Glee-21-Faberry

6 Don't you remember. Part 1


Notas iniciais
Boa noite, tarde ou madrugada( dependendo da hora em que você está lendo). Os comentários passados foram incríveis, eu decididamente não tenho como agradecer a vocês por todo o carinho! Nunca esperei por isso, mas fico feliz em receber! Obrigada de verdade. Eu adorei escrever esse capítulo, espero que também gostem. Sem mais delongas, boa leitura.

“I know I have a fickle heart, and bitterness, and a wandering eye, and a heaviness in my head.”

A chuva estabeleceu um jogo de trégua com o sol, despiu suas ultimas gotas e adormeceu por entre as nuvens. O cinza preencheu o dia e acordou as árvore, enquanto o vento zelava pelo sono dos corpos cansados.

É melhor trancar a porta do quarto!

Rachel levou sua “inimiga” para casa noite passada, carrego-a para a cama e tratou devidamente de cada ferida em seu corpo. Dormiu no chão, ao seu lado e esperou por alguma melhora.

Depois de se arrumar para mais um dia de aula e fazer o desjejum, voltou para o quarto e deparou com uma cena pouco comum e extremamente perturbadora.

_ MORRA, NESS!_ gritava sua avó, investindo sua fiel bengala contra as costelas de uma Fabray inconsciente.

Meu Deus!

_ VOVÓ!_ tentou tomar o objeto dela._ Pare! Ela não é o monstro do Lago Ness!

_ Não?_ abaixou a “arma” e olhou-a confusa._ Mas parece muito!

Como a morena não sabia como o monstro se parecia, preferiu não argumentar e deixar esse assunto de lado. Era mais saudável para sua sanidade.

_ Quem é ela então?_ perguntou vovó Abby.

De repente a morena se arrependeu de tê-la contrariado, talvez fosse melhor deixá-la pensar que Quinn era qualquer outra pessoa ou coisa do que ela mesma.

Agora era tarde.

_ Preciso te contar uma coisa!_ falou baixinho.

Iniciou uma sessão de histórias que continham: sangue, lobos, crianças e chuva. Todos os acontecimentos foram relatados e minuciosamente apresentados a sua querida parente.

_ Quer dizer que ela salvou sua vida ontem?

_ Foi._ terminou Rachel.

_ Acho que gosto dela!_ colocou os dedos sobre o queixo e analisou a menina desmaiada._ Ela parece um leão dormindo!

Os olhos chocolates examinaram o corpo inerte esparramado em seus lençóis, os cabelos loiros pendiam bagunçados por cima das pálpebras e seu peito subia e descia seguindo o ritmo de sua respiração suave.

Não se parecia em nada com a menina que a sequestrara erroneamente.

_ Parece mesmo._ riu ao constatar que sua avó estava certa._ Vovó! A senhora não pode contar para ninguém que ela está aqui, ok?

_ Não se preocupe minha neta! Vou cuidar dela até você chegar!

Rachel só esperava que esse “cuidar” não tivesse relação alguma com sua bengala, senão muito provavelmente não haveria um “leão” dormindo quando ela voltasse.

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A pele fria tateou o tecido fino que a envolvia. Uma ardência incoerente abaixo das costelas lhe dava bom dia e seu corpo gritava de preguiça.

Onde eu estou?

A alienação se fez presente. Abriu os olhos milimetricamente e focalizou um cômodo abarrotado de livros. Havia uma coleção incontável de papéis encapados, distribuídos de forma aleatória pelo chão e estantes.

Eu dormi na biblioteca?

Quinn tocou o chão com a ponta dos pés. Levantou, se equilibrando nas paredes. Deu uma boa olhada em si mesma e constatou algumas marcas e machucados atípicos desenhados em sua pele.

Andou pelo espaço de livros e esbarrou numa pilha que desmoronou. Recuou com o susto do barulho e colidiu com mais uma torre de livros que logo veio abaixo.

Jesus, ta caindo tudo!

_ Você poderia fazer o favor de não destruir o meu quarto, Fabray!

_ BERRY?

Memórias da noite passada bateram a porta de sua mente e ela entendeu. Estava na casa de sua inimiga, provavelmente em seu quarto.

_ Ai!_ Quinn levou a mão a barriga e sentou novamente na cama._ Minhas costelas doem!

