A colina não era um lugar que eu conhecia pessoalmente. Mas sabia exatamente como era, além do vale, a mata fechada em volta, lagos, também sabia que havia animais selvagens lá. Os seres que passaram por mim também habitavam a Colina.

Conforme me aproximava, confirmava a minha suspeita que eu realmente conhecia o lugar. Não havia casas há um quilometro do perímetro da Colina e deveria haver guardas a sua volta, pois era uma reserva natural, preservada e guardada pelo governo, não era permitida entrada sem autorizações. O parque se chamava Colina Verde, não sabia que desculpa daria aos guardas para entrar sem qualquer autorização, ainda mais fora do horário de visitas, mas enquanto me aproximava, não encontrei ninguém para dar qualquer resposta que eu não tinha.

Passando pela entrada, notei a guarita vazia, a porta aberta, nenhum sinal dos guardas que impediriam a entrada de não autorizados. Lembrei das criaturas que encontrei a pouco e me perguntei se tinham feito alguma coisa aos guardas. O que tinha acontecido para afugentá-los daqui? Pareciam criaturas do bem, não teriam machucados os guardas que os protegiam de “não autorizados”. Ou teriam? Aproximei-me da guarita e me perguntei o que eu fazia ali? Minha mente gritava, eu estava no lugar errado, mas meu corpo continuava rapidamente, como se enfeitiçado para dentro daquela mata.

Atrás da guarita notei uma caminhonete, era do parque, os guardas deviam utilizá-la para rondas. Era preta, novinha e continha adesivos com o nome do parque nas portas. Estava completamente abandonada, com as portas abertas, como se os guardas estivesse fugido também. Será que estavam no meio do grupo? Havia humanos, mas não notei nem um deles com uniformes ou algo que se parecesse com guardas. Será que fugiram quando avistaram aquele grupo anormal? Quem saberia? Percebi que podia ir mais rápido com a caminhonete, já que sentia o mal atrás de mim e precisava entrar logo dentro da colina.

Entrei no veículo, encontrei a chave no contato, dei partida que funcionou de imediato. Segui meu caminho ao interior da Colina e embora soubesse como ela se parecia, não estava certo do que encontraria em seu interior. Estranho é que não sentia medo, o mal estava me perseguindo, não o via, mas sentia sua aproximação. E agora, sabia que não era o momento de lutar, mas ainda sim, não temia.

Passei por paisagens muito bonitas, arvores centenárias, jardins floridos, muitos lagos com águas cristalinas e azuis, daqueles que só se viam em documentários na TV. Realmente era um lugar verde, em todas as direções em que eu olhava via algo verde. Percebi que não escutava os sons da floresta. Não havia nada vindo além da vegetação, nada se movia, nem insetos faziam barulho na mata.

Algo estava errado. Não sei o que era, mas sentia a energia muito forte vinda do centro daquele lugar, não era a mesma que sentia vindo atrás de mim. Não conseguia decifrar se a energia era boa ou má, mas eu continuava sendo puxado para ela, continuava entrando colina adentro. Enquanto estava preso nas minhas dúvidas, com um baque surdo pude sentir que algo havia caído na caçamba da caminhonete. Me assustei e quase perdi o controle, mas não parei, olhei pelo retrovisor procurando o que estava me atacando e encontrei os olhos grandes do coelho que tinha me despertado naquela manhã. Ele saiu rápido da minha vista e entrou pelo vidro da caminhonete sem fazer qualquer esforço. Foi tão rápido que mal percebi quando se sentou no banco do carona.

O tempo passava rapidamente, ainda era aquela manhã, já tinha visto e pensado em tantas coisas diferentes... Quando olhei no relógio da caminhonete vi que eram seis horas da manhã e começava a clarear de verdade. Passaram aproximadamente uns trinta minutos desde que tinha saído correndo de casa numa maratona contínua e não sabia onde eu iria parar. Estava fugindo de alguma coisa ruim que não tinha a menor idéia do que era.

“- Oi Coelho, acho que me deve algumas explicações.”

