Gateway - Camping Green hil

20 O que mais pode me acontecer??


Notas iniciais
Boa Leitura!!

Vesti-me rapidamente, coloquei a couraça e amarrei-a com facilidade. Estava ficando mais fácil a cada dia. Era como vestir uma camiseta. Dei uma olhadela no espelho ajeitando as botas e saí.

Não podia encontrá-la agora, teria uma chance na hora do almoço ou somente depois dos treinamentos na hora do crepúsculo. Assim que sai de minha barraca encontrei Kevin e fomos para o treinamento com as espadas.

“-Novidades?” Na minha pergunta estava incluso todos os acontecimentos que perdera durante os cinco dias e as decisões estratégicas decididas nas duas reuniões que também perdi. Sem contar que eu também esperava que suas investigações sobre o chantageador de Elizabeth já fossem consistentes suficientes para me contar quem e qual eram suas motivações. Mas ao contrário de tudo que eu esperava, Kevin reagiu da maneira oposta e respondeu minha pergunta da maneira mais simples que havia:

“-Talvez”

Eu teria que esmiuçar cada informação por de trás das novidades que gostaria de saber. Kevin era muito discreto e me falaria somente o que eu perguntasse. Então comecei.

“-Teve algum grande acontecimento enquanto estive fora?”

“-Somente um ataque das trevas”

“-Como foi? Quem atacou?”

“-Fomo atacados por um exercito organizado e preciso levá-lo onde a rainha está acomodada agora.”

“-E o treinamento?”

“-É mais importante que o treinamento”

Estava começando a ficar preocupado. Para Kevin dispensar o treinamento e achar que algo era tão importante a ponto de me acompanhar pessoalmente, era algo grande mesmo que provavelmente me assustaria.

“-Me diga o que há de errado Kevin?”

Sentia-me ansioso. Percebi que estava tendo sinais que havia algo errado desde que passei pelo portal. Primeiro algo me puxava para cá, depois tive um sono agitado, embora não houvesse sonhos e depois acordei ansioso demais. Achei que fosse pela presença de Paula, mas agora tinha certeza que algo estava errado no alojamento.

“- Tudo há seu tempo. Vamos que a rainha esclarecerá melhor.”

Ele não iria abrir o bico agora. Apressei o passo e Kevin me acompanhou. Ainda não sabia onde a rainha estava acomodada. Só tinha certeza que algo estava errado e tinha alguma relação direta comigo. Minha cabeça encheu de perguntas, mas foi interrompida por uma saudade cortante de Elizabeth. Embora para meu relógio biológico fosse apenas um dia sem vê-la parecia que fazia uma eternidade.

Naquele momento decidi que assim que falasse com a rainha, iria procurá-la e acabaria com nossos desentendimentos. Elizabeth iria me aceitar, precisava, eu precisa dela em minha vida. E com o pensamento fixo em como seria minha abordagem com Elizabeth seguimos ao salão principal, onde ficava o ministro. Encarei Kevin questionando o que fazíamos lá, pois achei que iríamos falar com Leonor não com Demétrius. Mas assim que raciocinei direito, me dei conta que eles eram um casal. Rei e rainha do portal dimensional.

“-A rainha está acomodada com o ministro?”

“-Claro”

Isto clareou minha memória. Claro! Eram mais que rei e rainha, eram marido e mulher. Como eu não tinha juntado estas coisas obvias ainda. As histórias do ministro e a rainha formarem o príncipe. Tinha certeza que a rainha era minha mãe, mas nunca me toquei que o ministro poderia ser meu pai biológico. Uma coisa obvia que havia passado despercebido. Como pude não perceber, havia perdido o que estava claro a minha frente durante todos estes dias. Era obvio. Demétrius era meu pai. Mas nem meu pai, Francisco havia falado nada a respeito. Será que todos achavam que eu já sabia? Que tinha montado esta peça do quebra cabeça com facilidade? Mas na minha mente era tão obvio agora que senti uma pontada de vergonha pela minha ingenuidade.

Kevin me acompanhou só até a entrada dos aposentos de Demétrius:

“-Estarei na área de treinamento, me procure se precisar.” Seu rosto estava inexpressivo. Não consegui decifrar aquele tom formal na voz de Kevin. O que haveria de errado?

Assenti e entrei no escritório do ministro que me era tão familiar e lá estava ele sozinho. Eu deveria estar com uma cara horrível, pois assim que ele me viu disse:

“-Pela sua expressão vejo que já sabe o que acontecera?”

