Notas iniciais
Boa Leitura!!

Faltava uma hora para o jantar, eu estava na internet checando meus e-mails. Já era formado no ensino médio e estava freqüentando o cursinho pré-vestibular. Estava em férias e por este motivo, meus amigos não sentiram tanto minha ausência. Muitos nem estavam em casa, estavam viajando com a família. Inclusive o treino de basquete estava em recesso. Sentia falta da minha vida, embora esta nova fosse bem agitada e cheia de novidades.

Além de um monte de Spam e propagandas de sites tinha dois e-mails do Juan. Um deles era da última quinta feira me convidando para ir a uma festa de final de semestre que ia rolar no dia seguinte. O outro contara sobre a festa que estava ótima e que ele tinha ficado com uma menina linda e mais velha que ele. Eu ri comigo mesmo. Juan era uma figura, ele era o único cara que partilhava comigo o interesse por mulheres mais velhas.

O e-mail era de segunda – feira passada, três dias atrás e contava além da festa, todo que o fim de semana. A garota, Sophia, tinha se encontrado com ele na sexta, sábado e domingo. Ele estava empolgado e sua felicidade me afetou, fiquei feliz por Juan, pelo menos ele estava levando uma vida normal. Nem percebeu que eu não estava em casa. O único comentário sobre meu sumiço foi “que festa você foi que não me chamou na sexta hein cara? Não importa, eu não iria mesmo, estava com Sophia, que gata......”.

Pensei um pouco em uma história que não fosse absurda de mais para contar a meu amigo e decidi falar meias verdades. Disse que estava em um acampamento, que havia vários adolescentes de lugares diversos e que eu também tinha conhecido uma menina, chamada Elizabeth e que estava apaixonado por ela. Contei também sobre Laila. Também não tinha nada de mais em falar que duas meninas gostavam de mim. Considerando estas meias verdades escrevi quase meia página contando sobre minha situação ao Juan.

Sentia-me melhor, mais perto do normal. Não era ruim esta história toda de magia, mundos e dimensões, mas não era nada bom ter tantos problemas e não saber como lidar com eles. Acho que eu precisava planejar as coisas, pois simplesmente deixar as coisas rolarem não estava dando certo.

O tempo passou e segui para mais um jantar. Cheguei cedo esta noite e não estava a fim de conhecer pessoas novas, então não me aproximei de nenhum dos poucos grupos que estavam espalhados pelo salão. Fiquei pensativo, olhando sem ver um arranjo de flores que estava na parte central das mesas e percebi alguém se aproximando. Quando virei para ver quem era, vi Francisco, que sentou ao meu lado. Estava me sentindo em casa esta tarde.

“-Oi meu filho” Disse Francisco me puxando da cadeira com uma das mãos para me abraçar. “Estava preocupado com você todos estes dias” Olhou-me nos olhos e avaliou minha expressão. Eu abri a boca para perguntar o que era aquilo tudo, mas ele nem me deixou começar a falar. “Antes que você comece com o interrogatório, quero que saiba que embora não seja seu pai biológico, me considero seu pai, pois te criei e te amo como tal. Nunca se esqueça disto.” Notei por um momento a emoção brotar de seu rosto. Foi tão rápido que me perguntei se tinha visto ele se emocionar mesmo. Meu pai de sempre, embora eu soubesse que me amava, mantinha uma distancia para não deixar transparecer seus sentimentos.

Ele nunca foi um pai muito aberto. Brincou bastante enquanto fui criança, cobrava-me quando entrei na adolescência, mas nunca me deu abertura suficiente para sermos amigos. Era estranha aquela demonstração de afeto agora. Mas aproveitei a oportunidade e comecei.

“Oi Pai. Estou bem. E com certeza começarei um interrogatório. É difícil conseguir informações das pessoas daqui, sabia?” Disse num tom brincalhão.

Ele sorriu.

