Gakuen Hetalia 2.0
51 Capítulo 51
Notas iniciais
O dia tinha amanhecido triste, estava nublado e inviável para aproveitar a praia, com exceção dos países oceânicos e de alguns surfistas e aventureiros.
Escócia tinha acordado com batidas na porta e com o corpo dolorido. Não se lembrava da última vez que tinha acordado assim, talvez em alguma aventura distante. Deveria agradecer a Alister pelas dores resultantes do confronto. Novamente as batidas ressoaram, ele iria mandar qualquer que fosse para o inferno, mas apenas se sujeitou a abrir a porta. Lá estava País de Gales com um semblante calmo e sério, mas bastava olhar para seus olhos verdes azulados para perceber que estava irritado.
– Cacete Casey, você sabe que horas são?!
– Dez e meia.
– Tem certeza? Ainda não está claro.
– O dia está nublado.
– E eu dolorido. O que veio fazer aqui?
– Charlie não acorda de jeito nenhum. – Disse desviando o olhar do irmão mais velho. – É como se tivesse entrado em coma.
– Normal.
O galês olhou irritado para o irmão. Como algo assim podia ser normal? Scott não entendia a reação irritada do outro. O silêncio foi quebrado por Nessie. A criaturinha soltou um som baixo quando estava em cima da cama e esticava o pescoço em direção à poção. Mas é claro, a poção de stamina!
– Esqueci que você é inexperiente nisso.
O galês pendeu a cabeça para o lado em dúvida enquanto o escocês caminhou até a poção de stamina, a abriu, segurou a cabeça da irlandesa para apoiá-la e a fez beber a poção.
– Lembra-se do que eu disse ontem? Sobre tais olhos consumirem muita energia?
– Lógico que sim.
– Para recuperá-la, o usuário precisa de descanso, dependendo da energia perdida, o usuário pode dormir por horas, o dia inteiro ou quem sabe até mais.
– Está dizendo que os Irlandas poderão dormir por muito tempo e só acordar quando estiverem recuperados.
– Isso foi uma pergunta ou uma afirmação?
– Não faço perguntas sobre as quais já sei.
– Claro. – Disse revirando os olhos de irritação. – Voltando ao assunto, para reduzir esse tempo, é preciso que o usuário tome poções de stamina, o ideal é que seja antes de dormir, mas como a Hungria ruiva vive se esquecendo desse detalhe, quem acaba por reanimá-la com a poção sou eu.
Ele não a fez beber tudo, deixou apenas alguns goles no vidro. Ele o tapou e o jogou para o irmão, que conseguiu pegá-lo. Em seguida, o ruivo deitou a cabeça da irlandesa no travesseiro e se dirigiu para a porta do quarto.
– Foi a primeira vez que Charlie ativou esses olhos e não os usou por muito tempo, no entanto ele ainda não sabe controlá-los.
– E até que aprenda a controlá-los, gastará uma grande quantidade de energia só com o básico.
– Aprende rápido.
– Sempre aprendi.
– E não tente acordá-los enquanto estão se recuperando. Você pode matá-los se forçá-los a despertar.
Lukas terminava de tomar o café da manhã com os nórdicos. Ele ainda estava cansado e muito dolorido e agora estava com dor de cabeça. Christian brigava com Kallyna, que o provocava mesmo não parecendo interessada, Mathias, Tino e Bernard riam de alguma piada, Egil tinha pulado no colo de Emil com medo dos lobos e o que aqueles lobos faziam no salão? A cabeça de Lukas doía demais para encontrar uma resposta.
– Você está péssimo, está até pior do que eu. – Comentou Hakon muito próximo do 1P. – O que andou fazendo ontem?
– Arrumando um jeito de você voltar pra casa e me deixar em paz. – Disse passando a mão no cabelo, que estava penteado de novo.
– É sério? Você descobriu sobre o portal que liga ambos os mundos?
– Você sabia sobre esse portal?
– Sabia.
– E por que não me contou?
– Porque você não conversa comigo e não perguntou. – Em seguida pegou uma mecha de cabelo da contraparte, recebendo um olhar de fuzilamento. – Seu cabelo é bom. Me admira que tenha ficado parecido com um ninho de urubu ontem à noite. – Comentou um tanto malicioso, esperando que o 1P caísse na armadilha.
– Agradeça ao Arthur. Graças a ele Alister e Evelyn me deram uma noite bem dolorida. – Sentiu o 2P largar seu cabelo e olhá-lo confuso.
– Alister? Alister Kirkland? O irmão do Oliver?!
– E existe outro Alister no mundo de vocês?
– Ele estava com a Evelyn?! Evelyn Rosemond?! Cara, esses dois são problema! Como é que conseguiu sobreviver a eles?!
– Scott e Emily lutaram com eles.
– Scott? Emily? Allistor Scott Kirkland e Emily Rosemond?!
– Quer parar com isso?
– Foram esses dois que colocaram aquele selo no portal e agora os 2Ps deles não podem vir para cá! Lukas, você não precebe a gravidade da situação?!
– Foi bem feito para eles.
– Não é isso! Eles deveriam ter impedido que TODOS os 2Ps não viessem para cá, assim como TODOS os 1Ps não fossem parar no nosso mundo!
– Do que está falando?
– Lukas, quanto mais tempo nós ficarmos no seu mundo, mais próximo ambos os mundos ficam perto de colidir! Nós não podemos coexistir no mesmo plano ou ambos os mundos vão se chocar e tudo que conhecemos não existirá mais. A vinda de Alister e Evelyn aqui pode ter acelerado este processo.
– Foi por isso que não deixaram Oliver nos ajudar.
– Eu me pergunto como estarão as coisas por lá. Sabe, o meu mundo precisa de um Noruega e o seu mundo precisa de um Noruega também. Se faltar um Noruega lá, minhas terras, meu povo, tudo se encaminhará para um colapso. Você tem que me fazer voltar!
– Eu estou tentando, mas no momento preciso de um repouso maior. Arthur, Casey e Vlad não estão melhores do que eu.
– Isso é péssimo. Venha, vamos porcurar um asiático para te fazer uma massagem.
Hakon pegou Lukas pela mão e saiu correndo que nem um louco, deixando todos os presentes confusos e curiosos.
Escócia e Gales tinham acabado de entrar no quarto que o indefinido dividia com o norte irlandês. O galês segurou a cabeça do mais novo para apoiá-la enquanto o fazia beber os resquícios da poção de stamina. Ao terminar, viu que o mais novo começava a abrir os olhos.
– Ele está acordando.
– Isso é bom. A poção reduz as horas de sono. Só lamento que a Hatsune Miku ruiva tenha trazido apenas uma.
– Charlie, você está bem? Como está se sentindo?
– Cansado. – Falou sonolento. – E um pouco dolorido também.
– Vocês por acaso não fizeram...?
– Não. Ele mal saiu do banheiro, deitou e dormiu de imediato.
– Scott? O que faz aqui? – Perguntou se sentando na cama e piscando várias vezes.
– Ajudando a te acordar.
O mais velho teve que explicar tudo o que tinha explicado ao galês. Casey e Charlie podiam ter séculos de vida, mas ainda eram muito novos no assunto e não possuíam a experiência o mais velho. Goch tinha saído e voltado com um livro de poções roubado de Arthur e o dado ao seu dono.
– Você é ótimo em poções, Casey, entretanto nunca fez uma de stamina. Vou aprofundar seu treinamento em magia.
Gales arqueou as sobrancelhas. Não era ruim em magia, só não gostava muito de usá-la. E desde quando seu irmão mais velho estava disposto a ajudá-lo? Nunca Scott e Arthur se dispuseram a ajudá-lo em algo e ele nunca os ajudou em nada. Não fazia o tipo dos Kirklands.
– Onde está a minha irmã? – Perguntou o caçula.
– Está no quarto, dormindo. Só havia uma poção, não dei os últimos goles a ela, os deixei para você. Ela demorará mais tempo para ela acordar.
– Quero vê-la.
– É melhor deixá-la descansar.
– Eu vou, mas quero ficar perto dela.
– Charlie...
– Scott, não me interessa! – Disse saindo rapidamente da cama e se encaminhando para a porta. – Ela é minha irmã! Eu vou vê-la, você querendo ou não!
– E o que fará depois? Você não tem como ajudá-la.
– Ele tem razão. – Intrometeu-se Casey. – Mesmo que esteja lá, não terá nada para fazer.
– Não me importa se posso fazer algo ou não, eu quero ficar com a minha irmã!