Ainda estava pensando neles, tentando encaixá-los em minha mente como meus pais. Era a primeira vez que o via desta maneira. Sentia-me confuso. Estava perplexo com a visita de Paula também. Minha cabeça novamente tinha várias informações novas. Será que toda esta bagunça transparecia em minha expressão desta maneira?

A rainha entrou no escritório e não mudei a expressão, apenas os encarava com a cabeça vazia esperando o que mais estava por vir.

“-Sinto muito por Elizabeth”.

O que Elizabeth tinha a ver com isto tudo? O que estava errado? Onde ela estava? Não conseguia pensar com clareza e perguntei agitado:

“-Onde está Elizabeth?”

“-Mas se não sabe o que aconteceu. O que o está incomodando tanto?”

“-Me diz, o que houve com Elizabeth?” Insisti com urgência em minha voz.

A rainha se aproximou e disse:

“-Fomos atacado por um exercito de seres trevosos. Eram muitos, então todos que quisessem sair para lutar e que eram hábeis, ajudaram. Elizabeth saiu e embora fossem muitos. Estávamos tendo vantagem. Quando quase todos estavam destruídos e as fadas já estavam os exterminando completamente, Elizabeth baixou a guarda. Então, do meio da floresta, o líder deles apareceu empunhando uma balestra[1] e acertou Elizabeth pelas costas. Ela caiu e eles levaram seu corpo.... Sinto muito.”

“-Seu corpo? Ela está viva. Precisamos buscá-la agora. Não podemos perder tempo”.

“-Não sei se ainda temos chance. O local que ela foi atingida.......” Disse o ministro baixando o olhar.

“-Mas vocês nem tentaram ir atrás dela?”

“-Acho que se ela por algum milagre sobreviveu ao ataque, infelizmente eles não iriam querer uma prisioneira.” Disse a rainha com o rosto distorcido pela dor. Ela também estava sofrendo, era visível.

Mas eu não conseguia mais ouvir aquilo. Eu precisava fazer alguma coisa. Se eles tinham medo de buscá-la, eu iria. Estava transtornado e sai do escritório correndo sem uma direção especifica. Percebi Demétrius dar alguns passos atrás de mim, mas quando me afastei pelo gramado, continuava sozinho.

Era difícil chorar, mas naquele momento descobri que conseguia fazê-lo. Meu coração estava destroçado e não conseguia pensar em outra coisa senão Elizabeth. A minha Elizabeth. Chorava e corria. Alguns me olhavam, mas ignorei e não me importava com mais nada. Como pude deixá-la sozinha aqui? Eu merecia punição e como se me atendesse, meus pulmões não estavam obedecendo, passava pouco ar pela minha boca, mas não parei de correr. Eu merecia morrer com falta de ar, era o mínimo. Era como se a maratona pudesse me levar a ela. Corri por vários minutos mesmo com pouco ar, meus pulmões estavam queimando, mas eu não me importava. Minha Elizabeth. Uma pequena parcela de minha mente percebera que estava no meio da floresta e que ainda estava dentro do campo de força, mas isto não importava mais, não conseguia pensar direito. Corria com as lágrimas que ainda caiam e ouvia ruídos estranhos. Gritava para a floresta vazia e sem vida. Percebi que os ruídos saiam do meu peito. Estava chorando ruidosamente.

Depois de mais alguns minutos, minhas forças começavam a se exaurir, não estava agüentando mais. Minha pequena Elizabeth, será que tinha sofrido muito?

“- Não! Não! ....”

Gritei várias vezes ao vento ainda correndo.

Até que desabei no chão.

Era como se tivesse levado uma surra. Na verdade, eu a estava levando ainda. Doía cada pedaço de meu corpo. Enrolei-me deitado no chão abraçando os joelhos e deixei a dor me tomar. Eu merecia isto. Não deveria ter deixado-a aqui desprotegida. Estávamos brigando por coisas idiotas, por ciúmes e orgulho bobo. Mas agora era tarde.

“-Elizabeth” Continuei a gritar para ninguém com a dor tomando conta de meu peito.

Pensei no que já havíamos passados e no que poderia vir a ser. Ela me completava, foi criada para mim. Não era justo acabar tudo assim. O que sentia por Paula não era nada comparado com o que senti por ela. Tivemos tão pouco tempo juntos. A dor era tanta que parecia que se eu esticasse o braço poderia tocá-la e o fiz, em vão. Não havia mais Elizabeth alguma, só o vazio e a dor em meu peito. Ainda escutava o barulho vindo de dentro de mim até que com o passar do tempo não escutava mais nada. Era apavorante pensar em Elizabeth fria e sem vida.