Por onde começaria? Tinha tanta coisa para perguntar, mas não sabia qual seria a primeira pergunta. A confusão ainda tomava conta de mim desde o primeiro dia no alojamento. Então, comecei do início.

“Por que você foi escolhido para ser meu pai adotivo?”

“-Eu já fazia parte do conselho antes de você nascer e era o rei de Metamonia. Reinei em meu mundo por aproximadamente cem anos. Eu era casado, tinha um filho chamado Lucas.” Fiquei chocado com aquela confissão. A história de viver por tanto tempo ainda não era fácil de acreditar embora eu acreditasse, mas a história de eu ter um irmão.... era novidade. Onde ele estava? Quantos anos será que teria? Se fosse filho de Francisco não seria meu irmão de verdade, ou será que ele teve dois filhos adotivos? Não interrompi aguardei o restante da história. Ele parou por um momento, pensativo, como se buscando os detalhes em sua memória.

“Minha mulher chamava-se Maria e vivíamos felizes em Metamonia. Não era um mundo que havia muita energia negativa. Os tralhos que viviam em meu mundo eram suficientes para exterminar o mal e deixar todo o reino em paz. Às vezes, o conselho me chamava para liderar algum extermínio das trevas em outro mundo ou para reuniões importantes. Reuníamos como estamos aqui, nos preparávamos e o mal era exterminado facilmente. Claro que numa proporção muito menor do que esta.”

Ele suspirou e continuou: “- Há pouco mais de duas décadas, fui chamado para uma pequena batalha dessas fora de meu mundo e fui tranqüilo. Sempre era muito fácil lidar com isto, como te disse. Mas enquanto eu me despedia de Maria ela me olhou com um olhar angustiado. Perguntei o que havia de errado e ela implorou para eu não ir, disse que algo estava diferente e que daria errado. Maria era muito mais intuitiva que os outros, mesmo na forma humana. Como você sabe, todos nós somos intuitivos quando transformados. Sentimos o ambiente detalhadamente e até conseguimos nos comunicar de uma maneira eficaz. Mas naquele dia, eu não sentia nada. Achei que Maria estava exagerando, Lucas também não sentia nada de diferente e isto me deixou mais tranqüilo ainda para partir. E se fosse acontecer alguma coisa comigo, estava preparado. Fui criado para lutar e morrer em batalha se fosse preciso. Era o melhor do meu reino. Ignorei Maria e parti deixando minha mulher e meu filho de quinze anos de idade em meu reino seguro.”

Francisco parou de falar, olhava fixamente o vazio paralisado. Cheguei a pensar que estava acontecendo algo de errado com o alojamento. Que ele escutava algo fora da barraca, mas pela expressão em seu rosto, percebi que eram as lembranças que o estavam torturando.

“-E o que aconteceu?” Incentivei.

“-Meu mundo seguro não era tão seguro. Eu nem imaginava que o perigo era para quem ficou em Metamonia e não na batalha para qual me dirigia. Em meu castelo, ficaram uns trezentos tralhos, mais alguns poucos guerreiros. Guerreiros mais velhos que não precisavam se sacrificar conosco e os mais novos que ainda não estavam preparados para a batalha.”

“A energia das trevas atacava aleatoriamente, sem pensar, desordenadamente. Até então, nunca soubemos de ataques organizados. Quando precisávamos nos reunir para destruí-los era porque os portais os expulsavam para um mundo e ficariam concentradas, mas mesmo assim se qualquer planejamento.”

“Mas uns dos primeiros ataques ordenados aconteceu naquele dia em que eu não estava lá para defender meu reino. Para defender minha família. A energia se materializou ordenadamente em um exercito de aproximadamente dois mil soldados que exterminaram tudo que estava a sua frente. E para minha tristeza, o meu castelo foi o primeiro alvo.” Francisco baixou a cabeça e pude ver uma lágrima rolando por sua face. Depois de tanto tempo, ele ainda sofria... Não tinha palavras para confortá-lo. Agora entendia por que ele evitara falar sobre minha mãe. Ele provavelmente lembrava-se de sua mulher. Sem dizer seu filho, Lucas. Disse a primeira coisa que me veio à mente.