O caçula saiu do quarto e correu pelos corredores, ainda de pijama, para o quarto da irmã. Os mais velhos suspiraram. O mais novo era tão teimoso quanto Artur, tão teimoso quanto à irmã dele, tão teimoso quanto o pai dele, a mãe dele, a avó dele, o avô dele, os próprios e a mãe de ambos. Era mais fácil perguntar quem não era teimoso naquela família.
Scott e Casey voltaram para o quarto do ruivo, sendo acompanhados por Goch. Ao chegarem ao quarto, eles encontram o caçula deitado na cama ao lado da irmã, a abraçando. Nessie estava do outro lado da garota e ao vê-lo, Goch rapidamente se juntou ao amigo.
– É mais teimoso do que pensei. – Comentou o indefinido. – Mesmo ele sabendo que não pode fazer nada, ainda insiste em vir para cá e ficar ao lado dela.
– Essa é a principal diferença entre os Kirklands e os Rosemond. Eles são familiares, querem cuidar da sua família e de quem consideram como sua família, mesmo não podendo fazer nada, gostam de estar ao lado de quem importa para eles. Nós já somos mais egoístas, não nos preocupamos com qualquer coisa, só com coisas mais graves e ainda assim, somos incapazes de permanecer ao lado de quem nos importamos o tempo inteiro por enfrentarmos um dilema interno.
– Dilema?
– Se essa pessoa é importante o suficiente para estarmos do lado dela. Eles têm certeza, mesmo que seja apenas um amigo, nós ponderamos tudo e ficamos em cima do muro até cair.
– Não foi o que aconteceu naquele dia no telhado. – Sua voz era apenas um sussurro, mas era alta o bastante para o irmão ouvir.
– Não somos inteiramente Kirklands, Casey, somos meio Beilschmidt também ou já se esqueceu que nossa mãe descende de Germânia? Os Beilschmidt passam a se importar com as pessoas que os mudam de alguma forma.
– Que forma?
– Ora, de forma que abale o nosso mundo. – Casey corou. – HAHAHAHA Não é que você fica bonitinho corado?
– Poupe-me de seus comentários. E isso só aconteceu uma vez em toda a minha vida!
– Relaxa. Mas não me refiro a essa forma somente. Para melhor isso, Saxônia tinha seu irmão Escandinávia e mais tarde Caledônia, Celtic e você. Gilbert tem Ludwig, Francis, Antonio, Roderich e Elizaveta e tinha o Sacro Império Romano há muito tempo atrás. Ludwig tem Feliciano e Gilbert. Peter tem Tino, Berwald e seus amigos. Já você tinha a nossa mãe, Celtic e encontrou mais um para se importar além de Goch.
– E você tem Nessie.
– Não só Nessie. O vovô também é muito importante para mim. Graças a ele que eu escapei de ser como Arthur e foi graças a ele que eu aprendi a me importar com mais alguém.
– Emily. – Disse com milhares de pensamentos passando por sua cabeça neste exato momento.
– Só não conte para essa criatura ou arranco esse teu couro indefinido.
– Não irei. – Voltou a fitar os irlandeses na cama. Sentia que o garoto o estava mudando sem que ele percebesse. – Só espero que Arthur encontre alguém que abale seu mundo.
– Com a seca que aquele lá está? Quem seria maluco de conviver com ele com aquela seca?
– Alfred? Francis?
– Alfred está tentando conquistar Lien e Francis virou a mulher de bandido da Angelina.
– Bem lembrado.
– Que inscrever Arthur em um site de relacionamentos?
– É uma péssima ideia.
– Pelo menos vamos rir da cara dele quando descobrir e o empurrarmos para um encontro.
– Bem lembrado.
Dick tinha pedido para Samoa falar com a sua irmã, pois Alice não estava muito bem. A samoana e sua irmã, Samoa Americana, foram até o quarto dos neozelandeses ver como estava a amiga. Alice contou a Sam e a Moa sobre seu rompimento com Matthew e de tudo que tinha acontecido naquela noite.
– Alice, eu sinto muito. – Disse Samoa Americana.
– Ainda dói, Moa! Dói muito.
– Alice, você perdeu a cabeça?! – Perguntou Samoa. – Terminou com ele por causa da sua bipolaridade?!
– Foi por causa da minha insanidade, Sam! É o melhor assim.
– Não, não é! Você está infeliz, Dick me contou que ele saiu daqui abatido e também não deve estar feliz.
– E o que queria que eu fizesse, Sam?! O deixasse passar a vida inteira ao lado de uma insana instável como eu?!
– Eu sou sua melhor amiga há séculos e nem por isso nos afastamos.
– Mas é diferente!
– Não, não é! Alice, eu estou ao seu lado até hoje porque eu me importo com você. Ele podia ter corrido, podia deixar para Dick resolver tudo e podia não ter feio nada, mas ele esteve aqui ao seu lado, te impedindo de se matar com o seu irmão e ainda te fez o curativo! – A neozelandesa trouxe o braço enfaixado para si e o segurou. – Matthew te ama, eu tenho certeza disso.
– Como pode ter certeza?! – Ela explodiu de raiva, mas depois voltou a ter um ar melancólico. – Ele nunca me disse isso.
– E você disse isso a ele?
– Não. Oh god! Eu sou a pior namorada do mundo!
– Não é!
Samoa bateu o pé se encaminhou para a porta.
– Sam, aonde você vai? – Perguntou a irmã.
– Vou falar com o Matthew.
– Sam, não faça isso! – Gritou Zea.
– Ah, mas eu vou! Vou dar um jeito nessa história e é agora! – Pronunciou antes de abandonar o quarto.
– Samantha! – Exclamou Monica correndo atrás da irmã.
Samoa Americana sabia que sua irmã não iria deixar para lá, Samoa nunca deixava pra lá! Ela sabia que não iria acabar bem.
– Samantha, espere! Isso é loucura!
– O que? Só irei falar com ele para conversar com a Zea e esclarecer essa situação.
– Mas e se ele não estiver pronto? E se tiver algum ressentimento?
– Monica, ele vem comigo querendo ou não e se isso acontecer, é bom se preparar para me ouvir.
– Ai ai. – Suspirou.
A mais nova acompanhava a mais velha por todo o percurso. Ela tinha desistido de convencê-la, pois quando Samantha Parker enfiava algo na cabeça não havia apocalipse zumbi que retirasse. Sam e Zea eram melhores amigas há muito tempo e insinuar algo ruim de uma para a outra era o mesmo que arrumar briga, ambas não eram do tipo que deixavam para lá e sim do tipo que chegavam de voadora. Monica só queria ver o desfecho da situação e quem sabe, por algum milagre, conseguir salvar o garoto da sua irmã.
Hakon ainda segurava a mão de Lukas e o arrastava pelos corredores. Os noruegueses acabaram encontrando com o romeno.
– Lukas! 2P do Lukas! Vocês viram o meu irmão?
– Nem sei como ele é.
– Quem é ele?
– Esse é o Vlad, o nosso Romênia.
– Prazer, 2P do Lukas.
– Você disse Romênia?! Ele vai nos matar! – Gritou Hakon se escondendo atrás de uma planta com Lukas.
– Eu vou?
– Quer parar com isso? – Disse Lukas se livrando do 2P. – Ele é um dos membros do clube de magia.
– É sério isso?! Nossa, ele não se parece em nada com Abraham!
– Abraham?
– O nosso 2P Romania. Ele acha que é um caçador de seres sobrenaturais, só que o desgraçado é afiliado com magia negra.
– Como alguém pode não gostar de seres sobrenaturais?! – Exclamou Vlad.
– Você não estava procurando o seu irmão? – Perguntou Lukas.
– Bogdan deve estar caçando algum doce. Doce... – Disse com cara de pateta.
– Abraham não deixaria, ele não gosta de doces.
– O QUE?! Me apresente esse cara que eu vou fazê-lo mudar de ideia!
– Vocês podiam ser mais barulhentos? – Perguntou Lukas sem esperança alguma.
De volta a Sam e Moa, a mais velha esmurrava a porta do quarto do americano. Quem abriu foi Allen, que as olhou de cima a baixo.
– Uau, eu vim parar no céu? Porque tem dois anjos na minha frente.
– Vai parar no quinto dos infernos se não sair do caminho. – Disse Sam. – Cadê o Matthew?
– Sam, tenha calma! – Implorou Moa. – Alfred! Dá pra ajudar aqui ou está difícil?!
– Dude você é... Quem é você mesmo? – A loira capotou.
– Samoa Americana! Você paga as minhas contas!
– Pago?
