Notas iniciais
Olá pessoal. Capítulo trabalhoso para escrever. Desculpem a demora, foi uma semana muito corrida. Obrigada de coração por todos os comentários, em especial a LIZE R e DRAMAQUEEN pelas recomendações. Falta um capítulo para o fim da história. Boa leitura.

“However far away, I will always love you, however long I stay, I will always love you, whatever words I say, I will always love you.”

Cinzas impregnadas de branco. Sol distorcido em contornos miseráveis de dourado. Lágrimas inúteis de chuva branda. Ninguém podia negar a exatidão daquele marco histórico de sangue.

Um belo dia para morrer.

“As primogênitas da 12ª geração deverão por fim a guerra que agora se inicia. Quando a transformação estiver completa, uma deve matar a outra, quem vencer, fica com o direito de ser o ser dominante. Só assim a paz ira se restabelecer.”

Era como uma música impiedosa. Uma repetição inconveniente nos tímpanos sofredores. O espelho sorriu um reflexo deformado. Braços fortes agarravam-se as bordas, buscando algum ponto de apoio.

Qualquer saída.

Uma verdade aterradora:

Não importa quantas vezes você perca uma pessoa querida, nunca aprenderá a cultuar a terrível arte de perder.

Uma de nós tem que morrer.

Pelo bem de ambos os clãs. O único meio de por um ponto final nessa guerra de gerações era a aniquilação de uma das primeiras filhas da décima segunda geração. Nasceram com o único dever de se destruir no dia em que completassem a maioridade.

15 de novembro.

_ Morrer pela mão da outra.

Quinn repetiu, observando seu próprio desespero. Repassou num lapso de segundos todos os momentos que vivenciara com Rachel. As pessoas têm mania de pensar no começo quando chega o fim.

Tudo. Cada toque,briga, beijo e palavras.

Um acréscimo a essas memórias:

Letras constroem palavras. Palavras modelam frases. Frases dão á luz a ideias.

Foi nessa ordem que aconteceu.

_ Uma de nós._ sussurrou.

De repente ela não estava mais no escuro, vislumbrou um chumaço de esperança. O preço era alto, mas estava disposta a pagá-lo sem pestanejar. Puxou a escrivaninha e acomodou-se como pôde, o tempo era curto, mas ela o usaria para elaborar um plano que mudaria o rumo de tudo.

Rabiscou um punhado de linhas e deu início ao seu último recurso.

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O lado menos prestigiado dava vida aos últimos preparos. O clã Berry estava reunido perto de um vale do lado sul. Noah correu até Rachel e interceptou-a antes que pudesse protestar.

_ Não faça isso._ pediu._ Podemos escondê-la e ver o que os espíritos decidirão.

Houve uma mistura de cair de olhos e suspiros.

_ Quer mesmo correr o risco?

A resposta era uma negação bem óbvia, mas igualmente, não queria que ela se machucasse ou pior. As chances de vitória eram mínimas para os lobos vermelhos.

_ Não quero vê-la morta.

_ Confie em mim.

Uma mentira para aliviar a tensão e criar uma esperança sem peso. O irmão mais velho assentiu incerto enquanto ela caminhava para o lado da avó que carregava o discurso preso nos lábios castos e a bengala sob as mãos onduladas.

_ Tem certeza de que quer isso, querida?_ sibilou com um sorriso triste.

Rachel olhou-a com relutância. De alguma maneira inexplicável, sua avó sabia o que estava preso em seu pensamento e consequentemente o desfecho de tudo. No fim ela seria sacrificada em prol de um bem maior.

Como diz o ditado:

Tal mãe, tal filha.

_ Absoluta.

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Quinn amarrou o envelope entre os dedos. Abriu a porta do quarto para encontrar um corredor calmo. Tinha um plano, mas não podia executá-lo sozinha. Como de praxe, a primeira pessoa que lhe ocorreu foi sua melhor amiga.

A ideia foi descartada dois minutos depois da chegada.

Santana não suportaria fazer o que ela estava prestes a lhe pedir. Ela a conhecia bem o bastante para saber de suas limitações. Precisava de uma pessoa com a cabeça firme e confiança inquebrável. Uma calmaria no meio do caos.