Rachel pensou “Deve ser porque minha avó te deu uma coça”, mas falou:

_ Você deve ter batido em alguma pedra.

A morena diminuiu o espaço entre elas e analisou suas feridas, a maioria já estava começando a cicatrizar.

_ E o lobo negro?_ perguntou a loira.

_ Conseguimos contê-lo por uma noite..._ bufou, dando de ombros._ Mas acho que ele pode voltar.

Quinn ficou em silêncio enquanto Rachel trocava os curativos de seus ferimentos, estava trajando uma camisa xadrez vermelha e um short curto, roupas típicas de sua rival.

Não acredito que ela cuidou de mim.

Era estranho receber um tratamento caridoso vindo de uma pessoa que sabia ser de uma “raça ruim” e mal intencionada. Todas as coisas ruins que crescera ouvindo sobre ela, onde estavam?

_ Nós podemos vigiar o hospital.

Rachel parou de trabalhar e estreitou os olhos.

_ Nós?

_ Sim, quero dizer, não podemos deixar as crianças sem proteção!

A morena colocou a última gaze no lugar e se afastou. Caminhou até o parapeito de sua janela e encarou a tarde que se despedia.

_ Você já me ajudou._ sibilou sem olhá-la._ Posso cuidar daquele lobo sozinha!

Teimosa!

A loira revirou os olhos, resolveu mudar de assunto, por hora. Observou uma coleção sussurrada de livros clássicos na prateleira acima da cama.

_ Você tem muitos livros!

Que observação óbvia, mas como digo sempre e faço questão de repetir: “Tudo tem uma razão”. Um quarto onde o chão e as paredes são feitos de livros diz muito a respeito de seu dono.

Traduzindo o quarto de Rachel Berry:

1- Ela tinha tempo de sobra para ler;

2- Os livros lhe faziam companhia;

3- Ela era uma pessoa solitária.

A solidão não é uma companheira muito agradável, tão pouco hiperativa ou acolhedora. Não passa de um vazio mal preenchido.

Quinn passou os dedos pelos títulos que ficavam no centro da prateleira, um lugar de privilégios, todos eram primeira edição e da mesma autora.

Os livros privilegiados:

Razão e sensibilidade, Emma, A abadia de Northanger, Persuasão e Mansfield Park.

Autora: Jane Austen.

Eu já ouvi esse nome antes, mas onde?

_ Porque todos são primeira edição?

Rachel cruzou os braços e estreitou os olhos, estavam estabelecendo uma conversa, o que por si só já era estranho.

_ Eu faço coleção deles, falta apenas um para eu completá-la!

_ Qual?

O telefone de Quinn tocou nesse momento. Ela atendeu e ouviu calada todo o sermão que seu irmão lhe deu sobre sexo na adolescência atrapalhar o desempenho na escola e no treinamento, como se ele fosse muito comportado.

_ Preciso ir!_ sibilou para a morena._ Onde está o Mu?

Rachel se certificou de que Quinn não fosse vista ao sair da sua casa e a levou até o carro estacionado no meio das árvores.

Por um breve momento elas pararam e se encararam. E agora?

Quinn pensou se deveria dar “tchau” ou “agradecer” ou “fazer os dois”, mas seu corpo não reagiu. Apesar de tudo ela ainda era sua inimiga e era assim que deviam se comportar. Odiando-se por completo.

Uma última imagem:

O carro virou a curva sinuosa e ficou invisível. A solidão sorriu e bateu a sua porta numa visita inoportuna. Ela se rendeu e a deixou entrar.

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Um lobo cinza-escuro corpulento investiu os dentes contra as patas dianteiras do lobo branco que uivou em agonia quando foi severamente cortado. Tentou se soltar, mas o animal manteve os dentes trincados em sua pele.

“ Me larga!”_ pensou Quinn.

Seu pai observava o treino de perto, mas não fez sinal para que parassem.

“Quinn...”_ Sam se mexeu para ajudá-la, mas Russel entrou no caminho, impedindo-o. “Ela está ferida!”

“Deixe-a se virar sozinha!”

O lobo cinza estacou, abaixando a cabeça em sinal de obediência. Seu coração queimou, como é que podem pedir para ele ver a irmã apanhando e não fazer nada? Isto estava passando dos limites.

Droga, ta doendo muito!

