Gakuen Hetalia 2.0
50 Capítulo 50
Notas iniciais
Quando a noite caiu por completo, Escócia e Irlanda saíram com Gales, Irlanda do Norte, Romênia, Lukas, Arthur e Oliver para os arredores da cidade, mais especificamente para a floresta. Tinham que ir para um lugar isolado.
– Por que a gente tem que ir para a floresta? Não podíamos ter ido para a praia? – Perguntou Irlanda do Norte.
– Para o caso de alguém fazer merda, não colocar a segurança pública em risco. – Disse Escócia olhando para um dos irmãos de relance.
– Hei, eu não sou o único a fazer merda! – Reclamou Arthur.
– Não é só apenas isso. – Interrompeu Lukas. – Mesmo que sejamos cuidadosos, outras pessoas podem ver e isso pode causar um alvoroço. Precisamos de um lugar afastado para não causar tumulto e confusão.
– Você não aprendeu a usar magia? – Perguntou Vladmir curioso.
– Já tentaram me ensinar, mas eu sou péssimo nisso. – Respondeu Charlie abobalhado.
– Que nem meu irmãozinho! Bogdan também não é muito bom em magia, uma vez ele tentou fazer chover doces e choveu merda de cachorro por dois dias.
– Nem isso eu consigo fazer. O máximo que consegui foi explodir alguma coisa.
– Alguma coisa? – Perguntou Casey retoricamente.
– Você explodiu a casa, o centro da cidade, um lago...! – Exclamou Arthur. – E nem comento de quando ele tentou fazer poções.
– Ele usa magia de vácuo?! – Espantou-se Oliver.
– Não, só foi treinado da forma errada. – Disse Emily.
– Não há forma errada de ensinar alguém a usar magia, Irlanda! – Reclamou o loiro de taturanas.
– Tem sim. – Dessa vez foi Lukas quem respondeu. – Magia é como computador, ela funciona com determinada programação, porém é possível configurar essa programação para se adaptar a outro tipo de magia e até mesmo reprogramá-la para que o objeto encantado sirva apenas a você.
– Hã? – Dissera Arthur, Charlie, Vladmir e Oliver sem entenderem nada.
– Confesso que entendi o que ele quis dizer, mas não sei como aplicar para exemplificar. – Disse Casey.
– Fodeu, o Casey não sabe! – Disseram os quatro em desespero.
– É que falta experiência de vida para vocês. – Manifestou-se Escócia. – O que Lukas quer dizer é que cada um aqui tem uma forma diferente de canalizar e usar magia. A dos Kirklands é diferente da dos Rosemond, que é diferente da dos Bondevik e que é diferente da dos Van Helsing.
– Cada família aqui presente tem uma configuração diferente, um jeito diferente de manifestação da magia. – Disse Irlanda. – Os Kirklands são mais ligados a encantamentos, os Bondevik a conjurações, os Van Helsing a de travessuras e magia negra e os Rosemond a natureza. É preciso seguir essa modalidade quando algum membro for iniciado no campo da magia.
– Como é que você sabe disso?! Perguntaram todos atônitos, menos Scott.
– Ora, Scott disse que faltava vivência para vocês. – Nós temos o que falta em vocês.
– O QUE?!
– Não ficamos só em casa, saímos para combater bruxos das trevas e criaturas sobrenaturais para tornar nosso continente mais seguro. Algumas vezes tivemos que usar nossa magia.
– E algumas vezes combinamos nossa mágica. – Disse mostrando a língua em um sorriso travesso.
– ISSO É POSSÍVEL?!
– Eu só tinha conhecimento disso em teoria, não imaginava que alguém conseguisse na prática. – Disse Lukas, que mudara a expressão para assustada.
– Magia é muito mais que um computador, Lukas. – Disse Emily. – Ela é parte de nós e reage conforme nossos sentimentos.
– Irie, você não acha que está exagerando um pouco? – Perguntou Oliver. – Lukie e Cassie não são exemplos de sentimentos. – Lukas e Casey tiveram que se conter para não lançarem um feitiço em Oliver.
– Só porque eles não demonstram não quer dizer que eles não tenham. Eles são extremamente calmos e indiferentes, isso contribui para que possam realizar feitiços com quase nenhuma margem de erro, mas isso pode prejudicar em uma batalha.
– Não vejo como isso possa nos prejudicar. – Disse Lukas.
– Se algo começar a dar errado ou seu inimigo for mais forte que vocês, vocês irão ficar nervosos e procurar alternativas para tentar derrotá-lo. Seu nervosismo aumentará a margem de erro dos feitiços, mas poderá salvá-los de ataques por um triz. Quanto maior o nervosismo, mais problemas terão.
–... – Os dois ficaram calados, então a garota resolveu continuar.
– Sentimentos têm uma influência muito forte na magia. Sentimentos como dúvida, desespero, hesitação e incerteza irão atrapalhar; tristeza, melancolia e depressão irão enfraquecê-lo; medo irá impedi-lo de realizar o que quer; raiva e ódio poderão aumentar seu poder, mas só funcionam com magia negra ou de cunho destrutivo, nunca para bons propósitos. Sentimentos bons aumentam a capacidade de cura e revitalização e amor pode tanto atrapalhar como ajudar, depende de como o usuário lida com ele. Os melhores são os sentimentos de coragem, determinação e sacrifício, que dobram ou triplicam seu poder.