A porta do quarto rangeu ao ser delicadamente aberta.

_ Brittany?_ Quinn caminhou para dentro._ Posso falar com você?

Ela assentiu rodeada por lençóis grossos para esburgar o frio. Sentou-se para fornecer espaço a visitante. Os próximos dez minutos foram carregados de explicações, bocas distorcidas, olhos alagados e um pedido.

_ E se não funcionar?

Quinn manteve a atenção no chão. Engoliu alguns pesares quando constatou que as chances de sucesso eram tão boas quanto sua capacidade inigualável de contar piadas.

Só que a outra opção era muito pior.

A outra extremidade:

Ela teria que matar Rachel a sangue frio.

Não queria pensar naquele momento. No segundo em que orgulhosamente empunharia as garras contra os olhos expressivos do lobo vermelho com o intuito de fechá-los para sempre.

O ar sumia com aquele pensamento.

_ Se fosse a Santana..._ Quinn questionou._Você não tentaria mudar isso?

Brittany sentiu a guarda dissolver.

_ Sim..._ soluçou afirmações._ Eu faria tudo.

_ Vai me ajudar?

A loira bondosa desatou em lágrimas de cinza. Quinn não conseguiu reprimir a tristeza e a acompanhou. Fundiu-se a ela num abraço terno. Um “obrigada” mudo. Braços tremeram em uníssono quando Brittany arrebatou a carta das mãos pálidas.

_ Apenas certifique-se de que ela vai me encontrar.

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O vento galgou numa velocidade arrebatadora. Árvores choraram em conjunto. Os sete picos erguiam-se imponentes na linha horizontal de todo o vale. O piso era forrado de terra e grama, um pouco mais acima, podíamos vislumbrar duas cores novas. Totalmente antagônicas.

Branco e Vermelho.

Como um tabuleiro de xadrez natural, sendo diferente no sentido da igualdade. O exército branco era o soberano, preenchia quase toda extremidade leste de todo o quinto pico, enquanto um punhado singelo do oposto cobria apenas um terço de toda a ala oeste.

Um acréscimo de cores:

Marrom, azul, amarelo, lilás e cinza.

Os aliados também estavam presentes. Em menor número, mas não menos relevante. Toda ajuda era necessária. Até o último segundo. Assim sendo, temos o campo de batalha formado. Duas bandeiras içadas.

Uma vermelha, lilás e azul.

Outra branca, amarela, marrom e cinza.

Dois integrantes saíram de suas posições. Ambos dos clãs protagonistas. Marcharam com o peito reto até o centro do picadeiro, parando a uma distância saudável. O mais novo resolveu se pronunciar primeiro.

“Deseja que tudo termine em sangue, Russel?” Adam Berry questionou.

“Não se trata de uma questão de querer.” Fincou a pata no solo. “Estou cumprindo o que foi imposto para nossa geração. Pelo bem das pessoas que amo.”

O lobo cor de sangue assentiu de olhos apertados. Voltaram para suas posições na vanguarda. Adam acomodou-se ao lado de Noah e Rachel. Suspirou um lamento antes de manear a cabeça indicando ao filho que puxasse a segunda fileira para defendê-los do primeiro ataque.

“Eles são muitos.” Analisou. “Quero que você corra o mais distante para trás da última barreira.” Indicou à Rachel. “Não conseguiremos contê-los por muito tempo, mas lhe daremos uma boa chance de fuga.”

“Eu vou lutar.” Contrariou-o.

“Estou ciente disso.” Voltou-se em sua direção. “Mas eles tentarão pegá-la porque estamos em menor número. Preciso ganhar tempo para encontrar uma maneira de interceptar a filha dele. Quando a capturarmos, você terá sua chance.”

Rachel analisou as possibilidades. Tudo teria que ser encenado. Ela não podia simplesmente sair do meio da multidão e pedir que Quinn a matasse sem levantar perguntas. Tinham que fingir que se odiavam. Fugir como maneira de atrasá-los era uma boa opção para pensar no próximo passo.

Ela assentiu e correu para o lado contrário.

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Russel farejou o plano dos Berry de longe. Eles não eram tolos e sabiam seus próximos passos, talvez essa estratégia o atrasasse, mas não impediria de realizar sua façanha.