Quinn sentiu seus ossos fraquejarem e seu corpo vacilar. Estava a beira da inconsciência. Caiu no chão quando não suportou mais o próprio peso e vislumbrou a carranca aborrecida de seu pai antes de tudo virar um borrão.

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Vozes irritadas e sufocadas cavalgaram até seus ouvidos. A alienação e a dor impediram que ela pudesse diferi-las. Abriu os olhos milimetricamente e sentiu um frio abrasivo quebrando-lhe a pele.

_ Ela está queimando em febre!_ reconheceu a voz de Santana.

_ Deixe-me falar com ela!_ ditou Russel.

O homem caminhou até ficar de frente para a filha. A olhou imponente e sem um pingo de clemência.

_ Viu o que acontece quando você falta o treino?

Uma lição brutal:

O treinamento foi a única forma plausível que ele encontrou de castigá-la.

Quinn engoliu a secura de sua garganta e apertou os olhos para acalentar a dor que se expandia em sua cabeça. Estava recebendo um sermão numa hora muito ruim, mal conseguia processar as duras palavras do pai.

_ VOCÊ ACHA QUE ELES TERÃO PENA? QUE VÃO PARAR DE TE BATER SE TE MACHUCAREM?

A loira fez o maior esforço do mundo para negar, uma lágrima solitária desceu ardendo o canto do seu olho.

_ Vê o tamanho da importância de seu treinamento?_ continuou, irrefreável._ Prometa que nunca mais irá faltar. Sob circunstância alguma!

Forçou a musculatura cansada da boca para proferir: “Prometo!” e apagou.

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Quinn acordou exausta. Tinha uma faca atravessada na cabeça e uma pontada de dor aguda lhe coçando os braços. Reparou que os membros estavam enfaixados e que não estava sozinha.

_ Boa noite, Bela adormecida!_ cumprimento-a Santana.

_ O que você está fazendo aqui?

A latina suspirou e sentou ao lado dela. Tinha um brilho diferente nos olhos, uma calmaria acolhedora incomum. Sabia que sua amiga ainda estava zangada com ela pelo ocorrido no treino das líderes de torcida, mas a verdade é que sentia muita falta dela.

Mesmo que nunca fosse admitir isso.

_ Como você está se sentindo?

_ Um lixo!_ rebateu Quinn, torcendo o nariz._ Quem fez esses curativos?_ apontou para seus braços.

_ Eu fiz, depois de trazê-la para cá!_ deu de ombros e sorriu.

Os olhos avelã abaixaram a guarda. Ela sabia que podia brigar e muitas vezes querer arrancar a cabeça da latina, mas que também a amava na mesma medida e que podia colocar sua mão no fogo por ela sem arrependimentos.

Sobre a amizade:

Deus criou um sentimento completo. Que podia aguentar os desentendimentos do ódio e a ternura do amor, que precisava de tempestades e calmarias. Capaz de sobreviver a qualquer eventualidade.

_ Obrigada, Santana!

_ Você não vai me abraçar e dizer que me ama, não é?

_ Claro que não!_ fez uma cara fingida de nojo._Eu jamais faria isso!

Ambas riram e mandaram suas divergências para bem longe.

_ Que horas são?_ perguntou a loira, levando as mãos a cabeça, tentando acalmar as ondas de dor.

_ Sete horas!

Uma voz preocupada gritou dentro dela:

Já era noite, Rachel estava sozinha no hospital, protegendo as crianças por conta própria, enquanto ela dormia. Isso era injusto e perigoso.

Quinn arregalou os olhos e mais do que depressa se pôs de pé. Começou a arrumar a mochila enquanto Santana levantava as sombrancelhas em desentendimento.

_ Pensei que você estivesse um lixo!

_ Eu estou!_ disse, colocando uma camisa azul bebê._ Mas tenho um compromisso inadiável!

_ Com quem?_ o interesse da latina subiu alguns degraus.

_ Com a paixonite dela!_ respondeu Sam que havia acabado de entrar em cena.

_ Quem?

O queixo latino foi de encontro ao chão. Ela olhava estática de Quinn para Sam e vice-versa.

_ Idiota!_ rosnou a loira.

_ É verdade._ o garoto sorriu de lado._ Foi só pensar nela que já ficou toda boazinha!