Minha cabeça havia parado. Estava em estado de torpor e continuava com a respiração irregular. Percebi que já havia passado muito tempo, pois a sol já estava no lado oposto, o poente. Havia um pequeno lago a minha frente e eu continuava ali, enrolado em meus próprios braços. Fiquei vendo-a em minha frente, imaginando seus cabelos longos e sedosos, seus olhos cor de esmeraldas, tão profundo. Seu sorriso que chegava até os olhos. O perfume floral de sua pele. Chamava seu nome baixinho desta vez, como se isto fosse deixá-la mais perto de mim. Estava tão exausto. Percebi que era ela quem me dava forças para eu enfrentar todas as situações malucas neste lugar.

Não conseguia acreditar que nunca mais a veria. Eu não conseguiria passar por tudo sem ela. Nada mais valia a pena. Recusava-me imaginar Elizabeth inanimada, morta. Precisava saber o que aconteceu. E assim, se passou mais um longo tempo. Sentia-me como uma criança desamparada. Havia evitado esta sensação na frente de Paula, mas era exatamente o que eu sentia. Chorei por mais algumas horas, sozinho até a exaustão tomar conta de mim por completo e eu me entregar.

Até que apaguei sem sentir mais nada.

Estava no alojamento quando de repente senti que havia algo estranho. Prestei atenção e senti o familiar tremor. Era leve desta vez, não poderia ser nada grande atacando...

Do lado de fora esperava a passagem ser aberta. Tentei pegar minhas katanas as costas, mas não conseguia me mexer, estava paralisado, percebi que sonhava mais uma vez. Foi como se tivesse sido transportado do alojamento para o lado de fora.

Vários guerreiros passaram por mim, Kevin, Jake, Troy, Ramon e um pouco mais distante, Elizabeth. Do lado de fora do campo de força pude ver os malditos soldados negros com os olhos flamejantes. Também empunhavam espadas e estavam em número maior.

Entraram em combate, acredito que devia haver uns três soldados das trevas para cada guerreiro. Nós as abatíamos com certa facilidade. De onde estava conseguia ver Elizabeth, vários corpos jaziam sem vida ao seu lado, havia abatido muitos.

Não havia nenhum guerreiro abatido, alguns feridos, mas nada grave. Alguns guerreiros já olhavam ao redor para ver se outro precisava de ajuda, mas todos acabaram a luta quase juntos. Pude ver que as fadas já estavam exterminando os corpos, sobrevoavam os soldados com sua magia e os corpos trevosos viravam pó e desapareciam na grama sem qualquer vestígio.

Depois de um tempo a luta havia acabado, mas quando olhei para Elizabeth percebi mais um par de olhos vermelhos na floresta. Olhei ao redor para ver se mais alguém os tinha notado, mas percebi que fui o único.

Elizabeth estava de costas e não o viu também.

Neste momento, percebi que estava tendo um sonho com o passado. Precisamente o momento em que Elizabeth fora abatida e já me sentia incapaz, pois sabia que não conseguiria fazer nada para evitar. Mesmo assim, tentei me mexer a qualquer custo, mas parecia uma estátua entalhada no granito. Tentei gritar, mas havia perdido minha voz. Elizabeth? Corra! Fuja, por favor! Por nós, por mim! Sentia as lágrimas da derrota molhando minha face.

Eu não podia ver aquilo. Não! Minha mente muda gritava. Consegui ver Jake já voltando para o campo de força e estava a apenas alguns metros de mim. Tentei gritar seu nome, para que ajudasse Elizabeth, mas não me deu ouvidos. Jake? Jake? Ajude Elizabeth... Era inútil. Eu ia ver o ser das trevas esvair sua vida, pura, bela e audaz. Daqui a poucos minutos estaria tudo perdido. Não existiria mais minha Elizabeth. O que eu poderia fazer?

Neste momento me lembrei do Oráculo e resolvi imaginar a energia que senti no templo de areia chamando-o mentalmente.

“-Oráculo, me ajude.”

Assim que chamei, o tempo congelou, como se tivesse dado uma pausa nas imagens. E pude ouvir a voz do Oráculo em minha mente, como aconteceu no templo:

“-Poderoso tu es. Paciência es virtude.”

E meu sonho voltou a velocidade normal. Não queria charadas, queria Elizabeth. Viva! Olhei novamente para o ser se aproximando com a balestra em punho. Elizabeth não o via. Eu continuava a gritar sem som e sem qualquer menção de me mexer. Sentia-me exausto depois de tanto esforço.

