Glee-21-Faberry

13 He won't go. Part 2


Notas iniciais
Eu adorei os comentários do capítulo passado. Vocês foram tão compreensíveis. Obrigada pelo carinho imenso que vocês têm por essa história. O capítulo demorou porque foi um dos mais intensos para escrever. Juntei meu emocional dos últimos dias e fui transformando em palavras.Sem mais delongas. Boa leitura.

“So petrified, I'm so scared to step into this ride, what if I lose my heart and fail declined? I won't forgive me if i give up trying.”

Houve um momento inquietante de hesitação. Só os olhares batalhavam corroendo a carne, tentando encontrar um atalho até a alma. O silêncio engolfou-os numa prece curiosa, o único som vivo era o de suas respirações cortantes.

_ Quinn...

Não houve resposta. O vento sibilou um lamento explosivo pelo vale. Um tiro foi dado.

_ Ponha o cinto!_ alertou a motorista.

O mustang arrancou num grito de guerra. As rodas seguiram a figura do lobo negro que disparou em retirada quando o gigante de metal tentou acertá-lo. A criatura manobrou a curva e embrenhou-se no meio das árvores. Houve uma segunda freada naquela noite e muitos resmungos.

Elas saíram do carro.

_ Fique aqui, Rachel.

Sombrancelhas negras alcançaram o ar em pura negação.

_ Você me treinou.

_ Não sei se está pronta._ retrucou.

_ Eu vou._ rubricou um ponto final na discussão, transformando-se em um amontoado de pelos vermelhos.

Quinn maneou a cabeça e bufou vencida. Sentiu o coração quebrar no peito e seu ritmo cardíaco ir até a lua, num instante já não era mais uma menina, mas sim um animal cor de gelo. Apontou para a escuridão florestal e começaram a corrida.

_________x________

O vento trincava a pele e jorrava jatos de ar em seus ouvidos. A noite cantava sua canção assombrosa. Quanto mais corriam pela horda de árvores, maior o medo se tornava. Quinn olhou para os lados, Rachel estava um pouco mais a sua frente, empurrando o chão com uma vivacidade valente.

Mas havia um pequeno e crucial problema.

Uma triste certeza:

Elas estavam caminhando para uma armadilha.

O lobo branco sabia que Jesse às estava atraindo para algum tipo de precipício hostil pela inclinação que a montanha possuía. Só esperava que o fato de Rachel ter se juntado à ela servisse para acabar com seus planos. O fator surpresa era sua única arma.

“Tome cuidado!”_ alertou à pequena.

Diminuíram o ritmo ao chegar no ápice. Apertaram os olhos para enxergar por trás da escuridão. A luz do luar ajudou a iluminar o palco do ato principal. Uma ordenha de espinhos cobria boa parte do pico. As pontas cintilavam como navalha recém-afiada e riam para suas vítimas.

“Não acredito que você a trouxe.”_ Jesse saiu de trás de uma árvore e caminhou para o meio da arena. “Sabe que não vou hesitar em matar as duas.”

Quinn carregou um rosnado sombrio originado em seu peito e meteu a pata no chão com força. Deixou bem claro que não permitiria que aquela ameaça se tornasse real.

“Se fizer algum mal a ela, arranco sua cabeça!”_ protestou.

“Como você pode ser tão cega?”_ agora ele se dirigia exclusivamente ao lobo vermelho. “Não vê que está do lado errado? Isso não passa de um plano deles para te controlar.”

“Não fale do que não sabe, Jesse.”

Ele abaixou a cabeça e fechou os olhos cansados. Bufou seu rendimento e voltou a mostrar a intensidade cor de sangue.

“No fim, ela vai te matar.”_ ditou. “Quando acreditar em mim será tarde mais.”

O lobo branco não suportou ouvir isso. Calúnias infindáveis. Pulou em cima do lobo negro e deu início a batalha. Jesse desviou da mandíbula dela e deu-lhe uma patada no rosto. Quinn recuou alguns passos para trás e retribuiu o golpe, errando por pouco.

O lobo vermelho foi ao seu socorro e deu um murro no queixo do negro. Jesse cambaleou para o lado, encarando-a com uma fúria nunca vista.

“Dois contra um.”_ riu debochado. “Quanta justiça!”

“Falou o dono da verdade que mata crianças para ficar mais forte.”_ Quinn rebateu.

Jesse investiu a garra direita contra o ombro do lobo vermelho, fazendo-a vacilar e cair no chão maciço. Quinn abocanhou seu ombro e jogou-o para o lado, aproveitou sua guarda baixa e empurrou-o contra um punhado arrebatador de espinhos. Um grito foi tirado de sua garganta quando a pele foi dilacerada pelos galhos.

“Vai pagar por isso!”

Ele saiu da cova de agulhas, rasgando mais carne no ato. Rumou até ela e deu-lhe uma cabeçada violenta no tronco. Jogou-a no chão e pisou em suas costelas. O lobo vermelho tentou empurrá-lo para trás, mas recebeu um coice e voou contra uma árvore. Jesse martelou os ombros e patas do lobo branco, adorando ouvir cada nota de seu sofrimento.

“Isso é pelo meu pai.”

Levantou a garra o mais alto que pôde pronto para degolá-la quando sentiu o ombro arder em chamas. O lobo vermelho pulou em cima dele e enfiou os dentes em seu âmago. Gritou desamparado se movendo para todos os lados. Chegou perto de uma árvore e jogou-se de costas, fazendo Rachel ser esmurrada contra a solidez de madeira.