– Sacrifício? Eire, eu não entendo.
– Quando algo se torna mais importante que sua vida, você fará de tudo para alcançá-lo e quando alguém se torna mais importante que sua vida, você fará de tudo para protegê-lo. Sacrificar sua vida em pró de algo ou de uma pessoa sem se importar com o que aconteça com você aumentará sua força. É mais fácil explicar com um exemplo prático do que na teoria. Posso citar os pais que tiraram forças de sabe lá onde só para protegerem seus filhos, sem se preocupar com a morte.
– Legal! – Exclamou Romênia com os olhos brilhando. – Me ensine mais, sensei?
– Bem, ficar na seca por meses e ser um tremendo pau no cu aumenta a margem de fazer merda com magia.
– Pelo amor da rainha! Nem aqui você sossega com essas provocações?! Bloody hell, não precisa mandar essas indiretas, pode dizer que me odeia!
– Não comento nada.
– Voltando ao tópico principal... – Anunciou Escócia. – Charlie foi treinado pelos Kirklands, mas sua configuração mágica é compatível com a dos Rosemond. Britânia não deixava que Celtic ou Irlanda o treinassem. Celtic foi embora e Irlanda estava ocupada viajando comigo, então, não deu para insistir.
– E depois vieram muitos problemas até a revolução que gerou minha independência. Não tive tempo de treiná-lo, mas isso vai mudar. Eu vou te ensinar magia nem que seja a última coisa que eu faça! – Disse fazendo pose e apontando para o irmão, assustando o mesmo.
– Por que ensinaram treinaram um Rosemond como um Kirkland? – Perguntou Vlad.
– Meio Rosemond! – Irritaram-se Arthur e Oliver. – Ele é meio Kirkland também!
– Eita porra! – Assustou-se o romeno, se escondendo atrás do norueguês.
– Ele tem mais dos Rosemond do que dos Kirklands. – Comentou Casey. – Faz sentido.
De volta ao hotel, Emil e Greta entraram no quarto. Egil dormia na cama, Kallyna, que estava ao seu lado, os olhou, mas não comentou nada. Hewie e Ghost foram se ajeitar em algum canto enquanto Mr. Puffin reclamou pra caramba por estarem molhados e o 2P Mr. Puffin os madou tomar banho para não se resfriarem. A garota foi primeiro e quando saiu do banheiro foi a vez do garoto. Não demorou para que saísse também.
– Meu 2P já dormiu?
– Há muito tempo e mesmo assim consegue me dar trabalho.
– Não creio que Egil dê muito trabalho. – Manifestou-se Greta.
– Fala isso porque não é a babá dele. Não posso me afastar por um segundo e ele já faz merda. Ele não me dá sossego em momento algum.
Emil ficou chocado e serrou os punhos. Não gostava da forma como ela falava de seu 2P. Ele podia ser o que fosse, mas ainda era seu 2P.
– Ele gosta de você. – Disse em tom baixo, mas alto o suficiente para ela ouvir.
– Eu sei disso. – Isso o deixou chocado.
– Então por que o trata tão mal?
– Como disse ao seu irmão mais cedo, é por causa do nosso mundo. Ele não é como o seu, é um ambiente hostil com pessoas egoístas, gente como Egil são raras e são as que mais sofrem. Fáceis de serem manipuladas e usadas. Quer que isso aconteça com seu 2P?
Emil engoliu em seco. O mundo 2P era tão ruim como Kallyna dizia? Não tinha como saber, pois nunca estivera lá.
– Você se importa com ele? – Perguntou Greta mal entendendo sua 2P.
– Há coisas que não posso ignorar. – Deu de ombros.
– Você quer que ele seja forte, não é mesmo?
– Quero que ele pare de fugir de seus problemas e pare de me meter no meio deles. E que pare de se meter em encrenca também.
– O que tem de errado em ele ser assim?! – Perguntou Emil irritado, apesar de sua expressão parecer indiferente. – Ele pode não ser o mais corajoso, pode não ser o que você quer que ele seja, mas é isso que o faz ser quem ele é. Eu gosto dele assim.
– O “que tem de errado” é que ele é totalmente dependente de mim para resolver as próprias merdas. Uma vez eu não estava por perto quando ele fez merda, ele teve sorte de só ter perdido um olho e ganhado algumas cicatrizes.
Emil engoliu em seco e sentiu um calafrio percorrer por sua espinha. Não precisava conhecer o mundo deles para perceber que era hostil, bastava olhar para os 2Ps que vieram, coisa que só tinha passado por sua cabeça agora. Por mais que não parecesse ele estava surpreso.
– Emil, vamos dormir. – Disse Greta, fazendo-o despertar e corar. – Já está tarde e eu estou cansada e Kallyna também deve estar. Garanto que Egil e Kallyna podem nos contar sobre seu mundo amanhã.