“Você fica sob a minha vista.” Falou para o lobo esbranquiçado. Já que ela deveria matar a inimiga, mas não podia ser morta. “Estamos em maior número, mandarei o exército trazê-la até aqui.”

Quinn observou a movimentação da pequena infantaria antagônica. Um lobo vermelho familiar se deslocou no meio do mar de sangue, cada vez mais longe. Isso não estava em seus planos. Pensou que a primeira manobra seria uma luta corpo a corpo para que ela pudesse se dispersa para longe do grupo, sem ser vista e por em prática sua ideia.

Agora seria obrigada a ficar sob os olhos atentos de Russel.

Teria que improvisar.

“Sim, senhor.”

O lobo branco de porte gigante tomou a frente de seus aliados e berrou a plenos pulmões: “Tragam-me a Berry viva.” Houve um murmurinho antes de arrastarem as patas contra o chão em direção ao exército vermelho. Um choque rugiu entre o vale.

E a luta finalmente teve início.

Quinn permaneceu onde estava. Coração na mão e olhos atentos. Sentou perto de uma pedra para poder observar melhor. Não conseguia identificar Rachel naquele pandemônio.

Muito barulho.

Muito sangue.

Um lobo cor de sol juntou-se a ela. Quinn somente assentiu, indicando que mesmo com as mudanças de eventos a parte de Brittany não seria alterada. Só a própria dona da ideia teria que arrumar um jeito de sair da linha de visão do pai.

“Volto logo, Quinn.”

A amiga mergulhou no meio do caos. Quinn desejou internamente que ela fosse bem sucedida. Porque agora, só lhe restava esperar. Rezar pelos seus familiares, amigos e pela pessoa que negligentemente assaltou sua racionalidade, fazendo dela uma pessoa melhor.

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Rachel dobrou uma esquina de árvores densas. Sentia as patas latejarem contra o chão de mármore congelado. Se quisesse fugir era melhor não parar ou arriscar olhar para trás. Um declínio na montanha obrigou-a a acelerar e dar um salto de uma ponta de terra para outra.

Um vale de pedras pontiagudas enfeitava o vão abaixo.

Nesse momento, três lobos de pele clara apareceram em sua visão periférica. Um deles estava preparando o salto do topo. Voou em sua direção com as garras cintilando nos fracos raios de sol. O lobo vermelho parou e lembrou-se de algo extremamente oportuno: “As patas de trás servem para bater também. Não use apenas para correr, você pode precisar um dia.”

O treinamento com a “inimiga”:

Ele foi guardado e sinuosamente revisado. Agora era a hora de usá-lo.

Ela envergou o corpo e subiu as patas traseiras na colisão. O resultado foi um lobo branco sendo presenteado com um solavanco no peito. Jogado contra uma árvore pesada e caindo em profunda escuridão.

“Desgraçada!”

Os que restaram correram no seu encalço, no pequeno espaço que separava a montanha de um rio sanguinário de pedras.

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Para todo lado havia corpos caindo, sendo massacrados pela fúria incontrolável de poder. Brittany rumou por entre os combatentes sem precisar desferir qualquer golpe, até que uma pata rasgou seu ombro direito e impediu-a de continuar.

Um lobo vermelho manchado fechou o caminho.

“Daqui você não passa.”

Arrebatou outro jabe contra a mandíbula do lobo cor de sol. Ela cambaleou para trás e recuperou o equilíbrio, respondendo-o com uma cabeçada no tronco. Não bastou para derrubá-lo, pois ele atirou garras para todos os lados.

Jogou-a no chão e empurrou a pata contra o pescoço amarelo. Brittany começou a se debater ancorada em desespero. Estava perdendo segundos preciosos com algo inútil.

“Eu preciso encontrá-la.”

“Primeiro terá que passar por cima de mim.”

Ele prosseguiu na orquestra de golpes, mas foi rudemente empurrado, perdendo o equilíbrio para o chão.

“Você mexeu com a pessoa errada, idiota.” Santana apareceu estupefata.

O lobo avermelhado retrocedeu alguns centímetros diante da fúria marrom vibrante. Correu para longe da desvantagem eminente, deixando-as para trás. A latina tentou segui-lo, mas foi impedida pela namorada.

