Gateway - Camping Green hil
1 O despertar
Estava na clareira de uma floresta, era noite, uma neblina densa e escura caia. Limitava um pouco a visão. Não sabia onde estava, nem o que estava fazendo lá. Não reconhecia aquele lugar. Estava com uma sensação estranha, não consegui identificar e percebi que embora estivesse me sentindo estranho sentia-me seguro. Ajustei o foco da minha visão e consegui ver um pouco mais a diante. Via a água cristalina do lago e percebi que havia alguma movimentação à frente. Havia vozes, mas não identifiquei o que estavam falando. Queria me aproximar, mas não consegui me mexer, estava congelado, como se por mágica....
Acordei agitado. Que sonho estranho, sem sentido.Estava em meu quarto, tudo parecia normal, com exceção a sensação que estava sentindo, não era a mesma de segurança que sentia durante o sonho, mas era como se não tivesse sozinho. Não sentia medo, mas sentia uma agitação angustiante e sem sentido. Embora o tempo estivesse quente, um frio esquisito vinha do outro cômodo.Alguma coisa realmente estava errada. Era o meio da noite, olhei ao redor procurando meu despertador para verificar as horas e percebi que o escuro estava maior que o normal. Acho que a energia havia acabado. Aos poucos meus olhos foram se adaptando a escuridão e percebi que realmente não estava sozinho, havia mais alguém em meu quarto.Até então, eu tinha uma vida cotidiana e normal, garotas, basquete, amigos e naquele momento não esperava nada a não ser meu pai em pé, me alertando sobre a queda de energia repentina no meio da noite. Não tinha consciência de nada fora do normal que pudesse haver no mundo.De repente tive a plena consciência de que o mal existia e que poderia estar em qualquer lugar, que era poderoso e pior de tudo, estava me perseguindo. Como? Não sei, foi apenas um sentimento que deixei pra lá ou pelo menos tentei.Ajustei o foco da minha visão, pois estava muito escuro mesmo e percebi que meu pai não estava em meu quarto. Abri a cortina pesada de meu quarto que ajudava intensificar a escuridão e percebi que estava prestes a amanhecer. Voltei os olhos para o quarto e notei o visitante imóvel frente à porta do quarto e não era um visitante comum. Na verdade, também não era só um, mas sim três visitantes para ser preciso. Não eram humanos. Com espanto identifiquei um coelho gigante com mais duas criaturas em seus flancos que não pude identificar de imediato, era um tipo de ogro com pele escura, cabelos emaranhados e longos. Tinham alta estatura, tão altos quanto o coelho, só que mais corpulentos. O que mais me chamou a atenção eram suas vestes de soldados, tive a ligeira impressão de já ter visto algo parecido. Os “tralhos” eram ajudantes de todas as criaturas do bem. Nem imagino como sabia o que eles eram e o que faziam, mas simplesmente sabia.O coelho era esguio, pelagem dourada, grandes olhos negros, dentes grandes e brancos, longas orelhas pontudas, como um Pernalonga de quase dois metros de altura. Usava uma calça preta, botas escuras, camisa clara e uma capa escura as costas. As vestes pareciam de outra época, era elegante, parecia um ser nobre.Os tralhos, como disse, vestiam-se como soldados, mas não o que estava acostumado a ver nos filme. Usavam uma couraça de metal dourada no peito, uma calça preta e botas. A camisa por baixo da couraça era mais comprida e parecia fazer a vês da saia dos romanos. Tinham uma capa vermelha que caia na altura dos joelhos e a espada as costas.Os três pareciam aflitos.“’- Levante e corra.” Gritou o coelho. E eu continuei a encará-lo sem reação. Quando percebeu que eu não me mexia acrescentou com um tom urgente: “Agora”.Neste momento saí de meu estado de paralisia e pude sentir a aflição que eles sentiam. Senti a necessidade de correr pra fora de casa. Algo adormecido dentro de mim acordou naquele momento. Não tinha a menor idéia do que estava sentindo.Então, em questão de alguns segundos, sem qualquer explicação, corri para fora do meu quarto em direção a porta da frente de casa. Um sentimento de aventura e uma pitada de medo me invadiam. Ouvi um barulho estranho vindo da garagem, na parte da frente de casa, precisamente no portão. Sabia que tinha que fugir deste barulho, rapidamente voltei e corri para a parte dos fundos, não tinha a menor noção onde meu pai estava naquele momento, mas tinha certeza de que não estava presente. Eu estava sozinho em casa. Passei pela sala de TV e cheguei ao fundo de casa.A casa onde eu morava não era pequena, mas também não éramos donos de grandes posses, uma família normal, numa casa mediana. A casa era dividida em duas partes por um jardim. Eu estava na parte da frente, onde tinha os três quartos e as duas salas. Um quarto era o meu, outro do meu pai e um terceiro fazia papel de uma sala de som. Uma sala era de jantar e a outra para TV.O quarto de som foi um presente de meu pai a mim, pois um dos meus passatempos preferidos era tocar bateria e isto no meu quarto sem uma preparação especial faria um bocado de barulho. Este quarto tinha uma acústica ótima para permitir que meu pai ficasse a vontade em casa enquanto eu tocava. Gostava muito de musica, no começo não tinha a menor idéia de como tocar, mas após muitos treinos começava a ter uma noção, o que não evitava o barulho. Então, meu pai, por beneficio próprio, acabou arrumando o quarto para mim.