Kallyna permaneceu em silêncio enquanto ele apenas assentiu e foi se deitar entre Egil e Greta. Os animais olhavam como se não acreditassem, mas não se intrometeram. Mr. Puffin até tentou falar algo em pró do dono, mas ao sentir a aura ameaçadora que emanava de Ghost, preferiu ficar quieto. Agora, com tudo calmo, ele foi reclamar com Hewie.
– Você podia ter repreendido o psicótico do seu 2P!
– Ghost não é psicótico, Puffin, apenas deixe com que os vulcões e as geleiras se entendam.
– É o que?!
– Eu não entendi o que quis dizer, caro Hewie. – Disse o 2P do papagaio.
– Os Islândias são como vulcões e as Groenlândias são como as geleiras.
– E como é que você sabe disso, ô sabichão?
– Pelos olhos deles, pinguim voador. Não reparou que Emil e Egil têm olhos quentes como o verão tropical e Greta e Kallyna têm os olhos frios como o inverno ártico?
– Pinguim voador é a sua mãe! Seu pulguento albino! Você não está dizendo nada com nada!
– Como o aguenta? – Perguntou o papagaio de cartola.
– Basta rosnar que ele cala a boca.
– Desculpe-me, mas mesmo assim não entendi a comparação.
– Emil é como um vulcão adormecido, aparenta ser indiferente a tudo e muito frio, mas seu interior é quente, inquieto e apaixonado, basta olhar em seus olhos para saber que há algo algo o inquietando. Diferente de Greta, que é como a geleira aparenta ser, magnifica, confiante e imponente, mas seu interior é frio, calmo e solitário, apesar de seus olhos serem claros como o céu diurno, eles são indecifráveis.
– Mas e o senhor Egil e a senhorita Kallyna? Ele é o que há dentro do senhor Emil e ela é o que a senhorita Greta aparenta ser.
– Ainda não percebeu que vulcões e geleiras possuem duas faces? Egil é como um vulcão ativo, não tem pudor em demonstrar quem realmente é e gosta de chamar atenção para si além de ser completamente imprevisível, é mais fácil ver o fulgor em seus olhos do que nos de Emil. Já Kallyna é como a parte debaixo da geleira, 10% é o que ela mostra e 90% é o que ela esconde, seu exterior está sbumerso em um mar de problemas e é tão fortificado que quase não dá para ver em seu interior, seus olhos vermelhos são tão gelados quanto a parte debaixo de um iceberg.
– Vendo por este lado, eles realmente são como vulcões e geleiras.
– Eu ainda não entendi porra nenhuma!
Hewie não se deu ao trabalho de discutir com a ave. Era notório que Ghost tinha entendido perfeitamente, mesmo sem pronunciar nada ou protestar, diferente da ave que fazia birra e o 2P dela tinha que explicar tudo de novo.
A caminho do quarto, Alice tinha encontrado Matt em algum corredor. Por estarem indo para o mesmo destino, acabaram fazendo companhia um ao outro. Era estranho que uma garota bipolar com a mente destroçada como aquela podia ser tão interessante. Não havia esse tipo em seu mundo e até as raras garotas meigas não chamavam tanto sua atenção. Matt gostava das coisas naturais, tanto que sua casa ficava no meio da floresta congelada ao norte, e também de adrenalina, pois adorava caçar os caçadores, transformando-os em presas, e amava viver entre condições adversas, apesar de sua casa ter TV a cabo e wi-fi. Alice misturava ambas as coisas: era extremamente natural, nada nela era forçado, e era imprevisível, tanto que ele sempre se pegava perguntando qual seria sua reação nos próximos 5 segundos.
– Não é justo. – Disse um tanto baixo.
– O que não é justo?
– Nada.
– Nada é o caralho! – Tinha passado da inocência para irritação e agora o encarava. – Eu fiz de novo. – Disse indo para o cantinho enquanto o 2P capotava.
– Venha, saia desse canto.
Ele a segurou pela mão, a puxou, a agarrou pela cintura e a beijou. Não durou muito tempo, pois ela o empurrou com tanta força, que ele bateu na parede oposta e quando deu por si, ela tinha puxado a faca e a fincou em seu peito.
– O QUE DEU EM VOCÊ?! – Gritou em toda a sua fúria, fazendo todo o corredor ouvir. – Não sabe que namoro o Matthew?! Oh não, o Matthew! – Disse como se tivesse esquecido de algo. – EU O TRAÍ! – Gritou chorosa.
Alice retirou a faca de dentro de Matt, começou a chorar feito uma criança e correu para o quarto, deixando o 2P boiando, mas acabou a seguindo. No quarto, Matthew estava mexendo no celular quando Alice derrubou a porta com um chute, o assustando. Ao vê-lo, ela o abraçou e chorou como uma criança. Ele só pôde retribuir enquanto ouvia o barulho metálico da faca se chocar contra o chão.
– Alice, o que houve? Alguém te machucou?
– Me desculpe, Matthie! Me desculpe. Me desculpe. Me desculpe...
– Hã?
– Eu te traí! Eu sinto muito! Beijei seu 2P! EU NÃO MEREÇO VIVER!