“Maria era uma bela mulher. Sinto muito por ela e seu filho.”

“Bela? Nem imagina o quanto minha Maria era bela. Não porque era a razão de meu viver, mas uma das mais belas mulheres que conheci. Ela saia muito pouco de nosso mundo. Poucos a conheceram. Mas a beleza de Maria era também em seu interior, bondosa....” ele parou com as palavras presa a garganta.

“Eu me lembro dela. Com os olhos negros e profundos. Realmente era muito expressiva.” Quando olhei para meu pai ele estava me encarando com um olhar assustado, surpreso. O que eu disse? Só estava tentando confortar sua dor. E sentia muito mesmo.

“Como você se lembra de Maria se não há conheceu?”

Gaguejei. Sem saber se podia contar sobre os sonhos. A última vez que tentei quase morri sufocado, mas desta vez eu não tinha como fugir do assunto. Já tinha falado demais. Como diria a meu pai que sabia a aparência da mulher dele. Decidi contar a verdade. Se tivesse alguém em quem podia confiar era meu pai.

“-É complicado”

“-Diga agora Davi” Ele usou a autoridade paterna comigo e neste momento nem pensei em resistir.

“-Quando descobri que você era metaformo, me disseram também que você podia se comunicar comigo telepaticamente. Então me concentrei o dia todo, mas não conseguia qualquer sinal.”

“-Não é tão fácil assim a comunicação telepática. Mas continue.” Ele se interrompeu.

“Estava cansado e a noite caia. Continuei me concentrado, mas num determinado momento o cansaço venceu e adormeci.” Me lembrei de Laila, mas não ia perder meu tempo lembrando-me da noite que tive com aquela maluca e continuei:

“Às vezes, tenho alguns sonhos. Não sei direito o que é e por que os tenho. Só sei que são muitos reais, estranhos e às vezes sem sentido.”

Contei a meu pai todo o sonho que tive com Maria, a parte que as sombras o levavam para a floresta e que o torturavam.

“-Você viu o momento como se estivesse em minha mente.” Ele disse mais para si mesmo do que para mim. Mas mesmo assim respondi:

“-Sim”

“-Você contou isto para alguém?”

“-Não contei. Inclusive quando tentei fazer isto, senti algo esquisito e não consegui dizer nada. Era como se alguém estivesse apertando meu coração até parar.” Disse de uma vez só, esperando a mesma sensação voltar, o que não aconteceu.

Neste momento havia mais pessoas a mesa do que quando chegamos lá, mas o salão estava longe de estar cheio. Tínhamos tido a refeição enquanto conversávamos. Era cedo para o jantar, a maioria das pessoas chegavam, mas nenhum conhecido por enquanto.

“-Vamos sair daqui para conversarmos melhor.” Disse Francisco já se levantando da mesa.

Eu assenti e o acompanhei. Estava entrando em meu rotineiro estado de confusão mental. As pessoas aqui tinham mania de contar as coisas pela metade. Estava pressentindo que meu pai estava fazendo alarde mais do que necessário. Sabia que viria alguma história por trás daquilo.

Chegamos à barraca dos Metaformos, onde meu pai estava instalado e lembrei-me que nunca tinha entrado em barraca alguma além da minha e a tenda principal. Estive também nas instalações do ministro Demétrius e na sala de reunião que também eram no salão principal. Como o treinamento era ao ar livre, nunca tive oportunidade ou curiosidade de entrar em qualquer barraca de outro reino.

O lado de dentro era surpreendente. Era um salão, rodeado de pedras esculpidas com bastante água ao centro. Estávamos dentro de um complexo de cavernas. Fiquei olhando ao redor sem o mínimo de discrição. Não imaginava encontrar tudo aquilo lá. Francisco me flagrou observando e não disse nada.