Atravessei o jardim e fui para a parte dos fundos.Na parte de trás do jardim havia a cozinha e o escritório do meu pai. Quando passava em direção a lateral da casa, vi Trovão escondido embaixo da mesa do escritório. Era um labrador que só se encolhia daquela maneira com o barulho dos fogos e naquela noite não havia nenhum.Meu pai era advogado e embora estivesse aliviado de não estar em casa, fiquei me perguntando onde ele poderia estar a esta hora da madrugada. Mesmo assim, agradeci por isto, pois tenho certeza que ele não fugiria e, não sei por que, sabia que não podíamos derrotar o que estava entrando em casa.Cheguei ao muro lateral que fazia divisa com a casa vizinha, dei um impulso e pulei o muro. Não era muito alto, uns dois metros, mas mesmo assim tive que me esforçar para jogar meu corpo para o outro lado. Na casa vizinha morava tia Eva, uma mulher de meia idade com uma beleza fora do comum. Ela era viúva e me tratava como se fosse seu filho, desde pequeno. Não havia nenhum parentesco real entre nós, mas éramos como uma família.Depois de ultrapassar o muro saí num corredor da casa de tia Eva. Precisava passar dentro da cozinha para sair para o lado de fora, na rua. As casas naquela região eram iguais originalmente, mas seus moradores a personalizavam aos seus gostos. A casa da tia Eva tinha uma cozinha enorme. Acho que era a parte que ela mais gostava. Entrei na cozinha e dei de cara com Paula.Paula era filha da tia Eva e eu era apaixonado por ela, de um modo platônico. Ela não me dava à mínima e, além disto, era bem mais velha do que eu. Fazia questão de deixar isto claro o tempo todo me chamando de pivete. Oito anos para ser preciso, que pesava muito mais para ela do que pra mim. Na verdade, pra mim não fazia diferença alguma, mas como ela evidenciava isto a cada momento, eu pensava muito antes de me aproximar com alguma intenção.Tinha pensado várias vezes me declarar, mas parece que ela adivinhava e evidenciava mais fortemente antes que eu pudesse dizer qualquer coisa que fosse a favor desta diferença de idade entre nós. Mesmo assim, eu a admirava, não só pela beleza, embora fosse linda, mas por seu temperamento, ela era durona e eu gostava disto. Sentia-me desafiado a conquistá-la. Ela tinha os cabelos claros, de um castanho com um leve tom avermelhado, caídos no meio das costas em ondas perfeitas, olhos verdes como jade, pele clara e dona de um corpo escultural. Sabia que ela perdia muito tempo na academia, o que para mim realmente valia à pena. Se eu pudesse ficava admirando sua beleza o tempo todo. Quando entrei na cozinha ela gritou se assustando com minha invasão repentina:“- Ei! Você me assustou. O que houve Davi?”“- Preciso ser rápido, estou atrasado para o treino de basquete e estou sem chave, meu pai saiu e me trancou aqui.” Que estúpido que fui. Treino de basquete de madrugada? Mas não consegui pensar em nada melhor para dizer. Ela pareceu não perceber meu blefe e me escutou intrigada sem me questionar. E prossegui: “- Só avise que está tudo bem comigo.” Foi a única desculpa que consegui dar, pois nem mesmo eu sabia para onde estava indo.Eu tinha 18 anos. Na verdade 17 anos e 11 meses, mas aparentava ter alguns mais, 1,90m de altura, cabelos escuros, olhos claros, pele bronzeada. Era um dos melhores do time de basquete, o armador do jogo. Posição que antecede o ataque, onde começa a jogada, não é necessário ser muito alto para esta função no jogo.Não tinha namorada, saia com algumas garotas de vez em quando, mas ninguém que eu me interessasse de verdade. Sempre havia a sombra de Paula em minha vida, era apaixonado por ela desde os doze anos de idade e isto me impedia de investir seriamente em outra