Parei de me esforçar percebendo que ela já estava com a flecha atravessada ao peito e caia com um baque surdo ao chão. Não! Eu entrei em desespero e voltei a gritar imóvel e de mãos atadas. Lágrimas que achava que não conseguiria soltar mais ainda rolavam pelo meu rosto. Não podia perdê-la, concentrei-me uma última vez em nosso amor e ela pareceu me ver e sorriu. O que era aquilo?Ela tinha me visto mesmo? Gritei seu nome com toda a força que pude. Ela ainda levantou o olhar rapidamente e repetiu o sorriso que havia dado há poucos segundos. Tinha certeza que ela havia me visto.

Mas enquanto ainda estava olhando seu corpo no chão, percebi que o ser era o mesmo que seqüestrou meu pai. Ele pegou o corpo imóvel de Elizabeth, jogou-o nos ombros e correu para as sombras da floresta. Alguns ainda tentaram segui-lo, mas já sabia o fim desta história. Ninguém voltaria com Elizabeth viva, nem ao menos com seu corpo naquela noite...

Acordei sem forças e desesperado. Estava tão fraco que fiquei ali por um bom tempo. Houve um momento em que não conseguia mais chorar, mas a dor continuava a rasgar meu peito de dentro para fora.

Estava no chão sob a mesma árvore a beira do lago ainda sozinho. O céu escurecia. Ninguém havia me procurado e eu agradecia por isto, pois não conseguiria reagir racionalmente se alguém o fizesse. Sabia que precisava fazer alguma coisa, mas a esta altura não tinha mais forças para lembrar-se de nada.

Precisava resgatar o corpo de Elizabeth. Eu devia isto a ela, mas fraco do jeito que estava não conseguiria fazer nada a não ser me entregar a exaustão. Sentia-me pequeno e covarde por não ter lidado racionalmente com a situação, com certeza ela teria ido me salvar assim que soubesse de minha morte. Tive vergonha de mim mesmo.

Com este pensamento a mente, reuni todas as minhas forças e já sabia o que fazer. Teria que pedir ajuda aos sonhos e ver a localização do corpo de Elizabeth. O lugar mais fácil para entrar em sintonia com ela seria seu quarto, que eu não sabia onde era, e assim segui determinado a encontrá-lo desta vez.

Chegando à barraca, foi fácil achar o dormitório de Elizabeth. Já tinha procurado uma vez e agora por eliminação restava apenas um corredor a averiguar. Seguindo um instinto fui direto a última porta, sabia que era o quarto certo.

Ninguém me procuraria no quarto de Elizabeth, então era seguro dormir aqui sem ser interrompido para conseguir sua localização.

Assim que entrei fui tomado por um pânico, estava prestes a recomeçar o pranto novamente, mas senti sua fragrância no ar que me deu forças e me fez querer vê-la o quanto antes, independente de seu estado. Controlei-me e observei. Era um quarto digno de uma princesa.

Era bem maior do que o meu, de um lado havia um divã de veludo rosa claro com a madeira branca com detalhes em dourado, devia ser comum ter um divã em Napta, pois havia um no escritório do Ministro também, no centro havia uma cama de casal com uma guarda do mesmo estilo do divã, também branca com dourado. Do teto caia um tule branco ao redor da cama. Havia várias almofadas de veludo da cor do sofá sob o edredom branco. Também havia uma penteadeira não muito grande com pequenas gavetas acompanhando um espelho que era contornado com a mesma moldura branca. Além do guarda roupa branco na parede oposta à cama. Era tudo muito claro como os demais aposentos sem janelas deste alojamento. Estava perfeitamente arrumado.

Não resisti à tentação de abrir o guarda roupa e procurar por seu cheiro, mas assim que o fiz, caiu um caderno da parte de cima com uma capa de veludo rosa. Eu já imaginava o que seria. Abri a primeira página e vi que tinha o nome de Elizabeth e o meu dentro de um coração. Era seu diário. Podia saber boa parte da vida de Elizabeth, mas desta vez, resisti à tentação e resolvi não ler o que havia nas páginas para não invadir sua privacidade. Meu lado menos nobre me lembrou, que privacidade? Ela estava morta. Nunca mais escreveria nada sobre sua vida, as últimas páginas sempre estariam em branco.

Reuni forças mais uma vez e coloquei meu plano em ação deitando-me na cama abraçado ao diário de Elizabeth. Tinha o mesmo cheiro floral que estava em todo quarto, só que estava mais concentrado.

Acomodado, falei em voz alta concentrando toda a força que tinha em minha mente:

“-Preciso saber onde está Elizabeth. Mostre-me”

E depois de algum tempo olhando o quarto imóvel, adormeci voltando de onde meu sonho havia terminado:

O líder das trevas entrava na floresta com o corpo de Elizabeth as costas. Tive que me concentrar muito para não entrar em desespero e perder os detalhes. Percebi que ele se movia com muita facilidade e com alguns saltos escalou os galhos até chegar ao topo das arvores. Em vez de correr pelo chão. Isto explica os guerreiros voltarem de mãos vazias e não o encontrarem. Ele saltava confiante agora sob a copa das árvores e eu o seguia como se flutuasse com meu corpo imóvel.