– Ela é território não incorporado seu animal! – Esclareceu Sam. – É sua colônia!
– Eu ainda tenho colônia? – Todos capotaram.
– Que gritaria é essa? – Perguntou Matt saindo do banheiro.
– Você! – Gritou a morena apontando para o rapaz.
– Eu te conheço?
– Não, mas vai conhecer agora! Sou Samoa, a melhor amiga da Zealand.
– WHAT?!
– Conhece a gata? – Perguntou Allen.
– Não, mas... O que Zealand te disse?
– Que terminou com o namorado dela depois da merda que você fez.
– Eles terminaram?! – Exclamaram Matt e Alfred.
– O que aconteceu realmente? – Perguntou Lien.
Sam e Moa contaram tudo o que tinham ouvido.
– Você beijou a namorada do meu irmão?! – Gritou para o canadense. – Ela tentou se matar?! – Gritou para as samoanas. – Eles terminaram?! – Gritou para Allen. – Matthew não veio pra cá?! – Gritou para Lihn. – Pobre Matthew, ele deve estar arrasado! – Lamentou-se olhando para Lien.
– Ele lembrou a Alice agora. – Riu Moa.
– Se ele não está aqui, deve estar em algum lugar. – Disse Sam.
– Consegue pensar em algum lugar que ele possa ter ido? – Perguntou Lihn.
– Eu não consigo pensar em nenhum. Tem alguma ideia, Tony? – O alien fez alguns sinais e ele logo entendeu. – Mas é claro! Francis!
Alfred saiu em disparada, seguido por Lihn, Sam e Moa. Lien resolveu ir atrás dele, pois estava apreensiva. Tony os acompanhou e não demorou para Allen ir também. Matt saiu do quarto, não antes de olhar dez vezes à procura de algum sinal de Alicia, mas não os seguiu.
Dick tinha ido até a floresta. Diferente do usual, ele trajava uma regata branca com capuz, que deixava sua tatuagem à mostra, bermuda e sandálias masculinas. A situação estava feia e ele não conseguia ficar no hotel por mais tempo, precisava se acalmar e pensar. Estar em bosques e florestas sempre lhe trouxera paz.
– Como eu pensava, não há uma Tane Mahuta aqui. – Suspirou triste.
A árvore era originária da Nova Zelândia, portanto, era de se esperar que não estivesse ali. Apesar de ser neozelandesa, ela era conhecida por Agathis australis e era tica como uma conífera australiana, o que deixava o neozelandês irritado com a forma a qual foi catalogada. A árvore era sua antes dos europeus chegarem, tinha inclusive recebido o nome de um dos deuses maoris, não tinha nenhuma ligação com Austrália. Para o outro era só uma árvore em meio a tantas outras!
– Tane não está ligado só a essa árvore, ele é o deus da floresta, a floresta inteira é o seu domínio. Espero que me perdoe.
Após virar colônia, ele e sua irmã se viram obrigados a abandonarem seus deuses e sua cultura, mas o tempo passou e apensar da cultura maori ser vista como um patrimônio seu e não mais motivo de implicância de Arthur, era difícil que alguém fosse crer em deuses antigos ainda mais deuses pagãos ou indígenas, pelo menos era o que ele tinha dito à Alice, mas ela se recusou a ouvi-lo. Agradecia pela recusa da irmã ou teria se esquecido de quem era, o que aconteceu com algumas colônias como América.
Ele andou até uma árvore robusta, fechou os olhos e pousou a mão direita nela. Ficou algum tempo em silêncio tentando captar tudo ao seu entorno. Ouvia o farfalhar das folhas ao vento, o mínimo som de alguns insetos que circulavam pelo local, em épocas passadas era capaz de sentir a seiva correndo pelo inteiror da árvore sob seus dedos como um médico sente o sangue pulsante nas veias de uma pessoa para contatar se ainda tem pulsação. Nada aconteceu.
Pousou a outra mão na árvore enquanto se inclinava para encostar sua testa no tronco a fim de se concentrar. Não conseguia escutar a pulsação, estava apreensivo demais, não iria conseguir nada assim. Sentia o vento aumentar de forma que começasse a bagunçar-lhes os cabelos. Suavizou sua postura e jogou a cabeça para trás, era o sopro de vento de eras passadas. Não importava a cultura e a mitologia, um sopro de vento como aquele em um lugar sagrado significava que os deuses estavam por perto e até mandando uma mensagem dependendo da situação.
Sorriu. A cada sopro sentia toda dúvida e apreenção se esvair. Agora já mais calmo conseguia ouvir o espírito da floresta, sentia a pulsação da árvore, a seiva dela era seu sangue assim como o seu sangue era a seiva dela. Outro sopro, mas este trazia algumas folhas caídas. Roçava-lhes nas bochechas e algumas acabavam presas no cabelo. Dick podia sentir que todas as árvores, arbustos, flores e até mesmo as ervas estavam conectadas, como todos fizessem parte de um só ser e a floresta era este ser. O vento de eras passadas continuava-lhes soprando folhas e Dick tinha alcançado uma paz de espírito. Era como se sua alma fizesse parte da floresta e sentia uma forte presença por perto.
Ele abraçou a árvore e fechou os olhos enquanto ainda recebia as carícias do vento e o roçar das folhas caídas. Estava aliviado, Tane não o abandonara como tinha pensado.
Samoa, Samoa Americana, América, 2P America, Vietnã, 2P Vietnam e Tony chegaram ao quarto do francês e da argelina. Eles ainda estavam no quarto e tiveram que abrir a porta nas primeiras violentas batidas ou alguém iria derrubá-las.
– MATTHIE! – Gritou Alfred. –Cadê o Matthie?! – Onde ele está?! Pra onde ele foi?!
– Alfred, se acalme, por favor. – Pediu Francis. – Ele dormiu aqui, mas saiu antes que nós acordássemos.
– Mas que merda! – Exclamou Sam. – Queria falar com ele para por juízo na cabeça da Zea e tentar uma reconciliação.
– Só um segundo. Como eles terminaram? – Perguntou Angelina.
– Ele não contou a vocês? – Perguntou Moa. – Sem problemas, eu conto.
Samoa Americana contou a história inteira. Francis sentiu-se triste com o ocorrido e ao mesmo tempo espantado. Já Angelina ficou mais surpresa do que ele.
– Mas que merda! – Exclamou a argelina. – Como uma cagada dessas pôde acontecer?!
– Boa pergunta. – Disse a loira.
– Mon petit chegou arrasado ontem. Ele ainda deve estar arrasado.
– Precisamos encontrá-lo antes que aconteça uma desgraça maior. – Sugeriu Sam. – Eu vou voltar ao quarto e ver se Alice não tem nenhuma ideia suicida.
– Vou falar com Niue, Palau e as meninas para ajudarem na busca. – Disse Moa.
– Eu vou sozinho porque sou o Hero!
– Eu vou atrás desse porco idiota antes que ele faça merda. – Disse Allen.
– Lien e eu ajudaremos também. – Disse Lihn.
– Eu também vou. – Disse Francis.
– Vai depois que trocar o pijama. – Disse Angelina. – Todo mundo fora daqui!
A argelina expulsou a todos. Após serem expulsos, eles se separaram e seguiram seus caminhos enquanto Francis e Angelina se trocavam.
– É melhor falarmos com os nossos 2Ps?
– Se conseguir convencer o vagabundo do seu 2P a levantar a bunda pra ajudar.
– Darei um jeito, mon ange. Eu levo a carta?
– Melhor levar, pode ser útil. E son ange é a sua bunda!
Irlanda estava em sua ilha, onde era tudo verde e dominado pela natureza.
– Emily, faz algum tempo.
– Patrick? O que faz aqui? Ou será que estou sonhando?
Patrick era um rapaz de cabelo ruivo como o dela, possuía um belo par de orbes verdes e o rosto jovial. Era mais alto que Charlie e Casey e trajava uma roupa de caça verde e botas marrons.
– Isto é um sonho, pelo menos em parte. Eu não sou parte deste sonho.
– Como sabia que eu estava aqui? Digo, como sabe que estou sonhando?
– Simplesmente pensei, já que o selo do portal foi quebrado do nada, talvez tenha sido obra de alguém de outro mundo.
– O selo quebrou aí também?! Eu juro que mato Arthur.
– Mas isso não é importante. Eu preciso da sua ajuda.
– Minha ajuda?
– Na verdade sua e do Scott. Tem uma grande merda acontecendo e a batalha de ontem drenou boa parte de minhas forças. Só espero que Scarlet tenha se lembrado de me dar uma poção de stamina depois que apaguei.