No meio do salão havia um lago que ocupava todo o centro da barraca, começava raso nas laterais até se aprofundar ao centro. Tinha uma queda d’água que vertia continuamente de uma pedra maior na lateral do lago, a pedra tinha o formato de uma gota gigante. A água parecia quente, podia-se ver o vapor tremulando em direção ao topo da caverna fechado. Aquilo deveria deixar o ambiente insuportavelmente quente e úmido, devíamos estar com a sensação de ter entrado em uma sauna, mas não tinha qualquer efeito no ambiente. Fiquei imaginando qual a profundidade e como fizeram aquilo não afetar o ambiente, mas já sabia a resposta “magia”. Só podia ser magia. Algumas pessoas estavam no lago, mas não se incomodaram com nossa presença.

Ao redor do lago havia as pequenas cavernas onde pareciam ser os dormitórios. Pude identificar claramente, pois embora fossem de pedra, estavam perfeitamente esculpidos, se via as portas dispostas ordenadamente em dois andares de dormitórios. Não contei, mas podia apostar que eram os mesmos quarentas quartos que tinham em minha barraca.

Alguns humanos transitavam pelas passarelas de acesso aos quartos. Que cruzavam toda a grande gruta. Tudo era ornamentado. Tinha muita pedra e muito verde. Pude perceber que não havia qualquer iluminação artificial, mas era claro, sem ter janela ou abertura alguma, como acontecia em minha barraca também.

Chegamos frente a uma porta de madeira e Francisco a segurou para eu entrar.

“-Vejo que nunca entrou nesta barraca antes.”

“-Nem aqui e nem em qualquer outra que não fosse à de Napta. Fico pensando até que ponto elas podem ser diferentes?”

“-Vai encontrar dormitórios em todas elas. Outro dia te apresento todo o alojamento. Há coisas incríveis fora do mundo em que viveu.”

O quarto do Francisco não tinha nada de muito esquisito. Além de ser de pedra, é claro. Tinha uma cama, uma porta que deveria ser o banheiro, um guarda roupa embutido na pedra e sem portas. Lá se podia ver o mesmo estilo de roupa que eu usava. A cama era como se fosse um ninho de passarinho prensado da altura de um colchão mais ou menos e um colchão disposto em cima. Ao lado havia uma pedra que fazia a vês de um criado mudo e que por mais estranho que parecesse havia um relógio sob ela.

Olhei para meu pai que começou a falar sem rodeios. O lado bom de meu pai é que ele era muito direto.

“-Os sonhos. Tem um significado.” Ele disse pausadamente ainda pensativo.

“-Tem?”

“-Não sei se você já escutou alguma coisa, mas há muitas histórias, lendas e mitos a respeito do príncipe que nasceu para ser ministro do portal.”

“-Já ouvi algumas sim, como que ele não precisa da rainha para ganhar a batalha, que a rainha é mera reprodutora.” Repeti sarcasticamente o que Ramon havia me falado alguns dias atrás. Mas logo me recompus, pois meu pai não tinha nada a ver com esta história.

Ele riu e prosseguiu.

“-Além do lado das trevas tentarem exterminar o príncipe todas as vezes que ele surge no mundo, sem sucesso. Como pode perceber há o mal natural das coisas. A inveja, a cobiça pelo poder, o próprio amor em demasia e desregulado. Tudo que não está em equilíbrio há uma pitada de maldade. Mal este que sempre tenta vencer o bem e destruir o príncipe.”

É claro que a novidade importante tinha que ser algo para me destruir. Parecia que tudo conspirava contra mim naquele momento. Mas desta vez não me abati, estava mais fortalecido. Apenas ansioso pela informação.

“-E sobre os sonhos?”