Ela se soltou bruscamente dele e correu para o banheiro. Matthew sentiu um aperto no peito, parou de pensar e correu para o banheiro. Alice não dava tempo para ele pensar, tinha que agir o mais rápido que conseguisse. Assim que chegou à porta do banheiro, seu 2P aparecera. Eles não puderam trocar uma só palavra, pois ouviram um barulho de estilhaço. Tudo o que puderam ver foi que a garota tinha socado o espelho e agora segurava um fragmento dele. Uma onda de medo invadiu o interior de Matthew. Não sabia sobre o que era o medo e muito menos de onde tinha retirado coragem para avançar e agarrar o pulso de Alice para tomar-lhe o caco do espelho.
– O que você está fazendo?! Não vê que não mereço ficar com você?!
– Alice...
– Me desculpe, Matthew, me desculpe...
– Alice! – A voz vinha de Dick.
O loiro tinha ouvido uma gritaria e correu para ver do que se tratava. Esperasse que não fosse sua irmã, pois onde tinha gritaria tinha 80% de chance de Alice estar envolvida. Quando ouviu o barulho de algo se quebrando, seus temores foram confirmados. Ao entrar no quarto, seu coração disparou. Odiava quando sua irmã estava nessa situação, o maior medo de um gêmeo é perder seu outro gêmeo.
– Alice, por favor, solte esse caco. – Disse entrando no banheiro e ignorando os canadenses. – Alice...
– Eu traí o Matthew, Dick! Eu...!
– Alice, não faça isso consigo mesma, eu te perdoo. – Disse Matthew. – Solte esse caco, por favor.
– Viu, ele não está bravo com você, tuahine. – Disse a abraçando. (tuahine: irmã em maori)
– Mas...
– Smells blood, much blood. – A figura de Alicia tinha surgido na porta do quarto, arrepiando a todos.
– Não temos tempo pra você, demônio! – Exclamou Dick tirando coragem sabe lá da onde. – Merda, com tanta hora para aparecer tem que ser logo agora?!
Matthew e Matt pensaram que ele tinha enlouquecido de vez e se surpreenderam com o neozelandês. Dick era calmo e não falava palavrão, vê-lo irritado e falando um era de arregalar os olhos. O sorriso no rosto de Alicia murchou e sua expressão foi substituída por uma mais séria. Seu olhar brilhava ameaçadoramente e ela estava mais assustadora do que antes.
De volta à floresta, Scott e Emily instruíam Arthur, Lukas, Vlad e Casey sobre o que fazer. Charlie ficou fora do processo, já que não sabia usar magia adequadamente, por isso ficou jogando conversa fora com Oliver.
– Por que vocês não abrem a droga desse portal?! – Reclamou Arthur.
– Se pudéssemos abrir, não estaríamos instruindo vocês. – Respondeu Scott amargo.
– O que foi, vocês não são tão fortes assim para abrir o portal?
– Nós somos fortes para abrir, mas se fizermos isso, pode dar adeus ao mundo que conhece. – Dessa vez quem respondeu foi Emily.
– Por que, o que vocês fizeram que os impede de abrir o portal? – Perguntou Vladimir.
– É uma longa história. – Comentou o escocês.
– Oliver, largue o meu irmãozinho que ele não é travesseiro! – Gritou a irlandesa.
– Mas ele é tão fofinho! – Disse Oliver abraçando Charlie. – Dá vontade de roubar pra mim.
– Vocês poderiam parar de gritar? Nós temos que começar o quanto antes. – Disse Lukas.
– Façam o que fizerem, não quebrem o selo do portal ou a porra vai ficar séria. – Sentenciou Scott.
Eles assentiram e começaram a trabalhar. Invocaram uma espécie de espelho enorme, este era o portal para o mundo 2P. Havia uma espécie de lacre nele, mas não mexeram ou Scott e Emily os transformariam em mochis. Casey, Arthur, Lukas e Vlad tentavam abrir o portal enquanto Scott e Emily observavam o trabalho e os instruíam.
Da parte de Arthur algo saiu errado, ninguém sabia dizer o que foi, mas uma estranha fumaça tomou conta do lugar. Quando ela começava a se dissipar, puderam ver que o portal foi aberto, mas para o espanto dos mais velhos, o selo tinha ido embora.
– O que você fez?! – Gritou a garota. – Nós não falamos para não quebrar o selo?!
– Você fala como se o maldito selo fosse grande coisa! – Reclamou o inglês.
– Eu não sei se você é idiota ou se sua seca é das piores! – Retrucou o escocês.
– Todos, vocês saiam daí já! – Gritou a irlandesa e os quatro saíram de lá sem saberem o que estava acontecendo.
– Após décadas, esse mundo não mudou tanto assim. – Disse uma voz feminina.
– Essa voz... – Disse Oliver.
– Ollie, está tudo bem? – Perguntou Charlie.
– Oliver, há quanto tempo não nos vemos. – Dessa vez era uma voz masculina. – Nunca mais visitou o norte.
Quando a fumaça se dissipou, eles puderam ver um casal de olhos cruéis. O homem tinha cabelo que lembrava sangue seco, olhos azuis e usava uma camisa social rosa, colete social preto, calça preta e gravata vermelha além de sapatos sócias marrons; já a garota tinha o cabelo ruivo escuro quase marrom em dois rabos de cavalo e usava uma camisa branca de mangas cujo decote sumia dentro do espartilho preto, saia carmesim e botas negras de salto alto, além de uma gargantilha preta com 3 elos de corrente e um chicote de cavalo.