– Você também lutou ontem. O que está havendo? Que merda é essa que está falando?
Antes que ele pudesse responder, tudo ficou claro. A luz branca foi se apoderando do lugar. Ela sentia alguma coisa molhada na face e quando abriu os olhos viu que era Nessie que a lambia.
– Nessie! Pare com isso.
– Awun! – Exclamou o bicho.
– Grawun! – Exclamou o dragão.
– Goch está aqui também?
– Eire, você acordou! – Dessa vez foi o norte irlandês.
– Charlie?! – Notou que o irmão estava lá também e que a abraçava. – Te deixei preocupado, não foi? – Disse tocando o braço do irmão e o acariciando de leve. – Me desculpe.
– Ele se preocupa porque puxou mais o seu lado da família do que ao nosso. – Disse o escocês. – Tinha que ter visto o escândalo que ele fez.
– Não exagere, foi apenas uma pequena discussão. – Disse o galês.
– Eire, você não parece bem. Tem alguma coisa errada?
– Não é nada que tenha que se preocupar.
– Ah ta bom, até parece que eu acredito nisso. – Ironizou Scott. – Dá pra ver pela sua cara que está visivelmente incomodada. O que houve, queria que fosse eu com você no lugar do seu irmão?
– Scott, precisamos conversar.
Em condições normais, a irlandesa teria rebatido à provocação do escocês. Seu tom de Voz sério o deixou surpreso e ao mesmo tempo curioso. Ele sabia que ela não perdia a oportunidade de provocá-lo. Antes que qualquer pergunta fosse formulada pelos quatro presentes, eles ouviram uma discussão no corredor e foram ver o que era. Ralph estava exaltado com uma garota de pele queimada de sol, cabelos negros e profundos olhos azuis.
– Sam, como assim a Alice e o kiwi sumiram?!
– Sei lá, eu a deixei no quarto e quando eu voltei, ela tinha sumido. Estou tentando ligar para o irmão dela há algum tempo, mas ele não atende.
– Céus, onde esses dois se meteram?!
– Só um instante, Alice sumiu?! – Perguntou Irlanda.
– Sumiu. Você deve ser a Irlanda, não?
– Sim, sou eu.
– E você é aquela garota da redação. – Disse Escócia a reconhecendo. – Qual é o seu nome mesmo?
– Samoa, mas é melhor deixar isso pra depois. Matthew sumiu, Alice sumiu e até o Dick sumiu! Vou mandar uma mensagem pelo Whats App pras meninas pra ver se elas encontram algum deles.
– Como esse povo sumiu assim?! – Perguntou Ralph.
– E eu que sei?
Kiribati, que assim como a maioria dos países da Oceania possuía a pele queimada de sol dos nativos polinésios, estava com Vanuatu quando Samoa Americana lhes contara sobre o sumiço de Matthew e lhes pedira ajuda. Kyrie, ou Kiri como era apelidada, tinha um longo cabelo castanho escuro encaracolado nas pontas e olhos castanhos, ao contrário de Vanuatu, que tinha cabelo preto e olhos verdes como uma floresta.
– Se eu fosse um canadense loiro e com cara de uke, onde eu estaria? – Perguntou Kyrie.
– Em alguma cama dando a bunda.
– Vanessa! Tenha mais respeito com ele, é o namorado da Alice.
– É bom que ele valha a pena para interromper a minha leitura das Crônicas de Gelo e Fogo.
– Hei, eu queria estar jogando vôlei agora mesmo, mas não posso deixar uma amiga na mão.
As duas pararam quando escutaram o som do celular. Ambas pegaram e analizaram a mensagem.
– Mas que bosta! – Gritou a kiribatiana. – Alice e Dick sumiram!
– Quem foi a ideia de jerico de deixar essa menina sozinha após um rompimento?!
– Sam deve ter ido tirar satisfações com o ex-namorado desaparecido dela. Você faria a mesma coisa, Van.
– A diferença é que Sam bate na porta antes de pensar em arronbá-la, eu meto o pé na porta sem me importar se tem gente do outro lado ou não.
Em algum corredor do hotel, Emil andava com Greta ao seu lado e com Mr. Puffin e Hewie de babás. Ele tinha acompanhado seu 2P até a praia e o deixado lá e voltado para buscar Greta para algum passeio. Uma ave estranha se aproximou deles. Era pequena, marrom, tinha um bico longo e não tinha asas ou braços.
– Que bicho feio é esse? – Perguntou o papagaio do mar.
– Esse é o Kiwi da Alice. – Greta se abaixou e o pegou no colo. – O que ele faz aqui? Parece assustado.
– Como sabe que esse bicho está assustado? – Perguntou Emil.
– Emil, se você fosse indígena, teria se esquecido de suas raízes tão rápido quanto Alfred, Matthew e os outros países da Classe América. Hewie, pode falar com ele?
O lobo conectou sua inua com a da ave como tinha feito com Emil naquele dia nos jardins da escola. Algum tempo depois ele fez o mesmo com sua dona e contou o que tinha acontecido.
– Matthew e Alice romperam ontem e agora os dois sumiram.
– Eu ouvi algo sobre isso depois que levei Egil até a praia. – Disse Emil. – Isso é estranho, mas é melhor ficarmos fora disso.
– Você pode ficar, mas eu não! – Islândia se surpreendeu com ela. – Hewie, pode me conectar com o Kiwi?
– Nunca duvide da determinação de uma mulher inuit, rapaz. Muito menos desperte sua fúria, ainda mais de uma xamã. – Aconselhou o lobo antes de fazer o que a dona pediu.
– Kiwi, você sabe onde ela pode estar?
– Deve estar em contato com seu deus regente. A presença deles acalmam tanto New quanto Zealand. Ela estará bem.
– Maori ou inuit, os deuses sempre ouvirão quando sua presença for solicitada. A natureza é a sua voz.
– Eu não esperava que um lobo entendesse tão bem.
– Lobos são mais inteligentes que aves, Kiwi. Ou acha que eu sou que nem o Puffin?
– Bem ou não, preciso saber onde ela está. E preciso encontrar Matthew também.
– Greta, você não acha que já devem estar procurando por eles? – Perguntou Emil.
– Só quero ter certeza. – Ela invocou dois espíritos de águias. – Sejam meus olhos.
As águias levantaram voo e atravessaram a janela do corredor. Hewie quebrou a conexão e Greta pôs Kiwi na garupa do lobo enquanto fechava os olhos para ver através dos olhos dos espíritos das águias.
A notícia tinha se espalhado e quem se propunha a procurar procurava, outros foram simplesmente convencidos ou arrastados. Alfred, Lien, Lihn, Allen, Tony, Francis, Angelina, François, Angela, Gilbert, Antonio, Afonso, Manuel Joaquim, Andres, Scott, Emily, Casey, Charlie, Nessie,Goch, Vanessa, Kyrie, Sam, Moa, Marshall, Cook, Niuken (Niue), Thomas (Palau), Juan Carlos (Cuba), Erika (Fiji), Kaelin e Ralph os procuravam em todo canto.
Em algum canto da praia, uma menina de pele queimada de sol, cabelo castanho escuro e olhos castanhos procurava por um dos três desaparecidos. Ela resolveu perguntar a Moldova, que passava por ali. Ele era um pouco mais alto que ela.
– Com licença, você viu essa garota ou esse garoto? – Perguntou mostrando as fotos dos neozelandeses no celular.
– Não, não vi. Espere, esse é o New?
– Você o conhece?
– De uma ou outra reunião mundial.
– Hey, você é um país também! – Sorriu.
– Você também é? Legal! – Abriu um grande sorriso. – Sou Moldova, mas pode me chamar pelo meu nome Bogdan. E você?
– Timor Leste, mas pode me chamar de Dani. Todos me chamam de Dani. Quer me ajudar a procurá-los?
– Claro! Podemos comprar doces no caminho?
– Sim!
Enquanto Timor Leste e Moldova procuravam juntos, Wy tinha convencido Sealand, TRNC, Ladônia, Seborga e Kugelmugel a ajudá-la. Os pequenos começaram a procurar em todo lugar.
Ralph, Marshall e Cook faziam sua busca na floresta quando encontraram New dormindo abraçado a uma árvore. Eles se aproximaram do loiro.
– Kiwi! – Gritou o australiano acordando o neozelandês e tentando tirá-lo de lá. – Ele não larga!
– Vai ver colaram ele na árvore. – Disse Cook.
– Ou vai ver é rigidez pós-morte. – Sugeriu Marshall.
