Giane e Fabinho: Simplesmente amor.
5 Eu errei, sim, em te acusar por tudo aquilo.
Notas iniciais
O dia fora tranquilo, mas eu, que havia saído com Giane na noite anterior e bebido um pouco além da conta, estava com alguns sintomas de ressaca. Pensei em ir embora mais cedo do trabalho (afinal, eu era patrão – risos irônicos), mas nem Érico, nem Sílvia estavam por lá, então precisei ficar para coordenar os afazeres do dia. Na volta, fiz meu caminho habitual, passando em frente à Acácia Amarela. Percebi que Bento estava lá, no balcão, e me viu passar. Dei de ombros, e continuei a seguir em frente.
Alguns passos adiante, notei que ele havia saído atrás de mim. Ouvi quando ele me chamou:
- Fabinho, será que eu posso falar um instante com você?
Me virei para ele, incrédulo. Sorri, debochado.
- Peraí... será que eu ouvi direito? Bento, o ser supremo da bondade, quer ceder um espaço de seu santificado tempo para falar com um bandido feito eu? – ri, quando ele me lançou um olhar de reprovação. – me dá um pouco disso aí que você fumou, porque pelo visto é muito bom mesmo!
Bento, como de costume, continuou com cara de paisagem e ensaiou recomeçar o discurso que eu interrompera. Porém, percebi que ele hesitou. Calou-se, e adotou uma expressão de cansaço, olhando para o chão.
- Ah, quer saber? Você é um idiota, não dá mesmo pra conversar com você. – exclamou, já se virando e tomando o caminho de volta para a loja.
- Peraí, cara. – chamei, percebendo que ele parou e virou-se novamente pra mim. – Agora eu fiquei curioso. Fala aí, o que você tinha pra me dizer?
Bento hesitou, calando-se por um curto espaço de tempo. Mas acabou por falar.
- Tudo bem, eu falo. Olha, Fabinho, minha opinião sobre você não mudou. Eu continuo discordando da sua maneira de agir e tratar as pessoas, e, pra mim, você continua sendo um cara interesseiro e egoísta.
- Opa! – interrompi. – Se o seu objetivo era me magoar, cara, você conseguiu! Não vou nem dormir a noite! – gargalhei.
- Eu ainda não terminei.
- Hmm... ok, então. Continuando...
- Bom... mesmo sabendo que eu tinha todos os motivos do mundo pra desconfiar de você, eu me deixei levar pela sua fama e te acusei de coisas que você não fez.
- E me agrediu, me chamou de assassino, ameaçou me entregar pra polícia, colocou a casa verde inteira contra mim... será que eu esqueci de alguma coisa?!
- Fabinho, você sabe muito bem que eu tinha razões pra acreditar que você era culpado de todas aquelas coisas. Não só porque eu tive evidências disso, mas porque você já tinha dado provas da sua falta de caráter.
- Evidências? Falta de caráter? E não é você quem se gaba de ser tão justo, tão correto? Não é você quem anda pedindo pra todo mundo dar uma segunda chance à Amora, porque ela está arrependida de tudo o que fez? Eu te disse que eu era inocente, eu tentei te explicar o meu lado, mas você nunca quis ouvir! Que moral você tem pra falar de evidências, de falta de caráter?
- E você, Fabinho? Acha que ta em condições de vir me dar lição de moral? Você ameaçou e chantageou a Amora, roubou a casa do Tio Gilson, ameaçou matar a Dona Odila, quis comprar a rua, humilhar todo mundo, destruiu a minha estufa.
- Olha só, cara – respondi, calmo. – Pela estufa, eu já admiti pra você que fui eu, já pedi desculpa, e, inclusive, já me ofereci para te pagar todo o prejuízo que causei. Agora, pelo resto, não tenho que ficar me justificando pra você. Já levei porrada de tudo quanto é lado por conta dessas coisas e não é a você que eu tenho que prestar contas.
Virei as costas. Antes, porém, que eu recomeçasse a andar, ele me chamou novamente:
- Espera, Fabinho. Ainda não terminei de falar.
Impaciente, voltei-me novamente pra ele.
- Então desembucha logo, vai.
- Olha só, cara, eu não te chamei pra discutir. O que eu queria falar é que eu errei, sim, em te acusar por tudo aquilo. E eu costumo assumir os meus erros. Por isso, peço desculpas por ter sido injusto com você.
