Notas iniciais
Boa Leitura!!

Deixei meu pai em sua barraca e estava pensando em como iríamos fazer esta viagem e para onde? Provavelmente viajaríamos pelo portal. Como será que funcionava? Será que era algum tipo de tele transportador, daqueles de filme do futuro que materializavam as pessoas de um lugar para o outro? Ou será que era feito através de um espelho?

Estava entretido no escuro andando a curta distância entre as barracas, quando ouvi uma voz me chamando.

“-Davi?” Virei-me e vi Ramon. Ele não estava atrás de mim antes. De onde surgiu? Resolvi ignorar meu questionamento.

“-Boa noite” Respondi formalmente. Mas ele pareceu não se incomodar.

“-Estamos atrás da barraca principal descontraindo um pouco. Vamos lá? Você parece estar precisando.”

Achei aquilo muito estranho. Claro que não iria, Ramon não gostava de mim e aquilo só poderia ser encrenca. Será que ele se arriscaria dentro do alojamento atacando-me por um amor platônico por Elizabeth. Quais eram suas intenções? Fiquei curioso. Mas não ia pagar pra ver desta vez. Já andava caindo em suas armadilhas com Laila e resolvi recusar mantendo o tom formal na voz.

“-Não tenho interesse. Preciso dormir!”

Virei-me e antes que eu desse o primeiro passo ele disse:

“-Que pena, vou ter que dizer a ela que você não esta interessado.” Disse Ramon e voltou em direção aos fundos da tenda principal sem olhar pra trás.

Fiquei tentado a considerar aquela oferta. Será mesmo que a encontraria lá? Será que Elizabeth tinha se juntado ao grupo? Depois que pensei na cena, percebi que ele não mencionou o nome dela. Não mencionou ninguém, podia ser qualquer uma.

Dei mais alguns passos em direção a minha barraca, ainda pensando em Elizabeth. De repente me ocorreu que ela era amiga de Ramon e poderia perfeitamente estar numa reuniãozinha com seus amigos.... Tomei rumo em direção aos fundos da tenda principal e avistei uma porta dos fundos.

Estava entreaberta, podia ouvir o falatório e a música do lado de dentro. Por mais que soubesse que as pessoas se reuniam em luais e pequenas reuniões, nunca tinha participado de nenhum deles até hoje.

Passei pela porta e notei que não havia qualquer adulto, quero dizer, ninguém acima dos trinta anos, já que alguém com trinta anos aparentava uns vinte neste mundo. Após alguns passos, a única que reconheci foi Caroline que me encheu de esperança para ver Elizabeth, eu iria pelo menos poder me despedir, já que não sabia quando a encontraria de novo. Quem sabe até amenizar minha situação trazendo nosso clima de romance de volta. Olhei ao redor em todo o salão e não a encontrei.

O salão era relativamente grande, aproximadamente metade do tamanho do salão principal. O mais surpreendente não era o tamanho interno comparado com o tamanho de fora, mas sim a ausência de um teto. Via-se o céu escuro, repleto de estrelas. A lua estava cheia e baixa, com um brilho amarelo.

Ladeando a porta havia dois arranjos com folhagens grandes. Outros estavam espalhados por várias partes decorando todo o ambiente. Em vez do muro, erguia-se uma cerca viva que impossibilitava a visão do lado de fora, havia pequenas flores que formavam um muro florido, o chão era feito de pequenos tijolos rústicos formando um grande mosaico de cores. No centro deste salão havia uma fogueira com a chama beirando uns dois metros de altura. Na lateral direita havia uma piscina de uns cinco metros de comprimento, onde havia algumas garotas conversando. Pude ver Laila entre elas que não notou minha presença.

Do outro lado do salão havia duas mesas. A primeira estava decorada com flores, havia várias frutas e alguns lanches. Na segunda mesa havia uma travessa com um liquido dentro. Imaginei ser ponche. Havia também cerveja que alguns estavam tirando de um tipo de chopeira, só que parecia mais simples. Acho que mais parecia com um barril de cachaça, era de madeira. Não sei como mantinha a cerveja gelada. Mas nem me preocupei em descobrir.

Olhei de novo em todo o salão e realmente não encontrei Elizabeth. Decidi voltar para meu quarto, mas já era tarde. Laila estava se aproximando com um minúsculo biquíni. Era estranho, mas tirando as asas que estavam encolhidas às costas, ela parecia uma garota normal do meu colégio. E era estranho ela estar vestida como tal. Será que as fadas usavam isto mesmo?