garota. Todas as vezes que achei que desencanaria dela e partiria para outra, surgia uma esperança não sei de onde que me fazia largar a menina em questão e eu voltava ao estado de paixonite por Paula. Parecia que ela gostava de me ter como fã e de não me corresponder adequadamente.Saí pelo outro lado da cozinha em direção a rua e espiei brevemente por sobre o ombro em direção a Paula que estava com uma expressão de indiferença. Não entendia o que sentia, às vezes estava apaixonado, outras vezes acreditava que ela realmente não era pra mim. Meus sentimentos por ela eram volúveis, não entendia isto direito.Continuei com minha fuga passando pelo gramado da frente da casa e pude perceber que o mal estava me procurando na casa ao lado, dentro de minha casa. Podia ouvir os barulhos, acho que me procuravam na parte da frente ainda, em um dos quartos. Não tinha idéia do que podia ser, mas depois de ver um coelho gigante e dois tralhos, não podia duvidar de mais nada.Neste momento agradeci por minha casa não ser tão pequena quanto eu achava que era. Nela vivia somente meu pai e eu. Perdemos minha mãe, Leonor, no momento em que nasci, complicações do parto. A única coisa que sobrou dela foram poucas fotografias espalhadas pela casa. Meu pai me amava, mas não falava muito dela. Embora eu insistisse muito quando criança, apenas as mesmas histórias, como se fosse uma história decorada. Entendia esta ausência de informação como uma dor que ele sentia ao se lembrar dela. Era estranho ele esconder tão bem este sentimento. E por que de mim? Mas isto me incentivava a esconder o meu também e assim cresci sem a presença de minha mãe.Como já disse, Tia Eva era como uma mãe pra mim. E ainda tinha a Paula, de novo, não sei por que falo tanto dela, tá eu sou apaixonado por ela de verdade e este negócio da diferença de idade era um saco, mas não sabia por que me envolvia tanto.Chegando ao portão lembrei-me do Coelho e dos tralhos, procurei-os através da grade na rua e não os encontrei. Será que eles estavam dentro de casa? Será que ficaram para enfrentar e me ajudar a escapar do mal? Por um segundo olhei para cima e percebi que o céu estava se tornando laranja, será que ainda estou sonhando? Eu tive um sonho esta noite! Foi estranho, mas não me lembro de muita coisa. Só da floresta escura.Quando tentei abrir o portão menor, percebi que estava trancado.“- E agora?” Disse em voz alta sem perceber, já me virando para pegar a chave com Paula.“- Tente de novo”. Aproximou-se o Coelho do lado de fora.Fiz o que ele pediu e o portão abriu. Como podia aquilo? Tinha acabado de checar, mas pelo visto checara errado. Quando voltei o olhar para o coelho, ele não estava mais lá. Será que imaginei o coelho? Só havia o silencio, nem o barulho interno da minha casa estava presente mais. A vizinhança estava tranqüila e normal, como tudo estava até ontem quando fui dormir. Senti que algo iria mudar, mas não sabia o que iria acontecer comigo. Tudo aquilo era estranho, mas a sensação que sentia não me deixava parar para questionar se estava imaginando tudo aquilo.Corri em direção contrária a civilização. Eu morava perto de uma enorme reserva ambiental e a vida era do lado oposto da reserva, a escola, as lojas, shopping, clube, mas não sei por que escolhi o lado da reserva. Não tinha menor noção de onde estava indo. Só corri, sem pensar.Depois dos primeiros quinhentos metros vi que pessoas vinham em minha direção. Vestiam-se de uma maneira estranha, com o mesmo estilo do coelho, como se fossem de outra época. Conforme fui passando notei algo estranho. Havia alguns animais entre eles. Mais perto vi que os animais de quatro patas andavam em duas, estavam vestidos, como se fossem civilizados, fiquei confuso, mas prossegui.Eram seres de histórias infantis, alguns coelhos enormes, ursos, elfos e humanos. Os animais também usavam roupas. Por um momento pensei em algum circo que podia estar passando uma temporada na cidade, mas logo em seguida descartei a idéia, pois eles me olhavam com expressões diferentes estampadas na face. Eram inteligentes.Olhei ao redor, para a vizinhança procurando por alguma testemunha de que eu não estava enlouquecendo, mas não havia ninguém. Só os seres e eu, acho que uma centena deles. O mundo real estava adormecido, todos dentro de casa, como se o tempo estivesse paralisado.Passava no meio dos seres, quando um urso enorme e negro, com as patas gigantes parou na minha frente sobre duas delas, realmente gigante. Achei que ia me atacar e tão rapidamente que nem percebi me apertou num abraço esmagador, comecei a me debater e parei surpreso quando ele falou:“- Que bom que te despertaram Davi, vejo que chegaram a tempo. Fico muito feliz.” Antes que eu pudesse dizer algo, até porque não conseguia, estava sendo esmagado pelos seus braços e quase não conseguia respirar, ele continuou.
“- Nos precisamos de você para nos salvar” afirmou. Consegui um espaço para recuperar o ar e ele percebeu que me apertava demais. Soltou-me expressando suas desculpas. Acho que estava louco? Como um urso conseguia falar? Por um momento minha mente viajou, mas atentei-me a conversa dizendo:“- Como farei isto? O que aconteceu?”. Tinha tantas perguntas a fazer, não estava entendendo nada. Só que uma força muito forte me puxava para a direção da colina. Era a poucos quilômetros daqui. Naquele momento, consegui visualizar a colina. Era um tipo de vale com mata fechada em volta e vários lagos de tamanhos variados. Não sabia se tinha imaginado o lugar ou se realmente estava o descrevendo sem nunca ter estado lá. O pior é que eu sabia que a segunda opção era a correta, eu conhecia o lugar sem nunca ter estado lá realmente.Ele me soltou com um sorriso no rosto. E eu fiquei parado olhando sua expressão.“- As respostas virão. Tenha Paciência.” Ele se virou tomando seu rumo na direção oposta que eu me dirigia. Ele alcançou os outros em poucas passadas e fiquei boquiaberto pensando qual seria o destino deles. Para onde iam? Para o centro da cidade?Não perguntei mais nada, uma força estava me puxando muito insistentemente. Era uma força invisível. Uma vontade louca de ir para a Colina. Sorri gentilmente em retorno e me virei para seguir caminho. Mas antes de alcançar seu grupo o urso acrescentou uma última frase.“- Vá e siga seu coração. Saberá fazer a coisa certa. As respostas virão naturalmente. Você é nosso salvador e triunfará.” Ele afirmou com um sorriso enorme na face. E repetiu com um gesto no peito. “Seu coração”.Assenti mais uma vez e continuei. Meu corpo tinha vontade própria, não era dono dos meus movimentos. Poucos segundos se passaram e eu já estava correndo novamente, indo em direção a colina. Olhei brevemente para trás confirmando que ninguém me seguia, nem meu perseguidor, nem o coelho, nem tralhos. Era dono de meus pensamentos, embora estivessem um pouco confusos. Na verdade, devo admitir muito confuso. Entre uma dúvida e outra só via a Colina em minha mente. Meu corpo tinha vida própria, estava independente, corria muito, numa velocidade que nunca tinha conseguido fazer antes, parecia que participava de uma corrida. Não que meu corpo não estivesse preparado para correr, porque eu era um atleta, jogava basquete, tinha músculos fortes devido a treinos pesados no clube, mas a velocidade era acima do que eu achava que poderia alcançar.
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