Não resisti e sorri com o canto da boca. Provoquei:
- Ah, não! Eu devo estar sonhando! Você, Bento, literalmente uma flor de pessoa, comete erros, afinal! Já tô até ouvindo soarem as trombetas do apocalipse!
- Bom, minha obrigação, eu já cumpri. Não tenho que ficar aqui ouvindo suas piadinhas sem-graça. – Protestou, virando-se de costas e se preparando para voltar à Acácia Amarela.
- Peraí, Bento. – chamei. Ele voltou-se novamente para mim. – Tranqüilo, cara. A gente ta zerado. – aproximei-me, estendendo a mão para ele.
Ele olhou minha mão estendida, desconfiando de meu gesto. Mas acabou por ceder. Apertamos as mãos, acenei com a cabeça e, mais uma vez, ele me interpelou, antes que eu retomasse o caminho de casa:
- Tem mais uma coisa que eu queria perguntar pra você.
- Pois bem. Sou todo ouvidos.
- A Giane... o namoro de vocês é sério, mesmo?
- Ah, cara, na boa... eu não tenho que ficar falando dela com você.
- Fabinho, a Giane é uma irmã pra mim. Eu me preocupo com ela.
- Então, pode parar de se preocupar, porque eu pretendo cuidar muito bem dela. Não que isso seja da sua conta, mas eu amo a Giane. E, se for verdade o que ela me diz, ela me ama também. Espero sinceramente que você não se intrometa no nosso namoro.
- Não vou me intrometer. Só queria ter certeza que você não vai magoá-la.
- Fica tranqüilo, eu não vou. Agora, pode voltar para as suas florzinhas.
- É o que eu vou fazer. Boa noite pra você.
Não respondi o cumprimento, e já me preparei para voltar para casa outra vez. Já havia avançado um quarteirão quando senti a mão de Giane no meu ombro. Ela parecia ter corrido para me alcançar. Parou, recuperou o fôlego, e me cumprimentou com um beijo rápido.
- Onde você tava? – perguntei.
- Eu estava chegando da agência. Acabei ouvindo a conversa de vocês.
- Ah, é? E o que você acha disso tudo?
- Sei lá, Fabinho... quem sabe um dia você e o Bento possam ser amigos, rir dessa história toda... vocês dois foram criados juntos, não faz sentido agirem como inimigos.
- Ah, Giane, eu não tenho vocação pra ser amiguinho do Bento. Não tenho paciência com aquela mania dele de dar sermão em todo mundo. Continuo achando ele um otário.
- Mas isso pode mudar. Até um tempo atrás, eu e você também não nos dávamos bem, lembra?! Aliás, o senhor vivia me provocando, me xingando, me chamando de macho, de maloqueira.
- Ah, mas isso eu ainda faço. Até porque, você continua sendo uma maloqueira.
- Hahaha, que absurdo! – respondeu, dando um soquinho leve em meu braço. A abracei pela cintura e dei uma leve mordida em sua nunca, continuando a falar:
- Aliás, é a maloqueira mais linda do mundo.
- Hmmm, não adianta vir me bajular agora não, tá, fraldinha?!
- Ô Giane, você nunca vai parar de me chamar de fraldinha? Pô, isso é muito queima-filme.
- E você, nunca vai parar de me chamar de maloqueira?
- Não!
- Bom, então acho que sua pergunta já foi respondida também! – sorriu.
- Tudo bem, tudo bem. Eu aceito essa humilhação. – me aproximei de seu ouvido. – Mas só se a senhorita vier dormir lá em casa comigo hoje.
- Ah, dormir lá, não... mas posso, digamos, ficar até mais tarde.
- Então vem, vamo logo! – respondi, puxando-a pela mão e apertando o passo, correndo até alcançar o portão de casa. Entre muitas gargalhadas, provocações mútuas e extensas demonstrações do mais sincero afeto, andávamos juntos, lado a lado. Nos divertíamos pelo simples fato de estarmos um na companhia do outro. Éramos parecidos, mas também nos completávamos.
Ahhh, eu nem me lembrava mais da ressaca que me fizera querer voltar pra casa.
Notas finais
Divida sua opinião comigo!
Quero continuar escrevendo essa história, em conjunto com todos os fãs da história desse lindo casal.
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