– Quem são esses dois? – Perguntou Vlad.
– Nossos 2Ps: Alister Kirkland e Evelyn Rosemond. – Respondeu Scott.
– E o selo os impedia de virem aqui. – Concluiu Casey.
– Adorável Emily, continua tão bonita quanto antes. Poderia muito bem ser a musa da minha coleção. – Disse Alister.
– E Alistor, não sabia que tinha ficado tão sexy assim. – Insinuou Evelyn passando a língua pelos lábios.
– É apenas Scott para os dois. – Disse com repugnância.
– Do que eles estão falando? – Perguntou o norte irlandês.
– Alister usa partes do corpo de suas vítimas que ele considera as mais bonitas para fazer bonecas. – Respondeu o inglês de cor de cabelo indefinida.
– Como em Mad Father?
– É por aí.
– E Ela é...? – Começou o norueguês.
– Uma maníaca que parece ser uma dominatrix, mas só quer arrancar partes do seu corpo, te ouvir gritar e te ver morrer lentamente.
– Fodeu! – Gritou Vladmir.
– É hora do show. – Disseram os 2Ps ruivos.
Os dois 2Ps invocaram lobisomens, fazendo o troll de Lukas sair em posição de defesa. Vlad acabou invocando alguns morcegos, Arthur pegou um livo e Case se postou a frente de Oliver e Charlie.
– Vocês cuidam das bestas e nós cuidamos dos nossos 2Ps. – Anunciou Emily.
– Sem reclamações, vocês não têm chance contra eles. – Disse Scott antes que qualquer um pudesse protestar.
De volta ao banheiro de um dos quartos de hotel, Alicia estava com uma expressão séria, Dick em posição de luta, Alice tentando se soltar do namorado e os dois canadenses rezavam para todos os deuses de todas as religiões antigas e fictícias para a situação não piorar.
– That’s not funny. – Disse a garota.
– Alicia, não estou com paciência para isso! – Gritou o neozelandês.
A 2P avançou nele e o prendeu contra a bancada. Seu rosto estava tão sério que chegava a dar medo e seus olhos eram insanidade pura. Ela pegou um dos cacos em cima da pia e o passou levemente pela garganta do 1P do meu irmão.
– Não se meta no meu caminho. – Ela o soltou, empurrou Matthew para o lado com violência, fazendo-o soltar, Alice e em seguida levantou a 1P e segurou seus ombros.
– Dick, você está bem? – Perguntou Matthew.
– Eu vou ficar. E você?
– Estou bem.
– Why? – Perguntou Alicia sem prestar atenção nos outros dois.
– Eu traí o Matthew! Beijei o Matt! Não mereço viver!
Alicia deu um tapa em sua 1P, fazendo todos os presentes perderem o fôlego.
– Isso não é motivo! – Gritou a 2P. – Suicide is not funny! Medo e desespero antes de um assassinato sim.
– I can’t take this anymore!
– You can! You are my 1P! Você é Alice Liddell, a única capaz de lutar contra mim e a única que foi capaz de se aproximar de mim e partilhar de minha insanidade. Você tem mais do que eu tenho! Não deixe um jerk estragar sua vida, foda com a dele!
– Por que está me ajudando? Você está sempre tentando me matar.
– Sempre? Você já se esqueceu?
– Do que ela está falando? – Perguntou o 1P canadense.
– Se um de nós morre, seja 1P ou 2P, a nossa contraparte também morre. – Esclareceu Dick. – Não é possível que nossa existência continue, mesmo em outro plano. Bem ou mal os 2Ps somos nós de alguma forma. Nossa existência está conectada.
– You’re right. Obrigada, Alicia.
– Você foi minha primeira amiga de qualquer forma.
Alice acabou abraçando a 2P. Alicia se encontrava estática e de olhos arregalados. Nunca tinha acontecido algo assim, era novo pra ela.
– So warm...!
– Há quanto tempo vocês conhecem seus 2Ps? – Perguntou Matt.
– Desde que fomos morar com o Inglaterra quando éramos crianças. – Respondeu Dick.
– Isso é quase uma vida.
– Pode apostar que sim.
De volta à floresta, enquanto Charlie e Oliver estavam escondidos atrás de uma árvore, pois não sabiam lidar com lobisomens e foram ordenados para não se intrometerem, os outros lutavam em duplas.
Vlad usava os morcegos para distrair os licantropos, bloqueando-lhes a visão, enquanto Lukas ordenava ao troll para atacá-los.
– Belo ataque! – Disse o romeno.
– Mas não é o suficiente. Precisamos de um ataque mais efetivo.
– Sem problemas, eu tenho fragmentos de prata comigo.
– Por que você carrega algo assim?
– Para algumas poções que faço.
– Hum...
Vladmir pegou alguns fragmentos de prata e os lançou no ar. Lukas conjurou uma forte ventania e a usou para sustentar os fragmentos e mandá-los na direção desejada. Os fragmentos perfuraram os inimigos e os pulverizaram.