“Idiota!”_ xingou-a. “Deixe-me cavar sua sepultura já que você quer tanto morrer.”

Uma enxurrada de golpes começou a ser desprendida contra ela.

Quinn estava no chão. Mal tinha forças para levantar. Olhava aquela cena horripilante sem conseguir reagir. Jesse matando Rachel sem um pingo de clemência. Seu coração sangrou. O desespero começou a invadi-la quando os gritos tornaram-se cada vez mais vivos.

“Rachel!”

Como ela pode deixá-la vir? Era sua responsabilidade. Seu dever protegê-la. Tinha que haver uma saída. Qualquer uma. Foi então que a solução para o problema formou um desenho na frente de seus olhos.

A única saída:

Eles estavam muito perto da beira do penhasco. Perto o bastante.

Ela não tinha forças para voltar a lutar normalmente, mas ainda tinha um vestígio de energia para um último ato desesperado. Inflou os pulmões com ar. Agarrou-se a terra e impulsionou as pernas na direção dele.

Uma cabeçada. O fim de uma surra. Dois corpos despencando do penhasco.

“Quinn!”_ Rachel gritou lá do topo.

O lobo branco caiu direto na água gélida. O lobo negro bateu contra um rochedo e parou torto sobre uma pedra, gritou quando sua coluna rachou ao meio, sentiu a pata ser cortada por uma ponta afiada de rocha e como se não bastasse, um punhado de grandes pedras desmoronou sobre sua cabeça. Uma de cada vez, até formar um verdadeiro monte erguido pela morte.

Uma alma acabara de partir para o outro mundo.

E não faria a menor falta nesse.

Rachel viu os olhos vermelhos de Jesse ficarem negros. Seu sangue escorreu pelas pedras como uma cascata rubra. Era o fim. Respirou fundo e buscou quem realmente importava. Vasculhou o vasto rio com os olhos, mas não conseguiu ver nada.

“Meu Deus!”

_ Rachel!

Para sua imensa surpresa, sua avó e Noah chegaram até aquela cena lamentável. Correram ao seu socorro e a tiraram de lá sob seus protestos.

_ A vovó ouviu o seu uivo._ disse seu irmão, carregando-a nos braços._ Você está bem?

_ Quinn._ ela só conseguia repetir o nome dela._ Precisamos encontrá-la.

_ Não se preocupe, querida. _ Vovó Abby pediu.

Mesmo naquele momento caótico a velha senhora tinha uma segurança e calma inabaláveis, porque no fundo sabia de mais coisas do que deixava transparecer. E também possuía o dom de acreditar no melhor.

O pensamento silencioso de vovó Abby:

“Ela irá nos encontrar.”

___________x____________

A água congelada afogou seus pulmões. Criou uma pressão intracraniana quase insuportável. Um milhão de facas trituraram seu corpo e mesmo diante de toda a dor ela conseguiu forças para alcançar a margem e sair daquele inferno de frio.

Soltou o corpo sobre a terra fofa, sentiu a lama convidativa acolher seus membros cortados. Cada músculo e fio de nervo do seu corpo gritava em conjunto. Absorveu um punhado de ar refrescante que reabasteceu seu espírito enfraquecido.

Onde eu estou?

Olhou ao redor e só diferiu a escuridão esmagadora. Não reconhecia aquele lugar. Estava totalmente desorientada. Sentiu o pânico começar a preenchê-la. Precisava voltar. Saber se tudo estava bem. Ela jogara Jesse penhasco abaixo, mas não tinha idéia do desfecho de seu sacrifício.

Rachel...

Todos os seus pensamentos se voltaram para ela. E se estivesse ferida? Precisando de ajuda? E se... Não. Deu fim aos devaneios e juntou seu último resquício de força para impulsionar o corpo ferido a caminhar pelas margens do rio.

Ela tinha que ter certeza de que a morena estava bem.

Só isso importava agora. A dor ficaria para depois.

Preciso achar o caminho de volta.

Não soube explicar o porquê de seus olhos correrem para cima. Num impulso sem sentido, encontrou a luz que precisava. Quinn podia ter ensinado Rachel a lutar, mas também aprendera muito com a mesma.

Resumindo a relação delas:

Uma troca de carinhos. Uma troca de saberes.

Nunca havia ficado tão feliz de encontrar uma estrela no céu como naquele momento. De repente as palavras de Rachel cavalgaram até seus ouvidos: “As estrelas são os guias mais confiáveis que existem!”. Sorriu uma lua cheia.

Lá está ela! A Ursa... como é mesmo que a Rachel falou? Ursa grande, ursa gorda, ursa... URSA MAIOR.

Caminhou trôpega, rumo ao caminho que a estrela estendeu em sua direção. As árvores curvaram-se para ela e o vento acariciou sua pelagem. Sentiu uma confiança acalentadora invadi-la e rumou para o norte.

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Roupas. Cobertor quente. Café fumegante. Tudo que uma pessoa precisa para não morrer congelada, mas era impossível parar de tremer. Rachel mantinha uma postura rígida e extremamente preocupada sentada no capô do mustang. Possuía alguns cortes rasos que estavam sendo tratados.

_ Ela acertou-o e jogou os dois do penhasco._ terminou de contar a história para seus parentes._ Para me salvar._ engasgou a última frase.

