Giane e Fabinho: Simplesmente amor.

4 Que palhaçada é essa aí, cara?


Notas iniciais
Nesse capítulo, descrevo uma discussãozinha (boba, aliás) da qual senti falta. Apesar da banalidade do motivo, gostaria de ter ouvido maiores explicações de Giane. Ficaria ainda mais contente se ela optasse por cortar, de vez, relações com Caio, mas, como tento ser fiel ao estilo dos personagens, imaginei como as coisas poderiam ter acontecido.

Dizem que “tudo está bem quando acaba bem”... há também uma outra versão para esse ditado, “No fim, dá tudo certo. Se ainda não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim”. Que o digam os livros de contos de fada, que terminam, boa parte, com o maior dos clichês: “e foram felizes para sempre...”

Sempre achei essas frases feitas uma tremenda babaquice. Mas, se eu acreditasse nelas, diria que o recorte mais conflituoso de minha história já havia sido contado. Depois de passar mil e um perrengues, eu finalmente estava por cima. Trabalhando com aquilo que gosto, sócio de uma agência que, acredito, vai se expandir muito... rico, muito rico... devidamente inocentado de todas as armações feitas para me incriminar... e namorando a única mulher que amei na vida.

Mas, infelizmente, a gente sabe que na prática a coisa é um pouco diferente. Existem, e sempre existirão conflitos, situações (e pessoas) que nos tiram do sério, problemas que fazem parte da vida e de viver. E, se finalmente estava tudo bem comigo, para alguns à minha volta muito ainda havia de se resolver. E aquilo, mesmo que indiretamente, acabava me atingindo.

Pelo que eu soube, a irmã de Amora estava mal. Doente, hospitalizada, precisando de um transplante de medula e, se a situação não se invertesse, com poucos dias de vida. Por mais que eu almejasse que Amora pagasse por tudo o que fizera, ainda que eu pouco conhecesse Simone de fato, eu não a desejava mal. Por isso, quando Giane me ligou e pediu que fosse com ela até o hemocentro me cadastrar como doador de medula, eu acatei.

Antes, porém, precisava resolver algumas questões referentes à Crash Mídia. Fui recrutar uma nova modelo para uma de nossas campanhas e, ao chegar, dei de cara com Caio abraçando Giane e exclamando:

– E se eu for, você volta a namorar comigo?

Deus sabe que minha vontade era a de quebrar a cara daquele folgado. Aliás, Caio era uma das pessoas com o poder de me dar nos nervos. Não apenas pelo fato de ser ex de Giane, ou por ficar, constantemente, dando em cima dela... mas apenas por ser quem era (um otário), por ter aquela cara de bobo, por ser um playboyzinho folgado que adorava se fazer de bozinho... a existência dele, em si, me parecia tão irritante quando dispensável. Por tudo isso, deixá-lo com um olho roxo (ou dois) me faria muito feliz. Porém, estando eu a trabalho, respondendo a processos, e nada a fim de arrumar confusão, apenas me aproximei e perguntei:

– Ô, ô, ô... que palhaçada é essa aí, cara?

– Calma aí, cara... só tava dando um abraço nela, só isso. – respondeu o babaca.

– É? Cê acha que eu sou imbecil? Que eu não ouvi o que você falou pra ela?

Giane tratou logo de colocar panos quentes:

– Fabinho, menos. Vamo aproveitar que tá todo mundo aqui e vamo todo mundo fazer o teste de medula, né?!

“Menos” era o caramba, mas eu não ia discutir com ela ali, na frente daquele idiota. Resolvi dar de ombros e retomar o foco.

– Não, depois. Antes, eu vou falar com a Vanessa, que é por isso que eu vim aqui. — respondi, continuando: — Tudo bem, Vanessa?

– Tudo bem! – respondeu a secretária.

– Cê já pensou em desfilar?

– Eu adoraria.

– Então, eu acho que...

Não satisfeito com a cena anterior, Caio me interrompeu, ainda tentando me tirar do sério:

– Então é com a minha agência que cê tem que falar.

Respondi, tranquilamente.

– Não, eu não vou falar com você não, porque eu prefiro falar com a Camila, que é mais bonita. (sorrisinho irônico)

– Cê acha que vou te deixar sozinho com a Camila? – intrometeu-se Giane, já em meu encalço.

– É, então vem, não fica com esse cara não.

