Notas iniciais
Boa Leitura!

Estava na árvore ao lado da tenda. Ainda precisava me acalmar antes de dormir, embora me sentisse melhor ainda estava agitado, e aquele lugar sob a árvore me ajudava a fazer isto. Era madrugada e ficaria só. Ali tivemos muitos encontros e fazia com que eu me sentisse em paz. Só em pensar que eu quase a perdi. Isto deu um nó no meu estômago. Deitei-me no chão ao pé da árvore e apenas olhei as estrelas. Estava com o pensamento limpo. Apenas o rosto de Elizabeth me preenchia. Mas infelizmente, isto durou pouco tempo.

“-Ola”

Reconheci a voz e fechei os olhos antes que a imagem do rosto aparecesse em meu campo de visão. Não respondi quem sabe por algum milagre eu estava tão cansado que tivesse vendo coisas?

“-Davi? Está me ouvindo?”

Acho que não. Ignorei por mais um tempo, pois poderia fingir que estava dormindo. Mas a voz se aproximou e falou muito próxima de mim agora, tocando em meus cabelos.

“-Precisa de um incentivo para acordar?” Podia sentir o veneno maligno na voz de sino cortante. Laila podia ir embora e parar de me atormentar. Mas é claro que ela não iria desistir.

Não podia ignorar mais. Ela podia fazer alguma besteira. Então abri os olhos:

“-Se eu a tivesse ignorado por mais tempo, você teria desistido e ido embora?”

“-Paz Davi.” Ela sorriu e ergueu a mão fazendo um gesto de paz.

Arfei. Era impossível aquela maluca me dar paz.

“-O que você quer Laila?”

Ainda não havia me mexido, estava deitado com as mãos atrás da cabeça, numa posição confortável, que não planejava mudar.

“-Nada. Soube o que aconteceu e vim lhe oferecer meus préstimos”

“-Não preciso de você pra nada Laila. Pode voltar para seu mundo de fadas. E a propósito, pode nunca mais voltar? Faria-me este favorzinho?”

“-Quanto ódio no coração. Ou posso dizer amor? Fique sabendo que a linha entre os dois é tênue. Isto me permite ter esperanças....”

Arfei de novo. Não estava com a mínima paciência de cair nos joguinhos de Laila. Senti-me tão feliz por Elizabeth, que Laila havia se tornado muito insignificante para mim naquele momento, era como se um inseto estivesse me incomodando. Então, nem perdi mais tempo. Fechei os olhos novamente e pensei em Elizabeth.

Percebi que Laila estava falando novamente, mas não dei qualquer atenção. Não queria mudar a tranqüilidade e alívio que sentia tendo que expulsá-la daqui. Minhas mãos estavam segurando a cabeça e minhas pernas cruzadas, uma sob a outra. Tinha conseguido ignorar o falatório de Laila quase por completo.

E assim fiquei por alguns minutos até que Laila fez a estupidez de se aproximar e tentar me beijar. Ela nunca desistia e eu tinha que aprender isto. Decididamente não iria brigar com ela. Tirei minhas mãos da cabeça e empurrei seus ombros para longe de mim. Não disse nenhuma palavra e levantei-me deixando-a sozinha. Peguei-a de surpresa, pois percebi que me olhava perplexa esperando pela reação que não tive.

Décimo sétimo

Estava numa casa desconhecida, a escuridão tomava o lado de fora. Minha mãe estava dentro da casa e falava com um menino de aproximadamente uns sete anos. Estávamos na sala e parecia uma residência na Terra, uma casa de classe média alta. Esta sala era divida em dois ambientes, uma sala de estar com um sofá de couro creme, um quadro abstrato a parede, uma folhagem no canto e um tapete branco de pele de carneiro sob a mesinha no centro de vidro. A TV estava fixa a parede. A outra parte da sala havia uma mesa de vidro com oito cadeiras estofadas do mesmo couro creme do sofá. Ao fundo havia uma porta de vidro de correr. O chão era de madeira clara e havia uma escada subindo para um segundo andar da casa.

Leonor passava instruções para uma garota de aproximadamente uns vinte anos. Ela dizia que o garoto, que se chamava Rick, vinha agindo de forma esquisita e que não era para a garota desgrudar os olhos dele nem por um minuto. E nem que permitisse que Rick saísse da casa. Ela sairia para compra de alimentos e voltaria o mais rápido possível.