Noah tinha a testa enrugada para a sentença. Havia buscado uma xícara de café para sua irmã num bar próximo de onde estavam e ouviu a história completamente pasmo. Quinn Fabray salvara sua irmã e a família Berry estava em dívida com ela.

_ Cada dia, gosto mais dessa menina._ falou vovó Abby alegre.

_ Vovó._ a caneca estava titubeando na mão dela._ E se ela...

A velha senhora lhe direcionou um sorriso acolhedor. Aproximou-se dela e a envolveu nos braços. Olhou nas margens amarronzadas e afagou suas maçãs do rosto.

_ Confie em mim, querida.

Rachel apertou o moletom de sua avó com força e afundou o rosto no seu ombro. Rezou silenciosamente para que sua parenta estivesse certa. Um galho fez um barulho distinto atrás delas. O abraço foi quebrado.

Eles aguardaram em silêncio.

____________x_____________

Depois de descer uma colina íngreme, alcançou uma casa antiga e robusta. Caminhou pela varanda e furtou uma camisa xadrez do varal. Correu para trás de uma árvore e vestiu-a. Por sorte era bem maior que ela e lhe cobria até um pouco abaixo das cochas.

Apertou o peito sentindo uma asfixia repentina roubar-lhe o ar. Balançou a cabeça para os lados concentrando suas forças em seguir o caminho que havia escolhido.

Não podia parar agora.

Só iria descansar depois que tivesse certeza da segurança de Rachel.

Vamos estrela, me ajuda.

O sangue pintou boa parte de sua palidez. Havia uma nova coleção de cortes e machucados variáveis. Ela era uma digníssima sobrevivente, ninguém poderia dizer o contrário. Algumas luzes apareceram na sua linha de visão. Pensou estar delirando no começo, mas resolveu seguir em frente.

Um passo. Dois. Três...

Um galho foi tirado do caminho e a estrada a cumprimentou. Olhou para o lado e para sua imensa surpresa avistou seu carro acompanhado por três integrantes. Noah Berry com as mãos nos bolsos e uma espécie de sorriso aliviado. Vovó Abby com as mãos sobre a bengala lhe dando um carinhoso aceno e Rachel.

Enrolada num cobertor. Olhando-a como se não acreditasse que ela estava ali de verdade. Permaneceram assim, se entreolhando, até tomarem consciência da realidade.

Estavam vivas. Venceram.

_ Quinn...

As pernas fracas tremeram e desabaram. Caiu de lado no chão, consumida pelo cansaço, mas com o seu sorriso satisfeito estampado no rosto. Rachel correu até ela e puxou-a com cuidado para o seu colo, também sorria abertamente, olhando-a de cima a baixo para ter certeza de sua integridade.

_ Você tinha razão.

_ Sobre o quê?_ Rachel afagou-lhe a face.

_ Elas são mesmo guias confiáveis.

E o mundo apagou.

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Rachel foi para a escola no dia seguinte sob as ordens de sua avó. O tempo passou lento e torturador naquele dia, porque ela só conseguia pensar na menina deitada em sua cama, choramingando de dor em minutos curtos de intervalos. Passou a noite em claro, segurando a mão dela e não via a hora de voltar.

O sinal finalmente a libertou.

Chegou em casa numa carreira ilustre. Rumou direto para o quarto e abriu a porta com tudo para dar de cara com uma cena um tanto quanto incomum. Vovó Abby sentada na cama, de costas para a porta, segurando um punhado de cartas nas mãos. Quinn com a testa cerrada abaixando um jogo pouco promissor.

_ Um par de reis._ anunciou sua barganha.

_ Uma trinca de cincos._ retrucou a velha senhora.

Quinn bufou, já era a quinta rodada que perdia. Desviou os olhos de sua falência particular e direcionou para algo, ou melhor, alguém muito mais interessante.

_ Oi.

Elas ficaram em silêncio se fitando por tempo indefinido. Vovó Abby coçou a garganta e levantou se despedindo, alegando ter que comer um cacho inteiro de uvas antes que Adam às encontrasse primeiro.

_ Sua avó é o máximo!_ falou a enferma._ Ela me ensinou a jogar pocker, mas eu não sou muito boa, apostei boa parte dos meus pertences, só tinha minhas roupas sobrando, ainda bem que você chegou antes que as perdes...

As palavras morreram em algum lugar sem importância. Quinn levou um susto quando Rachel caminhou decidida em sua direção e lhe tomou os lábios num beijo exigente. Sempre era a loira que dava inicio as suas sessões de carícias, ela nunca tinha dado o primeiro passo. Até agora.

_ Rachel..._ Quinn sussurrou num intervalo curto.

Mãos pequenas enrolaram os cabelos dourados e lábios volumosos a tomaram para si. Rachel guiou o beijo, ateando fogo ao lábio superior de Quinn, afagando a língua com a dela. Puxou-a pela cintura e apertou um último toque estalado em sua boca para somente depois quebrar o contato intenso.

_ Estou tão aliviada em te ver.

_ Percebi._ a loira riu._ Também estou.

Deixaram o silêncio lhes tomar o tempo. As testas estavam curtamente unidas e suas respirações dançavam uma valsa calma, misturando-se no ar. Quinn matinha seu sorriso característico vivo e estava enfaixada da cabeça aos pés. Quase uma múmia, só que mais bonita e viva.

