continuava esparramada em sua cama, desvendando os mistérios de uma história inebriante.
_ Você está lendo?_ Santana Lopez havia acabado de chegar e se deparado com uma cena muito incomum.
Não, estou comendo capim!
_ Esse livro é muito bom._ coçou os olhos cansados.
_ Desde quando você perde seu tempo lendo?
_ Desde que descobri que é bom.
Os braços latinos fizeram algemas sobre o peito e os olhos negros formaram uma fenda.
_ Você está agindo muito estranho._ sentou ao lado dela._ Nunca vi você gastar o dia lendo até a noite.
Noite?
Quinn ficou tão absorta com a história que perdeu a noção do tempo. Pulou para fora da cama trocando de roupa e arrumando suas coisas o mais rápido possível. Observada de perto por uma latina desconfiada.
_ Aonde você vai com tanta pressa?
_ Eu tenho um compromisso!
_ Isso não responde a minha pergunta, loira.
Ela bufou. Pegou as chaves do carro e encarou Santana uma última vez.
_ Ok, respondendo a sua pergunta: Não te interessa!
E trotou para a noite estrelada.
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Santana observou o mustang dar a partida da janela do quarto. Sua testa estava levemente enrugada de desconfiança e a curiosidade lhe intimidando o corpo de uma maneira terrível.
Tem alguma coisa errada!
Os passos latinos trocaram de quarto, indo em direção ao cômodo mais distante da casa. Bateu na porta incontáveis vezes até ser atendida.
_ Interrompo alguma coisa, Fabray?
_ Sim, Lopez!_ abriu uma fresta da porta e deixou-a ver as duas meninas só de langerie em sua cama._ Gostaria de se juntar a nós?
_ Nem nos seus sonhos mais pervertidos!
_ Não tenha tanta certeza disso._ saiu fechando a porta e recebendo um tapa no braço._ Em que posso lhe ser útil?
_ Por onde sua irmã tem andado nos últimos meses?
Os braços musculosos de Sam prenderam-se em torno do corpo. Seu sorriso sacana inundou as margens de seu rosto pálido.
_ Eu tenho cara de GPS?
_ Quer mesmo que eu responda a essa pergunta?_ formou uma carranca no lugar da face._ Desembucha!
Ele jogou os braços para o ar, vencido.
_ Ela foi se encontrar com a morena dela!_ disse simples.
_ Você sabe quem é ela?
_ Não._ deu de ombros._ Eu a vi uma vez, de costas. Tinha os cabelos negros, pele morena e devia ser mais ou menos desse tamanho._ esticou a mão simulando a altura._ Mas não deu para ver o rosto dela, uma pena, de corpo ela é era um espetáculo!
O olhar negro de Santana cresceu de tamanho, ela foi montando mentalmente as características da misteriosa garota de sua amiga. Um frio cinzento lhe cortou a espinha quando ela chegou a uma conclusão absurda e repugnante.
Isso não é possível!
Ela conhecia uma pessoa que correspondia a todas essas características, mas nunca adentraria na situação.
_ Bom, posso voltar para minhas musas?
_ Vá em frente, pervertido!
_ Oh, Lopez!_ girou a maçaneta e se despediu dela._ Não fale assim que eu me apaixono!
Idiota!
A porta foi fechada. Os pés latinos deixaram a residência e alcançaram a pick up vermelha. Seu coração permanecia em descompasso.
Preciso descobrir quem é essa menina!
_________x_________
O hospital estava agitado. Para comemorar o dia das mães os pais dos pacientes fizeram a visita habitual daquele dia especial. As crianças da ala oncologica carregavam uma alegria exasperada.
Todos receberam visitas.
Uma auto-correção necessária:
Todos que tinham pais receberam uma visita.
_ Oi!
Quinn caminhou até a cama mais afastada do quarto. Encontrou um garotinho de olhos mel tristes, rabiscando um desenho na solidão de seu canto.
_ Oi, tia Quinn!_ respondeu Peter, abrindo o primeiro sorriso da noite.
_ Você viu a Ber... quero dizer a Rachel?_ olhou para os lados bagunçando o cabelo. Ficou aflita ao chegar ao hospital e não encontrá-la_ Achei que ela já estivesse aqui!
O garotinho colocou o caderno de lado e engatinhou até ela, sentando na maca e oferecendo um lugar ao seu lado.