“Não temos tempo para isso.”

“O quê?” Santana fechou a face. “Aquele filhote de cachorro machucou você. Tenho que arrancar a cabeça dele.”

“Depois.” Pediu, bolando uma ideia. Precisava interceptar Rachel o quanto antes. Uma ajuda extra era crucial. “Quinn tem um plano.”

Foi toda explicação que pode exalar. Claro que frases características, como: “Que plano é esse?”, “Porque não estou sabendo de nada?” e “ Eu sou a melhor amiga daquela ingrata!” marcaram o final da sentença.

“Precisamos encontrá-la antes que outros o façam.”

Santana assentiu emburrada. Marchou na linha de frente, abrindo espaço entre a multidão sanguinária. Correram lado a lado tentando encontrar esperanças para chegar a tempo.

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Rachel desbravou um precipício saliente á segundos do abismo. Os lobos seguiram suas pegadas numa fúria implacável. Dobrou uma esquina de motinhos de terra quando um deles investiu um ataque, jogando-a de lado na terra de concreto.

Levantou sob esforço para novamente ser derrubada.

Resmungou brevemente.

“Pegue-a.” Ordenaram ao mais próximo.

Um lobo branco de mancha cinza na pata direita jogou a mandíbula contra o ombro de Rachel, poderia tê-la dilacerado, mas foi impedido por uma patada maciça vinda das garras de um lobo vermelho fosco.

“Noah!”

O irmão da primogênita investiu novamente, alavancou golpes consecutivos até que o oponente não conseguiu voltar do chão.

“Atrás de você!” Foi uma alerta da irmã debilitada.

Ele girou gracioso, escapando de um tiro certeiro. Rachel aproveitou a deixa e ricocheteou o inimigo nas costelas. Ouviu o som de algo quebrando mesclado ao uivo agoniado. “Quando atacar tente acertas os pontos mais sensíveis do seu oponente: Olhos, pescoço, patas e costelas.”.

Provou ser uma boa aluna.

“Você está bem?”

“Sim.” Respondeu de prontidão.

Nesse exato momento cinco intrometidos entraram em cena. Todos de pelagem clara. Inimigos. Noah amaldiçoou-os mentalmente. Cravou as patas no chão e desobstruiu os dentes. Ameaçador.

“Corra.” Ordenou a irmã. Houve um minuto de hesitação. “Saia daqui agora.”

Rachel sentiu o coração apertar quando decidiu obedecer. Noah era bom no quesito briga, mas cinco contra um era uma desvantagem assustadora.

Ela temeu o pior.

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Santana e Brittany desembocaram numa vala lamacenta mais ao sul. Seguiram o rastro de Rachel até uma colina próxima. Estavam longe do motim, mal conseguiam diferir os sons de guerra.

“Ela está perto, Sant” Alertou-a. “Posso sentir o cheiro dela.”

“Você quer dizer o fedor!” Torceu o nariz em diversão.

Numa hora crítica dessas, somente Santana Lopez e seu senso de humor negro poderiam arrumar alguma piada, ainda que não tivesse graça alguma.

Talvez estivesse convivendo muito com Quinn.

Uma barreira azul e lilás ergueu-se de imediato no segundo seguinte. Foram obrigadas a parar para evitar a colisão. Estavam de frente para clãs de menor porte, mas isso não era relevante.

O crucial é que elas seriam uma pedra no relógio corriqueiro.

Um atraso infortuno.

As novas integrantes da cena:

Tina Chang ou lobo lilás.

Mercedes Jones ou lobo azul.

“Saiam do caminho.” O lobo marrom firmou a pata no chão e abaixou a cabeça em sinal de ataque. “Não vou pedir de novo.”

“Não perca seu tempo, Lopez.” O azul retrucou.

Houve um choque de cores. Azul e Marrom. Misturando-se na imensidão de desespero e ira. As que restaram prepararam-se para o conflito ficando uma de cada lado da arena.

“Só queremos ajudar.” Brittany jogou seu último trunfo.

“E eu nasci ontem.” Tina empurrou as patas de trás e voou no pescoço do lobo cor de sol.

A batalha se estendeu para outras extremidades.

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Rachel desceu a encosta. Na altura em que estava o chão era plano e se estendia pelo horizonte infinito. Suas patas queimavam, a respiração bombeava desespero e o coração era um delinquente descontrolado.

Noah.

Estava perplexa em preocupação. Seu irmão estava sob a mira de cinco oponentes de peso e ela não ficara para ajudar. O gosto da traição dos próprios instintos invadiu a garganta seca do lobo vermelho.

Quando ela começou a dar mais importância a profecia do que a família?

Dane-se!

Estava prestes a voltar e ajudar o irmão quando uma árvore mexeu os braços.

Rachel tencionou os músculos em choque.

Estava rodeada por uma mata asperamente alta, mas os nervos estavam ligados à mil. A situação parecia muito familiar. “Há muitos momentos em que não podemos contar com nossos olhos para lutar.”

Como regra, silenciou os olhos.

No momento só o vento podia ser discernido pelos ouvidos atentos do lobo vermelho. Até que onomatopéias ganharam vida. Unhas mutilando o chão poucos metros à sua direita.

Um segundo de ataque.

Ela conseguiu desviar. O lobo branco rolou para longe, reerguendo-se furioso.

Esse era bem maior do que os outros com os quais lutara. Rachel o reconheceu sendo o mesmo que comandara o ataque contra ela antes de Santana interrompê-lo. Olharam-se com cautela.

Ele sorriu vermelho.

“Não posso acreditar que serei eu a entregar você para a Quinn.”

Rachel sentiu as paredes do peito romperem. Queria ser levada para acabar com tudo logo, mas esse lobo à sua frente não ia simplesmente guiá-la. Primeiro cultuaria mordidas, caricias de garras e uma coleção de ossos fraturados.

Isso era inaceitável.

“Você não irá ganhar mérito algum.”

“Veremos.”

Partiram em direção um do outro.

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Noah foi cercado por todos os lados. Manteve a cabeça erguida e os músculos preparados para o ataque maciço que estava por presenciar. Como previsto, foi atacado por todos os cinco de uma só vez.

Tentou um golpe para afastá-los, mas foi prontamente repelido.

Caiu no chão quando o sangue rugiu de sua boca. Quente e amargo. Não havia saída. Todas as estatísticas indicavam que aquele era o fim da linha para o irmão mais velho de Rachel.

Um pequeno ajuste:

Estatísticas são dados inúteis que mudam a todo tempo.

Vou lhes mostrar.

Um corpo cinza surgiu por trás das árvores arrebatando um jabe firme na mandíbula de um dos lobos brancos maiores. Jogou outro contra uma árvore com um coice. Noah reagiu ajudando-o a liquidar mais dois.

Sobrou apenas um.

Esse lobo esbranquiçado poderia ter posto tudo a perder quando desafivelou as garras contra o peito de Noah, mas a sorte estava soprando na direção da cor vermelho fosco, pois outro lobo branco de tamanho minúsculo desviou o ataque. Investiu contra seu semelhante, colocando um ponto final na história.

“Oh, meu Deus!” Kitty foi ao encontro de Noah. “Você está bem?”

“Acho que quebrei uma costela.”

“Estávamos por perto quando escutei seu uivo.” Ela explicou ajudando-o a se apoiar. “Chamei o Sam para me ajudar.”

Ele dirigiu a atenção ao outro lobo e prontamente agradeceu com um gesto de cabeça.

Uma verdade absoluta:

A vida é uma guerra. Cada dia é um luta.

Quando tudo estiver contra você e as chances forem mínimas. Apenas um por cento. Algeme-se a ela. Feche os olhos e tome um gole de ar para, logo em seguida, fazer o impossível.

Isso os torna extraordinários.

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Brittany mantinha as costas arqueadas para amplificar a visão. O lobo lilás investiu uma pata docente contra sua cabeça, mas ela conseguiu desviar, aproveitando para lhe dar um solavanco no peito.

Tina caiu de lado e rapidamente começou a ser pisoteada.

Uma. Duas. Três vezes.

Até encontrar a inconsciência.

“Desculpe.” Brittany sussurrou. “É para o seu próprio bem.”

Olhou a luta ao lado e levou um choque da realidade. Santana estava numa situação crítica, possuía o topo da cabeça envolvida por uma sessão de presas meticulosas de Mercedes. O sangue começou a escorrer diante do uivo agoniado do lobo marrom.

“Não!” Brittany lançou uma cabeçada contra o tronco do lobo azul, afastando-a. “Santana. Você está bem?”

“Sim.” Mentiu.

O lobo cor de sol quis avançar no oponente, mas foi prontamente barrado. Santana tinha os olhos empapados de sangue e a boca quebrada, mas arrumou tempo e forças para dar um sorriso. Um recado mudo.

Traduzindo o gesto de Santana:

Elas não podiam perder mais tempo.

Mercedes era um obstáculo, mas uma delas estava livre e deveria ir imediatamente atrás de Rachel, enquanto a outra cuidava para que o lobo azul não ficasse no caminho.

“Vá atrás da Berry.”

Os olhos oceanos transbordaram. Deixar a namorada naquela situação sozinha só podia resultar um final extremamente ruim. Não queria pensar nisso.

Perdê-la era um preço terrível.

“Eu não posso.” Suplicou a beira de lágrimas. “Amo você.”

Santana acariciou a orelha dela com o focinho. Fechou os olhos por um segundo e reabriu-os para encontrar um ataque brutal do lobo azul. Ela só tinha um segundo.

“Então faça isso por mim.”

Separaram-se quando a latina empurrou uma pata no rosto do oponente, seguida de muitas outras. Brittany deu uma última olhada antes de sumir por entre as árvores. Uma decida decisiva.

Mercedes se recompôs com fúria renovada.

“Vou matar você.”

A latina abaixou os olhos e sentiu as pernas fraquejarem. Estava exausta.

“Eu sei.”

Foi jogada no chão sem piedade para receber uma nova sessão de jabes.

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Rachel foi atirada contra um mutirão de espinhos gordos. Uivou em agonia quando uma pata mutilou o peito arfante, imprensando ainda mais suas costas contra as navalhas naturais.

O lobo a segurou, sorrindo vitorioso.

“Você não precisará das patas para andar.” Sibilou maquiavélico. “Vou levá-la pelos dentes.”

Ouvir isso foi um insulto grande demais. Morrer para o bem de todos era perfeitamente plausível, mas ser humilhada? Não se ela pudesse fazer algo a respeito. Prensou as patas ensanguentadas contra as pernas dele, fazendo-o perder o equilíbrio e cair.

Investiu uma combinação de dentes, garras e cabeçadas contra o tronco oposto.

Num minuto o lobo intacto quebrou-se em vários.

“Não é bonito machucar as pessoas, muito menos ficar se vangloriando disso.” Rosnou entre dentes. “Espero que tenha aprendido a lição.”

O chão tremeu as costas deles nesse exato momento. Um galho se exaltou. Tinha mais alguém ali. Rachel teve esperanças de que fosse algum reforço, qualquer um com boas intenções.

Aguardou um segundo.

Um fato trágico:

Você está pensando em uma pessoa, só posso afirmar uma sentença: Não é ela.

Quem dera fosse Brittany para interceptá-la a tempo. Pronta para ajudá-la, mas isso não é uma fantasia onde tudo é bom. Coisas ruins acontecem. Não sei explicar o porquê, só resta tentar aceitar.

Surgiu um batalhão de lobos brancos. Seis de porte maciço, cada qual cercando o lobo vermelho por todos os lados.

“Acabou, Berry.”

O lobo de maior destreza caminhou até o alvo. Jogou-a no chão com uma das patas e fixou-a travando a mandíbula em seu pescoço.

Uma brutalidade desnecessária.

Brittany observava tudo de trás de um arbusto. O coração acompanhou seus olhos num choro mudo. Não conseguiu chegar a tempo. Como fazer alguma coisa agora sem ser taxada como traidora?

Tarde demais.

Rachel estava perdida.

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A luta floresceu a todo vapor sobre os vastos campos de lama. A chuva obliterou o sol transformando o dia em cinzas. O exército vermelho estava quase extinto. As baixas eram visíveis até para os leigos.

Vovó Abby contornou alguns lobos e derrubou todos que insistiram em lhe atacar, provando que idade e força estão longe de ser sinônimos.

Adam estava com uma fratura exposta na perna direita, mas permanecia de pé no meio do sangue e terra.

Os lobos do norte permaneceram em seu trono dourado. Todos os pontos indicavam uma vitória iminente. Russel aguardava exalando satisfação, mas não podia ser dito o mesmo de sua filha.

Quinn permanecia sobre a pedra de observação. Foi alívio avistar Brittany correndo ao seu encontro, mas rapidamente, o puro terror no rosto da amiga diluiu suas últimas esperanças.

“Sinto muito, Quinn.” Sussurrou.

O pedido de desculpas foi carimbado com a aparição de um grupo de lobos brancos carregando um pequeno lobo avermelhado. Um coração gritou no meio da multidão, vindo de um peito pálido que observava Rachel sendo arrastada por um colar de dentes mutilando seu pescoço.

O mundo virou um borrão.

Ela sentiu uma tonteira nauseante antes de ser obrigada a se recompor.

Um pensamento desesperado:

“Não, por favor. Não, isso não pode estar acontecendo.”

De repente não havia mais luz no fim do túnel ou qualquer outro clichê eventual que pudesse salvá-las. Era chegado o momento. Aquele. Todos os passos culminaram nesse instante.

“Rachel!” Seus familiares gritaram do outro lado da infantaria.

O silêncio foi ficando cada vez mais pesado a medida que era percebido a chegada do desfecho. Quinn podia sentir milhões de olhos mudando para sua direção. Todos esperavam. Coisas diferentes.

Uns queriam o fim.

Outros, uma chance de recomeço.

Mas o veredicto era exclusivamente dela.

“Termine.” Russel ordenou.

Caminhou até o corpo inerte do lobo vermelho. O céu chorava manchando a terra de culpa. Quinn parou a alguns centímetros com o coração desenfreado na garganta, olhos atormentados e patas trêmulas.

Foi naquele instante que um sorriso impossível surgiu no lobo vermelho.

Naquele estado lamentável, doloroso e humilhante, Rachel conseguiu lhe dar um último adeus caloroso. Como se dissesse sem palavras: “Está tudo bem.” Olhos chocolate sumiram na imensidão do medo.

O lobo branco ergueu a pata o mais alto que pode. Ocultou o sol ao tomar um gole de ar triturante. Por um segundo, só o silêncio podia ser ouvido. Ninguém mais lutava, só observavam. Viram as garras cintilarem na claridade, descendo do céu em direção ao alvo.

Um segundo passou.

A pata afiada colidiu...

Uma continuação almejada:

...Contra a terra.

Não sei quantos estágios de silêncio existem, mas cada um parece ser um pouco diferente, talvez seja por causa da situação ou apenas minha imaginação humilde, mas o vazio de barulho que procedeu a essa cena foi o mais pesado de toda a vida de Quinn.

Suas patas adormeceram ao lado da cabeça de Rachel.

Um gesto de matar palavras.

“O que está fazendo?” Russel perguntou em total perplexidade.

A filha não deu atenção. Abaixou lentamente até estar na altura dos olhos chocolate abertos em total descrença. Sussurrou: “Venha comigo.” e sem mais explicações correu para a lateral no pico.

“Não.” O chefe do clã branco cuspiu fogo.

Rachel ficou de pé a muito custo. Russel tentou interceptá-la, mas foi bloqueado por Adam. O pai deu sinal para que ela prosseguisse. Assim foi feito. O caos voltou a se instalar, agora mais intenso.

E desesperador.

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Santana tinha a lateral direita do corpo aos pedaços. O cansaço impediu uma defesa decente. Mercedes jogou-a contra o vão do precipício. Um único passo a mais e ela cairia no leito de pedras robustas.

“Nós só queríamos ajudar.” Apresou-se a falar com a boca de sangue.

O lobo azul enrugou a face.

“Por que vocês fariam isso?”

A imensidão marrom tingida de vermelho fixou as patas dianteiras no chão com total esforço. Nunca pensou em como iria morrer, mas não partiria dessa vida caída. Se quisessem aniquilá-la teriam que jogá-la dos céus.