Chegamos a uma clareira a poucos quilômetros do alojamento. Havia muitas sombras que flutuavam formando um circulo fazendo a proteção do lugar. Ele colocou o corpo de Elizabeth ao chão que caiu sem qualquer movimento. Tive que me conter mais uma vez. Aquele era, com certeza, o pior momento de minha vida. Continuei observando mantendo a calma.

Ele ordenou alguma coisa para uma das sombras que se materializou em uma mulher, aparentava ter uns trinta e cinco anos. Os cabelos eram negros como a noite e longos, caiam na altura da cintura. Sua pele contrastava branca e pálida, como se a visse em preto e branco. Quando se virou em minha direção, vi os familiares olhos flamejantes, eram brasas ardentes.

Ela se aproximou de Elizabeth e balançou com os pés o corpo que não reagia. Eu já podia ir resgatar Elizabeth, sabia exatamente onde estavam, havia passado por aquele lugar no primeiro dia, mas tinha esperança de que estivesse apenas desacordada, que minha Elizabeth estivesse viva.

Ela continuou a sacudi-la. Por que fazia isto? Por Favor, Não! Não a maltrate! Meu pedido era em vão. Não conseguia mais ver aquilo. Levantaria de meu sono e seguiria para o resgate de Elizabeth. Mas assim que decidi partir, percebi uma reação. Elizabeth levou as mãos à flecha que ainda estava em seu peito e deu um gemido de dor. Ela estava viva!

Acordei em pânico, ainda desesperado e com o coração acelerado. Tentei me mexer, me levantar, mas era em vão. Estava paralisado. Era estranho, sabia que já estava acordado, mas sentia-me muito fraco para levantar-me. Fiquei ali, imóvel por pelo menos uma hora, esperando meus movimentos voltarem.

Aos poucos meu coração e minha respiração se normalizaram e consegui sair do estado de torpor. O que era aquilo? Será esta a conseqüência de forçar um sonho? Agora não importava, precisava resgatar Elizabeth o quanto antes. Ela estava viva!

Enquanto me dirigia à sala do ministro, passou pela minha cabeça ir sozinho, seria mais prático, mas ponderei e decidi que desta vez montaria uma equipe de resgate, não me arriscaria como a última tentativa. A vida de Elizabeth era valiosa de mais para uma imprudência de minha parte. Mas quem me ajudaria agora? Tinha certeza que se falasse com o ministro ou a rainha, eles iriam querer resgatá-la apenas depois do amanhecer, depois de uma estratégia montada e eu não tinha tempo para isto, ela talvez não tivesse. Elizabeth estava viva e todo tempo poupado era precioso. Não sabia seu estado de saúde. O quão grave era seu ferimento. Precisava partir agora.

Kevin também seria muito cauteloso. Então me ocorreu que Jake me ajudaria. Já que fazia parte da minha guarda, com certeza iria comigo se eu ameaçasse ir sozinho. Não era uma atitude muito nobre, mas era a única que eu tinha em mente naquele momento e assim me dirigi para a barraca dos tralhos.

Passei pela porta de entrada e notei que era muito úmido lá dentro. Não havia quartos como nas barracas que havia visitado até agora. Eles dormiam todos juntos. Muitas partes do alojamento eram coberta de árvores e percebi algumas redes e camas improvisadas no chão com palha. Não havia guarda roupas ou banheiros. Mas como na barraca dos metaformos também havia um lago ao centro. Era uma água com muita vegetação. Parecia um pântano.

Assim que entrei, Jake veio até mim. Percebi que tinha acabado de sair do banho. Pois seus cabelos estavam molhados ainda sem pentear e estava sem sua couraça em seu peito. Eles era enormes mesmo sem a roupa de guerreiro.

“-Preciso de sua ajuda.” Disse sem rodeios.

“-Diga Davi. Em que posso ser útil?”

“-Elizabeth foi seqüestrada e precisamos resgatá-la”

“-Sinto tanto por sua perda Davi. Sinto muito mesmo!” Se expressou Jake abaixando o olhar.

“-Não. Ela não está morta. Não fale como se tivesse” Eu quase gritei e ele ergueu o olhar como se verificando minha sanidade. Eu afirmei demonstrando um pouco mais de controle “Eu sei onde ela está e pude constatar com meus próprios olhos que Elizabeth está viva.”