_ Liguei para o Sam hoje cedo._ sussurrou, afagando a pele macia de sua namorada._ Recebi o mais longo e tedioso sermão da minha vida, depois que ele descarregou a raiva contei a história e ele recomeçou a me bronquear..._ deu uma risada curta._ Pedi que inventasse uma história para os meus pais sobre o meu sumiço nesse fim de semana e mesmo a contragosto, ele concordou.

_ No fim de semana?

_É._ corou._ Eu estava pensando em passá-lo aqui, não queria ter que chegar na casa dos Lopez toda arrebentada. _ arrumou uma mecha atrás da orelha._ Senão for incomodo.

Rachel corou e revirou os olhos assentindo.

_ Sua amiga não vai dar falta do seu sumiço?

_ Santana passa os fins de semana na casa da Britt._ deu de ombros._ Agora que elas brigaram aposto que ficaram muito ocupadas fazendo as pazes.

Quinn deu uma piscadela. Seus olhos brilharam de uma forma diferente naquele momento, um misto de felicidade e apreciação. Enrolou a mão na cintura de Rachel e a puxou para um novo beijo, calmo, suave.

_ Você irá dormir no meu quarto, senhorita Fabray.

O susto foi tão grande que elas se separaram. Rachel levantando da cama e Quinn batendo a cabeça já fragilizada na guarda de madeira. Corou fervorosamente quando a avó da morena as pegou no flagra.

_ Sim, senhora._ apressou-se a confirmar.

_ Você precisa lavar os curativos._ vovó Abby falou lhe dando um sorriso._ Ajude-a, Rachel.

Sombrancelhas morenas subiram alguns degraus nas rugas de sua testa. Ela estava falando sério?

Não posso dormir com ela, mas ela pode me dar banho. Vai entender.

_________x__________

Rachel cedeu um ombro para servir de apoio para Quinn. Guiou-a até o banheiro, deu um tapinha na luz e ajudou-a a sentar na tampa do sanitário. Ajoelhou na sua frente. Engoliu em seco e corou antes de colocar as mãos na barra de sua camisa.

_ Levanta os braços._ pediu.

Assim foi feito. Ela resmungou um pouco no ato. Qualquer movimento por mais leve que fosse lhe causava uma ardência potente nos novos machucados. Uma gaze extensa, manchada de vermelho na lateral lhe cobria toda a barriga. Foi delicadamente desenrolada e jogada na lata de lixo. Tinha um buraco imenso abaixo das costelas dela.

_ Dói muito?_ perguntou passando os dedos de leve sobre a ferida.

Quinn assentiu. O curativo de sua testa foi prontamente removido, junto com o de suas pernas e braços. Preferiu ficar com a roupa de baixo para que a situação não ficasse mais embaraçosa, apoiou um braço no pescoço moreno e juntas entraram no boxe.

_ Diga que vocês têm água quente, por favor.

_ Claro que sim.

_ Na minha antiga casa não tinha._ encostou na parede buscando apoio._ E minha mãe me perguntava porque eu não gostava de tomar banho.

Depois de um tempo ela preferiu sentar embaixo da água quentinha, pois o esforço de ficar em pé era deveras doloroso. Rachel ficou de joelhos na sua frente. Uma sensação de alívio inundou seu âmago quando a água lavou toda sua alma.

_ E essas cicatrizes?

Havia um punhado quase invisível de marcas espalhados pelo corpo pálido. Quinn contraiu os lábios. Eram suas recompensas de guerra. As medalhas de várias batalhas. Seus fardos eternos.

_ Ganhei durante o treinamento._ deu de ombros._ Mas o pior que eu lembro ter tido até hoje foi quando cai de um morro tentando fugir de um primo. Bati a cabeça e quebrei as duas pernas, fiquei de cama por uma semana até que meus ossos se regenerassem.

_ Você não merece isso.

Rachel deixou escapar sem perceber enquanto observava um arranhão particularmente fundo na perna direita dela. Quinn sorriu de lado com os cabelos molhados grudados na testa. Era tão bom ver alguém se importando mais com sua integridade do que com a ordem estúpida de alguns espíritos.

_ Foi ruim._ afagou a mão morena apoiada em seu joelho._ Mas ao mesmo tempo, me fez ficar mais forte, destemida.

Não importa quanta coisa ruim você passe na vida, há sempre uma lição não pronunciada para se aprender. Ela captou essa essência e transformou num hino que sempre cantarolava mentalmente.

Notas de um coração:

É sempre possível encontrar uma coisa boa numa situação ruim.

Ela estava viva até hoje. Os treinamentos brutos foram essenciais para realizar essa proeza.

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Quinn recebeu novos curativos e foi estirada na cama de solteiro de Rachel. Sorriu ao constatar a melhora rápida no corpo. Segunda, muito provavelmente, só os ferimentos mais fundos estariam levemente visíveis e ela poderia camuflá-los sem problemas.

_ Por que esses são seus livros preferidos?

A pequena estava folheando alguns papéis na gaveta e parou no ato para respondê-la. Virou o corpo para sua coleção imaculada. Correu a ponta dos dedos sobre eles, absorvendo a sensação boa de papel gasto.

_ Eram da minha mãe.

Com um esforço, Quinn se pôs ao lado dela. Observou-a admirando os livros, com os olhos baixos e um suspiro ínfimo.

_ Não precisa falar sobre isso.