“-Uma das lendas, é bem antiga e até hoje nunca se cumpriu. Pelo. Menos. Que. Eu. Saiba.” Ele repetiu pausadamente dizendo uma palavra de cada vez e suspirou com o olhar preso ao meu. “A lenda diz que o mais forte e bravo dos príncipes, com o gene mais desenvolvido e poderoso do que dos outros que vieram e que estarão por vir terá algumas habilidades a mais para ajudá-lo na grande batalha contra as trevas. Uma destas habilidades é sonhar com situações reais. Sonhos estes que apontarão situações do passado e futuro. A lenda também diz que será a batalha mais difícil de todos os tempos e que o mal estará preparado para vencer. Será uma luta em pé de igualdade.”

“-Isto explica o sonho que tive com você, mas e o sonho que tive com a Leonor?”

“-Você sonhou com a rainha?” Ele perguntou com ar surpreso novamente.

Não conseguia ver Leonor como a grande rainha ainda. Era tão meiga comigo e eu a via como minha mãe. Embora Francisco nunca tivesse falado muito sobre ela pra mim, pelo menos a imagem que me apresentaram era real, a de Leonor. Então parecia que ela era uma das poucas coisas reais em minha vida.

Como não respondi preso em meus pensamentos, ele perguntou:

“-O que você sonhou? Já aconteceu?”

“-Não. O sonho se repete em dias diferentes, sem uma seqüência lógica. A diferença é que a cada dia é acrescentado um fato diferente no sonho. Começou na noite em que Kevin me acordou com Jake em casa.”

“-Quando o gene acordou” Falou numa voz baixa mais para si mesmo do que me respondendo.

“-A propósito. Já que estamos aqui, você poderia me contar o que ouve com você no dia em que Kevin me acordou de madrugada desesperado para que eu fugisse?”

“-Desculpe!” Meu pai pela primeira vez não me olhou ao falar e eu toquei sua mão o que o fez me olhar e esclarecer:

“-Eu sabia que o mal já o havia localizado e que a qualquer momento iriam tentar te capturar. Tínhamos informantes e ao que parecia eles ainda não tinham certeza de que você era o príncipe certo. Se te escondêssemos, em qualquer que fosse o lugar, seria a confissão de que você era o próximo ministro o que faria todo o mal focar em você. Com isto, teríamos que nos recolher em treinamento muito antes do planejado, o que não era necessário, já que o único que não tinha treinamento era você mesmo. Pouco menos de um mês seria suficiente para treiná-lo em pé de igualdade com os outros príncipes. Então, Eva e Eu fizemos sua segurança, vigiados de longe por alguns tralhos e moradores permanente desta colina.”

“-É por isto que sinto que estou ficando forte e que aprendo a lutar com maior rapidez do que os outros? Achei que era mais inteligente.” Disse com um riso no canto da boca.

Não adiantava mais me espantar com estes tipos de coisas. Decidi que absorveria e veria o lado positivo de todas as novidades daqui pra frente. Iria ser menos profundo ou enlouqueceria.

“-Na noite em que Kevin te ajudou a fugir, tínhamos decidido te contar a verdade aos poucos nos próximos dias, pois as aulas terminaram naquela semana e ainda tínhamos um mês de treinamento. Você teria tempo tanto para o treino como para absorver toda a informação. Mas o mal mesmo sem confirmar sua identidade, arriscou destruí-lo.”

“-Eu estava postergando metamoforsear e ter que deixá-lo sozinho à noite até ter reforço suficiente para tal. Então pedi ajuda a Demétrius que me enviou Jake e Kevin para fazer a ronda naquela noite. Desculpe mesmo por não estar aqui com você e não ser eu a dizer toda a verdade.”

“-Não importa. Não vou negar que senti sua falta, mas o importante é que agora você está aqui comigo. E está esclarecendo as coisas como nunca fizeram aqui. Eles me falam tudo pela metade.” Disse com ar debochado precisava descontrair, o assunto estava tenso e eu não queria me abater.

“-Por falar em esclarecer. Por que não podia contar a ninguém sobre os sonhos? Ainda não entendi direito.” Perguntei curioso.