– A gente arrebenta! – Comemorou Vlad.
– Ainda não acabou.
Arthur tinha invocado um tornado, que perdeu o controle, e Casey teve que usar uma magia de anulação para acabar com o tornado.
– Você ainda vai matar a nós dois. – Disse o galês.
– Eu sei o que estou fazendo!
– Vou fingir acreditar nisso.
Scott e Emily lutavam contra Alister e Evelyn. Era todo tipo de feitiço que era lançado por ambas as duplas, suas auras mágicas possuíam um poder devastador que impedia que os outros chegassem perto, caso contrário voariam para longe.
– Chega de brincadeira! – Rosnou Evelyn.
A 2P fechou os olhos e logo os reabriu. Neles estavam nós celtas invertidos entrelaçando um círculo.
– O que é aquilo? – Perguntou o norte irlandês.
– Não tenho ideia, nunca vi algo assim. – Respondeu Ollie.
– Merda! – Praguejou Scott.
– Parece que não temos escolha. – Disse a irlandesa.
– Emily, ficou maluca?! Você não vai...!
Mas já era tarde. Emily tinha feito o mesmo e o mesmo símbolo tinha aparecido em seus olhos. Os poderes das irlandesas tinham dobrado de tamanho. Uma tinha lançado fogo, a outra usou raios para causar uma explosão cegante, o que deixou os outros temporariamente sem enxergar. Enquanto eles se recuperavam, Evelyn tinha lançado um feitiço que deixou o lugar coberto de gelo e Emily tinha lançado um terremoto de grande magnitude. Elvelyn criou um tufão que ergueu todos do chão e Emily fez a terra se abrir e brotar um enorme carvalho, onde se segurou e se equilibrou.
– A gente vai morrer! Eu vou morrer! Eu vou vomitar e depois eu vou morrer! – Gritava Vlad voando sem rumo pelo tufão.
– Não hoje. – Disse Scott agarrando o romeno quando este passava pelo lado dele.
– Scott, eu vou vomitar. – Disse Charlie agarrado a um galho.
– Cadê o Arthur? – Perguntou Oliver agarrado em outro galho.
– Bloody hell! – Exclamou Arthur pendurado pelas calças em um galho.
– O que são aqueles olhos? – Perguntou Lukas.
– Uma coisa que a Irlanda tem que aumenta o poder dela quando é ativado, além de quebrar todas as maldições, selos e feitiços usados como cadeados. Temos que acabar com essa luta antes que o estrago aumente e chegue ao hotel.
– Se a gente conseguir sobreviver para isso. – Comentou Casey.
A luta e os fenômenos podiam ser vistos e sentidos à distância.
– Primeiro um terremoto e agora esses ventos fortes. Esse dia não podia ficar pior. – Comentou Dick olhando pela janela.
A situação realmente estava das piores e quando tudo parecia melhorar, piorava de novo. Após se soltar da 1P, Alicia tinha atacado Matt e agora o canadense corria pelos corredores do hotel para tentar fugir dela. Alice tinha se acalmado e agora estava deitada na cama acarrada a um travesseiro com Matthew ao seu lado fazendo um curativo em seu braço machucado. Dick se perguntava onde Benjamin teria se metido, talvez estivesse com Jett em algum canto, mas agora a prioridade era sua irmã, que estava mais quieta que o normal.
– Pronto. – Disse o canadense ao finalizar o curativo.
–...
– Alice, fale alguma coisa. Você não disse nada até agora. Tem algo te preocupando?
– Eu quero terminar.
A frase pegou os loiros de surpresa. Eles estavam ouvindo bem?
– O-O que está dizendo?
– Que eu quero terminar com você, Matthie. Você não merece ficar com alguém como eu!
– Isso... Isso não é verdade! – Disse sentindo um grande aperto no peito.
– Olhe para mim, Matthie! Eu não sou normal! Eu... Eu... Você não merece passar o resto da vida cuidando de uma insana como eu!
– Alice, olhe o que você está dizendo! – Intrometeu-se Dick.
– Dick, você sabe muito bem como eu sou! I’m insane! I’ve always been insane! You know that! You always knew! – Disse puxando o braço machucado e abraçando o travesseiro enquanto chorava. – Eu não quero que ninguém mais sofra por minha causa! Eu não quero... – Ela enterrou o rosto no travesseiro.
Matthew estava sem reação, não sabia o que fazer ou falar, não sabia o que sentir! Aquilo, de certa forma, doía, mas não compreendia por quê. Seu relacionamento tinha se iniciado da forma mais estranha e rápida que conseguia se lembrar e agora estava indo da mesma forma. Dick segurou o pulso do canadense e quando deu por si, eles estavam fora do quarto.
– É melhor não fazer nada agora. – Disse o neozelandês. – Ela não está em condições de ouvir nenhum de nós.
– Tem razão.
– Amanhã pedirei a Samoa que fale com ela, Zealand escuta Samoa mais do que escutaria a mim.
– É melhor que eu não durma no mesmo quarto que vocês até lá.
– Você tem para onde ir? Se quiser, posso falar com Palau. Ele não tem colega de quarto.
– Agradeço pela ajuda, Dick, mas eu posso me virar.