– Vocês podem parar de falar merda?! Kiwi acorde! Acorda Kiwi!
– Tane...? – Perguntou sonolento tentando abrir os olhos.
– Quem é esse?! – Perguntou enciumado.
– Não sabe da relação entre Dick e Tane? – Perguntou Marshall tentando sugerir algo.
– Eles têm uma relação bem íntima. – Jogou Cook. – Mais íntima que a sua.
– O que?!
– Oz?
O loiro de pele alva acordou e olhou para os três de forma serena. Um sorriso inocente surgiu em seus lábios enquanto soltava a árvore.
– Kiwi, você está bem?!
– Nunca me senti tão bem.
– Por que estava abraçado àquela árvore?
– Porque eu queria me conectar com ela.
– Hã?
– Andou fumando maconha? – Perguntou o loiro de pele queimada de sol.
– Não, eu só me conectei com a árvore e depois com os arbustos, as flores, as ervas...
– Esquece Marshall, ele andou bebendo e injetando coisa.
– Parem com isso! Kiwi não usa drogas, não é verdade, Kiwi?
– A floresta era um único ser com um só pulmão e uma só alma. Eu pude sentir.
– Nem uma palavra vocês dois. – Resmungou Ralph para os outros dois, que soltavam risinhos.
– Eu estive em paz com Tane. Ele não me abandonou.
– Quem é esse desgraçado?! – Resmungou cheio de raiva e ciúmes.
– Meu protetor. Tane sempre esteve comigo... Ele não me abandonou, sabe? Eu ainda o sinto. – Disse elevando a mão até o coração. – Ele falou comigo. Ele está aqui. Posso sentir sua presença me acalmando.
– Aonde?! – Gritou o australiano em fúria procurando alguém para socar enquanto Marshall e Cook explodiam em gargalhadas.
– O que é tão engraçado?
– Nada. – Disseram os dois com um sorriso travesso.
– John, James, parem de palhaçada e me ajudem a encontrá-lo! – Gritou subindo em uma árvore para procurar a tal pessoa.
– Não ligue para ele. Depois vocês se resolvem em uma ducha quente. – Disse Cook malicioso fazendo o outro corar.
– Cook, já chega. – Anunciou Marshall. – Sua irmã sumiu e o ex-namorado dela também. Está todo mundo procurando por vocês três.
– Alice sumiu?!
– E ninguém sabe onde ela está.
O loiro menor pensou um pouco e uma ideia surgiu em sua mente.
– Eu sei onde ela pode estar! Precisamos procurar por um lugar tranquilo pela costa.
– Tem certeza? – Perguntou o moreno.
– É um fio de esperança. – O vento novamente bagunçou seu cabelo e o embalou. – Obrigado, Tane. Obrigado por não me abandonar. Vamos! – Ordenou já começando a correr.
– Cadê ele?! – Gritou Ralph antes de cair da árvore. – Kiwi, espere! – Começou a correr atrás do namorado.
– Devemos contar pro Ralph que Tane é um deus maori? – Perguntou John Marshall.
– Não, espere dar mais alguns ataques. – Sentenciou James Cook.
Os dois se juntaram aos outros na corrida. No caminho, New acabou encontrando os outros grupos de busca, mas não parou para falar com ninguém. Percorreu a praia atrás de sua irmã. Em algum momento ele achou que tinha vislumbrado algo azul voando, mas achou que era impressão. Finalmente chegou ao rochedo e lá estava sua irmã. Ela estava com água até a cintura virada para a imensidão do mar com uma regata azul e short branco. As ondas começavam a se formar abaixo dela, molhando seu peito e o vento brincava com seus cabelos negros. Dick sentiu o vento aumentar quando chegou, havia certa agressividade nele. Alguns começaram a chamá-la e outros fizeram menção em se aproximar.
– Não se aproximem! – Gritou ele fazendo todos o encararem.
– New, vocês está tremendo. – Notou Niue.
Era verdade, ele tremia um pouco. O vento que provinha do mar era diferente do que ele sentira na floresta. Estava frio, o atingia sem nenhum cuidado e havia um tom ameaçador nele.
– Tangaroa está aqui.
– Tangaoque?! – Perguntou Ralph.
– Você disse Tangaroa? – Perguntou Kiribati.
–Sim, ele está aqui. Eu posso sentir.
– Do que ele está falando? – Perguntou Lien.
– Acho que ele andou fumando erva. – Comentou Allen.
– Nós temos que tirá-la de lá. – Disse Palau.
– Por mim ela fica por lá. – Comentou Cuba enciumado.
– Não! Ninguém entra na água! Tangaroa vai ficar furioso se o fizerem.
– Quem diabos esse Tanga sei lá das quantas?! – Perguntou Ralph.
– Irmão de Tane. – Respondeu Cook.
– E quem é esse tal Tane?! O que ele tem que eu não tenho?!
– Sinto cheiro de chifre no ar. – Disse Allen.
– Tenha santa paciência! – Exclamou Kiribati. – Alguém dê um livro de mitologia maori pra ele!
– E o que a gente faz? – Perguntou Fiji. – Alguém precisa ir até lá e trazê-la de volta.
– E o mais depressa possível. – Comentou Gales. – Antes que a maré suba e as pedras fiquem totalmente imersas.
– Eu vou. – Afirmou Dick começando a tirar as folhas do cabelo. – Só me ajudem a tirar as folhas do cabelo.
– É preciso?
– Sim. Não posso entrar com algo que tenha a presença de Tane. Tangaroa pode perceber e ficar furioso.
– Ainda venerando os velhos deuses, Dick? – Perguntou divertido.
– Eles estão conosco desde que consigo me lembrar.
– Hei, nem pense nisso! – Gritou Ralph abraçando o loiro de forma obcessiva. – Vocês terminaram há tempos, agora é ele meu!
– Casey, como assim?! – Perguntou o norte irlandês chocado.
– Me deve um barril do seu melhor whiskey, câncer de pulmão. – Disse a irlandesa.
– Que merda, perdi a aposta.
– Não é hora pra isso! – Gritou Samoa tirando Dick do abraço do australiano e retirando todas as folhas e galhos do cabelo dele. – Vá até lá e faça o que tem que fazer ou precisa que eu te empurre?
Conhecia a samoana, era melhor amiga da irmã, e sabia que ela não estava brincando. O neozelandês se aproximou do mar com cautela. O vento aumentou como se quisesse empurrá-lo para longe e as ondas ficaram mais violentas. Ele pôde ouvir algumas exclamações da plateia logo atrás, algumas sobre não conseguir enxergar nada, outras perguntando quando foi que o vento aumentou e outras ele não conseguia distinguir.
Percebeu que estava na beira quando sentiu a água molhar as sandálias. Sem mais esperar, entrou na água com o máximo de cuidado possível, mas não impediu que uma onda se quebrasse sobre ele. Estava gelada. New tossiu um pouco de água, mas outra onda veio e o jogou para trás. Quando percebeu, estava de novo na costa. Tangaroa não cederia facilmente.
Novamente entrou no mar, dessa vez prendia a respiração e toda vez que a água gelada batia de encontro ao seu corpo, ele se jogava desajeitadamente contra ela. Não sabia para onde ia, só que seguia em frente. Sentiu alguém o puxar para o lado e o levar mais para o fundo, pelo menos era antes das ondas se formarem, mas ele estava quase até o pescoço, seus olhos ardiam devido ao sal e tossia tanto pela dificuldade de respirar quanto pela água que engolira.
– Dick, você está bem?
– Alice? É você.
– Claro que sou eu! O que faz aqui?! Tangaroa está furioso! – Gritou, mas depois sua expressão foi substituída pela preocupação. – Ele não te machucou, machucou? Eu te vi a caminho do rochedo. Droga Dick, você sabe que não deve entrar quando estou com Tangaroa!
– Eu sei e sinto muito por isso.
– Ele sentiu a presença de Tane em você e ficou furioso. – Disse retirando uma folha escondida do cabelo do irmão. – Você estava com Tane, não estava?
– Sim. Ele não me abandonou e muito menos Tangaroa te abandonou. Os deuses não nos abandonaram.
– Eu sei. Sempre sinto a presença de Tangaroa quando estou perto do mar. É como se ele fizesse parte de mim. Todas as ondas, a espuma, as lagas, os corais...
– Estão conectados e os animais são os habitantes dele e também se conectam a ele. Você pode sentir essa conexão no mar, já eu a sinto na floresta.
– Se sabe disso, então por que veio?
– Alice, você precisa ser forte. O Matthew sumiu e ninguém o acha em lugar algum.
– COMO É QUE É?!
– É verdade. Estão todos na costa te procurando e procurando por ele também.
– Obrigada, Tangaroa. – Disse em uma calmaria incomum para a situação, em uma espécie de oração. – Precisamos achá-lo! – Gritou desesperada e logo em seguida puxando o irmão.
Zealand arrastou o irmão para a costa. A ventania tinha se transformado em brisa, facilitando a visão dos outros, mas nenhum dos gêmeos deixou de sentir a presença de Tangaroa no local.
– Cadê o Matthew?! Alguém tem alguma pista dele?! Ele está bem?!
– Alice, acalme-se. – Pediu Emily. – Ninguém sabe sequer para onde ele foi. Só podemos esperar que ele esteja bem.
– Ele deve me odiar. – Ela desviou o olhar para o mar para não perceberem a tristeza que sentia.
– Não, ele não te odeia. – Disse Francis.
– Como pode ter certeza?
– Ele foi para o meu quarto na noite passada.
– Nosso quarto. – Corrigiu Angelina.
– Certo, mon ange, nosso quarto.
– Son ange é a puta que...!
– Podem parar com essa merda?! – Reclamou Samoa.
– Até que enfim alguém sensata. – Comentou Allen, recebendo olhares reprovadores.
– Bem, de qualquer forma, mon petit escreveu isso. Achei melhor entregar a você.
Francis retirou a carta do bolso e a entregou para a neozelandesa. O irmão e os mais curiosos se amontoaram ao lado e atrás dela para lerem o conteúdo. Cada palavra que ela lia fazia seu coração apertar, mal percebeu que as lágrimas caíam.
– EU VOU ME MATAR!
Antes que a multidão se recuperasse do susto devido ao grito inesperado, a neozelandesa já tinha escalado o rochedo.
– Alice não! – Gritou Dick. – Tangaroa não vai gostar!
– Tem razão. Vou procurar outro lugar!
Ela desceu pelo outro lado e os países oceânicos e Alfred correram até a garota.
– Tane me ajude.
– Esse cara de novo?! O que ele tem que eu não tenho, Kiwi?!
– Oz, Tane e Tangaroa são deuses maoris! Eles estão conosco desde antes de sermos tatuados e isso faz muito tempo! Tane é o deus da floresta e meu protetor e regente e Tangaroa é o deus dos mares e regente e protetor da minha irmã! Está difícil entender?!
Os que ficaram tiveram que piscar os olhos várias vezes para ver se aquilo era mesmo real. New não perdia a paciência por nada.
– Você disse que são regidos por eles, certo? – Perguntou Escócia quebrando o clima que tinha se formado.
– Sim. Os antigos xamãs disseram que eles decidiram nos reger por... Não me lembro, mas disseram que eu era como a floresta e Alice era como o mar. Mas isso não importa agora, tenho que ajudar a minha irmã. – Com isso, ele se afastou.
– Dual twins. – Constatou Irlanda.
– É o que parece.
– Eire, o que é isso? – Perguntou o caçula.
– É um pouco complicado, mas tentarei explicar o melhor possível. Você sabe que gêmeos são especiais. Eles podem sentir o mesmo que o outro, podem se comunicar com o outro sem dizerem uma palavra e até sabem o quando há algo errado com o outro, dependendo da força da ligação gêmea.
– Uma alma dividida em duas. – Recordou Lien.
– Sim, mas há uma categoria especial de gêmeos, são os gêmeos que não parecem gêmeos.
– São gêmeos que não se parecem em nada um com o outro e não me refiro à personalidade e os gostos. – Explicou Scott. – Você só saberia que eles são gêmeos se eles te dissessem e te apresentassem ao irmão gêmeo. Eles são completamente diferentes, não como Feliciano e Lovino ou Yong e Hyung, qualquer um pode ver que são gêmeos. Já Dick e Alice nem imaginariam.
– O que determina se os gêmeos são dual twins é a ligação. Scott e eu inventamos esse termo para se referir a gêmeos completamente diferentes e que possuem ligação fraca. Dual twins possuem a ligação fraca, quase inexistente, mas é forte o bastante para perceber quando o outro está ferido ou mal.
– Por isso que fizeram as tatuagens neles. – Concluiu Casey. – Tinham medo de que perdessem a ligação ou que fosse extremamente fraca.
– É por isso. Dual twins não são simplesmente o gêmeo bom e o gêmeo mau, eles vão muito além disso. São extremamente opostos, mas precisam um do outro para coexistir. Podem não ser nada parecidos, mas estão conectados um ao outro.
– Os maoris colocavam terra e mar como duas esferas opostas. – Retornou a dizer Escócia. – Tane e Tangaroa não são gêmeos, mas são opostos. Tane é calmo e Tangaroa é agressivo, um é paciente e o outro não. Um faz mal ao outro, mas os dois precisam um do outro para coexistir.
– Como um depende do outro se eles vivem se fazendo mal? – Perguntou o norte irlandês.
– Tuais, a resposta é simples. Tane ajuda na morte das criaturas marinhas e Tangaroa derruba canoas e varre cidades. As pessoas pescam nas canoas, feitas com a madeira de Tane, para se alimentar ou usar corais para sabe lá que fim enquanto os corpos dos afogados servem de comida para os peixes e a terra convertida em areia e as pedras que estão no fundo do mar servem para dar sustentação aos corais e plantas marinhas e os pedaços das canoas ajudam a abrigar e a manter parte da vida marinha.
– Não é a toa que navios naufragados estão cobertos de corais e servem de casa para os bichos mais horrendos da face da Terra. – Resmungou o ruivo mais velho.
– Ele está assim porque foi procurar por um tesouro em um navio naufragado na época dos piratas e acabou pisando em um ouriço e sendo mordido por uma moreia.
– Dessa eu não sabia. – Comentou Gales divertido.
– Vá à merda, Casey.
– Então eles se ajudam mesmo não sabendo disso. Mas Eire, Dick e Alice não parecem ter rivalidade como esses dois deuses.
– E nem precisam. Dick é como a floresta, é verdade, ele é calmo, gentil, alimenta e acomoda os outros, mas possui um lado perigoso, ainda mais quando provocado. Já Alice é como o mar, às vezes ela está calma e às vezes está em uma TPM que ninguém consegue tirar, pode ser receptiva e ao mesmo tempo perigosa, seu humor é como a maré, às vezes alta e às vezes baixa, às vezes favorável e às vezes não, vai saber, o mar é imprevisível.
– Vendo assim, Matthew deve ser um marinheiro e tanto e Ralph é só um lenhador em busca de uma boa árvore para mantê-lo aquecido.
– Não gostei desse seu tom, Scott. – Resmungou o australiano.
– Ora, você e vive se aquecendo com a madeira daquela floresta, a mesma madeira que Casey se aquecia há tempos atrás.
– Poupe-me de seus comentários indecentes. – Censurou o irmão.
– Do que eles estão falando? – Perguntou o norte irlandês à irmã.
– Sexo, Charlie. Vejo que ainda é muito inocente. – Riu enquanto o mais novo corava. – Vamos ver se as coisas já acalmaram.
O grupo se dirigiu para onde os outros estavam. Samoa e Kiribati davam bronca na amiga sobe não ser hora para surtos suicidas enquanto os outros oceânicos apenas observavam com a maior naturalidade, Alfred e Moldova estavam surpresos e Dick respirava aliviado, mas ao mesmo tempo estava chocado. Não era segredo na Oceania que Kiribati e Samoa eram atacadas, Kyrie mais que Sam, mas mesmo assim vê-las em discussão lhe dava medo.
Groenlândia e Islândia corriam em direção ao grupo. O islandês estava cansado, mas fazia questão de acompanhar a groenlandesa, só não imaginava que ela pudesse correr tanto. Até Puffin reclamava. Eles alcançaram o grupo, Emil estava incerto se Greta iria falar com a multidão, se fosse Kallyna a história seria outra.
– Alice, finalmente te encontre. – Disse a groenlandesa que parava para retomar ar enquanto o islandês morria em busca do mesmo.
– Greta, você também veio! – Seu tom tinha mudado para animado, o que tinha feito muitos estranharem.
– Sim, eu achei o Matthew.
– ONDE?! – Gritaram a neozelandesa e o americano avançando na groenlandesa, o que fez a mesma saltar várias vezes para trás até atingir uma distância segura.
– Em um penhasco. Parece que ele está muito triste e está encarando o penhasco.
– O QUE?! – Exclamaram todos.