De repente o cenário mudou e pude ver a menina dormindo no sofá com a TV ligada. O garoto estava agitado, andava de um lado a outro da sala, como se hipnotizado. Seus olhos estavam vermelhos, não como via nas coisas das trevas, mas sim irritados, o branco dos olhos estavam vermelhos. Ele pegou a chave que a menina pusera ao seu lado no sofá e saiu em direção a porta deixando a menina dormindo sem notar nada......

Acordei arfando, como sempre. Esperei me acalmar e percebi que já era o meio da manhã. Lembrei-me que não havia perguntado a Leonor que horas seria a reunião de conselho, mas tinha uma suspeita de que já estava acontecendo. Fora dormir muito tarde na noite anterior. Que sonho era aquele?

Enquanto me aprontava e me alimentava rapidamente. Às vezes guardava algumas coisas para poder me alimentar eu meu quarto mais rápido. Pensei no sonho. Aquele menino me era familiar, mas o que será que estava acontecendo com ele? Não tinha a menor idéia do que se tratava e Leonor estava novamente em meu sonho. Precisava conversar com Francisco sobre isto, já que ele era o único que sabia sobre os sonhos.

Entrei na sala de reunião da tenda principal e todos já estavam reunidos, como eu suspeitava. Sentei-me no mesmo lugar da reunião anterior e vi que o lugar ao lado da rainha estava vazio. Era o de Elizabeth. Será que estaria bem naquela manha? A rainha tinha a palavra na mesa.

“... um Metaformo, Um Hudegano, Um Naptano, para ser precisa uma Naptana, como todos sabem.....

“-Desculpe o atraso, mas acho que é importante eu ter esta informação por completo. Poderia repetir, por favor?” Interrompi. Os olhares não eram tão amistosos com o meu atraso e minha interrupção, mas ignorei.

“-Claro. Já tivemos alguns fatos expostos. Acabamos de saber que um dos seres de Hudego foi seqüestrado. Infelizmente ele não teve a mesma sorte de Elizabeth e seu corpo foi devolvido ao mundo dele sem vida.” Percebi a expressão de dor no rosto de João que estava ao meu lado. “Também já foi seqüestrado um metaformo, como você sabe, Francisco. Temos o seqüestro de Elizabeth. E fiquei sabendo, através de um informante seguro, que humanos foram seqüestrados pelas forças das trevas também.”

Os olhares estavam sendo cruzados sob a mesa chegando todos a uma mesma conclusão. Havia um padrão nestes seqüestros, tinham um objetivo único. Não foi ao acaso que pegaram um ser de cada mundo do alojamento. Mas ainda tinha a pergunta principal. Por quê?

Assim que fiz a pergunta, obtive a resposta e pedi a palavra.

“- Acredito que estão nos estudando, ainda não sei como, mas é certo que estão. Conhecendo cada um dos inimigos. Primeiro estudaram a mim, me perseguindo e explorando tudo a minha volta, já que não foram capazes de me capturar, através dos ataques suicidas feitos pelas trevas, começaram a seqüestrar um de cada mundo deste alojamento. Estão estudando todos envolvidos na batalha. Mas ainda não entendo como fazem isto? O que estudam?”

Fada Geovana pediu a palavra e a teve.

“-Eu sei. Estão estudando nossas fraquezas, nosso modo de pensar e reagir a investidas deles.”

Kevin interrompeu

“-Desculpe Geovana, mas para isto que temos o feitiço de proteção ao pensamento. Não é possível eles lerem nossa mente com o feitiço invocado, certo?”

“-Mais ou menos.” Geovana continuou. “-Eles realmente não conseguem ler enquanto estamos fortes suficientes para manter o feitiço. Mas depois de machucados e torturados, a maioria de nós não tem mais força para manter feitiço algum.”

“-Faz sentido.” Interveio a rainha. “E assim, já expomos os mundos de Hudego, Terra, Napta, Metamonia, Tralho, mais algum?”

Uma voz grave perto de mim pediu a palavra. Era um urso.

“-Na verdade, falando por estes termos, os Ugres também já foram capturados. Um dos nossos foi capturado uns dez dias atrás no caminho para o portão, estávamos voltando do nosso mundo. Mas já o encontramos e ele já está recuperado.”

“-Posso ver que falta apenas os Coelhos, Elfos e Fadas.” A rainha prosseguiu: “-Eles estão conhecendo nossa mente para transformar nossas fraquezas em armas contra nós mesmos. Então tenham muito cuidado, principalmente as fadas, suas magias são poderosas e não seria muito prudente os segredos mágicos caírem em mãos erradas.”

Ao fim da reunião fui falar com Geovana.

“-Como ela esta?”