Ele me encarou confuso e depois sacudiu a cabeça como se organizasse os pensamentos. Assentiu positivamente e me encarou.

“-Se acredita assim, estou aqui para servi-lo.” Disse se ajoelhando frente a mim.

“-Levante-se Jake. Preciso que reúna alguns homens, pois iremos resgatar Elizabeth agora. Pegue os melhores guerreiros tralhos que tiver. Preciso fazer uma coisa rápida antes e te espero na saída do campo de força”. Disse já virando as costas e indo em direção a minha barraca. Dei uma ultima olhada por cima do ombro e disse sem som para Jake: “-Obrigado”. Sentia-me confiante, mas precisava senti-la perto de mim antes de prosseguir.

Com a metade do coração numa corrente sob o peito, segui em direção a saída do campo de força. Elizabeth deixara em meu quarto alguns dias atrás. Quando me aproximei, notei que Jake já estava esperando-me com mais dez tralhos e para minha surpresa, Francisco estava com eles.

Claro que Jake levaria mais alguém do conselho para nos ajudar e nada melhor que meu pai para este papel. Uma parte da minha mente pensou que Francisco estava lá para me impedir, o que não adiantaria muito. Mas assim que me aproximei esta teoria foi descartada.

“Fico triste que você não tenha pensado em mim em primeiro lugar. Você acha que eu não te ajudaria?” Ele disse a ultima frase meio brincalhão e eu apenas o abracei para em seguida passar a situação real a todos. Sobre as sombras que faziam a ronda e a localização exata do acampamento. Percebi entre os tralhos que conhecia somente Jake e Jacob, o tralho que me ajudou a escapar quando estava vindo para cá no meu primeiro dia.

Com todas as informações alinhadas seguimos para o interior da floresta. Tinha quinze sombras contando o líder deles. Eram fortes e poderosas. Assim como eu que tinha os melhores guerreiros, sabia que o líder das trevas também tinha escolhido os melhores para lutar se fosse necessário.

A estratégia seria atrair a maior quantidade de sombra para longe da clareira e atacá-las com magia na floresta. Não sabia ao certo se haveria sombras materializadas. Mas sabia que isto funcionaria para as que estavam de vigia. A única coisa que precisávamos era estar por cima delas nas árvores.

A floresta estava em silencio e andávamos furtivamente entre as árvores. Percebi que os tralhos eram muito bons nisto. Eu precisava ter uma visão melhor e decidi que andaria pelas copas, como vi o líder das trevas fazer. Sabia que podia fazer isto. Então, me concentrei e confiante dei o primeiro salto. Deu certo, pulei num galho que estava a um metro e meio do chão, não foi difícil, não fiz muito ruído, mas sabia que poderia melhorar. Concentrei-me novamente e segui para o próximo galho que deveria ficar a uns quatro metros do chão. Fiz menos ruído do que a tentativa anterior. Os tralhos me olharam com uma expressão de surpresa, mas não falaram nada. Eu olhei para Francisco com um sorriso no rosto. Estava dando certo, não só o caminho pelas copas, mas sentia que correria tudo bem com o resgate de Elizabeth.

Eu estava há uns dez metros de altura saltando de uma copa a outra sem fazer qualquer barulho suspeito. Poderia ser confundido facilmente com um pássaro. Embora não tivesse nenhum por perto há dias. Prestava muita atenção na movimentação. Estávamos nos aproximando da clareira.

Posicionamo-nos ao redor do perímetro da pequena clareira e pude vê-la dentro de uma gaiola. A mesma que vira Francisco quando foi seqüestrado. Estava em posição fetal. Percebi que haviam cortado a ponta da flecha que saia a suas costas. E pude com uma alegria contagiante perceber que seus ombros se movimentavam com a respiração difícil. Precisava tirá-la dali depressa.

Pude contar treze sombras ao todo. Não haviam nenhuma materializada. O frio que elas transmitiam era impressionante, dava para sentir a energia negativa, era algo palpável. Esperamos por alguns minutos se as duas sombras faltantes apareceriam, mas não havia menor sinal de que isto iria acontecer. Estávamos em onze, era praticamente uma sombra para cada um. O que seria bem fácil. Então, dei um sinal a Jake que iria iniciar o ataque. Os tralhos estavam espalhados, alguns nas copas das arvores e outros no chão. Francisco era um grande lobo negro. Seus olhos amarelos transmitiam sabedoria. Ele estava no chão, aguardando a materialização de alguma sombra.