Ela era a única vestida assim, podia dizer que valorizavam suas curvas perfeitamente desenhadas. É melhor eu colocar desta maneira, do que do jeito que os garotos da escola a chamariam, não seria educado, deixei pra lá. As outras garotas na água estavam com um tipo de roupa de academia. Era uma peça só, na verdade como um macacão de natação feminino sem mangas e um pouco acima do joelho.

“-Oi garotão!” Disse ela ao se aproximar.

Revirei os olhos e mantive uma sobrancelha levantada, com um pouco de sarcasmo esperando o que vinha desta vez. Pra variar, ela colocou a ponta dos dedos em minha couraça no peito e fez menção de dar a volta em torno de mim me avaliando, mas antes que ela desse o primeiro passo segurei seu pulso com força.

“-O que foi Laila?” Disse olhando em seus olhos de uma forma agressiva.

“-Calma aí. Por que está tão nervoso? Eu esperava por você e é assim que você me trata? Pelo visto meu recado chegou a você.”

Droga! Eu era um imbecil, tinha caído na armadilha deles de novo! Uma besta!

Sabia que só podia ser ela e Ramon de novo. E o pior era pensar que tinha caído todas às vezes. Elizabeth nunca me mandaria um recado através de Ramon. Como fui ingênuo... Por que não acredito em minha intuição? Era obvio que Elizabeth não estaria lá.

“-Gostou do meu modelinho? Estou usando a moda de seu mundo. Fiz por você, espero que tenha gostado.”

Ela disse a ultima frase soltando o pulso de minha mão dando uma volta completa para eu ter uma vista inteira de seu traje, ou seja, a falta de um.

Não respondi nada, não valia à pena e percebi que Troy estava se aproximando para me socorrer. Eu e aquela fada sem roupa não dava certo. Meu corpo sempre me traia.

“-Como vai Davi?” Estendeu a mão.

O cumprimentei ignorando Laila que ainda continuava como uma estatua grega parada ao meu lado. Seu rosto estava com o conhecido sorriso diabólico.

“- Não sabia que você freqüentava os luais?”

“-Nunca freqüentei, até hoje.”

“-Já que está aqui, vamos descontrair um pouco. Você já tomou o ponche?”

“-Prefiro cerveja” Respondi a Troy e já que estava ali podia relaxar um pouco antes de ir embora. Só precisava ficar longe de Laila que não teria problemas, certo?

Saímos em direção à mesa de bebidas deixando Laila pra trás. Eu e o grande coelho amigo de Kevin ficamos entretidos, conversando sobre vários assuntos, passamos por vários grupos que se dividiam no salão. De tempos em tempos olhava em volta esperando encontrar Elizabeth em algum lugar, mas nada. Pelo menos Laila tinha voltado a seu grupo e me deixado em paz.

Desta vez não tomei apenas poucos copos de cerveja acompanhando uma refeição, mas acabei tomando alguns mais, além de um pouco de ponche. Sentia-me levemente embriagado. Pelo menos o teor alcoólico das bebidas aqui era bem inferior ao que eu estava habituado. Estava tudo sob controle.

A esta altura estava sentado à mesa disposta ao redor da fogueira. É claro que o calor era suportável. Tudo era possível neste lugar. Mas já estava na hora de ir embora, estava cansado. Tentei me despedir, mas Troy me incentivou a comer alguma coisa antes de partir e achei que era conveniente.

Acompanhei Troy a mesa dos lanches, pegaria um e iria embora. Pelo menos este era meu plano, mas quando cheguei à mesa tinha esquecido o copo e voltei para pegá-lo.

Estava na mesa que acabava de deixar, assim que me aproximei percebi Ramon andando na direção oposta. Ainda tinha que tirar a limpo a história do recado, deixar bem claro que eu não estava disponível para Laila e que Elizabeth não estava disponível para ele. Dei uma golada de cerveja avaliando Ramon que já havia parado num grupo próximo a mim, conversava com um elfo e Caroline.

Dei outra golada e decidi conversar com ele naquele momento. Não perderia mais tempo. Elizabeth era minha. E ele tinha que saber isto o quanto antes para acabar com suas esperanças. Cheguei ao grupo e disse a Ramon.

“-Preciso falar com você.”

Ele se virou e sorriu com uma expressão que estava respondendo minha frase com “pode dizer para todos ouvir”.

“-Em particular” reforcei.

“-Tudo bem! Caroline. Cris” Ele disse educadamente como se pedindo permissão para os dois.

Andamos alguns passos de distanciarmos e despejei.