_ Tudo bem._ rebateu._ É que você vai achar bobagem da minha parte, mas..._ virou o corpo de frente para ela._ Minha avó disse que quando eu estava na barriga dela, ela costumava lê-los em voz alta para que eu também ouvisse._ deu um riso triste._ E eu não sei como, mas eu lembro como era.

_ O quê?

_ A voz dela._ os olhos chocolate brilharam._ Sempre que eu leio as palavras desses livros parece que fica mais nítida._ ela sorria abertamente agora._ Como se ela estivesse aqui.

Havia um misto indistinto de afeto vindo dos olhos avelã. Quinn adorava vê-la sorrir daquele jeito desprendido, livre e despreocupado. Os lábios repuxavam formando covinhas adoráveis no vão de suas bochechas.

Uma beleza delicada de sorriso.

_ Você deve estar me achando uma boba._ riu de si mesma e balançou a cabeça para os lados.

_ Não._ deu de ombros._ Eu acho incrível._ Rachel ficou rubra._ Esta faltando um._ observou.

_ Eu sei. Ela tinha a coleção completa._ enrugou a testa tentando se lembrar._ Não sei como ela foi perdê-lo.

Quinn bufou. Esperava dar o livro da biblioteca de sua mãe para ela, no intuito de fazê-la feliz, mas agora sabendo a origem dos outros viu que um simples livro não faria diferença. Tinha que ser aquele que Shelby Berry carregava e lia para ela. Que estava perdido.

O destino não fora muito solidário.

O hospital. Livros. Tudo era como um grande quebra-cabeça que trazia um pouco mais de Shelby até Rachel. Privilégios merecidos. Necessários.

Sinto muito, Rachel!

Amaldiçoou a sua falta de sorte. Todo o seu plano de entregar o livro virara um monte de cinzas. Só que havia um fato desconhecido, que faria toda a diferença numa hora crucial.

Uma observação meticulosa:

O destino nunca erra.

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Um ronco ruidosamente estrondoso fez tremer as paredes do quarto de vovó Abby. Quinn tapou os ouvidos deitada na “cama de baixo”. Já havia se passado umas duas horas e nada dela pegar no sono. Muito provavelmente por causa do princípio de terremoto sobre sua cabeça.

Ela puxou a única coisa que tinha em mãos para distração. O celular.

Quinn: Sua avó ronca com uma perícia impecável.

Enviou para Rachel. Segundos depois seu celular chamou sua atenção.

Rachel: Vem pro meu quarto.

Arregalou os olhos para a mensagem. Ouviu alguns resmungos da velha senhora que já havia dialogado com Stalin, Mussolini e até Adolf em menos de três horas de sono.

Quinn: Acho melhor não desobedecer uma veterana de guerra. Ela está abraçada com a bengala.

Minutos depois a porta do quarto abriu lentamente. Pequenos pés caminharam silenciosos até seu encontro.

_ Vamos lá._ Rachel puxou-a pela mão._ Você não vai conseguir dormir aqui.

Num desconforto aliviado ela levantou e recebeu o apoio necessário para caminhar. Atravessaram o corredor fazendo um ruído surdo. Quinn deitou na cama e Rachel se jogou ao seu lado. Puxaram a coberta até a base de suas cinturas.

_ A janela está aberta?

_ Por quê?_ Rachel questionou.

_ Caso sua avó apareça._ tremeu._ Pular é minha melhor chance de sobreviver.

Rachel riu e escondeu a cabeça no pescoço pálido. Espirou ar quente calmo contra a pele sensível que se arrepiou. Quinn umedeceu os lábios em resposta e acariciou os cabelos negros.

_ Quer voltar para lá?

Depositou um beijo molhado no nódulo da orelha dela. A resposta era óbvia.

_ Não.

Passaram a noite conversando sobre coisas banais até que o sono venceu a batalha. Dormiram profundamente em conforto mutuo. Uma pena que estivesse prestes a acabar.

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Domingo veio rápido e trouxe uma bela inspeção pelos ferimentos já quase curados da loira. Sam ligara duas vezes para saber sobre seu estado. Na primeira parecia um pouco agressivo, mas foi maneirando de acordo com o tempo.

Uma rápida observação:

O tempo concerta tudo.

Corações quebrados. Perdas dolorosas. Conflitos sem sentido. Mágoas familiares. O relógio caminha e todos esses sentimentos vão apaziguando até que começam a perder peso. Emagrecem. Tornam-se desnutridos, até sucumbirem.

O tempo é o senhor das pazes.

Sam perdoaria Quinn. Quando chegasse a hora certa.

_ Acabou.

Rachel estava sentada no chão, apoiada de costas para a cama, lendo um livro qualquer em voz alta. Quinn estava logo acima massageando seus longos cabelos e interrompendo-a.

_ O quê?_ fechou o livro e virou para ela com as sombrancelhas altas.

_ O perigo.

Então ela captou a mensagem. Seus olhos tremeram. Estavam prestes a entrar no assunto que ela vinha tentando evitar durante as últimas horas. Quinn havia percebido e respeitado o tempo dela, mas uma hora precisariam conversar sobre isso.

_ Eu sei._ abaixou os olhos e virou de costas.

_ Não fique triste, você não fez nada de errado._ ela desceu e sentou ao lado dela._ Salvou a vida de muitas pessoas parando o Jesse. Principalmente a minha.

Houve um momento de silêncio pesado. Rachel se afastou e caminhou para perto da janela. Já era noite. Uma nebulosa roxa pingada de luz se estendeu no horizonte. Ela fechou os olhos e respirou fundo.