– Mon petit vai se jogar de um penhasco?! – Gritou Francis agarrando os ombros da groenlandesa, que se assustou, se livrou dele e tomou mais distância.
– Não antes de mim! – Gritou Alice surpreendendo os outros mais uma vez.
– Agradeceria se não chegasse tão perto novamente. – Disse Greta encarando a multidão e tentando retomar coragem para falar.
– Por que não o tiraram de lá e o arrastaram pelo cabelo até aqui? – Quis saber Kiribati.
– Eu não estava lá. Mandei minhas águias procurarem por ele e pela Alice assim que soube do sumiço.
– Águias? – Questionou Vanuatu.
Eles ouviram pios e quando ergueram as cabeças havia dois espíritos de águias os rodando. Um dos espíritos desceu até a inuit, que afagou a sua cabeça e depois soltou fumaça ectoplasmática e sumiu. Os murmúrios começaram.
– Dude, isso é assustador! – Exclamou Alfred abraçando Francis, que era o mais próximo.
– E como é! – Disse Francis retribuindo o abraço do americano, o qual via como um filho.
– Parem com isso, já! Ou esfolo-os vivos! – Disse Angelina irritada com os dois.
– Isso é assustador! – Gritou Angela se agarrando em François e fazendo-o derrubar o cigarro.
– Meu cigarro! – Resmungou François.
– Dude, outra Kallyna não! – Reclamou Allen se escondendo atrás de Lihn, que corou.
– Depois dessa vou até me converter. – Disse Cuba.
– Que legal! Fantasmas de verdade! – Exclamou Moldova contente.
– Moça, a senhora é xamã? – Perguntou Timor Leste com os olhos brilhando de expectativa.
– Isso não poderia ficar mais estranho. – Comentou Lien.
– Eire, estou com medo. – Disse Irlanda do Norte abraçando a irmã, que o confortava.
– Bruxos, vampiros, dual twins, xamãs, tatuagens que servem de portal, padrinhos mágicos... Nossa escola não podia ser mais estranha. – Comentou Gales.
– Agradeça por isso, Casey, ou nossa escola seria muito chata. – Comentou Irlanda. – Não fique com medo, Charlie, ela não irá machucá-lo.
– E desde quando o mundo em que vivemos é normal, indefinido? – Perguntou Escócia.
– Isso é tão legal! – Exclamaram Kiribati, Marshall e Cook.
– Mas que porra é essa?! – Gritou Ralph.
– Quando a gente pensa que não pode ficar mais estranho... – Começou Palau.
– Fica ainda pior. – Terminou Niue.
– Então, esses são os espíritos que você usa. – Disse Alice olhando para a águia que os sobrevoa enquanto se aproximava da groenlandesa. – Nunca tinha visto espíritos antes, mas porque essa águia ainda está aqui?
– Porque eu enviei essa águia para procurar o Matthew enquanto a outra te procurava.
– Matthew. – a neozelandesa abaixou os olhos para a carta que ele tinha escrito. – Me leve até ele!
– É só seguir a águia, ela só está te esperando.
– Hey, você, me mostre o caminho! – Gritou apontando para o espírito, que deixou uma gota escorrer pela sua cabeça.
O espírito voou rápido e Alice guardou a carta no bolso antes de começar a correr em alta velocidade. A multidão correu atrás para ver como seria o desfecho dessa novela. Islândia não iria aguentar outra corrida, então Groenlândia chamou o espírito de um urso polar e colocou o prateado nele antes de montá-lo e arrancar. O espírito de urso passou a multidão, mas não conseguia alcançar a neozelandesa enquanto o pobre Emil estava surpreso e ao mesmo tempo enjoado. Passaram por Lukas, Hakon e Vladmir, que se juntaram ao grupo, Lukas para resgatar seu irmão e Hakon e Vladmir para pedirem para montar o espírito também. Quando passaram por Christian e Mathias, o 1P puxou o 2P para a corrida sem saber o que se passava. Flavio e Feliks, que adoravam um babado e um barraco, se juntaram ao grupo.
Enquanto Alice, Greta, Emil, Samantha, Monica, Alfred, Dick, Tony, Ralph, Kaelin, Daniela, Bogdan, Emily, Scott, Charlie, Casey, Niuken, Thomas, Vanessa, Kyrie, Marshall, Cook, Allen, Lihn, Lien, Francis, Angelina, Angela, François, Juan Carlos, Lukas, Vladmir, Hakon, Mathias, Christian, Flavio e Feliks estavam na “corrida maluca para salvar o Matthew”, o canadense se encontrava no penhasco. Ele tinha estado perto da beira olhando para a queda, mas isso fora antes de ser arrastado para trás por Hewie. Ele tentou afastá-lo, mas Kiwi bicou seus dedos. Agora ele estava longe da beirada e o lobo tinha se posicionado à sua frente, entre ele e a beirada, com direito a Kiwi no dorso do animal o encarando. Era só o que faltava.
– Qual é, Hewie. Me deixe passar!
– You shall no pass! – Segregou o lobo para a ave, em uma piada interna, enquanto assumia pose de Gandalf, o que fez Kiwi rir.
– Já que é assim...
Matthew correu para a parte do lado do penhasco. Fora tudo tão rápido, em um minuto estava correndo e no outro estava no chão e tudo que conseguiu visualizar foi uma sombra branca antes de cair. Agora conseguia ver, a sombra era um lobo enorme. Ele se aborreceu com Hewie por não o deixar passar, mas quando olhou para os olhos do lobo seu sangue gelou. Aquele não era Hewie, era Ghost. O que ele fazia ali? Nem o próprio Hewie sabia.
– Finalmente te encontrei. – Disse Matt saindo detrás de uma árvore e aparecendo atrás do um 1P.
– O que você faz aqui?! Já não basta o que você fez?!
– Ele veio se desculpar. – Disse Egil sorridente.
– Egil, não se meta nisso. – Sentenciou Kallyna. – E você está me devendo um bom engradado, caso contrário encontrará um adlet na sua cama.
– Também é bom fazer negócios com você, Kallyna. – Matt estava muito desconfortável com o negócio que tinha feito. – Matthew, eu sei que eu fiz a maior cagada já vista na história e se eu pudesse voltar atrás nem teria beijado a sua namorada.
– Está dizendo isso porque Alicia está atrás de você.
– Ela está sempre tentando me matar, mas a questão não é essa. Eu sou o seu 2P, de alguma forma eu sou você e deveria te proteger e não te magoar.
– Então por que fez aquilo?!
– Porque eu queria que alguém me amasse também, tanto quanto amam você. – Ele abaixou os olhos para fitar o chão. – Eu sinto inveja de você Matthie. Você tem tudo o que eu queria ter.
Matthew piscou algumas vezes. Seu 2P estava lhe dizendo que o invejava? Ele era invisível, muitos não o viam e os que viam o confundiam com Alfred. Matt era diferente, mais popular e não era nem de longe confundido com Allen. Do que ele poderia ter inveja? Matthew se levantou e encarou o 2P.
– O que eu tenho?
– Um pai que liga pra você, um irmão que se importa com você, uma namorada que te ama de todo coração, apesar de ser um pouco doida, um animal de estimação que não te atacou, não teve que sobreviver à criação do Oliver e amigos que não vão te matar quando se vira de costas. Sim, eu o invejo.
– O seu mundo é diferente do meu, não é?
– Muito diferente. Estamos sempre tentando matar uns aos outros, pessoas como você e Egil são raras nele. É difícil encontrar pessoas interessantes, principalmente para tomá-las como companheiras. Você tem gente que o ama, já eu...
– Entendo. – Disse abaixando o olhar.
– Cuide bem dela, garoto, e de todos que se importam com você. Você não encontrará outros que os substituam nunca.
– Mas Alice deve me odiar agora.
– Se jogar do penhasco não irá trazê-la de volta.
Um espírito de águia passou por ali antes de se desfazer, deixando todos pensativos. Logo em seguida Alice surgiu por dentre as árvores e parou para tomar um pouco de fôlego. Antes que alguém pudesse sequer pensar em uma pergunta, um espírito de urso surgiu e parou ao lado de Egil e Kallyna. Egil se assustou e se jogou no colo da groenlandesa, que o pegou. Greta desmontou o espírito e o dispensou, fazendo Emil cair no chão.
– Me lembre de nunca mais viajar por um desses espíritos. – Disse Emil cambaleando enjoado.
– Não contava que viria. – Surpreendeu-se Greta.
– Me pagando vou até o Adlivun. – Retrucou Kallyna colocando Egil no chão.
– Mas que porra...? – Perguntou Matt.