“-Fora de perigo agora. Mas ficará dormindo por alguns dias. Foi muito ferida. Além da flecha transpassada pelo corpo, eles a torturam muito e quebraram vários ossos. É mais prudente mantê-la adormecida para que não se mexa muito e que não sofra mais dor do que já sofreu. A cicatrização dos ossos é dolorida, pois é feita em estágio acelerado. Logo estará curada.”

“-Qual foi o dano?”

“-Cinco costelas, um órgão perfurado e traumatismo craniano. Ela foi muito torturada mesmo.”

Eu estava levando a surra novamente. Embora Elizabeth estivesse viva, pensar nela sofrendo daquele jeito me tirava o fôlego. Era como levar um soco na boca do estomago e ficar sem ar. Geovana percebeu meu sofrimento e continuou.

“-Ela está bem. O pior já passou. Nossas médicas são fadas e mágicas, não se esqueça, confie em nós. Ela vai ficar perfeita. Não esqueça que Elizabeth é meio fada e que tem o poder da magia correndo em suas veias também. Isto a ajudará a curar-se mais rápido ainda que qualquer outro ser. Somente alguns dias e estará disponível para batalha novamente.”

Só de pensar naquilo um frio correu pela espinha.

“- Nem pensar. Eu não perderia Elizabeth novamente. Duas vezes não.”

“-Ela é forte Davi. Ela nasceu pra lutar ao seu lado, não se esqueça disto”.

Suspirei pesadamente com um leve sorriso no rosto e fiquei na sala de reunião enquanto todos se retiravam, pois os treinamentos iriam continuar. Geovana também se fora e tudo indicava que eu deveria fazer o mesmo e treinar também. Mas precisava de mais alguns minutos. Sentia-me exausto. As surpresas não paravam de vir. Uma atrás da outra.

“-Que tal passar o resto da manhã comigo? Ainda não tivemos muito tempo juntos.” Disse Leonor.

Assenti balançando a cabeça positivamente com um sorriso imbecil, que embora não tivesse visto, tinha certeza que estava estampado em meu rosto. Eu não conseguia guardar o que me incomodava, a parte de me abandonar, por exemplo, só pensava que minha mãe estava de volta.

“-Vamos ao escritório, é mais confortável que esta mesa”. Ela disse.

Segui a minha mãe que hoje estava com uma túnica branca, os mesmos cabelos soltos e uma calça creme embaixo da túnica. Olhei em seus olhos azuis e pareciam duas piscinas. Conseguia sentir o conforto que eles me ofereciam. Era fácil demais aceitar o fato que era minha mãe, pousar minha cabeça em seu colo e adormecer profundamente por vários dias. Mas eu não tinha tanto privilégio assim e segui rindo comigo mesmo pelo devaneio que tive em direção ao escritório do Ministro.

Pela primeira vez, estamos sozinhos. Ela sentou-se no sofá e me chamou para juntar-se a ela. Sentei a seu lado e começamos pelo mais fácil. Na verdade era o mais natural.

“-Quero te conhecer meu filho. Perdi tanto da sua infância que gostaria que fosse você a me contar todas as felicidades e tristezas que veio a passar. Quero saber o que gosta de fazer nas horas vagas. O que gosta de comer, me conte tudo!”

E assim comecei. Disse sobre as lembranças de meu pai. Que ele mantivera sua fotografia real pela casa, mas que não falava muito dela. Ela se surpreendeu com isto e vi a alegria em seu olhar. Sobre a história que havia morrido no parto, que eu tinha que responder isto por várias e várias vezes para todos que perguntavam pela minha mãe. Sobre a escola, quais matérias eu mais gostava e quais não tinha o menor interesse. Falei sobre o basquete, meu esporte que eu tanto gostava de treinar. Os meus amigos, Juan principalmente que era o mais próximo. Leonor assentia e fazia perguntas para detalhar cada tema de minha vida. Disse também sobre as meninas que eu me interessei e também sobre a paixão platônica que tinha com Paula. Sobre tia Eva que fazia o papel de minha mãe.

Neste momento, percebi que os olhos de Leonor mudaram de expressão, não consegui decifrar o que era, mas percebi que não era uma sensação agradável. Ciúme? Tristeza? Pensei em amenizar a situação dizendo que a amava muito mais. O que era verdade, mas não conseguiria me expressar em palavras tão diretas, ainda não. Então apenas toquei sua mão com ternura. A expressão de Leonor se iluminou e o sorriso tomou novamente sua face.