“-Elizabeth é minha. Você não terá nenhuma chance com ela. Pare de se iludir. Nos amamos e não permitirei que nada, nem ninguém nos afaste. Pare de oferecer Laila, não estou disponível, nem Elizabeth. Temos um compromisso um com o outro.”

Estava me sentindo estranho. É certo que me sentia levemente tonto devido à bebida, mas há poucos minutos atrás estava tudo bem. Pelo menos era assim que me sentia antes de vir falar com Ramon. Podia sustentar meu corpo perfeitamente, mas minha mente estava confusa. Não sabia mais o que dizer. Senti uma secura na boca e tomei todo o conteúdo do copo que estava pela metade em um só gole.

Quando olhei de volta para Cris e Caroline, percebi que não estavam mais lá. Agora estava Ramon e Elizabeth a minha frente. De onde ela teria surgido? Estava confuso. Não como das outras vezes que somente absorvia informação, mas confuso de verdade, como se tivesse vendo coisas. Há alguns segundos somente Ramon estava a minha frente e agora Elizabeth tinha se materializado ali.

Ela sorria pra mim. O que fazia ao lado de Ramon? Peguei em seus braços e a puxei para trás de mim. Ela tinha uma expressão estranha, mas não disse nada e me olhava com os olhos indagadores.

Olhei mais uma vez para Ramon e disse sem emitir som. “Fora”.

Virei às costas pra ele e de frente pra Elizabeth. Minha confusão tinha melhorado, mas ainda me sentia estranho.

“-Como você está?”

“-Estou bem, mas você não parece estar bem. Está sentindo alguma coisa?”

Não, não estava bem, mas não importava agora. Alguma coisa estava estranha com Elizabeth também, mas não tinha certeza o que era. Seus olhos...... parecia não ter o mesmo brilho ou a cor estava de um verde diferente, não sei bem o que era. Não parecia ela. Por um momento me lembrei da copia que as sombras das trevas tinha feito dela. Mas isto era quase impossível, dentro do campo de força e sem os característicos olhos vermelhos, não podia ser nada disto. Com certeza eu tinha bebido demais. Devia ser isto.

“-Estou com saudades!” Disse puxando-a num abraço. Ela retesou o corpo e se afastou de meus braços para me encarar.

Ela me olhou com a expressão confusa. Balançou a cabeça negativamente e afastou o rosto para me olhar nos olhos.

Encaramo-nos por algum momento e num breve segundo parecia não ser Elizabeth em meus braços. Ignorei, claro que era ela. Colei-a em meu corpo e num impulso a beijei fortemente. Percebi que ela me rejeitou no início, mas além de não ser párea para a força de meus braços, ela provavelmente estava me rejeitando devido à história de que ainda não aceitava Laila ter me enfeitiçado. Não ia deixar Elizabeth fazer isto conosco. Ela acabou cedendo. O beijo, embora intenso, estava diferente, não parecia o mesmo. Isto não me fez parar, desci meus lábios para seu pescoço, sem me preocupar com os olhares que provavelmente a esta altura estariam todos em nós ou com o ser desprezível do Ramon que provavelmente também continuaria plantado ao nosso lado. Depois de poucos segundos, escutei a voz dela mais atentamente.

“-Davi? O que você está fazendo?”

Pensei em responder te beijando meu amor, é claro, mas antes de falar qualquer coisa, minha consciência voltou ao normal por alguns segundos e tive a impressão de não ser a voz de Elizabeth. Tive até medo de abrir os olhos, mas assim que o fiz pude constatar o que meu corpo estava me avisando.

Não era Elizabeth em meus braços, mas sim Caroline. Uma Caroline horrorizada e todos ao redor me olhando com uma expressão acusadora. O que eu tinha feito? O que aconteceu?

Décimo dia

Estava num tipo de feira livre. Havia muitas barracas na rua. Vendiam tudo que se possa imaginar: frutas, roupas, utensílios.... O chão era de terra batida, as casas pareciam pequenas e estavam amontoadas uma nas outras até a beirada da rua. Não era um lugar conhecido por mim, era simples e via-se a ausência de riquezas em cada casa ou pessoa que passava. Percebi que o foco era um menino de aproximadamente 10 anos, ele tinha a pele bronzeada, olhos e cabelos negros como a noite, as roupas estavam sujas. Não parecia perdido, estava parado como eu e também só observava. Ele olhava em direção a feira e eu o observava. Muitos transeuntes passavam pelo menino que estava à espreita, ninguém o notava. Ele esperava algo, me concentrei no menino para tentar entender o que estava acontecendo, ele estava apreensivo e de repente olhou em minha direção e pareceu me notar.....