Hewie e Ghost saíram de suas posições e foram para o lado das donas. O resto da multidão chegou e parou para retomar fôlego.
– Matthew Williams, se você ousar se jogar desse penhasco eu te mato! – Gritou Alice 100% recuperada.
– Mas Alice, eu não ia...
– Não minta pra mim ou eu te jogo desse penhasco!
– Coerência mandou lembranças. – Disse François acendendo um cigarro.
– Matthie, você está bem dude?! – Gritou Alfred tentando se aproximar, mas sendo impedindo por Francis.
– Alfred, isso é algo que eles precisam resolver sozinhos.
– Alice, por que veio até aqui? – Perguntou Matthew tentando ignorar a plateia atrás da ex.
– Porque você não vai se jogar daí antes de mim! – A plateia capotou. – Eu também sou uma idiota! – Disse caindo de joelhos e começando a chorar.
Matthew se aproximou dela e antes que pudesse se abaixar à sua frente, ela se atirou nele e o abraçou. Mesmo estando surpreso, ele retriuiu o abraço.
– Eu também te amo, Matthie. – Sussurrou. – Aroha ana ahau ki a koutou.
– Je te aime, Alice. – Não precisou saber maori para entender o que significavam aquelas palavras. – Sempre irei te amar.
Afastou a cabeça da garota do seu ombro, o suficiente para beijá-la. Sentia-se perdido naquela boca tão familiar e tão morna. O tempo parecia ter parado, nada mais importava naquele momento, eram só os dois ali. Os dois e os gritos, urros e assobios da plateia, ou de grande parte dela. Quando se separaram, o canadense e a neozelandesa estavam vermelhos, mas a morena deu um sorriso para o loiro.
– VOLTA! VOLTA! VOLTA! – Gritava o coro feito por Samoa, Samoa Americana, Alfred, Lihn, Flavio, Feliks, Romênia, Moldova, Timor Leste, Kiribati, Irlanda, Egil, Mathias e Niue enquanto batiam palmas.
Matthew estava quase roxo. Ele olhou para Alice pensando estar na mesma situação, mas não estava. Ela o abraçou forte novamente antes de tomar-lhes os lábios em um curto beijo, como se estivesse dizendo que queria voltar, o gual foi acolhido de bom grado pelo loiro.
– Vamos voltar?
– Claro! Nós voltamos! – Gritou para o penhasco e a multidão.
– AWEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE! – Berrou o coro.
O berro foi seguido de assobios, palmas e mais berros. Viram Dick lhe dar um belo sorriso como se aprovasse, Matt batia palmas e sorria também, Ralph estava perdido, Juan Carlos um tanto incomodado, Flavio e Feliks faziam a festa com os oceânicos, Vlad abraçava Bogdan e Dani, Hakon abraçava Christian, que ainda queria saber o que fazia ali, Mathias e Egil abraçavam Greta, Lukas socorria Emil ainda enjoado, Alfred comemorava abraçado a Lihn e Lien, porém Lien não tinha o mesmo entusiasmo os outros dois, Emily e Charlie também comemoravam, Francis mandou uma piscadela para o canadense como se mostrasse que ele tinha algum dedo naquilo e os outros tinham suas próprias reações.
– Agora só faltou a bebida. – Comentou Scott.
– Isso foi fabuloso! – Exclamou Feliks. – Não tanto quanto eu, claro.
– Se eu me casar, vou me casar em um penhasco com essa mesma plateia, só que será mais fabuloso, claro. – Disse Flavio.
– Viva aos dois! – Gritou Alfred soltando as vietnamitas, tirando a camisa e a rodando.
– Alfred, pare já com isso! – Ordenou Lien.
– Ninguém quer ver essa sua banha balançando! – Disse Allen.
– Ele não muda, não é mesmo? – Perguntou Lihn para Tony, que assentiu.
Após alguns instantes, a gritaria cessou e todos resolveram regressar. Alfred, Dick, Sam, Tony, Lien, Ralph e Kaelin acompanhavam o casal enquanto os oceânicos vinham fazendo farra. Greta se aproximou de Emil ainda enjoado e fatigado com Lukas por perto. O prateado fazia birra.
– Pare de reclamar, você não vai voltar sozinho. – Disse o mais velho.
– Eu não vou me apoiar em ninguém.
– Você não tem condições de ir neste estado.
– Emil, não seja teimoso. – Disse Greta.
– Mas... Hei! – Ele foi erguido pela groenlandesa e agora era carregado feito um bebê, o que o fez corar.
– Não aceito não como resposta. Vamos, Hewie.
Greta se afastou carregando Emil enquanto Hewie a seguia com Kiwi em seu dorso. Lukas ficou olhando com cara de paisagem até que Mathias passou o braço por seus ombros e o puxou para si. Os dois voltaram assim.
Egil voltava sendo carregado por Kallyna, mas diferente de Emil, este dormia. Hakon, Christian e Ghost os acompanhavam. Feliks e Flavio discutiam alguma coisa fabulosa. Allen tinha passado um dos braços por cima dos ombros de Lihn e voltava com ela e Matt. Vlad voltava com seu irmão e a nova amiga dele.
– Bogdan, quem é essa menina?
– Essa é a Dani, minha nova amiga.
– De onde você é Dani?
– Timor Leste, melhor, eu sou o Timor Leste.
– Fratelle, leva a gente para tomar sorvete?
– Claro!
– Eba! Vai levar cumnat também?
– Sabe que é uma boa ideia.
– Cumnat? – Perguntou a menina.
– É o meu cunhado, o Bulgária.
– Vocês já são casados?
– Não, Fratelle ainda não fez o pedido. – O romeno corou.
– Vamos mudar de assunto, ok?
Francis voltava com Angelina, tinha deixado seus 2Ps irem na frente para poderem conversar livremente.
– Quem diria que deu tudo certo no final. – Comentou Francis.
– E pensar por um instante que achei que tudo estava perdido. Você se importa muito com ele, puto pervertido.
– Matthieu é como um filho para mim, mon ange.
– Son ange...
– Eu sei, mas não estrague esse momento. Ele é perfeito demais para discussões.
– Tem razão.
– Você também se importa com ele, não?
– Ele é um bom garoto e como você disse uma vez “todos merecem ser amados, não importa por quem”.
– Assim como nós, mon ange.
– Um puto pervertido que daria um belo urologista e ginecologista e uma garota violenta com a boca pior que a de um marinheiro. Quem tentar nos amar vai encontrar problema.
– Ou podemos juntar os dois. Fazem uma bela combinação.
– Uma combinação problemática.
Escócia, Irlanda, Gales e Irlanda do Norte andavam atrás de todos.
– Até que foi divertido. – Comentou o norte irlandês.
– Chama correr de um lado a outro de divertido? – Perguntou o escocês.
– Foi por uma boa causa e eu aprendi algumas coisas. Quando vão me ensinar magia?
– Quando sua irmã decidir. – Disse o galês indiferente, como de costume. – É ela quem vai te ensinar.
– Que seja. – Reclamou irritado e cruzando os braços.
– O que aconteceu para agir assim?
– Você nunca me contou que se relacionava com o New.
– Charlie, isso faz tanto tempo...
– E no entanto você sabia da minha atração por Arthur e das minhas tentativas. Com quem mais você se envolveu?
– Por que quer saber? Isso é passado.
– Se é passado, não vai se incomodar em me dizer.
– Por Deus, Charlie! Por que resolveu insistir nisso agora?!
– Porque eu achava que conhecia o homem com quem venho dormindo, que por sinal é o meu meio-irmão também.
– Isso não importa.
– Casey, fala logo pra ele. – Disse o mais velho. – Antes que a coisa piore. Você não conhece a teimosia dos Rosemond.
– Promete que vamos conversar ainda hoje?
– Se prometer não fazer escândalo ou ficar com ciúmes.
– Prometo. – Disse abraçando o indefinido e lançando-lhe um sorriso que fez o coração do galês disparar.
Eles continuaram andando. Estranhamente a irlandesa estava quieta. Charlie e Casey não perceberam, mas Scott sim. Ela parou e puxou a barra da camisa do escocês, fazendo-o se virar para ela.
– Algum problema Irlanda? Está estranha.
– Nós precisamos conversar.
– Sobre?
– Patrick. Ele precisa da nossa ajuda.
– Que tipo de ajuda?
– É o que eu queria saber.
– Espere chegarmos ao hotel primeiro e você me conta tudo.
– Scott, eu estou com uma sensação muito ruim.
– Vamos dar um jeito nisso, no que quer que seja.
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