_ Rachel...

_ Não é por isso que eu..._ seus braços penderam ao lado do corpo. Todo seu sistema nervoso estava começando a entrar em colapso._ Só não vamos falar disso, por favor.

Quinn assentiu. Foi até ela e a rodeou com os braços. Sentiu-a apertar sua cintura e descansar a cabeça no seu pescoço.

_ Estou do seu lado para tudo._ Quinn sussurrou.

Ela tremeu. Afagou-a com mais ânsia. Absorvendo-a. Cada traço, cheiro, gosto. Levou os lábios aos dela e deixou-se levar pela vontade. Contornou sua boca e alcançou um encaixe perfeito.

Alguma coisa trincou dentro dela.

Cacos de vidro vermelho.

Elas tinham pouco tempo.

Quando Quinn falou “acabou” ela não pensou no perigo ao qual elas tinham livrado as crianças. Não pensou na segurança de Quinn. Nem na dela própria. Um tanto quanto egoísta e muito fora de suas características, mas ela não pode evitar. Porque naquele momento a única coisa que veio a sua mente era a realidade de que o que às ligava havia se perdido.

Resumindo o acabou para Rachel Berry:

“Nós.”

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O dia seguinte correu bem. Quinn foi para casa na parte da manhã reluzente. Sam lhe deu um sermão típico e rumou enfurecido para o quarto. Santana voltou com um sorriso muito sugestivo. A escola estava um pouco mais agitada do que de costume.

Uma notícia de morte corria feito bala perdida por entre as paredes. O garoto de preto havia sofrido um ataque de algum animal e caído de um penhasco, segundo as autoridades. A verdade, no entanto, eles jamais saberiam.

Finalmente um grito do sino libertou suas algemas.

_ Quero ir ao hospital._ Rachel falou olhando para o chão do carro.

Quinn olhou-a pelo retrovisor. A morena poupara palavras o dia inteiro. Havia alguma coisa diferente, mas ela não quis perguntar. Quando estivesse pronta, Rachel falaria.

_ Agora?_ olhou no relógio. O dia ainda estava claro.

A pequena assentiu.

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Quinn puxou Peter para o colo e lhe fez cócegas fervorosas na barriga. O menino gargalhou em súplica. Ele rodopiou-a e algemou seu pescoço com os braços.

_ Peguei você._ falou orgulhoso.

As duas sombrancelhas loiras foram parar no alto.

_ Eu acho que não.

Então ela segurou as perninhas dele e levantou numa surpresa animada. Peter agarrou-se as suas costas enquanto ela iniciava uma corrida pelo cômodo. O menino ria em um misto de alegria e medo. Não era para menos, tinha uma doida correndo com ele pendurado atrás.

_ Vocês podem parar antes que alguém se machuque?_ Rachel pediu batendo um pé com os braços cruzados.

Quinn se desculpou e freou na frente de um espelho grande. O reflexo dela de cabelos desgrenhados, os olhos sorridentes de Peter e a figura de Rachel com um meio sorriso viraram uma pintura no vidro. Foi uma imagem bonita.

Elas se entreolharam. Não precisava de palavras para saber que haviam pensado a mesma coisa.

_ Vá brincar com os outros, Peter.

Rachel se encolheu vendo o menino beijar o rosto de giz de sua namorada e rumar contente para o outro grupo. Por um momento devaneou sobre um possível futuro com eles três. Juntos. Fechou os olhos e maneou a cabeça para os lados, afastando aquele desejo incoerente.

_ Tudo bem?_ Quinn a abraçou de frente e lhe plantou um beijo rápido.

_ Está._ mentiu.

_ Acha que o Peter já pode ser adotado?

Ela não aguentou ouvir aquilo. Quinn não podia estar cogitando essa possibilidade. Criando essa idéia absurda, logo agora que tudo ia acabar. A pequena colocou os lábios em seu rosto, sentindo os cabelos serem afagados gentilmente.

A situação estava ficando cada vez mais difícil.

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_ Estranho não termos que ficar para vigiar._ Quinn comentou com um sorriso de lado.

_ É._ limitou-se a dizer.

Os olhos âmbar passaram pelo espelho absorvendo uma preocupação silenciosa na alma de sua passageira. Não trocaram uma palavra até chegarem à casa de Rachel. A razão que ela desconhecia de terem ido até o hospital naquele dia foi para que pudesse ver as crianças uma última vez.

Uma chuva fina começou a cair.

Um cenário perfeito para um término.

_ O que está acontecendo?_ a loira perguntou olhando para frente.

_ Não podemos mais continuar nos vendo.

A verdade foi jogada como uma rajada de trovão. Poderosa e devastadora. Quinn encarou-a atônita. Apertou os dedos no volante com tanta força que sentiu seus nervos gritarem em protesto. Esqueceu-se até mesmo da necessidade de respirar.

_ Do que você está falando?

_ A profecia._ virou para encará-la._ Não vai permitir que fiquemos juntas.

_ Nós combinamos de pensar numa solução.

_ E qual seria?

Havia um sorriso triste repuxando a comissura da boca morena. Quinn se viu num túnel sem luz alguma para afastar a escuridão. Ela estava certa. Não queriam discutir sobre a profecia porque as duas sabiam que quando esse dia chegasse seria o fim de tudo.