_ A tia Rachel não vem aqui hoje!
_ Como assim?
_ Ela nunca vem no hospital no dia das mães._ sua expressão se tornou cada vez mais cabisbaixa._ Ela não gosta desse dia!
Um vestígio de ira inundou os olhos verdes pontilhados de ouro. Sua mão tremeu em resposta.
_ Porque?
_ Eu não sei, tia Quinn!_ deu de ombros._ Ela fica triste.
Ela vai se ver comigo!
_ Você sabe me dizer onde ela está?
O garoto deu as coordenadas e a revelação do destino da morena só serviu para aumentar ainda mais o seu desgosto.
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Um mustang 1970 cantou pneus na estrada enegrecida. A velocidade já havia atingido o limite a tempos e tão pouco parecia diminuir. Muito pelo contrário.
_ Irresponsável!_ Quinn deu um murro no volante de Mu._ Não acredito que deixou as crianças sem proteção para se divertir.
O carro virou uma curva e avistou seu destino.
A última parada:
O bar universitário.
A porta do carro fechou com um solavanco. Os pés pálidos caminharam irados para a entrada do lugar. Trotou para dentro e deparou com uma música exageradamente alta e muitas pessoas.
A casa estava cheia.
Ótimo! Onde está a Berry agora?
Quinn caminhou no meio da multidão e se deteve no centro do salão. Um violino arranhava suas cordas em sofreguidão, espalhando a música como se tivesse alguma solidez. O piano corria de tecla em tecla, acompanhando o desespero da voz que protagonizava o espetáculo.
“Where are the people that acuse me?
The ones who beat me down and bruise me
The hide just out of sight
Can't face me in the light
They'll return, but I'll be stronger”
Não acredito!
Rachel Berry segurava um microfone nas mãos e gritava uma melodia torturante contra a extremidade do instrumento. Tinha uma voz extremamente enérgica e mantinha os olhos fechados para concentrar-se em passar as notas com mais vivacidade.
Apesar da situação, ela era fantástica.
“God I want to dream again
Take me where I've never been
I wanna go there
This time I'm not scared
Now I am unbreakable
It's unmistakable
No one can touch me
Nothing can stop me”
O violino encerrou a orquestra. Rachel foi ovacionada. Desceu do palco e caminhou até o balcão do bar. Foi servida de vodka e descansou a cabeça apoiando os cotovelos na madeira.
_ O que você pensa que está fazendo aqui, Berry?
Ela levantou os olhos chocolate e enrugou a testa. Cética.
_ Engraçado, Fabray!_ virou o copo, despejando todo o conteúdo na garganta de uma só vez._ Estava para te perguntar a mesma coisa!
Aquela eletricidade antagônica desceu sobre elas. A morena estava num péssimo dia, não precisava de ninguém no pé dela para piorar as coisas.
_ Você deixou as crianças sem proteção.
_ Você está enganada._ estufou o peito para ficar do mesmo tamanho de Quinn._ Pedi um favor a Tina e Mercedes, elas já devem estar a caminho de lá!
_ Pensei que elas não fossem suas amigas!
_ Elas não são! Não precisam ser para me prestarem um favor!
_ E quanto a mim? Porque você não me avisou que não iria?
Rachel desviou os olhos, cansada daquela discussão sem sentido. Nunca deixaria as pessoas que amava desprotegidas, não importa o quanto estivesse destroçada. Ela só queria que o dia acabasse e faria tudo para que ele passasse mais rápido.
_ Vamos embora!_ pediu a loira, puxando-a pelos pulsos.
_ Eu não vou com você!
_ Vai sim.
_ Quero ver você me obrigar!
De novo, querida?
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Quinn chutou a porta do bar carregando uma morena enfezada nos ombros. Ganhando uma chuva de socos nas costas e uma dúzia de incontáveis impropérios nos ouvidos.
_ Me solta!
Chegou perto do carro e jogou-a contra lataria. Ficando próximo a ela. Precavendo a fuga eminente.
_ Você me deve uma explicação melhor!
_ Eu não te devo nada!
Os pulsos pálidos foram travados e afastados. Ambas mantiveram uma distância saudável.
_ Eu te procurei igual a uma idiota._ deu chute na terra, esparramando poeira para todo o lado._ Quando cheguei ao hospital e não te encontrei tive a sensação de que alguma coisa ruim tivesse acontecido. Pensei que o lobo negro tivesse aparecido e você pudesse estar machucada em algum canto, mas não..._ estreitou os olhos._ Você estava aqui, se embebedando e cantando. Eu é que fui estúpida de me importar!
_ Agora você se importa comigo, Fabray?_ Rachel resolveu rebater. Aquilo era muito injusto._ Deixe-me refrescar a sua memória e te lembrar de que será o meu carrasco daqui a alguns meses.
Quinn olhou cética para ela. Um rosnar caiu dos seus lábios.
_ Eu cheguei a pensar que você fosse diferente, mas eu estava errada.
_ Você não sabe nada sobre mim!
_ Sei que é egoísta a ponto de abandonar sua tarefa para vir para um bar afogar suas mágoas.
Rachel avançou sobre ela e empurrou para trás.
_ Você não tem o direito de me julgar._ a voz dela cortou a noite que se despedia._ Eu só quero ficar sozinha hoje!
_ Por quê?
As mãos morenas apertaram os olhos chocolates.
_ Isso não é da sua conta!
_ Porque você fica triste no dia das mães? Porque você..._ Ela parou no meio da frase, uma linha de pensamento possível abateu sua mente, lhe passando a luz que precisava._ Quando meu clã falava de sua família..._ começou a colocar os pensamentos em ordem._ sempre falavam sobre seu pai, seu irmão e você, mas nunca mencionaram uma mãe.
_ Para...
_ Shelby Berry!_ arregalou os olhos ao montar o quebra-cabeça._ A médica. Ela é a sua mãe, não é?
A respiração que o peito de Rachel exalava estava indevidamente acelerada. A pequena sentiu o chão ruir sobre seus pés.
_ O seu silêncio confirma a minha pergunta._ Voltou a se aproximar dela e encarou-a nos olhos, a intensidade brilhando em evidência._ O que aconteceu com ela?
Um murro foi solto do punho moreno. Quinn perdeu o equilíbrio e colidiu de encontro ao chão. Rachel olhou para as próprias mãos e constatou exasperada, o que tinha feito, sentiu-se pequena ao olhar a loira estirada na terra. Ficaram entreolhando-se em silêncio pelos segundos que precederam o amanhecer e o cair das primeiras lágrimas do dia.
_ Eu não queria ter feito isso.
Quinn levantou e secou o sangue do canto dos lábios nas costas nuas da mão. Olhou-a com toda a raiva que retinha à anos e sentiu todo o seu corpo começar a tremer.
_ Fabray...
_ Eu odeio você!
Um raio cortou os céus. Elas continuaram se encarando no silêncio que prosseguiu, até que inesperadamente os olhos verdes ficaram apertados e as mãos pálidas voaram de encontro a sua cabeça. Uma dor lancinante ameaçou a diluir seu cérebro e o mundo se desfez.
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As gotas de chuva arrancaram a solidez da terra chorando sobre seu leito. Massageando seus contornos de bonitos tons de marrom e cantando uma melodia acalentadora.
Meu Deus!
Quinn estava de joelhos na lama. Segurando a cabeça com as mãos e berrando um som torturante.
_ Fabray!
Rachel correu ao seu encontro, eclipsou toda a conversa recente que tiveram, seu instinto protetor e altruísta gritou dentro dela. Nunca deixaria uma pessoa em apuros se pudesse ajudar, não importa quem fosse.
_ Ta doendo muito!_ caiu para trás e se arrastou até encostar as costas contra o tronco de uma árvore.
_ O que eu faço?
A morena ajoelhou na frente dela e olhou-a com pena. Sentiu-se o ser mais impotente do mundo.
_ Toque em mim!
As lágrimas começaram a molhar o rosto atormentado de Quinn. Uma mão lhe tomou a testa febril e ela esperou que aquele toque fosse o bastante.
A dor permaneceu imutável.
Droga, não está adiantando!
Rachel continuou a vê-la contorcendo-se de dor. Gritando por ajuda em uma agonia irredutível. Sentiu seu coração cavalgar em descontrole, não sabia porque, mas vê-la daquele jeito estava lhe causando um mal estar incomum.
Pense Rachel, eu toco nela e a dor some...Então, talvez uma dor profunda precise de um toque mais íntimo...
Foi com extremo temor e incredibilidade que os olhos chocolate foram fechados e as mãos seguraram delicadamente o rosto distorcido a sua frente, para em seguida selar seus lábios aos dela.
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As gotas de chuva uniram-se aos raios do sol, iluminando a umidade dos primeiros sopros de vida do dia, terminando sua dança no solo fofo. Fazendo as árvores sorrirem à medida que eram banhadas de esperança.
Mas o que...
Quinn sentiu a dor de cabeça se esvair numa velocidade assustadora. Seu rosto já não queimava mais em febre, mas seus lábios estavam amontoados por um calor novo, indescritível e negligentemente bom.
O beijo foi quebrado. Rachel a olhou por alguns segundos tentando certificar-se de que a abordagem fora eficaz.
_ Faça de novo, Berry!
_ O quê?
As mãos pálidas voltaram a apertar a testa enrugada. Rachel não perdeu tempo e descansou os lábios nos dela. Dessa vez Quinn fez uma leve pressão contra as linhas carnudas a seu dispor, levou as mãos sem perceber ao mar negro a sua frente e enterrou os dedos contra o véu de mechas lisas que pendiam livres sobre suas costas.
_ Fabray..._ Rachel sibilou se afastando milimetricamente dela.
_ Minha cabeça ainda dói!
Quinn manteve os olhos presos pelas pálpebras e tomou a iniciativa de tomar o lábio inferior da morena nos seus. Manteve um ritmo extremamente suave naquela região, experimentando os segredos de sua inimiga.
_ Espera._ uma mão pequena a afastou._ Você não está com febre! Como sua cabeça ainda dói se..._ testou a temperatura dela e constatou abismada que ela já havia voltado ao normal, o que só podia significar uma coisa._ Você estava fingindo?
As maças do rosto delicado a sua frente tomaram um tom rosa inusitado.
_ Da primeira vez era verdade!
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Uma chuva de pedrinhas voou em intervalos de segundos sobre a cabeleira loira. Quinn correu para trás de Mu, tentando proteger o que restava de si da fúria morena nos seus calcanhares.
_ Pare de tacar pedras em mim!_ exclamou correndo para a parte de trás do carro._ Berry...ponha... esse... galho... no... chão.
Um pedaço de madeira passou perto do rosto de Quinn, mas ela foi mais rápida e conseguiu evitar a colisão.
_ PRIMEIRO VOCÊ ME ODEIA..._ apontou o dedo para ela. Tremendo de raiva._ AGORA EU TENTO TE AJUDAR E VOCÊ ME USA COMO BEM ENTENDE!
Exagerada! Você me beijou primeiro, para me ajudar eu sei, mas... eu... droga!
_ Eu não estava te usando!
Rachel contornou o carro e empurrou a loira contra uma árvore. Olhou-a imponente, exigindo uma resposta.
_ Então porque você me beijou?
Quinn abriu a boca uma série de vezes e fechou-a inutilmente na mesma proporção. Não havia uma explicação concreta para o que tinha feito. O medo a invadiu ao pensar na possibilidade de uma lógica plausível.
_ Fique longe de mim, Fabray!_ ordenou irredutível._ Nunca mais fale comigo!
A menina que estava na sua frente criou um cobertor de pêlos vermelhos e dentes pontiagudos, rosnou uma última vez antes de sumir no horizonte. Quinn passou as mãos nos cabelos e deu um soco no ar ao se dar conta do que tinha acontecido.
O que foi que eu fiz?
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Rachel bateu a porta do quarto. Encostou a cabeça contra a madeira, fechando os olhos e absorvendo uma lufada de ar. Sentia seu coração na garganta e sabia que a sensação de euforia não tinha relação alguma com a corrida matinal que acabara de realizar.
O que está acontecendo?
Levou os dedos com delicadeza até a boca. Arrastou as pontas sobre a pele macia que recentemente fora tocada por outra. Sentiu os lábios repuxarem e desenharem um sorriso sem sentido.
O que eu estou fazendo?
Sacudiu a cabeça em dois tempos. Rumou para o chuveiro e abriu uma rajada fria que nublou seu cérebro. Não queria mais pensar no ocorrido e precisava arrumar um jeito de desintegrar aquele sorriso bobo da face.
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