“- Oi Davi, está tudo bem?”. Perguntou o coelho um leve sorriso nos lábios.

“- Acho que não. Não sei o que estou fazendo aqui. Estou me sentindo estranho, não sou dono de minhas ações. Sinto o mal e uma força oposta a ele que vem do centro desta Colina. Encontrei com criaturas estranhas, um urso que fala. Então, te afirmo que não está nada bem.” Olhei para ele e continuei:

“- A propósito, como você sabe meu nome? O urso também sabia meu nome? Não estou entendendo nada.” Disse de uma vez só num desabafo.

“Sei que isto não é agradável” O coelho deixou o sorriso e suspirou pesadamente. Acho que estava editando o que iria falar.

Não estávamos sós, os tralhos estavam na carroceria da caminhonete, tinham pulado juntamente com o coelho. Eram dois, pude perceber que eram maiores do que hoje de manhã quando me despertaram em meu quarto. Suas feições pareciam a de soldados, sempre alertas e em olho em tudo que não se movimentava ao nosso redor.

“- Vou dar-lhe algumas respostas para se sentir melhor. Na verdade, fui acordado da mesma maneira, alguns meses atrás por estes dois tralhos aí atrás. Não foi muito diferente de você. Estava em meu castelo, em Krones, uma dimensão muito distante desta, em outra galáxia. Não me disseram nada, só me arrastaram floresta afora até um portal mágico entre dimensões sem saber para onde estava indo.”

“Depois de atravessar o portal, entrei neste mundo que é muito diferente do que eu conheço, onde encontrei o Ministro das dimensões que me explicou que estávamos numa guerra entre o bem e o mal”.

Olhei-o incrédulo. Será que estava ficando louco? Sei que cogitei várias vezes isto nesta última meia hora, mas eu estava realmente acreditando que era verdade. Ele continuou.

“- A cada mudança de século abrem-se portais dimensionais, passagens entre diferentes mundos. Através destes portais é feito o equilíbrio entre o bem e o mal. Isto é, quando o mal está muito concentrado em um mundo parte dele é expulso para ser destruído em outro mundo que haja mais bem que o anterior, assim o mal é exterminado, “diminuído” e o equilíbrio volta ao normal. Isto acontece em vários mundos e o mal é enviado para lugares diferentes para não haver perigo de se concentrar”

“Mas, às vezes, raramente, há uma falha nestes portais e em vez de passar de um só mundo para vários outros, ele faz o processo inverso e passa de vários mundos e para um mundo só, onde o bem que lá existe não tem capacidade de exterminar o mal.”

Continuei a encará-lo, não estava entendo nada do que ele estava falando. Mal? Bem? De onde? Pra onde? E o que eu tinha a ver com tudo isto? Ele continuou lendo minhas expressões.

“- É aí que entramos na história. Antes desta passagem acontecer, são recrutados príncipes e princesas de vários mundos que foram criados para esta batalha, juntamente com seus melhores guerreiros, para vir para o mundo que receberá todo o mal e ajudar no extermínio do mesmo.”

Consegui sair do transe e dizer algo:

“- Mas porque eu? Não sou nenhum príncipe. Sou uma pessoa comum, um estudante, moro com meu pai, não sei lutar, não tenho a menor idéia de tudo isto que você falou.”

“- Não se preocupe.” O coelho falou meio a um sorriso. “- Eu também não sei como isto vai acontecer direito. A batalha será daqui a um mês e recebemos as informações em partes, na verdade de cinco em cinco dias pelo conselho. Mas, de novo, não se preocupe, o ministro esclarecerá tudo que for permitido.”

Assenti. Acho que não conseguiria arrancar mais nada daquele coelho por hora. Parecia um ser do bem. E por mais incrível que pareça, eu acreditava nele.

Prosseguimos em silencio até o interior da mata, percebi que ele estava encantado com o lugar tanto quanto eu e que realmente nunca estivera lá, pelo menos não na parte em que passávamos. Perguntei-me de que mundo seriam todas aquelas criaturas? Então, realmente existiam mundos paralelos?