_ Me dê algum tempo._ pediu engolindo um soluço._ Eu vou arrumar um jeito.

_ Nós só temos um mês.

Quinn apertou os olhos. Sentiu uma leve asfixia a confrontar. Apertar seu peito, roubando o oxigênio e zombando de sua perda.

Trinta dias para que a profecia fosse cumprida.

O relógio começou a correr.

_ Você tem uma escolha._ Rachel afagou sua face e ficou a centímetros dela._ Eu não quero ouvir você escolher a sua família. E não quero que você me escolha, porque isso os afastaria de você._ fechou os olhos numa prece._ Vamos acabar por aqui antes que se torne doloroso demais.

Houve um ranger na lataria. A porta foi aberta. Uma menina saiu. A chuva carimbou o pára-brisa do carro enquanto ela via Rachel se afastar. O medo que a açoitou naquele momento a fez perder toda a calma e entrar de baixo da cachoeira luminosa.

_ Rachel..._ Ela teve vontade de dizer que gostava dela tanto que às vezes tinha medo do que sentia. Que os dias em que ficaram juntas haviam sido os mais conturbados e felizes que se lembrava de dividir com alguém. Sim, ela quis.

Mas não conseguiu.

A pequena parou e girou nos calcanhares.

_ Estou fazendo o que é melhor para nós.

_ Não._ as lágrimas começaram a mesclar-se com a chuva._ Eu não tenho forças para realizar o que os espíritos querem. O que você acha que eu vou fazer quando chegar à hora?

Não dava mais para negar a proximidade. Rachel caminhou apressada e se jogou no pescoço de Quinn, mesmo surpresa ela a puxou pela cintura e manteve seus lábios conectados. Havia um choro não dito. Lágrimas secas. Lábios exigentes.

_ O certo._ respondeu quando o beijo virou cinzas._ Independente do que acontecer.

Aquele foi o adeus silencioso.

Mãos quebrando.

Olhos alagados.

O mustang virou a curva lamacenta, mas dessa vez não havia razão para voltar.

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Rachel entrou em casa deixando um rastro de água por onde passava. Rumou com os olhos no chão pelo corredor. Adam apareceu na porta da cozinha e olhou-a naquele estado deplorável. Preocupou-se de imediato, mas preferiu não intervir. Ela não iria querer.

Meu Deus!

Entrou no quarto e bateu a porta. Encostou a cabeça com rigidez, sentindo a dor da pancada. Não ligou. Havia uma dor muito maior a corroendo. Um buraco vazio lhe deteriorando o peito. Apertou os olhos sentindo as lágrimas querendo sair para brincar.

Não!

Ela não era fraca. Fez o que devia. Não ia chorar como uma menininha assustada. Respirou fundo e fez a única coisa que trazia calma num estado de calamidade. Dobrou-se ao meio. Mudou os membros por patas. A pele por um cobertor de pêlos.

O lobo vermelho pulou a janela de encontro à terra fofa. Começou uma corrida sem rumo pelo território. A lama ajudou a reintegrar seu espírito e a chuva esburgou qualquer pensamento que a importunasse.

Correr era o melhor remédio.

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Houve um arrastar de pés cansados. Chaves deixadas em cima da mesa. Olhar colado no chão. Um corpo de giz caminhava pela sala sem realmente prestar atenção em nada. A casa estava silenciosa, houve um agradecimento mental pela falta de som, que logo se desfez.

_ Onde você estava?_ Sam saiu do quarto parando na sua frente.

Quinn levantou os olhos sôfregos, levemente molhados. Trocaram condolências e ela rodeou-o sem responder. A preocupação tornou-se muito maior que a cautela, Sam segui-a até o quarto de Santana e continuou a interrogá-la.

_ O que a Berry fez?

Uma graça irônica constatar que ele sabia o nome do problema. Ela só maneou a cabeça e fechou os olhos, trancando as lágrimas que insistiam em sair do esconderijo.

Como se pudesse ler sua alma. Ouvir palavras não proferidas. Seu irmão entendeu tudo.

_ Vocês terminaram?

Não houve resposta.

Era dispensável.

Ela caiu na cama e foi tomada por um choro angustiante. Sentia as veias saltarem mais grossas. A respiração levemente arrancada. O rosto totalmente encharcado.

_ Você pode comemorar._ ela disse num choramingo raivo.

O término dessa relação conturbada seria mais do que conveniente para o clã Fabray. Crucial. E qualquer membro teria ficado realmente feliz ao ouvir o ponto final dessa insanidade, mas ele não era qualquer um. E julgava que antes de ser membro do clã, era o irmão mais velho.

Sempre foi assim.

_ Talvez eu não possa.

Ele arriou os joelhos na sua frente. Afagou suas mãos e fez contato com a profundidade âmbar. Deu um meio sorriso para ela, aquele que dizia sem palavras: “Eu estou aqui.”. Era tudo que ela necessitava. Cedeu aos seus apelos e caiu nos seus braços protetores. O choro aumentou numa proporção arrasadora, mas a percepção do calor fraternal ao seu redor a fez se sentir melhor.

Uma prova necessária:

Uma situação caótica também refaz laços perdidos.

Talvez seja uma ironia hedionda da vida. Ou uma surpresa magnífica do ser humano. Muitas vezes as pessoas estão diante de seus maiores medos e quem você menos espera que lhe dê a mão, lhe entrega os braços.

Irmãos afastados por uma briga. E unidos por outra. Um belo antagonismo.

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Seis dias passaram sem ser vistos. A casa dos Lopez ainda abrigava a família Fabray. Nesse momento os membros de ambos estavam reunidos à mesa. Dialogando em voz alta durante o jantar.

_ Fiquei sabendo da morte do menino St. James._ Russel abaixou o olhar aflito. A imagem de seu amigo lhe pareceu muito nítida agora._ Uma pena. Era um bom rapaz.

Os homens lamentaram em conjunto. Os outros continuaram seu jantar em silêncio. Sam aos cotovelos com Santana, lutando por espaço na mesa. Judy degustando seu filé enquanto observava sua filha no canto, mexendo na comida sem realmente colocar nada na boca.

_ O que aconteceu, querida?

Quinn só maneou a cabeça para os lados. Tinha em mãos um livro, aberto em uma página qualquer. Não o lia. Só ficava revirando página por página. Como se aquele objeto fosse uma prova de que o que teve com Rachel realmente existiu.

_ Eu me lembro deste livro._ falou Judy, tentando puxar conversa._ Um dos meus preferidos da biblioteca. O mais engraçado é que ele nem era meu._ Quinn levantou os olhos milimetricamente._ Quando eu estudava no Mckingley tinha uma menina de cabelos negros que vivia carregando uma pilha de livros para cima e para baixo._ deu um meio sorriso._ Éramos de grupos diferentes. Um dia a vi esquecê-lo na arquibancada onde treinavam as líderes de torcida. Peguei na intenção de devolver, mas..._ corou, lembrando de como era boba em sua adolescência._ Eu não podia “falar com ela”.

O coração da loira mais nova estava batendo tão rápido que ela podia ouvi-lo sem estar com a mão sobre o peito. Não era possível.

_ Qual era o nome dela?

Devia ser a primeira frase completa que Quinn formava em dias.

_ Eu não me lembro._ Judy enrugou a testa pensativa._ Fiquei sabendo que morreu faz alguns anos. No entanto, havia se dado muito bem na vida, pelo que escutei, se formou em medicina.

Quinn sentiu a sudorese lhe empapar o pescoço. Quais eram as reais possibilidades do livro que tinha em mãos ser o mesmo que Shelby perdera? Mínimas. Porém reais. Terrivelmente incrível. Lágrimas preencheram seus olhos de excitação, o sangue correu violento pelas veias, como se tivesse acabado de descobrir a origem do universo.

Era quase inacreditável.

Levantou da mesa sem pedir licença e rumou para o quarto.

Horas passaram com ela remoendo aquela informação aterradora. Virou de um lado para o outro sentindo suas energias voltarem a eletrizar seu espírito. Ela tinha uma relíquia em mãos e nem sabia de seu real valor.

_ Porque você está com essa cara de cachorro bobo, loira?

Santana entrou no quarto e se jogou na cama de cima.

_ Nada.

_ Sei._ deu de ombros._ Seja lá o que for é bom ver você saindo da fossa, não aguentava mais te ouvir choramingando pelos cantos._ falou ríspida._ E você nem me contou o motivo.

Você não ia gostar de saber.

Quinn continuou em seus devaneios. Ignorando os resmungos da latina.

_ Está pronta para apresentar o poema amanhã?

Ela levantou num salto. Havia esquecido completamente de escrevê-lo. A última semana eclipsou qualquer coisa de sua mente. Importante ou não. Correu até seu caderno e abriu numa folha branca.

_ Você ainda não fez? _ Santana parecia em um choque apreciativo._ A Morland vai te matar.

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Lá pelas tantas da madrugada as folhas brancas continuavam com a cor inalterada. Um montinho de papel se erguia cada vez mais alto ao lado da menina loira de cabelos bagunçados. Bufou, aumentando sua pilha de fracassos escritos. Deitou a cabeça sobre e mesa, fechando os olhos por alguns segundos.

Isso não está funcionando.

Que horas deviam ser? Quanto faltava para que sua pirâmide de cartas de literatura viesse a baixo? Respirou fundo afastando os pensamentos inúteis e concentrando-se no que realmente importava. Voltou à posição correta e capturou o lápis, apontando para o papel.

Uma idéia lhe abateu.

Silenciosa. Impulsiva. Brilhante.

De repente sua preocupação com nota era um eco muito distante para ouvir. Precisava de uma última tentativa. Ela tinha uma carta nas mãos, mas como uma novata no pocker sabia que quanto mais pontos melhor.

Acabara por formar outra.

_ Eu tenho que tentar.

Shakespeare não lhe dera grandes idéias. Na verdade uma menina de nome desconhecido lhe ensinara a única coisa que precisava saber. “Inspire-se em algo que você realmente ama.” Sorriu para o papel vazio e começou os primeiros rabiscos.

Um livro e um poema. Sua espada e seu escudo.

Peças para trazê-la de volta.

Ela faria uma última tentativa majestosa para mudar o seu destino. Notas ou passar de ano não importavam mais. Rimas. Autores renomados. Não faziam diferença. Algo muito mais importante estava em jogo. E ela não se daria ao luxo de perder essa partida.

Inspiração.

Foi acalentador tomar consciência de que a inspiração que precisava esteve ao seu lado o tempo todo.

Notas finais
Espero que estejam se divertindo nessas férias. Desejo o melhor a todos vocês. Obrigada mais uma vez por tudo. Nos vemos no próximo.