– Está bem. – Disse compreendendo o outro, afinal, não eram muito diferentes. – Se precisar de ajuda é só me procurar ou procurar Niue e Palau, mas fique longe de Marshall e Cook, aqueles dois são problema.
– Obrigado. Cuide bem dela.
– Pode deixar.
Os dois se despediram e Matthew se pôs a andar pelos corredores. Ele se sentia triste e confuso, só tinha um lugar que ele poderia ir.
De volta ao interior do tufão, Evelyn acabou fazendo o fogo se espalhar pelo tufão enquanto Alister usou raios para explodi-lo. Todos voaram e caíram em algum lugar pelo chão. Arthur caiu em cima de Lukas com as calças arriadas, Scott caiu em cima de Vladmir, já que o segurava durante o tufão, Emily caiu ao lado de Oliver, Charlie caiu em cima de Casey e Alister e Evelyn caíram em algum canto qualquer.
– Não tinha como cair de forma pior? – Reclamou Vlad.
– Na próxima, eu te deixo continuar perdido pelo tufão. – Disse Scott.
– Estão reclamando de que? – Perguntou Lukas. – Querem trocar?
– Aproveite e acabe com a seca dele.
– Bloddy hell, Scott! Isso não é hora para falar dessas coisas!
– Emily, você está bem? – Perguntou Oliver.
– Não se preocupe comigo, já sofri piores. – Disse ela. – Você se machucou?
– Não, eu estou bem.
– Casey, você está bem? – Perguntou Charlie.
– Essa vai doer amanhã. Se machucou?
– Não.
– Falch ei. (Falch ei: fico feliz por isso em galês)
– Pelo visto vou ter que usar todos os meus recursos. – Disse Alister ao invocar um golem para atacá-los.
– Chega! Isso já foi longe demais! – Gritou o norte irlandês.
Ele tinha ativado os mesmos olhos que as irlandesas e ao tentar fazer alguma coisa, acabou explodindo o golem e sem querer o campo em que estavam, fazendo todo mundo voar alguns metros e rolar pelo chão.
– Caralho! – Gritou Arthur antes de proferir mais uma enxurrada de palavrões.
– Charlie, desative isso agora! – Gritou a irmã mais velha.
– Mas eu não sei como! Eire, o que eu faço?!
– Tente se acalmar, se entrar em pânico agora, nós estaremos mortos.
– Ela não está falando sério, está? – Perguntou Vlad.
– Lógico que está. – Respondeu o escocês.
– Ele também tem esses olhos? – Perguntou Lukas atônito.
– Pelo visto sim. Ele herdou da mãe dele, assim como a irmã.
– Da mãe dele?
– Isso é incrível! – Exclamou o romeno.
– O 2P Northen Ireland não pode saber disso! – Exclamou Oliver.
Alister se preparou para atacar novamente, seguido por Evelyn, mas Scott e Emily foram mais rápidos. Se levantaram em um salto, correram para o lado do outro e juntaram as mãos. Um círculo mágico surgiu aos pés da dupla. Os 2Ps deram uma espécie de tiro mágico cada um enquanto ambos deram um tiro mágico convergido, algo que impressionou até mesmo Lukas, pois a combinação de ambos deu extremamente certo, parecia que tinha sido feita por uma só pessoa. O círculo se deslocou para os 2Ps logo após o tiro que os jogou para trás. Em seguida, os 1Ps aumentaram o número de símbolos do círculo até se configurarem com a magia do portal. Houve um clarão que cegou a todos temporariamente e depois Alister e Evelyn tinham sumido e o selo tinha sido restabelecido no portal. Emily desativou seus olhos e se deixou cair sentada.
– Acabou. – Disse ela.
– É impressão minha ou nossos 2Ps ficaram mais fortes desde a última vez?
– Ou será que fomos nós que paramos de treinar e de combinar nossas magias? Falo sério, éramos bem mais fortes que isso antigamente.
– Talvez seja isso.
– Eire, eu ainda não consigo...!
– Tuais, se acalme! Venha até aqui que vou te ajudar.
O mais novo foi até a mais velha, que começou a falar em irlandês. Algum tempo depois, conseguiu desativar tais olhos. Lukas se levantou e começou a arrumar o cabelo, que mais parecia um ninho de urubu. Vlad também se levantou e começou a procurar pela sua cartola. Casey foi para o lado de Scott tentar descobrir o que os ruivos faziam e acabou recebendo instruções de não deixar o mais novo ativar aqueles olhos novamente.
– Puta merda! Parece que eu vim da guerra! – Exclamou Arthur.
– Se quiser, eu posso lavar as suas roupas quando chegarmos ao hotel. – Sugeriu Oliver.
– Você vai tingir minhas roupas de rosa!
– Ora, Artie, existe alguma cor mais bonita que rosa?
– Você deveria andar com Feliks!
– Achei! – Gritou Vlad no meio de um arbusto enquanto colocava a cartola. – Lukas, o que houve com o seu cabelo?!
– Nada que eu não possa dar um jeito.
– Então, esse estado os faz gastar muita energia. – Disse Casey.
– Por isso que não deve deixá-lo ativar essa coisa ou terá que carregá-lo da próxima vez.