Ainda pude ouvir Caio cacarejando alguma coisa com Vanessa. Mas não sei o que era, nem quero saber.

Depois de falar com Camila e acertar os detalhes do desfile do qual Vanessa participaria, desci com Giane, esperando pelo taxi que nos levaria até o hemocentro. Foi ela quem quebrou o silêncio.

– Ihhh, o que você tem, heim?

– E você ainda pergunta? Ah, pelo amor de Deus, Giane. Eu não sou obrigado a agüentar esse tipo de coisa.

– Quê tipo de coisa? – perguntou, sem economizar no cinismo.

– Se você não sabe, não sou eu que vou te responder.

– Fabinho, não tem motivo pra você ficar assim. O Caio é meu amigo, ele só tava brincando comigo.

– Giane, não banca a inocente. O Caio é seu ex-namorado. Ele vive te cercando, não perde oportunidade de te alisar, nem esconde que ainda gosta de você. Já passou da hora de você dar um passa-fora nesse cara.

– Fabinho, por acaso você tá desconfiando de mim? Se eu quisesse ficar com o Caio, eu estaria com ele. Mas não. É com você que eu tô. Então, não vem me encher o saco por conta disso.

– Não tô desconfiando de você. Também não tenho porque me preocupar com esse babaca, sou muito mais eu. Mas ninguém é obrigado a agüentar um folgado desses dando em cima da namorada o tempo inteiro. Tenho certeza que, se fosse comigo, você também não ia gostar.

– Não, senhor... eu não ia ficar de ciuminho besta, que nem você tá fazendo agora.

– Ah, Giane, me poupe. Você meteu a mão na Mel outro dia no Cantaí. E nem me deixou ir falar sozinho com a Camila. — Giane me olhou, tentando continuar séria. Mas acabou caindo na gargalhada. Eu também acabei rindo, por me lembrar de como Giane pode ser “intensa” em alguns momentos. – Olha, tudo bem, a gente acabou de fazer as pazes e eu não quero brigar outra vez, ainda mais por conta desse tosco do Caio. Eu confio em você. Só toma cuidado com esse cara.

– Tá certo. Eu prometo que vou pedir pro Caio parar de falar esse tipo de coisa.

– Ok, então.

Cruzei os braços e continuei parado, esperando o taxi chegar. Ela tentou quebrar o gelo e se aproximou, me abraçando.

– Mas nem precisava falar nada pro Caio. Porque ele sabe que é de você que eu gosto.

Desarmado, retribuí ao abraço.

– Ah, sabe, é? Por quê? Por acaso, cê falou pra ele?

– Não... mas nem precisa. É só olhar pra mim que qualquer um percebe.

– Ah, é?

– É!

Me aproximei, e beijei carinhosamente seus lábios.

– E você, é a mulher que eu amo. A primeira, e a única.

Ela sorriu, e me beijou novamente.

O taxi chegou. Fomos ao hospital, e encontramos vários conhecidos por lá, também dispostos a se cadastrarem como doadores de medula. Giane quis ficar lá por um tempo, esperando alguma notícia. Acabamos voltando para casa. Naquele mesmo dia, Simone não resistiu e faleceu.

Apesar de tê-la conhecido pouco, e sob circunstâncias nada favoráveis, ela parecia ser boa pessoa... bem diferente da irmã, aliás. Não pranteei sua passagem, mas fiquei sinceramente comovido. Não por pena de Amora, até porque, eu nem sabia se o sentimento dela pela irmã era mesmo sincero... mas pela própria Simone, que era jovem, e tinha dois filhos. Só não fui ao enterro porque acho que não tinha muito a ver. Mas foi um dia estranho. A gente sempre fica melancólico quando alguém próximo, principalmente alguém jovem como a Simone, se vai. Acho que presenciar a despedida de alguém acaba nos fazendo pensar que, invariavelmente, um dia também teremos de nos despedir.

Essa é a dor e a delícia do ser: a certeza da finitude. E, se tudo chega ao fim, que seja na hora certa, no momento oportuno. Afinal de contas – permitam-me o trocadilho – tudo está bem quando acaba bem. E, se ainda não está bem, provavelmente, ainda não acabou.

Notas finais
Continuo a agradecer imensamente pelos reviews positivos que tenho recebido. Foram eles que me incitaram a continuar escrevendo! Obrigada, todas vocês!