Acordei como de costume, apavorado e ofegante. Estes sonhos eram característicos, mas o estranho é que depois que tive o primeiro com minha mãe, não tive mais sonhos normais. Ou eram estes que me exauriam ou tinha uma noite tranqüila não tendo sonho algum.

Por alguns instantes fiquei deitado em minha cama repassando meu sonho e percebi que não tinha a menor noção do que se tratava ou de quem era o garoto. Se era algo relacionado ao passado ou futuro? ou se realmente eu voltara a ter sonhos comuns, como pessoas normais. Mas de repente me lembrei que no final do sonho o menino me viu, senti um arrepio percorrer meu corpo. Não era medo, era uma sensação ruim. Precisava contar isto a Francisco. Ele saberia como interpretar o sonho, pelo menos eu acreditava nisto.

Olhei ao relógio e percebi que estava quase na hora de sair. Tinha marcado com Francisco as sete e faltava apenas uma hora para partirmos. Não tinha conseguido me despedir de Elizabeth e com certeza tinha piorado a situação com ela depois de ontem.

O que será que tinha acontecido? Ainda não entendia direito. Como pude enxergar seu rosto em outra pessoa? Antes de correr daquele lugar, cheguei a perguntar a Cris se ele também tinha visto Elizabeth, mas ele negou e disse que misturar cerveja e ponche deveria ter mexido com minha cabeça. Isto com certeza estava fora de questão, pois eu era resistente a bebida do meu mundo, imagine esta que era tão mais sutil.

Depois de ter beijado Caroline achando que era Elizabeth, simplesmente larguei-a no salão tão confusa quanto eu me sentia. Não sabia qual reação ter. Até a música tinha parado. Sentia-me exposto num palco sem saber qual seria próxima fala. Olhei novamente para Caroline com um ultimo fio de esperança de ser Elizabeth e que eu estava apenas fazendo confusão, mas era Caroline que me encarava com uma expressão incrédula. Não olhei para mais ninguém e sai rapidamente do salão.

Precisava pensar. Enquanto passava pelas pessoas ouvia os comentários. Com certeza não iria conseguir esclarecer isto antes de chegar até Elizabeth. E com certeza ela não me deixaria explicar. Nem eu sabia fazer isto. Das duas, uma. Ou eu estava ficando louco ou foi algum tipo de magia que eu não havia aprendido ainda. Precisava saber se existia algum tipo de magia capaz de promover isto e como funcionava.

Faltando dez minutos para meu encontro com Francisco, eu havia acabado de colocar a couraça, as espadas e a bolsa de magia, já estava pronto quando bateram a porta de meu quarto. Saí correndo na esperança de ser Elizabeth para pelo menos brigar comigo, mas foi em vão. Já era Francisco.

“-O que houve rapaz? Está com uma cara péssima.”

“-Se você ainda não sabe o porquê da minha cara péssima já é um bom sinal.” Disse num tom de desabafo.

“-Pelo visto você ficou mal por ter beijado alguém que não devia. Isto era motivo de alegria há um tempo, não era?” Disse Francisco com um sorriso brincalhão no rosto.

“-Se você já sabe, acho que não posso ter esperanças de falar com Elizabeth antes de alguém contar a ela.”

“-Acho que não. Mas você não tinha terminado com ela?”

Olhei para ele surpreso e com raiva. Então este era o boato? Nós não tínhamos terminados, só dando um tempo para ela pensar, mas isto não queria dizer que estávamos disponíveis para outras pessoas. Ele continuou:

“-A propósito, se você estava tão preocupado com o que Elizabeth pensaria, porque beijou Caroline na frente de todos?”

Minha mascara de raiva caiu neste momento, eu amava Elizabeth e tinha pisado na bola beijando sua amiga para quem quisesse ver. Independente de eu estar maluco na noite anterior. Suspirei profundamente e disse devagar:

“-Não sei.” Respondi e assumi o silêncio que durou apenas alguns segundos.

“-Se quiser meu conselho, eu não falaria com ela agora. Deixe as coisas acalmarem primeiro. Pois se você não achava que tinha terminado. Ela achava isto, com certeza.”

Eu passei do estado de culpa para o de raiva novamente. Provavelmente Elizabeth tinha falado para todo mundo que não estava mais comigo. Se ela queria usar este tipo de abordagem daqui pra frente, não iria ligar. Estávamos disponíveis então, não é?