Ela me abraçou e continuei o monologo da minha vida até o dia em que cheguei aqui no alojamento. Já havia se passado pelo menos umas duas horas desde a reunião pela manhã. Mas tínhamos a manha inteira e assim passei para a parte difícil, que era mais complicada e que tinha acontecido nos últimos quinze dias. Decidi começar pelas minhas dúvidas:

“-Vou fazer uma difícil agora.” Disse com um sorriso brincalhão no rosto.

Ela assentiu também sorrindo.

“-Por que para a Terra? Por que não me falaram a verdade?”

“- Como a estratégia era para você não saber da verdade. Um planeta que não fosse ciente das dimensões era mais fácil controlar o seu não conhecimento do mundo. A terra foi uma escolha minha, pois já tinha tido uma passagem aqui anterior a esta. E o motivo principal é que você é um dos poucos que conhece este planeta e a energia do mal virá toda para cá em poucos dias.”

“-Por que não falaram a verdade?” Repeti a segunda parte da minha pergunta anterior.

Ela me olhou como se fosse obvio. Eu sabia mesmo, mas queria escutar dela. Isto prolongaria o meu tempo com Leonor e continuei a encará-la esperando a resposta. Ela sorriu e disse:

“-Simples. Para te proteger. O mal consegue entrar nas mentes e se qualquer um deles desconfiasse que você era o escolhido iriam tentar te destruir cedo demais e quanto mais novo, mas perigoso era, pois o pior que podia acontecer não era te destruir, era te levar para o lado das trevas. Você já deve perceber que seus poderes são grandes, não é?”

“-Acho que sim”. Assenti timidamente.

Falamos um pouco sobre Elizabeth e ela me disse tudo que eu já sabia. Elizabeth era linda e durona, uma guerreira metade fada, metade naptana. O melhor das duas partes. Contou-me algumas histórias sobre a infância de Elizabeth. Algumas eu já sabia, outras foram novidades, como o dia em que Elizabeth se trancou numa das torres do castelo de Napta e não abria a porta de jeito nenhum. Disse que só sairia de lá se o príncipe Davi em seu cavalo alado fosse salvá-la. Demos boas gargalhadas das histórias de Elizabeth.

Eu sentia tanto a sua falta. Parece que não a via ha séculos. Mas Geovana me prometeu uma visita na parte da tarde depois do treinamento. E eu estava ansioso.

“-Promete não contar a ela Davi? Ela me mataria se soubesse que contei sua infância a você” Rimos juntos por mais um tempo antes de me ocorrer a próxima pergunta.

“-Você disse a pouco que teve uma passagem na terra. Como foi?”

Assim que acabei a pergunta, percebi que estava em terreno perigoso. A expressão de Leonor mudou. A tristeza brotou de seus olhos e ela fitou o vazio perdida nas lembranças.

“-Não precisa falar se não quiser.” Eu tentei reconfortá-la. Mas a curiosidade me invadia. Era a primeira história que escutaria sobre sua vida.

“-Não, tudo bem! Foi uma dor muito grande, mas passou tanto tempo....”

Esperei a explicação. Percebi que estava editando a história.

“-Antes de termos a confirmação de que a falha nos portais estava por vir. Embora fossemos rei e rainha, eu e Demétrius tínhamos uma vida quase normal. Vivíamos em Napta em paz e com muito amor, quase nunca saíamos de lá. Há não ser por poucas batalhas que tínhamos que estar presente, nunca a liderávamos, mas éramos um tipo de conselheiro para o mundo que estava sendo atingido pelo mal. Revezamos e em toda nossa vida, devemos ter saído umas cinco vezes de Napta. Nossa vida era perfeita e para completar eu engravidei de nosso primeiro filho, era um menino que nasceu forte e belo. Depois do nascimento, vivemos em harmonia e felicidade por mais cinco anos.”

Ela suspirou parecendo que ia entrar na parte ruim da história. E devia ser mesmo porque nunca ouvira falar neste garoto.

“-Chegou a noticia da falha dos portais e o mal começou a atacar Napta atrás de meu filho, pois não são seres muitos evoluídos e não sabiam como funcionavam as coisas. Interpretaram as regras erroneamente e não perceberam a regra que um menino deveria ser gerado com o gene evoluído. Achavam que o primeiro herdeiro seria o substituto do rei. E assim os ataques começaram, procuravam nosso menino, queriam exterminá-lo. Mal sabiam também que um ser normal não é suficiente para liderar tantos guerreiros contra todo o mal. Mas eles não sabiam disto e por seis meses escondi Rick dentro de Napta.”