– Por falar nisso, não acho que Emily tenha condições de voltar andando.
– Você não conhece essa mula.
– Hei, será que dá para voltarmos ao hotel?! – Reclamou Arthur. – Eu estou com fome, sujo e morrendo de sono!
– Isso não teria acontecido se não tivesse rompido o selo no portal! – Retrucou Escócia.
– Ah, agora a culpa é minha!
– Não, a culpa é sua desde o dia em que você trouxe os 2P para o nosso mundo.
– Hei, parem com isso! – Exclamou Emily já de pé. – Não é hora para discussões, estamos todos cansados e arrasados. Vamos retornar ao hotel.
O grupo começou a caminhar de volta. A irlandesa era a mais cansada. Muitas vezes Vlad, Oliver, Charlie e até mesmo Casey se dispuseram para ajudá-la, mas ela recusou ajuda incessantemente, isso até o escocês a pegar e a colocar sobre o ombro como se fosse um saco de batatas. Apesar dos protestos e xingamentos proferidos pela garota, ele não cedia. Casey percebeu que Scott tinha razão, ele não conhecia a mula, só esperava que Charlie não fosse tão teimoso quanto a irmã. A quem ele queria enganar? A teimosia estava presente no sangue dos Kirklands, dos Rosemond e dos Beilschmidt, sabia disso porque sua mãe era filha de Germânia e Arthur e Scott eram dois poços de teimosia.
Matt corria pelos corredores do hotel. De alguma forma Alicia tinha encontrado e recuperado seu cutelo. Após se soltar da 1P, Alicia do nada decidiu que iria matá-lo. Ela o atacou deixando um belo corte no braço e um mais profundo no tórax, onde tinha a cicatriz que ganhou de seu urso de estimação 2P Kumajiro. Se bem que o urso era bem vindo agora. Ele foi bruscamente arremessado no chão e só teve tempo de parar o ataque. Sentiu o sangue quente escapar por entre suas mãos, que seguravam a lâmina do cutelo. De que fenda do inferno aquela garota saiu?! Ele jurava que a tinha despistado!
– Você é persistente. – Disse a garota enfiando os dedos da mão livre no corte feito no tórax e puxando a pele para o lado. – Não é?
– AAAHH! Sua maldita! – Disse soltando uma das mãos da lâmina para segurar o pulso da garota e tirar a mão dela de dentro de si.
– HAHAHAHAHAHAHAHAHA! É a primeira vez que ouço alguém me chamar assim. – Disse puxando o cutelo para si e abrindo ainda mais o corte na mão do canadense.
– Você é doente!
– Não tem um xingamento melhor? São sempre os mesmos. Doente, louca, insana... – Disse com uma pontada de desapontamento.
Xingar Alicia não iria resolver nada, ele tinha que fazer algo antes que ela atacasse novamente. Uma ideia surgiu em sua mente, mas era loucura! E suicídio. Com Alicia loucura não era novidade, iria se xingar mentalmente depois. Ele rapidamente se inclinou na direção dela e a beijou, fazendo-a arregalar os olhos. Podia sentir o gosto da insanidade, como se ela fosse feita inteiramente disso. Não imaginava que a loucura fosse um delírio e para seu azar aquilo viciava! Se não parasse, seria um homem morto em pouco tempo. Com muito custo, conseguiu quebrar o beijo e quando viu que a garota estava estática, correu como um condenado pelos corredores.
No quarto de América e Vietnã, Alfred jogava no celular com Lihn de platéia enquanto Lien dava uma remada em Allen. Eles ouviram batidas na porta e ao abrirem, Matt entrou que nem um desesperado e trancou a porta o mais rápido possível. O canadense estava todo ensanguentado.
– Dude, o que aconteceu com você?!
– Não pergunta.
– Andou se metendo em briga e nem me chamou! – Exclamou Allen.
– Seu idiota! – Disse tomando o caminho do banheiro. – Se Alicia aparecer, não abram a porta e digam que eu morri!
– O projeto de Samara?! – Exclamaram Alfred e Allen surpresos.
– Esses cortes foram profundos. – Disse Lihn analisando-os. – E a pele aqui foi arrancada. Deixe-me cuidar de seus ferimentos. Apenas bandagens não irão ajudá-lo.
– E eu vou ter que dormir por aqui por algum tempo.
– Dude, sem problemas.
– Vai ter que dormir no chão com o seu irmão porque não temos espaço na cama. – Pronunciou Lien.
– O gordo do Alfred ocupa muito espaço.
– Eu não sou gordo!
– Que seja.
Francis e Angelina se preparavam para dormir quando ouviram alguém barter à porta. Já não bastava terem acordada com coisas estranhas acontecendo e agora tinha alguém na porta deles àquela hora. Sorte que mandaram seus 2Ps dormirem em outro lugar, na verdade foi Angelina que mandou já que bastava uma única pessoa para irritá-la naquele quarto, não precisava de mais duas. O francês a abriu e viu que era Matthew. O canadense estava triste e confuso.
– Mon petit? O que houve?
Francis foi abraçado pelo menor. Matthew enterrou o rosto no peito do mais velho e começou a chorar, nem ele sabia ao certo o que estava sentindo. