Gigantes Vermelhos- O Sangue do Caos
3 O canto dos fantasmas
Notas iniciais
(Sophia)
Dois dias depois, Glenn, Anne, papai e eu viajamos de carro até a fazenda de gado do Sr. Olaff. Perguntava-me o tempo todo como os animais sobreviviam naquele lugar gelado e inóspito. Mas a economia daquela região parecia, incrivelmente, baseada na exportação de gado. Pra que? Abate. Mas tudo o que eu conseguia ver eram alguns cercados, um estábulo de cavalos, uns celeiros e algumas moradias de trabalhadores um pouco adiante. Sr. Ned, um amigo do Sr. Olaff e seu criador de cavalos, explicou que a propriedade se estendia por uma cidade vizinha.
Sr. Olaff parecia um daqueles americanos patriotas que vemos nos filmes, sempre com uma águia no ombro e um revolver na cintura. Mas ele, sem arma nem águia, conseguia por medo em qualquer forasteiro desavisado quando ficava carrancudo e, mastigando o nada, dizia "não cheguem perto do lado do lago".
Passamos alguns cercados e os outros foram ver os estábulos. Não fui; nunca levei o menor jeito com cavalos. Peguei Glenn pelo ombro e murmurei:
—Viajamos seis quilômetros por gelo, cavalos e... Gelo?
—Pelo menos consegue fingir que gostou?
—Posso fingir que estou tendo alucinações hipotérmicas e ir embora. Pode me ajudar?
Ele seguiu em frente. Pouco depois dali, em um barranco alto que dava para um lago completamente coberto por gelo, deveria pegar algum sinal de celular, por menor que fosse. "Não cheguem perto do lado do lago"? Mas por que? Com o gelo sólido, que perigo aquilo tinha? Subi em algumas peras bem escorregadias para subir ao cume aquele morro. Levantei bem o braço, mas nada. Pisei em falso, umas duas vezes. Foi ai que olhei pra baixo. Sempre tive um pouco de medo de altura, mas aquela fissura no gelo me chamou a atenção. O gelo deveria ser bem fino naquela parte do lago.
Algumas pessoas acham que essa vontade súbita de alcançar alguma coisa por impulso físico ou mental, ou mesmo o simples querer, é o chamado “instinto”. Nunca acreditei muito nessas coisas, mas naquele momento... O gelo, a fissura, tudo me trazia um magnetismo estranho demais para ser ignorado. Posso estar mais maluca do que nunca, mas estava a um simples passo da morte certa. Era como se o gelo me chamasse, calmamente.
Ouvi um grito a distância:
—Sophia!
Sem pensar, dei o passo adiante. Senti o vento cortante e o gelo encontrarem meu corpo, como se fosse natural uma camada de gelo se partir como se desse passagem pra mim. Um choque percorreu cada nervo que eu tinha, mas não senti aquele baque térmico que mataria um ser humano, só senti a mudança de ambiente: tudo ficou mais espesso, como se o tempo na superfície fosse como uma prisão. Mas não afundei completamente, apenas de leve. Não houve nenhum segundo de desespero, não de mim. Abri os olhos e a boca. Pode ser que ou já esteja morta, ou inconsciente, mas eu respirei debaixo da água, a muito menos de zero grau. O gelo me envolveu, a um ponto que eu me senti acolhida por uma rede subaquática. Aos poucos o branco foi sumindo, e era como se eu simplesmente caminhasse na mesma atmosfera da qual eu havia vindo. Uma imagem surgiu, aos poucos, no começo ela tremeluzia. Mas depois foi ficando nítida. Seres que não pareciam nada com pessoas, mas sim peixes. Gigantes e com membros cheios de filamentos. Cantavam. Não uma música humana ou o ressonar dos golfinhos ou baleias, mas um sibilar de cobra, voz de criança, risos, gritos quase inaudíveis, tudo misturado. Um deles estendeu a mão pra mim, e eu tentei toca-la. Mas acho que uma coisa me puxou, pra baixo. Senti meus sentidos indo embora e tudo voltou a se tornar escuro.
(Narrador)
—Sophia? Querido, ela acordou!
Os olhos da menina demoraram a se acostumar com a luz branca que inundava o quarto inteiro. Demorou a reconhecer cinco rostos, dentre eles, um de olhos azuis que pareciam dar uma bronca. Era Taylor. Os olhos de Sophia demoraram a ficar nítidos, mas seus ouvidos reconheceram aquela voz.
—Onde eu estou? Que fome.
—No hospital —disse Glenn — há dois dias.
—Você caiu dentro do gelo Sophia! Você quase morreu! Tem noção de como... — a voz de Anne falhou, e ela se abraçou ao pai de Sophia. Os dois pareciam acordar de um pesadelo.
—Eu... —Sophia pôs a mão na testa, e a enfermeira aconselhou todos a se retirarem. Assim que todos saíram, sem ninguém perceber, Taylor entrou novamente no quarto, puxando uma cadeira e sentando do lado da cama.
—O Glenn me disse que você não caiu da pedra... Garota, você é demente? Você se jogou de lá!
—Glenn me tirou de lá, não foi?
Taylor assentiu. Seu queixo tremia, e seu rosto estava avermelhado. Jogou todo o ar para fora e o aspirou outra vez. Apertou o indicador e o polegar no canto interno dos olhos.
—Por que fez isso?
—Eu... —ela passou uns segundos calada, como se avaliasse a que ia dizer- vai me chamar de maluca depois que eu disser isso, mas... Na água, eu respirei. E encontrei uns seres malucos, tem que acreditar em mim!
—Ah! Então você encontrou a pequena sereia em uma alucinação hipotérmica idiota? — ele rolou os olhos, mas depois olhou para ela, serio- você foi encontrada no fundo de um lago congelado quase morta, entendeu?!
—Então... Olha isso! — Sophia pegou um livro na cabeceira da cama, e o abriu em uma ilustração — “Os sereianos presentes no gelo podem se comunicar com humanos através de suas canções”. Eu ouvi uma voz esquisita naquele lago, Taylor, eu sei!
Taylor a tomou pelos ombros, severamente. Seu livro caiu no chão do quarto de hospital.
—Você enlouqueceu?! É um LIVRO! É FICÇÃO! Tudo bem que você se ligue nisso, mas agora, misturar isso com o real? Você quase morreu garota!
—Se não acredita em mim, ótimo. — encarou-o severamente. Na expressão se Sophia, Taylor reconheceu a velha avó de Lucy, no único dia em que quis ser visitada — Vai embora.
O rapaz saiu dali a taxando de louca. Mas Sophia permanecia em seu próprio mundo. Pensou mais uma vez no lago, fechou os olhos e podia tornar a ouvir a vozes. Tudo ficou estranho, como se estivesse de volta à atmosfera da água.
Sophia recebeu alta no dia seguinte. O tempo parecia desaparecer a sua volta, todas as vezes que recomeçava a ler o livro. Não parava um segundo sequer, e ficava cada vez mais fechada em seu próprio mundo, e se abria ao mundo do livro. Taylor, em contrapartida, não entendia nada o que tudo aquilo significava, não fosse para um louco.
“Nação do fogo... mesmo sem a morte de seu rei legitimo, o irmão tomou o trono por ser o segundo na linhagem...”.
“Sereianos do gelo... alimentam- se de carne humana ou animal...”.
“A paz nunca foi selada entre Alphallus e a Nação do Mar”.
—Não é estranho, esse livro não ter autor? — observava um vulto que entrara pela janela, sem ao menos fazer ruído. Lucy.
—É sim... Eu acho que... Espera, como entrou aqui? O que veio fazer aqui?
—Te dar razão. —ela mostrou a ilustração dos sereianos do gelo — minha avó foi internada como louca mesmo sem ser. Eles existem, e ela tentou provar isso pela vida inteira, sempre lendo o que podia naquela bendita biblioteca. Até que um dia ela se jogou no lago para vê- los. “Eles existem”, foi a última coisa que ela me disse antes de... Esquecer-se de mim. Ela diz que já houve pessoas que foram para...
—Taylor mandou você aqui?
—Ele foi a primeira pessoa a te chamar de maluca. Eu seria a segunda, se não tivesse perdido a última parte da minha família por causa disso. Eu me lembro de uma de nossas ultimas conversas normais, sem gritos ou nada do tipo. Ela me falou em chaves, mas ela divaga quando fala. E sobre esses livros. Essas edições limitadas.
—Então... Você falou em uma chave... — Sophia baixou os olhos para em seu criado-mudo, buscando pelo seu colar de chave.
Quando Sophia olhou novamente entre a janela e a cadeira, Lucy havia desaparecido, havia ido embora. Sophia se debruçou no peitoril da janela, vendo apenas um vulto se afastar dali, caminhando.
Naquela noite, seus sonhos mudaram um pouco: ela estava em um grande jardim, com muitas colunas de mármore branco em volta, sobre a qual caía uma fina camada de neve. Duas fileiras de colunas formavam um corredor massacrantemente alto. Uma risada. Ela corria entre as estatuas e colunas para achar a pessoa a qual pertencia à risada. O medo anterior havia sumido por completo, substituído por uma sensação de completude total. Era uma garotinha, que havia parado em frente a um rio que se estendia para além das montanhas. Seus cabelos eram dourados e cacheados, mas Sophia queria mesmo ver seu rosto.
—Oi. Quem é você?
A garotinha nada disse, apenas continuou de costas, como se procurasse uma resposta olhando o horizonte. De repente ela abriu os braços. Seus pés agora estavam nas pontas, como que se prepara para saltar de um trampolim.
—Não! — Sophia gritou, estendendo a mão e correndo.
Tentou em impedir que a menina pulasse, mas a imagem se esvaiu de suas mãos como se fosse fumaça. Ela saltou de um íngreme penhasco de cinquenta metros de altura, de braços abertos. Sophia ficou sem reação, culpando- se por aquilo ter acontecido. Mas quando voltou a abrir os olhos, e se pôs na ponta do penhasco, sentiu um vento cortar os céus na direção vertical. Olhou para cima, e embora seus olhos estivessem embaçados pelo medo, conseguiu ouvir um urro de um ponto perdido e escuro no céu.
Acordou em um salto, suando frio, como sempre. Algo de estranho sempre rondava aqueles sonhos, mas o som... Pareceu mais que real.
A moça procurou a luminária, mas sua mão atingiu o copo de vidro sobre a mesinha. No escuro, baixou a mão para pegá-lo, no instante em que se quebrou. Os cacos cortaram as juntas de seus dedos.
—Ai — gemeu, usando a outra mão para ligar a luminária — Que droga.
A moça atravessou o corredor e foi ao banheiro, abrindo a torneira e deixando a água fria cair em seu pulso. A cabeça rodava e doía como nunca. O ardor em seus cortes fazia as feridas pulsarem. Os pensamentos lhe tomaram a mente novamente. Essas coisas todas... A água. Ela lhe escorria pelos dedos, lhe causando uma sensação estranha, como se a água penetrasse em suas mãos e lhe fortalece. Ela fechou os olhos e se concentrou...
Antes que seus olhos se abrissem novamente, o ferimento havia desaparecido completamente.
—Pra onde você vai? — Glenn estendeu o braço na frente da irmã, que tomava um táxi.
—Não ia entender. — respondeu Sophia, puxando a porta. Glenn segurou-a, colocando-se entre Sophia e o automóvel.
O taxista encarou-os com um bocejo entediado.
—Vai se jogar em um lago de novo? — Glenn segurou seu ombro tentando afastá-la.
—Não tem graça, cara. E você não vai me arrastar de volta para casa, porque nosso pai vai culpar nós dois, juntos. Então, ou está de castigo comigo, ou está se arriscando comigo. O que você escolhe?
Glenn baixou o olhar, e embora ainda estivesse furioso, sentiu toda a sua resignação ser sabotada por Sophia que, além quase dois anos mais velha, era mais experiente em teimosia.
—Vou com você.
Sophia hesitou por um instante, mas assentiu em seguida. Se fosse pra se meter em mais um dessas, que fosse com seu irmão. Os dois entraram no carro. Em minutos, estavam na porta da antiga biblioteca. Sophia e o irmão subiram ao forro e entraram empurrando o alçapão. O lugar parecia deserto e ainda mais empoeirado.
—Lucy! Lucy! Ela deve estar com Taylor.
—Quem é Lucy e o que o senhor livraria tem a ver com isso?
A moça não respondeu, apenas procurava alguma coisa pelo lugar, guiada aparentemente pelos instintos. Parou em uma instante. Lembrou de que havia trazido consigo o livro, que abriu e folheou. Não encontrando o que queria, simplesmente olhou a borda onde as folhas faziam volume, e viu uma frase, que com certeza fora impressa ali:
—Aqui diz; “a vaech airbar a lheantapu moc a vecha od pento.”.
—Hã?
—É um anagrama! Se reajuntarmos as letras, elas formarão outra palavras. Se essa primeira é “chave” e reaparece com as mesmas letras já forma duas palavras. E essa última é “tempo”.
—Aonde quer chegar?
—Nas respostas. Tenho que me concentrar, falta alguma...
—Ei! Olha isso! — exclamou o rapaz, olhando a instante e focalizando a lanterna. —Esses livros Bizarros parecem formar um desenho... O que você está fazendo?
—Formando o desenho.
As mãos ágeis da moça rapidamente formaram um desenho de uma estrela, cuja estrutura pedia apenas uma parte central, que se completaria com um único livro. Ouviram- se barulhos de passos subindo o forro. Logo duas outras pessoas adentraram a sala. Taylor e Lucy. Ele focalizou a lanterna no desenho da estante:
—O que é isso?
—Minha irmã, provavelmente sob o efeito de drogas. Sophia, eu acho que completei seu anagrama. A palavra que falta é “ampulheta”.
Lucy, que olhava atentamente o desenho de uma estrela de nove pontas, pegou o livro de Sophia, e o colocou no centro dos demais, completando o desenho. De repente se ouviu uma sequência de fechaduras em volta da sala, como se uma porta enorme acabasse de ter sido aberta. As luzes foram focadas nas alças da estante, que passara a se mover sozinhas, penetrando dentro de uma fenda de madeira que havia sido aberta do nada nas bordas da parede. Com um tremor, tudo começou a se mover, e os livros foram levados para dentro da parede, junto com as prateleiras, revelando uma sala, o que seria impossível em outras circunstâncias, já que a sala na qual eles estavam era a única antes de uma parede externa. Sophia tentou entrar, mas o irmão, novamente, a impediu.
—Sophia, não! Você não sabe...
—Sei sim, sei o que estou fazendo! — a moça pisou com cuidado até ter certeza de que era seguro. Em segundos, todos estavam dentro da saleta. A porta se fechou atrás deles, e Lucy percorreu o lugar com um feche de luz da lanterna.
—Que lugar é esse?
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