“Existe algumas coisas que vocês não sabem.” Sussurrou. “Tudo mudou.”

“Quer que eu acredite em você?”

Santana assentiu. Mercedes apenas fez um gesto limitado indicando que ela devia ter enlouquecido ou se acovardado na hora de ouro. Um empurrão e a luta teria fim. A aproximação sorrateira veio em forma de sussurro, passos marcaram o trajeto da morte. Uma pata mirou contra a cabeça do lobo marrom.

Um grito finalizou o embate.

“Ela não matou a Rachel!” Sam e Brittany correram em socorro da latina. “Afaste-se da minha namorada.”

Os olhos do lobo azul engordaram.

“Como assim? Por que ela fez isso?”

Brittany postou-se ao lado de Santana. Sam tomou conta da retaguarda porque Tina acabara de acordar. Não havia mais razão para esconder a verdade, depois de Quinn ter se rebelado contra seu próprio clã, nada mais importava.

Contaram tudo.

“Elas estão...

“Juntas?” Tina completou incrédula.

Os três lobos opostos assentiram. Santana conseguiu formar um sorriso decente. Sentia dores por todo corpo, mas estava feliz porque, qualquer que fosse o plano de Quinn, a amiga tinha sido bem sucedida diante das dificuldades.

Um pequeno detalhe que passou despercebido:

Um rosto foi manchado.

Num milésimo de segundo Brittany caiu algumas notas. Baixou a cabeça em silêncio e prendeu os soluços. Em vão.

“Por que você está chorando?” Santana interpôs. “Quinn conseguiu, não matou a Berry, era o plano dela desde o...

Houve um momento de paralisia esmagador. Brittany a olhou desamparada e ela finalmente entendeu a razão de tanto desespero. Todo o plano arquitetado pela amiga era passível de um preço.

Impossível de aceitar.

O que realmente mudou:

O carrasco e o culpado permaneceram na arena.

Eles só trocaram de lugar.

“Não! Ela não pode fazer isso...” Exaltou em descontrole. “Não vou deixar.”

Toda a dor física foi preenchida por uma emocional deveras pior. Santana não ligou para os tendões arrebentados, ossos fraturados ou pele dilacerada. Precisava encontrar a melhor amiga antes que ela cometesse uma loucura sem volta.

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Anos seguindo o mais puro e incontestável ódio formaram os pilares do evento ocorrido. Cursaram pelo caminho desse sentimento intruso até que sorrateiramente seu pior e mais forte inimigo conseguiu desmontar seus alicerces.

Amor.

De alguma maneira, elas sempre estariam juntas. No fim, uma estaria esperando pela outra.

“Cadê você?”

Rachel tinha a pata direita latejando em protesto. Perdeu o rastro de Quinn por alguns segundos e teve que optar por seguir suas pegadas. Desembocou na entrada de um precipício. Sétimo pico.

O final dele estava preenchido por um lobo branco.

Esse ser feito de neve estava sentado, observando-a, com a face indecifrável.

O lobo vermelho tremeu ao vê-la tão próxima da beirada.

Um lembrete oportuno:

“As beiradas são extremamente erosivas por conta das chuvas.”

“O que você está fazendo?” Foi se aproximando devagar. Passo à passo. Sua antagonista não mexia um músculo sequer. “Quinn, saia daí. É perigoso.” Não houve resposta, nem movimento.

O lobo vermelho continuou até que uma lasca de tremor a fez parar. Seu peso confeccionou uma rachadura no chão previamente fragilizado. A partir dele, um emaranhado de linhas foi sendo desenhado até encontrarem as patas de giz.

Um último encontro de olhares.

E tudo veio abaixo.

O chão sob os pés de Quinn se desfez. Ela caiu nos braços do vento para ser arrastada para o fundo. Vinte metros, até o encontro inoportuno de tapetes de pedra.

“Não.” Santana chegou à cena. Tarde demais.

No topo dos céus e auge da dor um lobo vermelho uivou.

Notas finais
O plano da Quinn será explicado em detalhes no próximo capítulo( que é o último, mas ainda tem muita coisa para acontecer). Não esqueçam que teremos um epílogo. Completando 21 capítulos. Até o próximo.