“-Como você sabe, o mal pode entrar em sua cabeça e usar as suas fraquezas para te atacar. E com o feitiço você pode se proteger. Mas este feitiço impede apenas que o mal leia a sua fraqueza, não impede que você deixe disponível a fraqueza dos outros para o mal acessar livremente. Eles vasculham a mente atrás de qualquer fraqueza que possam usar a favor deles”.

“-Então eles não lêem apenas o que estou pensando, mas todos os pensamentos que tive?” Questionei ainda confuso com este tipo de poder.

“-Sim. Não todas as sombras, apenas as mais poderosas que conseguem fazer isto. É só quando se esforçam para fazer. Mas não temos como saber de imediato quem é poderoso e quem não é. Então acabamos considerando que todas têm este poder. Embora seja preciso ser muito poderoso e ter treinamento adequado para tal façanha.”

“E no seu caso, se você contasse seu sonho para o Kevin, por exemplo, por mais que ele se protegesse com o feitiço de bloqueio da mente, não conseguiria proteger sua informação, pois não afeta ele. Kevin só protegeria os seus segredos e fraquezas e não as de outras pessoas. Não era nada tão grave há não ser que este segredo seja do príncipe mais importante. O mal provavelmente está procurando fraquezas suas na cabeça de todos deste alojamento. Entendeu? Nunca se esqueça disto”

Assenti. “Mas como fui impedido de falar antes? E por que agora consigo contar a você sem ser problema?”

“- Há seres poderosos por aqui. Mas apenas alguns são capazes de fazer este tipo de coisa. Até tenho algumas suspeitas, mas não posso te afirmar precisamente quem te impediu de contar. Só posso agradecê-lo por isto.”

Meu pai suspirou e ergueu as sobrancelhas como se pensasse em como iria me falar. Ficou em silencio ainda por alguns segundos fitando o vazio, depois virou para mim e explicou.

“-Quanto a contar pra mim, sua fraqueza também é minha fraqueza. Meu vinculo com você é muito forte e penso primeiro em sua segurança depois na salvação do mundo. Assim, suas fraquezas serão as minhas.”

Francisco era uma pessoa difícil de expressar sentimentos assim tão diretamente, ele disse numa só vez e pela primeira vez fiquei chocado com sua demonstração de amor por mim. Por mais que fosse para me contar uma história importante, que poderia influenciar na minha vida. Fiquei surpreso com o que ouvi e agradeci.

“-Obrigado por ser meu pai.” Sorri verdadeiramente.

Ele sacudiu a cabeça sorrindo como se para expulsar a demonstração de sentimento e continuou:

“-Mas afinal de contas, como foram seus sonhos com a rainha?”

Contei a Francisco o último sonho que tive com todos os acréscimos. Que estava na floresta com tralhos por todos os lados, que minha mãe estava dentro de uma fenda feita por magia no lago e que na margem oposta a mim no lago tinha uma figura vestido de negro e com um capuz que escondia o rosto. Sem contar na quantidade de soldados negros que lutavam contra os tralhos.

Percebi que ele ficou impressionado com a riqueza de detalhes que relatei e me perguntou qual era o meu papel no sonho? O que eu fazia lá? Disse que era apenas coadjuvante, ficava paralisado olhando tudo. E que não sentia medo, mas também não conseguia me mexer para ajudar. Enquanto contava a Francisco me dei conta que somente os soldados e os tralhos que lutavam, minha mãe e o ser encoberto pelo capuz se encaravam. Mas o que isto significava? Por que eu estava travado? Lá estava eu perdido em questionamentos novamente até que meu pai me interrompeu mais uma vez:

“- Vou precisar levar você daqui. Tenho que te levar para outro mundo. Precisamos consultar um oráculo.”

“- Um oráculo? Mas por quê?”

“- Sei que não gosta de deixar os esclarecimentos para depois, mas vou ter que fazer isto com você também. Não conte nada a ninguém e se prepare para partir logo pela manhã.”