Garota Problema
28 Capítulo 28 — Agora você é um de nós
Notas iniciais
Photograph — Ed Sheeran (Boyce Avenue feat. Bea Miller acoustic cover)
A água quente caia sobre sua cabeça e escorria por seu corpo, lavando seus braços e mãos sujas de sangue; sangue do seu próprio pai. As lágrimas se misturaram com as gotas d’água e Bella escorreu pelo azulejo, sentindo que sua vida tomava o mesmo rumo que seu corpo, o desmoronamento.
Amar pode doer
Amar pode doer às vezes
Mas é a única coisa que eu sei
Quando fica difícil
Você sabe que pode ficar difícil às vezes
É a única coisa que nos mantém vivos
Dali 36 horas seria o enterro de sua mãe, na cidade de Jackson. Enterro de sua mãe. Aquilo parecia tão surreal, ela parecia estar presa dentro de um pesadelo ao qual nunca conseguia encontrar a saída. A cada passo dado era uma distância menor entre ela e a insanidade, ao sofrimento sem fim.
Após alguns minutos ela voltou para o quarto de Edward, enrolada em uma toalha. Notou que ele havia deixado sobre a cama algumas peças de roupas – tinha certeza de que eram de Alice. Depois de vestir a calça jeans escura, camisa de manga longa creme e um casaco pesado na cor preta, ela calçou seu all star vermelho e saiu do quarto, caminhando a passos lentos – pois seu tornozelo ainda doía, felizmente não havia tido nenhuma fratura – em direção a sala de estar da casa dos Cullen.
Se aproximou, notando que cada rosto ali presente se virou para encará-la e aos poucos foram dando passagem para que chegasse até uma maca que haviam posto no centro da sala. A maca na qual repousava seu pai. Seu pai morto.
Amar pode curar
Amar pode remendar sua alma
E é a única coisa que eu sei
Eu juro que ficará mais fácil
Lembre-se disso em cada pedaço seu
E é a única coisa que levamos conosco quando morremos
Edward havia lhe dito que não demoraria muito para ele voltar a despertar. Renascer das cinzas como um deles. Como um vampiro.
Ela não fazia noção se havia tomado a decisão certa, pois sabia que ter tomado a decisão por seu pai já era totalmente errado. Mas como ela conseguiria viver sem ele?
Nossos corações nunca estiveram partidos
E o tempo está congelado para sempre
Ela não iria suportar, mas também não iria suportar se ele não a perdoasse pelo o que ela havia feito. Pediu a Edward para transformá-lo por puro egoísmo e medo de ficar sozinha, por não saber o que fazer sem a pessoa que lhe dava estrutura. E agora ali estava essa pessoa, transformada em vampiro, preso dentro de uma eternidade a qual Bella o havia condenado.
De repente ele abriu os olhos, vermelhos, e Bella ofegou, sentindo cada pelo de seu corpo se eriçar. As batidas de seu coração ficaram descompassadas e ela sentiu suas pernas fraquejarem.
Charlie sentiu sua garganta seca e... queimar. Aquela sensação era aterrorizante, era como se suas veias estivessem se quebrando por ressecamento. Mas não era só isso que estava diferente, ele sentia vários cheiros misturados, cheiros fortes e era como se estivessem todos próximos as suas narinas.
Sentou-se e olhou ao redor. Sua visão estava diferente, ele conseguia enxergar os menores traços em objetos que nunca havia conseguido ver antes, não de uma distância tão grande. Havia um quadro há, talvez, 4 metros e ele podia ver as gotículas das diversas cores contidas nele de um jeito diferente e único.
De repente seus ouvidos captaram batimentos cardíacos e era como se ele conseguisse escutar o sangue sendo bombeado, sua garganta queimou ainda mais. Ele olhou na direção que o atraia e era sua filha.
— Bella? — Ele franziu o cenho e se colocou de pé.
Edward automaticamente se colocou à frente de Bella, sabia que a partir dali as coisas poderiam ficar muito confusas e perigosas.
Charlie levou a mão até o pescoço.
— O que aconteceu? Onde está aquele homem? — Ficou confuso, buscando em cada rosto uma resposta, mas o rosto ao qual ele queria realmente enxergar, estava coberto por Edward. — Bella? — A chamou novamente.
Ela mal conseguia respirar. Não sabia o que dizer, não fazia ideia de qual seria seu próximo passo.
— Deixe-me vê-la, Edward. — Ralhou com o ruivo que apertou o pulso de Bella, atrás de seu corpo.
— Charlie, precisamos conversar. — Carlisle interveio.
O xerife olhou para Carlisle sério e inquisitivo.
— Conversar sobre o que? Por que eu estou aqui? Como eu vim parar aqui?
Bella sentiu seus olhos arderem outra vez, seu coração estava pequeno em seu peito, mas admitia que poder ouvir a voz de pai outra vez era muito acalentador.