Rick? Eu conhecia este nome. Mas de onde? Busquei em minha memória, mas não consegui me lembrar de imediato. Ela continuou:

“-Depois de um destes ataques, resolvi escondê-lo com maior segurança e me escondi junto com Rick no planeta Terra. Era seguro e embora houvesse tecnologia, era um lugar hospitaleiro. Os humanos são um povo receptivo e me aceitaram muito bem. É claro sem saber de onde eu realmente vinha. Adquiri uma moradia e Demétrius vinha me visitar de tempos em tempos por um portal escondido, como o que você conheceu. Tomávamos muito cuidado, mas o mal estava atento e um dia eles nos encontraram. Descobriram onde eu me escondia e foram atrás de mim. Na verdade, atrás de Rick.”

Ela baixou o olhar para o colo e percebi as lágrimas rolando por sua face. Não sabia o que fazer, estava com um grande pesar por tê-la feito se lembrar de algo tão triste. Apenas toquei seu ombro a fim de reconfortá-la. Mas ainda estava curioso com o que havia acontecido com o menino.

“-Tudo bem.” Ela pós a mão acima da minha e continuou. “Eu não tirava mais Rick de casa e tinha uma babá que me ajudava tomar conta dele. Ela era humana e não tinha a menor noção do perigo. Imagino que achava que eu era uma mãe super protetora e neurótica.”

Assim que ela mencionou a babá a lembrança veio. Era o menino que eu havia sonhado. Será que tinha sonhado com o paradeiro dele? Resolvi esperar até o final da história antes de tomar qualquer conclusão precipitada e continuei a escutar.

“Tinha acabado de achar um lugar seguro e íamos deixar a Terra nos próximos dias, não saíamos de casa para nada a não ser pela comida e certo dia eu fui às compras e recomendei os mesmos cuidados com meu menino, não tirar os olhos dele e trancá-lo no quarto se ele reagisse de maneira estranha, me ligasse em seguida. Mas quando voltei pra casa....” Leonor suspirou profundamente. “Ele não estava lá. A babá disse que o garoto estava esquisito e saiu correndo para a rua. Ela não conseguiu ver para onde ele tinha ido. Eu procurei, procurei e fiquei anos procurando pela Terra. Até que aceitei o fato de que ele desaparecera. Não sei o que houve com meu filho e foi isto que me incentivou a não ficar com você. Se o mal o descobrisse novamente e eu o perdesse como aconteceu a Rick, não sei se conseguiria me reerguer uma segunda vez. Ainda sinto a dor e o buraco em meu peito. Uma parte de mim foi arrancada com aquele filho que desaparecerá. Se ao menos soubesse alguma coisa.....”

“-A babá dormiu e ele estava estranho quando fugiu em direção a rua.” Disse de uma só vez com um pesar na voz. Sentia muito pelo sofrimento de Leonor.

Ela arregalou os grandes olhos azuis me encarando e disse com a voz nervosa:

“-Você sonhou com o desaparecimento dele.”

Não era uma pergunta, mas mesmo assim respondi.

“-Sonhei, mas não sabia que era seu filho, só o que vi foi que ele estava ficando agitado com os olhos vermelhos e em transe, como se hipnotizado e saiu correndo em disparada para a rua. A babá dormia e quando percebeu o barulho da porta e saiu atrás dele, já era tarde, não o encontrou mais. Sinto muito!”

Ela pensou um pouco e me olhou com um olhar curioso.

“-Teve o sonho depois que chegou aqui? Foi só com Rick indo embora que sonhou? Não tinha nada a mais?

Entendi a pergunta dela de imediato, queria saber o paradeiro do filho e por um momento achei que não haveria problema algum em contar, mas alguma coisa me fez apenas responder sua pergunta com a verdade e não acrescentar tudo que eu gostaria.

“-Sim, o tive aqui dentro do alojamento. E não sei o que houve depois que Rick deixou sua casa. Sinto muito”.

“-Sem problemas.” Ela respondeu sorrindo levemente e me puxou num abraço fraternal. Ficamos em silencio por alguns minutos até que ela me encarou com um olhar envergonhado.

“-Me desculpe, isto tem tanto tempo que não era mais para eu reagir desta maneira. Pelo menos ele não está mais vivo. Temia ele estar perdido e sofrendo pela Terra. Há tanto sofrimento, dor quanto amor e felicidade neste planeta.”

Ela mudou a expressão de pesar por uma máscara superficial de alegria e acrescentou:

“- Agora vamos, precisamos nos alimentar. Já está na hora do almoço.” Ela tentou parecer estar mais animada, mas foi inútil. Conseguia ler sua expressão de tristeza. Eu fingi que acreditei e fomos para a tenda principal.