Um travesseiro voou no rosto dele.

_ Quem diabos é essa pessoa?_ perguntou Santana interrompendo a briga fraternal a sua frente._ E como eu não sei disso? Sou sua melhor amiga!

_ Não tem nada disso!_ pegou as chaves em cima do criado mudo e foi em direção a porta._ Vou cuidar de assuntos realmente importantes, não das fantasias pervertidas do meu irmão.

Saiu numa carreira só. Entrou em seu precioso carro e acelerou rumo ao hospital da cidade.

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As pequenas mãos morenas fecharam o livro e seus lábios beijaram a testa suave de Peter. Todos haviam adormecido depois da hora da história. A enfermeira chamada Donna caminhou ao seu encontro.

_ Rachel, acabou a hora de visitas!

A pequena deu uma última olhada para seu pequeno anjo de olhos mel e teve certeza de que ele estava no mundo dos sonhos. Em algum lugar realmente maravilhoso de sua mente juvenil.

_ Estou indo, Donna!_ caminhou para o corredor._ Boa noite!

_ Boa noite!

Ambas sorriram e acenaram sua despedida habitual. Rachel caminhou para a saída e se sentou na escada de madeira que dava acesso a entrada do hospital. A noite estava calma e adensada.

Respirou o ar fundo e pesado e jogou a cabeça para trás, aproveitando o frescor do vento e o canto das árvores.

Vai ser uma longa noite!

Ela iria permanecer ali até o amanhecer. Vigiando o lugar, protegendo as pessoas que amava da fera sanguinária de pelos negros. Sozinha.

Ou pelo menos ela pensou assim.

Uma luz forte piscou uma série de vezes a sua frente, ela estreitou os olhos e observou, absorta, um carro solitário muito familiar para seu aborrecimento.

Inacreditável!

Cerrou os punhos e desceu a ladeira de cara fechada. Caminhou até o carro e abaixou na janela do motorista.

_ O que você veio fazer aqui?

_ Boa noite para você também, Berry!

Os olhos chocolate abriram um quarto de susto quando ela constatou que sua inimiga estava ainda pior do da última fez que tinham se falado. Seus braços enfaixados e seu rosto fundo como se tivesse chorado o dia todo, mas seu sorriso inabalável e convencido estava lá, como de costume.

_ Quer um convite para entrar?_ perguntou Quinn.

A morena piscou algumas vezes e foi parar no banco do carona. Aprumou-se no assento e voltou a observá-la pelo canto dos olhos.

_ O que houve com você?_ perguntou casualmente, olhando para frente.

_ Nada demais!_ deu de ombros._ O treinamento foi mais rígido do que de costume.

Rachel fez um movimento mínimo e analisou as ataduras.

_ Esses curativos estão muito apertados._ sibilou._ Estão prendendo a sua circulação.

Quinn resmungou e tentou afrouxar as amarras, sem sucesso. Rachel continuava encolhida em seu canto até que bufou e se inclinou de lado para ajudá-la.

_ Espera, deixa eu ver isso!

E começou a desenrolar as gazes.

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O toque mais ínfimo da mão de Rachel dilui sua dor de cabeça. Quinn engoliu em seco e observo-a trocando os curativos de seus braços. Nesse momento sua inimiga não parecia em nada com o monstro que lhe descreveram.

_ Eu disse que posso cuidar do lobo sozinha!_ falou a morena enquanto re-enrolava os braços pálidos.

_ Eu vim para ter certeza disso.

Rachel estreitou os olhos. Terminou o serviço e encostou-se no banco.

_ Você não pode me ajudar._ começou a pequena, olhando para fora._ Vai me matar no dia do meu aniversário, lembra?_ debochou.

_ Então tenho que te manter viva até lá!_ deu um sorriso de lado._ Além do mais, eu já estou envolvida nessa história, não vou sossegar até descobrir quem é esse lobo e o que ele pretende.

A loira viu a morena dar de ombros e descansar a cabeça na lateral do carro. Encostou a sua no banco e respirou a paz. Estava leve, sem dores de cabeça e sentindo-se incrivelmente bem.

Não faço ideia de como ela faz isso, mas não posso reclamar de ficar sem dor!

Passar um tempo com a morena poderia ser até vantajoso. Como diz o ditado: “Mantenha seus amigos perto e seus inimigos mais perto ainda!”

_ Eu tenho uma piada!_ falou animada.

A morena bufou. Ia realmente ser uma longa noite.

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O dia seguinte amanheceu com o sorriso do sol. Quinn foi para o treinamento na hora marcada, logo depois de dar uma carona a Rachel. Depois de apanhar e bater, foi para casa mudar de roupa.

_ Então, maninha!_ Sam entrou no quarto com seu sorriso sacana de sempre._ Como foi a noite de ontem?

Se perversão matasse...

_ Normal!_ deu de ombros.

_ Sei... me diga uma coisa!_ aproximou-se dela._ Que nota você dá para ela na cama?

Melhor ouvir isso que ser surda, melhor ouvir isso que ser surda, melhor ouvir isso que ser surda...

_ Você é um doente!

_ Isso não responde a minha pergunta!

Quinn trotou para fora do quarto e fechou a porta na cara do irmão. Estava muito cedo para aturar suas idiotices.

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A aula de Literatura foi o caos habitual. Estava com tanto sono que fechou os olhos sorrateiramente e adormeceu, sendo acordada logo em seguida por uma Molly Morland furiosa. Humilhando-a de todas as maneiras possíveis.

Eu odeio essa mulher!

Depois de terminado o furacão, a loira correu para o corredor e se escondeu no armário. Esperou uma sombra morena passar perto dele e puxou-a para dentro.

_ Você poderia parar de fazer isso!_ falou a pequena irritada.

_ Eu precisava falar com você!

_ Estou ouvindo._ pontuou de cara fechada.

_ Me dê o número do seu celular!

Os olhos de chocolate cresceram em espanto.

_ Como é que é?

_ Precisamos de um meio para nos comunicar._ sussurrou._ E não podemos nos encontrar em público.

A baixinha bufou e passou o número para ela.

_ Pronto, Berry! Assim que acabar a “hora da história” você me manda uma mensagem, ok?

_ Vou pensar no seu caso!

Colocou os fones de ouvido e trotou para fora do cômodo. Quinn bufou contrariada.

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Passava das cinco horas e seu celular continuava quieto. Quinn andava de um lado para o outro, ansiosa. Essa “hora da história” estava demorando muito para o seu gosto, teve a sensação incomoda de que Rachel não fosse lhe avisar.

Quinn: Já está desocupada?

Vinte minutos se passaram e nada.

Quinn: Dá para você me responder?

Mais dez minutos.

Quinn: Estou começando a ficar irritada!

Mais um pouco de nada.

Quinn: Estou indo para ai!

Passou a primeira e cantou pneus na estrada.

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Uma roda de crianças de olhos brilhantes e corações lentos estava formada no centro da ala de oncologia. Uma morena e um livro narravam o momento. Uma história encantada estava se desenhando no rosto delas, até que...

_ BERRY!

Rachel parou a leitura e encarou sua irritante “ ajudante” sem acreditar na ousadia dela. Andou até ela e puxou-a para fora do recinto.

_ Você ficou maluca?_ sussurrou aborrecida._ Não pode ir entrando assim na ala hospitalar!

_ Você não respondeu minhas mensagens._ defendeu-se._ Pensei que tivesse acontecido alguma coisa ruim!

Os olhos chocolate viraram nas orbitas e as mãos delicadas apertaram seu nariz para buscar alguma calma. Não estava acostumada a ter companhia, a não ser a dos habitantes do hospital.

_ Me espere no refeitório!_ abriu a porta de vidro e voltou a seus afazeres.

Quinn bagunçou os cabelos e rumou para o lugar.

__________x__________

O refeitório do hospital era equipado com mesas redondas, iluminação abundante e um atendente simpático chamado Mike. O homem escuro tinha um sorriso branco imenso e uma bondade sobrenatural.

_ Boa tarde, vai comer alguma coisa?_ perguntou sorrindo para Quinn.

A loira retribuiu o cumprimento, mas negou.

_ Obrigada._ agradeceu sem jeito._ Estou esperando uma... pessoa.

_ Tudo bem, se precisar de alguma coisa é só dizer!

O homem deixou-a sozinha, mas logo sua nova companhia alcançou-a.

_ Vejo que já conheceu o Mike!_ sibilou Rachel, que puxou um assento e acomodou as pernas._ Ele é uma pessoa incrível. O pai é um milionário podre de rico e mesmo assim ele passa a maior parte do tempo aqui, trabalhando no hospital de graça.

_ Porque ele faz isso?_ perguntou curiosa.

_ Todos tem seus motivos!_ deu de ombros._ Acho que ele gosta de ajudar.

_ E qual é o seu motivo?

Os olhos chocolate congelaram de encontro aos avelã. Rachel sentiu as mãos suarem e as pupilas aumentarem de tamanho. É claro que ela tinha um motivo e mais do que óbvio que jamais o compartilharia com sua inimiga.

_ Olá, Rachel!_ Mike interrompeu o momento._ O que você vai querer hoje?

_ Um sanduíche natural e um suco de laranja.

_ Claro!_ anotou tudo num caderninho de bolso._ E sua amiga mudou de ideia?

Quinn corou fortemente ao ouvir aquela sentença. Ela e Rachel Berry, amigas? Era mais engraçado do que suas piadas. Assim como qualquer outra coisa. Rachel a observou pelo canto dos olhos sem expressar nenhuma emoção plausível.

_ Não, obrigado!_ disse por fim.

_ Ok! Fiquem a vontade!

Como de costume a mochila da morena foi aberta e um livro foi parar em suas mãos para afugentar seus olhos. Quinn batucava a mesa e cantava alguma melodia despreocupada. Depois de comer metade do sanduíche e esvaziar o copo de suco Rachel se levantou, foi até o balcão e pediu que Mike embrulhasse a outra metade.

_ Vamos?_ falou para Quinn.

Ambas saíram do hospital para a noite que se expandia. Passaram por um mendigo sentado na beira da estrada. Rachel pegou o restante do sanduíche e entregou ao homem que agradeceu com os poucos dentes que lhe restavam.

_ Obrigada, Rachel!_ cheirou a comida e sorriu._ Este parece estar divino!

Quinn assistia a cena a poucos metros de distância, seu queixo delicado permanecia ligeiramente caído e seus olhos avelã pareciam maiores ao observar a suposta pessoa ruim de que tanto ouvira falar desempenhando um ato inesperado, nobre.

Estranho!

A morena enfiou as mãos nos bolsos e foi ao seu encontro. Caminharam silenciosas até o carro, a loira observando a pequena com o canto dos olhos.

_ Foi legal o que você fez, Berry!

Ela deu de ombros.

_ Sempre sobra um pouco, então divido com ele!_ fisgou um livro na bolsa e passou a dar atenção as páginas gastas.

Os olhos verdes continuaram a observá-la, sua mente estava uma bagunça, quanto mais aprendia sobre ela, mas confusa se sentia.

_ Eu tenho uma piada!

_ Você sempre tem!_ bufou a pequena.

_ Essa é boa._ aprumou-se no banco e sorriu lembrando-se dos detalhes._ É sobre um homem chamado Pitoco...

Rachel bufou internamente, sabia onde isso ia dar e não seria num lugar feliz.

_ Pitoco era um homem sem braços e pernas, porém tinha muitos amigos!_ prosseguiu a loira._ E os amigos de Pitoco gostavam de levá-lo para todos os lugares que iam. Certa noite, resolveram fazer um luau na praia e o levaram. Comeram, cantaram e beberam muito...

A morena olhou no relógio impaciente. Nunca haviam lhe contado uma piada em forma de monólogo.

_ E ficaram tão bêbados que esqueceram Pitoco na praia._ Quinn deu uma pausa para fazer suspense._ O pobre coitado ficou lá, gritando e pedindo ajuda, até que apareceu um bêbado, parou e olhou-o estirado na areia, pegou Pitoco e começou a entrar no mar com ele. E foi entrando cada vez mais fundo na água, quando chegou bem fundo, olhou para Pitoco, sorriu e jogou-o na água, gritando: “Vai tartaruguinha!”

Quinn disparou a rir incessantemente. Rachel a olhava sem acreditar, com as sombrancelhas no ar e com uma expressão nada emocionada.

_ Você se superou, Fabray!_ sua voz estava carregada de tédio._ Essa foi pior que a do peixe!

A loira bufou e parou de rir.

_ Foi legal!_ contrariou-a._ Não tenho culpa de você não ter senso de humor!

Foi uma constatação verídica. Quinn nunca havia visto Rachel sorrir, achou que era provavelmente um ato inimaginável de se realizar. A menina era uma pedra impossível de se lascar.

_ Eu tenho, você é que é horrível para contar piadas.

_ Não sou não!_ fez um bico em descontentamento._ Essa foi ótima! Eu treinei a semana toda.

Rachel constatou que o problema de cabeça de sua inimiga era maior do que parecia. Ficou treinando a semana toda? Uma piada sem graça? Pelo amor de Deus.

_ Você deveria ter trazido seu dever de casa._ virou uma página do livro.

_ Alguém já te disse que você é extremamente irritante?

A morena bufou, jogou o livro na bolsa e saiu do carro. Quinn observou-a encostar as costas contra a lataria, depois de alguns segundos ela também saiu e ficou esperando do outro lado.

_ Berry... tudo bem?

Rachel não respondeu. Ela apenas maneou os ombros, caminhou até a frente do carro e literalmente se “jogou” em cima do capo.

Parece que alguém quer morrer mais cedo!

_ Berry!_ Quinn agarrou os próprios cabelos em fúria._ SAIA DE CIMA DA MINHA CRIANÇA!

A pequena continuou ignorando-a e olhando para algum ponto fixo acima de seus olhos. Jogou os braços atrás da cabeça e fez um suporte.

_ VOCÊ FICOU SURDA?_ continuou a gritar e a ser ignorada.

Uma vermelhidão corou as orelhas da loira, sua raiva estava crescendo numa proporção assustadora. Sua companhia continuava não lhe dando bola, como se tudo estivesse uma calmaria.

_ Vou contar até três!_ Os dedos pálidos começaram a contagem progressiva._ Um, dois, dois e meio...

_ O céu está lindo._ Rachel proclamou em sua secura inquebrável. Continuou observando a vastidão acima de si mesma, hipnotizada pela imensidão infinita.

Do que ela está...

Os olhos avelã seguiram os chocolates até o topo de suas cabeças. Um cobertor negro carimbado por um rastro quilométrico de pontos azuis e brancos se estendia por todo o vale, proporcionando uma sensação de calmaria e paz.

Um caminho de estrelas.

Ela tem um ponto!

Quinn abaixou a guarda e acompanhou Rachel, sentando-se no capô de Mu.

_ Só não arranhe o meu carro, ta bem?

Ambas continuaram observando o céu enfeitado de luz. O único barulho audível era o sussurro do vento ninando as árvores.

_ Qual a graça de ficar olhando estrelas?

É claro que a loira não ia conseguir ficar quieta por muito tempo.

_ As estrelas são os guias mais confiáveis que existem!_ começou a morena, apontando para o céu._ Aquela, por exemplo, se chama Ursa Maior e serve como referência para o norte, se um dia você se perder é só segui-la e vai achar o caminho de volta.

_ Como você sabe dessas coisas?

_ Eu tive tempo para aprender e gosto de olhar as estrelas, ajuda a passar o tempo e a parar de pensar.

Quinn a observou pelo canto dos olhos, chegou a sentir uma centelha de pena dela. Rachel era mais sozinha do que aparentava.

Guias confiáveis? Eu nunca vou precisar de uma estrela para achar o caminho de casa!

Uma predileção futura:

As palavras de Rachel estavam certas, consequentemente o pensamento de Quinn estava errado.

__________x__________

As semanas caminharam. As meninas continuaram com o ritual de se encontrarem a noite no mustang da loira. Rachel permanecia em seu canto, enclausurada em algum livro enquanto Quinn contava uma piada sem graça para passar o tempo.

_ Não vou nem dizer o que achei dessa piada!

Quinn bufou. Uma chuva intensa começou a despencar sobre o carro e obrigou-as a fechar os vidros.

_ Eu trouxe o dever de casa hoje!_ falou Quinn enquanto vasculhava sua mochila atrás de caderno e caneta._ Preciso escrever esse poema idiota logo.

Rachel olhou-a pelo canto dos olhos e voltou sua atenção para seu livro. Várias folhas de papel foram rabiscadas e logo em seguida amassadas e jogadas no banco do carona. Depois um quarto de hora Quinn jogou as mãos para o alto e o caderno em cima do painel.

_ Não adianta!_ bradou, descansando os braços no volante._ Não consigo escrever nada decente. Vou ser reprovada nessa matéria.

A morena torceu os olhos, fechou o livro e entregou-o a Quinn.

_ Leia!

_ O quê?_ as sombrancelhas formaram uma cruz._ Para que isso?

_ Leia logo, Fabray!

“Ela era a roubadora de livros que não tinha palavras.
Mas, acredite, as palavras estavam a caminho e, quando chegassem, Liesel as seguraria nas mãos feito nuvens, e as torceria feito chuva...”

_ Ok, agora pare!_ pediu erguendo as mãos morenas._ Lendo desse jeito parece que você está entediada!

_ Eu estou entediada!_ retrucou.

_ Exatamente._ pontuou._ Quando você lê tem que passar o que está sentindo através das palavras, se for tédio é isso que as pessoas absorverão.

_ Mas isso é chato! Como vou fazer isso direito se não gosto?

Rachel se aprumou mais no banco e levou as mãos ao queixo, pensou por alguns segundos e estreitou os olhos quando a ideia lhe abateu.

_ Pense em algo que você ama!

Alguns segundos arrastaram-se diante delas. Quinn chegou a uma conclusão óbvia.

_ O Mu!

Sim, claro. O carro.

_ Agora, descreva-o para mim._ pediu a morena.

_ Ele tem um motor SW 5, 788 cilindradas, ....

_ Na minha língua, Fabray!

_ Ok! Ele tem um motor absurdamente potente, quando eu o acelero ele ensurdece as estradas com sua música inebriante. E a cor verde representa a esperança e eu sempre olho para ele quando preciso de alguma._ Quinn sorriu e prosseguiu._ Os pneus já estão gastos, mas eu aposto que ele bate qualquer carro com pneus novos em folha. Em suma, é o melhor carro do mundo.

A animação com que a loira descreveu o carro foi assustadora, porém eficaz. Rachel passou a crer que sua inimiga era uma maníaca por carros, mas precisamente mustangs e teve a estranha sensação de que ela e Noah se dariam muito bem nesse critério, caso as circunstâncias fossem outras.

_ Isso foi bom, viu? Só acho que a Senhora Morland irá ser um pouco mais crítica quanto ao tema.

Carros estava fora de cogitação. Não tenha dúvidas.

_ Você deve ter razão...então, sobre o que devo escrever?

_ Isso eu não posso lhe dizer. _ voltou a sentar no assento e olhar para frente._ Encontre uma inspiração, escreva sobre algo que você realmente ama e leia com a mesma empolgação com a qual você descreveu seu carro._ deu de ombros._ Tenho certeza que assim você vai passar!

Quinn deu um sorriso de lado e colocou o cérebro para funcionar.

Um fato rotineiro:

Às vezes a inspiração que precisamos para realizar grandes feitos está mais perto do que imaginamos. É só olhar para o lado.

_ Está frio!_ a loira levou as mãos aos braços e encostou a cabeça no banco. Adormeceu instantaneamente, tamanho o seu cansaço.

Elas combinaram de revezar a vigia. Quatro horas de sono e depois a alteração de postos. Rachel observou Quinn tremer e resmungar. A chuva castigava o solo e o frio estremecia a pele.

Abriu a mochila e arrancou um cobertor lá de dentro. Logo em seguida abriu-o e jogou em cima de Quinn, que parou de reclamar no mesmo instante. Voltou a dividir sua atenção entre a leitura e a vigia.

Mas, o quê?

Os olhos verdes abriram-se em uma fenda milimétrica. Focalizaram disfarçadamente o manto que agora estabilizava sua temperatura e zelava por seu sono. Presente de sua inimiga.

Não dá para acreditar!

Quinn voltou a fechar os olhos e começou a questionar uma multidão de pensamentos antagônicos. Chegou a uma conclusão que não ajudava.

A certeza inútil:

Ela já não tinha certeza de mais nada.

Notas finais
O livro que falta na coleção da Rachel se chama: Orgulho e Preconceito, Jane Austen. Guardem essa informação na cabeça porque vou usá-la numa cena bem legal que estou preparando lá na frente. Esse capítulo não teve ação ou aparição do lobo negro, mas eu precisava desenvolver a relação delas, o lobo eventualmente aparecerá. Beijos e até o próximo.