— Bells, o que ‘tá acontecendo? — Ele se aproximou e Edward ficou rígido, mas Bella saiu de trás dele mesmo ele a olhando sobre protesto.
— Pai, eu sinto muito, eu não sabia o que fazer e... — tentou se explicar e Charlie semicerrou os olhos, ficando ainda mais confuso —, me perdoa, eu não ia conseguir ficar sem o senhor. Não imagino minha vida sem você.
— Do que está falando?
— Charlie, há uma coisa que você precisa saber. — Edward começou. — Nós — olhou para seus familiares e Charlie fez o mesmo, desconfiado —, não somos humanos. — Edward viu choque atravessar o rosto do moreno a sua frente.
— Eu acho bom vocês não estarem chapados outra vez. — Ameaçou com um rosnado e Bella se permitiu abrir um sorriso minimamente. Era tão tranquilizador ver seu pai ali.
— Não é nada disso. — Carlisle se aproximou. — O que Edward está falando é verdade. É loucura, sabemos disso. — Charlie o mediu e depois voltou a olhar para Edward e por fim para Bella.
Sua garganta voltou a queimar e ele sentiu uma dor tomar conta de suas gengivas e seu rosto se comprimiu em uma máscara de horror, ao notar que haviam nascido presas em sua boca.
— O que? — Levou a mão aos olhos e os sentiu inchados, com grossas veias ao redor.
— Pai. — Bella levou uma das mãos a boca. Ela sabia que ele era vampiro, mas vê-lo daquele jeito era como se a ficha tivesse finalmente caído.
— Charlie, se acalme. — Carlisle pediu colocando uma mão sobre o ombro dele, mas Charlie logo afastou seu toque.
— O que está acontecendo comigo?
— Não é só nós que não somos humanos, Charlie. — Edward continuou. — Agora você também não é mais.
— Mas do que diabos vocês estão falando? Bella que brincadeira é essa?
— Não é brincadeira. — Edward lamentou. — Sente sua garganta queimar? Suas veias arderem? Sua audição está mais aguçada assim como sua visão?
Charlie ficou boquiaberto.
— Sim, sim! O que está acontecendo? — Estava impaciente. Todo aquele papo de não ser humano era idiotice, besteira!
— Nós somos vampiros, xerife. — Edward disse com um suspiro. — E agora você também é.
Charlie sentiu o chão desaparecer debaixo de seus pés. Aquilo só podia ser um sonho bizarro, um sonho ao qual estava preso em um manicômio.
Bella se aproximou, mancando, e tocou o pulso de seu pai. Ela o olhava com tanta vergonha e culpa, mas também com alegria e esperança de vê-lo vivo.
— Eu sinto muito, pai. Fui eu que pedi para o Edward te transformar. — Uma lágrima escorreu de seus olhos e Charlie a capturou com o dedo, limpando-a. — James, aquele cara que nos atacou, lembra? — Charlie assentiu, ainda sentindo que estava flutuando em uma atmosfera distante. — Ele era um vampiro e queria nos matar. Você e a mim. Ele enfiou uma garrafa quebrada no seu pescoço. — Charlie automaticamente levou a mão até o local, mas estava perfeitamente bem, nenhum arranhão. — O senhor estava morrendo e... — começou a chorar —, eu sinto muito, pai, por favor, me perdoa e me entenda, eu não — se encolheu —, eu não podia te perder. Mamãe morreu e — começou a soluçar e Charlie sentiu toda a dor de sua filha, era como se ele a tomasse para si — eu não podia te perder. Eu lamento. Não me odeie, por favor.
— Te odiar? — Ofegou. — Eu não te odeio, meu amor. — Alisou o rosto dela, mas ao notar que aquilo apenas piorava a queimação em sua garganta, voltou a baixar o braço. — Eu ainda estou muito confuso, eu não entendo.
— Vamos te explicar tudo, Charlie. — Carlisle o assegurou.
— Mas antes você precisa se alimentar. — Jasper apontou e Charlie se virou na direção dele.
— Estou realmente com fome. — Bella deu um passo para trás.
— Vem. — Edward direcionou Charlie para longe de sua filha e o guiou para fora da casa, junto com ele foram Carlisle e Esme. Precisavam explicar tudo para Charlie, lhe explicar suas habilidades e seus limites, o lado bom e o lado ruim da vida que o aguardava.
Bella ficou ali, no centro da sala, com os olhos molhados e o coração apertado. Sabia que seu pai ainda não havia absorvido a informação de que era um vampiro, mas quando ele entendesse... fechou os olhos com força... Ah! Quando ele compreendesse no que ela o havia transformado, com certeza a odiaria sim. Alice se aproximou e a abraçou por sobre os ombros, apertando-a gentilmente.
— Não se preocupe, Bella, vamos dá um tempo à ele, sim? Tenho certeza de que ele não vai te julgar e nem nada do tipo. Acho que ele vai até mesmo te entender. — Alice tentou tranquiliza-la e Bella se prendeu a cada palavra. Precisava acreditar nelas.
Fale com o autor