Tirei a esfera de quatro cores de minha bolsa de magia e a joguei ao ar. Concentrei-me e a nevoa branca surgiu lenta e leve até se tornar mais densa. As sombras ficaram agitadas. Perceberam que não era nada natural com a rapidez que havia surgido e algumas se materializaram no chão em soldados. Não sabiam o que atacar, pois o silencio era absoluto e tirando a neblina não havia nada de errado.

Neste momento tínhamos uns cinco soldados das trevas no chão e oito sombras sobrevoando mais baixo. Deixei a nevoa com a aparência bem densa. Não conseguia enxergar um metro à frente. Fiquei mais concentrado e ataquei a sombra que estava mais perto de mim usando o mesmo poder do vento que criara a nevoa. Com uma mão controlava a nevoa e com a outra puxei a sombra em um pequeno tornado para dentro da floresta. Ainda estava sob as copas e já tinha envolvido todas as sombras no pequeno tornado e a nevoa continuava densa abaixo de mim. Soltei a nevoa que iria se dissipar sozinha e ainda com o tornado de sombras peguei outro elemento dentro da bolsa mágica, o que as fadas usam para exterminar um corpo inanimado das trevas. Joguei o pó no tornado e esperei. Não sabia qual efeito teria, apenas segui meus instintos e para minha alegria, percebi que as sombras eram exterminadas. Acabei com meu trabalho e a nevoa já estava quase no fim quando cheguei ao chão com um grande salto.

Francisco já estava na forma humana usando o pó de extermínio.

As sombras que tinham se materializado em soldados estavam abatidas, percebi que um tralho estava caído no chão. Olhei surpreso para Jacob, pois havia dez tralhos para cinco soldados.

“-Ele está bem?” Perguntei e Jacob assentiu sem dizer nada.

Era estranho o tralho caído em combate com apenas cinco soldados. Se estivesse sozinho até explicaria, mas havia mais tralhos que soldados cobrindo a área térrea.

Deixei prá lá, minha atenção agora estava voltada a Elizabeth e, além disto, quando soube que o tralho estava bem, haveríamos chance para discutir sobre isto mais tarde.

Cheguei à gaiola e Elizabeth que estava com os olhos abertos e não se movia. Cheguei a pensar que chegamos tarde demais, mas assim que ela me viu piscou profundamente deixando lágrimas rolarem por seu rosto que estava destorcido pela dor.

Baixei a gaiola que estava suspensa por uma corda na árvore, mas quando estava entrando alguém segurou firme em meu braço me impedindo. Era Jake com uma expressão preocupada.

“-Ela esta muito machucada, a flecha em suas costas está a matando. Não a toque para não piorar seu estado.”

Lutei para conter as lágrimas que ainda queriam cair e tive desta vez tive sucesso. Elizabeth apenas sorriu sem dizer nada. Sua face estava molhada, apenas deixava as lágrimas rolarem. Fiquei imaginando a dor que sentia e não conseguia pensar em nada para transportá-la sem piorar seu estado. Mas Jake se aproximou com um liquido azul dentro de um pequeno frasco e borrifou por cima do corpo de Elizabeth. Ela foi ficando com uma película de gelo em torno do corpo e começou a congelar virando uma estatua de gelo.

Olhei para Jake com uma expressão de horror. Minha mente gritava de pânico. O que ele estava fazendo? Minha Elizabeth. Eu ameacei arrancar o frasco de suas mãos, mas antes de sair do lugar.

“-Mas o que....” Jacob que estava a poucos passos percebeu o horror que senti e me segurou antes que eu pudesse atacar Jake que trabalhava com o borrifador.

“-Desculpe Davi” Disse Jake ainda borrifando o líquido que aumentava a camada de gelo em torno de Elizabeth, matando-a. Ela parecia presa em um iceberg.

“-Jake?” Gritei, já com três tralhos me segurando. Eles falavam todos juntos, inclusive Jake, eu não conseguia distinguir nada do que diziam, não acreditava que aquilo estava acontecendo. Eu lutava com todas as forças que tinha. Não conseguia alcançar minhas espadas. Jake estava me traindo. Depois de todo o esforço eu a estava perdendo mais uma vez.

Poucos segundos haviam se passado desde que Jake começara a congelar Elizabeth. Ele se aproximou e tocou meu braço:

“-Soltem ele.” Me encarou confiante “-Acalmasse. Não estou fazendo mal a ela. Confie em mim, isto só vai ajudar”

“-Mas ela vai morrer. Não está mais respirando.”

“-Davi” Ele chamou urgente exigindo minha atenção. Eu já estava com as espadas em punho e ia dar o primeiro golpe para quebrar o gelo e libertar Elizabeth.

