Notas iniciais
(Sophia)
Mais tarde, no jantar, eu só queria saber o que aquelas letras queriam dizer. Pode parecer mais uma coisa bizarra que só poderia vir de mim, mas algo me dizia que aquela era mais que uma simples chave velha, incompleta e estranha. Tinha alguma coisa a mais, eu podia sentir. “Laya”. Sussurrei o nome talhado no ferro amarelado.
—Disse alguma coisa querida?
Saí do transe:
—Anne? Não, eu não disse... — falei, comendo e olhando a hora, o que fazia a comida cair de volta no prato. Depois de alguns silenciosos minutos, limpei a boca com um guardanapo e me levantei da mesa. Glenn levantou ao mesmo tempo, quase ameaçador. Apressei-me:
—Sair. — eu disse depressa o suficiente para levantar suspeitas.
—Com quem e pra onde?
Papai perguntou, mas eu já havia subido a escada. Me tranquei no único banheiro da casa, colocando o cordão com a chave no pescoço. Olhei no espelho; tudo bem. Tudo bem.
Você é uma idiota, Sophia, é sim.
Sabe, não era um encontro de verdade, ele só ia me mostrar a cidade. Deixei meu cabelo volumoso e ondulado solto, e um casaco para suportar o frio da cidade. Apesar de ser a primeira vez que alguém me chamava pra sair, eu não conseguia parar de pensar no livro. Olhei pela janela esfumaçada pela névoa e avistei uma moto parada do lado do jardim quase congelado. Limpei a névoa com a mão e acenei, ele me viu e buzinou. Desci as escadas até a sala estar.
Taylor parecia uma testemunha entre meu pai e Glenn. Me olhou e acenou discretamente. Devolvi seu aceno. Anne parecia nas nuvens. Fiquei meio constrangida com a cena, mas a gente tem que suportar a família nessas horas, não é mesmo? Desci mais dois degraus e sorrimos um pro outro. Papai franziu o cenho:
—Voltem cedo.
—Pode deixar Sr. Edan, vou cuidar bem dela.
Papai me olhou mais uma vez e descontraiu em um sorriso. Ri um pouco e passei com Glenn, lhe dando um soquinho no ombro. Saí antes que virasse uma daquelas cenas de “adivinhe quem veio para o jantar”. Já do lado de fora, a única coisa que fizemos foi rir daquela situação:
—Família legal.
—Vamos logo — ri.
—Quer ajuda para subir?
—Aceito. Nunca andei de moto antes. Pelo amor de Deus vai devagar!
—Pode deixar. Prepare-se para se apaixonar pela cidade.
Ele me ajudou a colocar o capacete e a subir. Ele acelerou, fazendo as gotas de água congelada se desprenderem do chão. O medo desapareceu por completo quando as luzes da pequena cidade invadiram os olhos e a alma. O cheio de flores do campo me atingiu em cheio, era muito bom. Quase não dava mais atenção ao frio daquele lugar. A calmaria diurna foi substituída por um vai e vem noturno que combinava perfeitamente com a sensação de estar permanentemente em contato com o meu redor. E com as luzes. Diferente de um grande centro urbano, essa cidade não tinha nada de tão espetacular, mas era incrível em sua simplicidade.
Ao contrário dos planos, eu tirei uma foto. As pessoas que antes eu achava tão estranhas, não eram indiferentes aos passantes, sempre sorrindo e se cumprimentando, exatamente ao contrário das pessoas que eu chamava de conhecidos na grande cidade.
Paramos e ele estacionou. Caminhamos pela rua conversando e observando o vai e vem calmo de Stenfoll, nada mais estranho pra mim. Depois de alguns minutos de uma caminhada nada rotineira, entramos em um daqueles dinners noturnos. Estranhei o fato de o lugar estar quase cheio, e comecei a pensar que aquela cidade escondia mais pessoas do que dizia ter. A garçonete, Carmem, loira de penteado anos 80, uma pinta falsa na bochecha esquerda e uma maquiagem bem... Chamativa, veio até nós:
—O que vão querer?
Taylor perguntou o que eu queria, sorrindo, sempre:
—Uma salada pequena e um pudim pra sobremesa.
—E eu o que ela pediu e o especial da casa.
—Mais alguma coisa? — Carmem, a estranha, perguntou, alisando a jaqueta de Taylor e sentindo os músculos do braço. Segurei o riso.
—Não, obrigado.
Esperei a garçonete se afastar e soltei uma gargalhada. Ele também riu, mas algo entediado, deixando claro que isso acontecia com frequência.
—Agora sei por que se apaixonou pela cidade.
—Você ainda vai descobrir o motivo. É vegetariana?
—Sou, mas, ativista não, nem vegana. E sei que esse negócio de ser contra a cadeia alimentar nos deixaria baixo dos gafanhotos, mas eu só... vi uma vaca ser morta. E agora ela me assombra.
—Que interessante — disse Taylor, girando os olhos.
—Não. Mas e o motivo pra você... Sabe... Continuar na cidade.
—Uma responsabilidade... Mas, então, como é sua vida em Houston?
Falamos por horas sobre nossas vidas, indiferentes se o lugar ia ficando vazio, ou não. Um pouco da vida dele; 19 anos, veio pra os lados do Alaska para estudar medicina. Tinha uma irmã que havia ficado na Virgínia, Tiana, de 14 anos. Achava country esquisito e gostava de ler, lembro-me de ele ter mencionado que escrevia um livro caseiro sobre medicina, mas que ainda não havia tido a chance de ter uma experiência real com o oficio. A maneira calma de falar me lembrou a de um pediatra e me deixou com medo, como se eu estivesse diante de meu pai.
—Falando em livro... — ele interrompeu o assunto de repente, parecendo animado — Eu andei pensando e faz sentido que tenham roubado seu livro. É uma edição anônima e raríssima, e é um absurdo que tenha ido parar em uma lojinha de aeroporto, mesmo que fosse só uma cópia...
Assenti, impaciente.
—A questão é — ele prosseguiu — que sei onde encontrar seu livro. Ao menos eu acho.
—Onde? — perguntei, enquanto ele pagava a conta, repentinamente interessada no livro outra vez.
Saímos e subimos de novo da moto. Ele simplesmente disse:
—Vem comigo.
Hesitei por um vago momento. Tudo ficou silencioso e eu soube que já era muito tarde antes mesmo de aceitar as ideias de um quase completo estranho. Não era medo.
—Por que está fazendo isso? — perguntei.
—Porque somos parecidos. É bom se segurar — disse, antes de arrancar outra vez pelas ruas de Stenfoll.
(Sophia)
Acima da livraria havia um prédio velho que eu não havia reparado antes por causa da pressa. O piso rangia e comecei a sentir vertigem. Ele apoiava meu braço que tremia como se estivesse levando uma descarga elétrica.
—Calma — ele disse — Vai com cuidado.
Apoiei o pé no penúltimo degrau da escada e consegui dar impulso, o que me fez cair por cima dos pulsos, que ficaram latejando.
—Paraíso dos nerds — sussurrei, ao me levantar, esfregando os pulsos.
Era maravilhoso: estantes repletas de livros variados, e alguns muito raros. Passei alguns segundos estática, maravilhada com o deslumbre que aquele lugar trazia em seus olhos, apesar de poeira ao meu nariz.
—Que lugar é esse?
—Minha segunda casa — falava Taylor, enquanto folheava um livro ou outro.
–Que incrível. -falei, enquanto passeava pelas estantes abarrotadas de mundos e contos sem fim. Chegando a uma grande janela, deu alguns passos para trás.
Um vulto parou de pé ante pé da janela, alto demais para ser um gato. Me encostei contra uma das estantes.
—Lucy! — chamou Taylor, fazendo o vulto sair das sombras e quase em cima de mim, me dando o impulso de vomitar o que eu havia comido. Era uma garota alta, pele negra, e um cabelo crespo que estava preso com barbante debaixo de um gorro, olhos de um castanho escuro semelhante a um torrão de café e lábios grossos e firmes semicerrados, com um meio- sorriso irônico. Ao me ver, me dirigiu um “oi” seco.
—Oi! — cumprimentou Sophia, estendendo a mão — Me chamo Sophia.
—Lucy — respondeu a garota, recusando o aperto de mão e se sentando no peitoril da janela, altiva como uma amazona — E eu sei. Taylor ficou matracando sobre uma garota estranha na livraria.
—Então... — murmurei, encolhendo a mão que nunca deveria ter estendido — Claro que ficou.
—Desculpe a educação de Lucy — disse Taylor, sussurrando, recolocando um livreto na estante — ela é neta de uma antiga senhoria desse lugar, muito antes de fechar por causa de uma estrutura condenada. Os pais eram os donos. A avó está internada em um...
—Sanatório — falou Lucy, da janela, sem olhar para nenhum dos dois. De repente, tinha um livro nas mãos, e balançava os pés despreocupada em cair daquela altura — Não é legal essa tal Odisseia? O cavalo de Troia. Suicida e brilhante.
—Isso... — falava Taylor, enquanto nós caminhávamos pelo corredor da biblioteca — Lucy foi mandada para um orfanato depois que a avó morreu, mas fugiu. Encontrei esse lugar no meu primeiro mês nessa cidade, e com ele, Lucy. Ela vive comigo desde então, mas... É como criar um gato, independente. E ela passa a maior parte do dia aqui. Já tentei colocá-la em três escolas, mas ela foi expulsa de duas e quase colocou fogo em uma. — ele riu por um momento, como se estivesse se recordando. De repente, parou diante de um armário na parede, fechado com chave, mas a tranca simplesmente cedeu quando ele a empurrou. Debaixo de alguns papéis amarelados, se encontrava um livro, na capa negra do qual se lia: “Arcádia, contos do velho caminho”.
—É seu.
—Verdade? —Tentei esconder que estava feliz por ganhar um livro velho — Obrigada! — disse, com um abraço, mas depois ela se recordou: — Mas você disse que...
—Esse lugar tem lá seus segredos.
Sentamos em uma das cadeiras empoeiradas em mesas redondas. Assim que abri o livro, havia uma página solta que voou em espiral até a mão de Lucy, que passava. Ele recolheu-a no ar e olhou para mim e depois para a folha.
—Olhem isso... Esse desenho — falou, entregando o livro a Taylor. Aproximei-me para ver enquanto Lucy sumia outra vez.
Era a pequena metade de algo como uma chave, cravejada com desenhos estranhos e letras quase inteligíveis. Retirei a corda que pendia do pescoço, mostrando à chave igualmente decorada que, em sua parte posterior, se encaixava perfeitamente a metade mostrada no desenho, formando uma chave estranha, dupla, mas uma:
—Pode ser só coincidência. Quantas coincidências em um mundo com trilhões de coisas... — ele olhou para mim, sério — Não acredita mesmo nisso, não é?
—O que é impossível? — depois de alguns silenciosos segundos, o meu celular tocou. Era uma mensagem de Glenn: “cadê você?” — Acho que já está tarde...
—Vou te levar de volta. Lucy, eu... Lucy?
Lucy havia desaparecido na noite, como se houvesse pulado da janela. Guardei o livro na bolsa para onde o outro livro nunca voltara, e saímos pelo mesmo alçapão.
(Narrador)
Sophia percebeu, assustada, que já passavam das duas da manhã. Agradeceu a Taylor mais uma vez pelo livro. O frio a fez agitar as chaves que tinha nas mãos. Taylor sorriu.
—Não é algum sinal, é?
Sophia negou.
—Precisa ler melhor as pessoas, Taylor. — Sophia também sorriu, sentindo seu nariz estremecer e suas orelhas esquentarem, as destrancar a porta e entrar em casa.
Com todo o cuidado, a moça tentou atravessar a sala, mas outro vulto (mais alto e magro) a parou. Desta vez, Sophia apenas parou, retesando-se com o susto repentino.
—Glenn? — Sophia mordeu o lábio inferior, tentando segurar a risada com a imagem do irmão: um roupão, pantufas velhas do Adventure Time, uma xícara de café na mão e o cabelo desgrenhado e amassado de um lado.
—Sabia que são quase duas da manhã? —seus olhos pareciam sem foco por causa do café.
—Sabia. Tenho relógio, aquele que você me deu no natal. Ele apita e... Você viciou em café?
—Que livro é esse? Você sai e volta com um livro?
—Da próxima vez eu volto com um sobrinho, pode deixar. Boa noite — deu-lhe um beijo na bochecha.
Sophia subiu e se trancou no quarto. Acendeu a luminária e se debruçou sobre o livro. Olhou mais uma vez a chave e o desenho, como se buscasse uma resposta escondida. Tornou a leitura de onde havia parado. “As seis nações. Seis partes de um país do hemisfério norte de um planeta no interior de uma nebulosa, cuja percepção de tempo é...”.
A moça afastou o livro, sentindo a dor e cabeça mais forte o que nunca. Deitou e sentiu suor frio em sua testa. Tentou afastar a imagem da chave de sua mente e não olhar para o colar no criado-mudo, que parecia, por sua vez, querer olhá-la de volta.
Teve o mesmo sonho aquela noite.
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