“-Por favor, confie em mim.” Ele quase gritou agitando o pequeno vidro. “Achei que já tinha se acostumado com a magia. Isto é necessário para transportá-la com segurança. Não vai piorar seu estado. Ela não sente mais dor agora. Só te peço que acredite em mim. Sou seu guerreiro não faria nada que fosse contra você ou aos que você ama.”

Eu estava arfando empunhando minhas espadas e os tralhos me olhavam cautelosos. Percebi que tinha perdido o controle. Tinha que confiar em Jake e assim assenti guardando as espadas. Tinha tido uma reação exagerada. Mas como podia saber que congelar uma pessoa era uma coisa boa?

Embora estivesse aceito o que Jake fizera eu ainda estava apreensivo e preocupado com Elizabeth não poder respirar dentro do gelo. Ou podia? Minha mente não aceitava uma pessoa ser congelada e sobreviver aquilo. Mas já havia visto magia suficiente para acreditar em qualquer coisa. E assim a transportamos com seu corpo imóvel dentro do bloco de gelo.

Elizabeth foi levada a barraca das fadas e não pude acompanhá-la. Ela seria descongelada e teria o tratamento necessário. Eu só poderia vê-la no dia seguinte. Assim me garantiu Geovana, a rainha das fadas.

O tralho ferido também foi direcionado para lá, estava com um corte na cabeça, mas com certeza em melhores condições que Elizabeth.

Fiquei andando sem rumo, mas sem me afastar muito da barraca das fadas. Precisava saber sobre Elizabeth. Estava meio confuso e muito preocupado. Jake se aproximou de mim:

“-Sinto muito por não ter explicado o que estava fazendo. É uma prática tão comum nas batalhas que não passou pela minha cabeça que você não tinha conhecimento. Se soubesse teria te informado o que iria fazer. Minhas sinceras desculpas.”

Toquei seu braço:

“-Obrigado por ter me ajudado. Sem você não teria conseguido e também peço desculpas pela reação que tive, mas isto que você fez mataria um humano.”

Ele sorriu e pela sua expressão percebi que algo o incomodava.

“-O que eu perdi Jake?”

“-Você notou, não é?” Ele segurou o queixo como se para organizar os pensamentos.

“-Alguma coisa não estava certa naquele ataque. Não sei o quão resistentes foram as sombras, mas assim que os soldados perceberam nossa presença focaram o ataque em apenas um guerreiro e acabaram deixando Peter desacordado. Logo em seguida, entregaram o jogo. Eles não são grandes lutadores e só conseguem ser uma ameaça quando estão em números superiores.”

“-Não havia lutado com as sombras ainda, mas elas também não tiveram qualquer resistência.”

“-Nem tentaram fugir?”

“-Não. Deveriam?” Perguntei confuso, pois achei que elas lutariam como faziam os soldados das trevas.

“-Muito estranho. Elas são as primeiras a fugirem, pois como sombras, são muito vulneráveis. Embora sejam sombras, as armas as ferem, caso entrem em contato com o metal, elas se congelam como blocos de gelo negro e são facilmente destruídas. Comparadas a um soldado são indefesas. Então, geralmente fogem para se materializar e ganhar força.”

“-Com você falando deste jeito Jake, me fez ter uma teoria.” Disse uma voz atrás de mim. Já sabia quem era, mas me virei com um sorriso para confirmar que Leonor se aproximava.

“-Antes de qualquer coisa, Obrigada” Ela havia acabado de sair da barraca das fadas e agradeceu a mim e a Jake.

“-Minha rainha, graças ao nosso líder que pudemos resgatar a princesa.” Antecipou Jake.

Ela sorriu e disse:

“-Eu sei. Obrigada meu filho. Você salvou a vida de Elizabeth. Mais poucas horas e ela não teria resistido. A hemorragia estava intensa.”

“-Desculpe não tê-los avisado, mas algo me dizia que tinha que salva-la naquele momento e que vocês não aprovariam isto.”

“-Você está certo. Sua precipitação salvou Elizabeth”

“-Mas qual é sua teoria?” Perguntei tirando o foco do resgate.

Ela pensou por um momento e disse:

“-Vou marcar uma reunião com o conselho amanhã e discutiremos isto, está bem? Vou amadurecer minha teoria para não dizer coisas sem fundamentos a vocês.”

E passou por nós em direção a sua tenda.

Olhei para Jake e concluí rindo:

“- Se todo mundo aqui só expõe os planos e teorias quando estão seguros deles, porque falam sobre eles quando não vão revelar nada?” Rimos juntos de minha frase. Eu estava me sentindo muito melhor com Elizabeth segura e em recuperação.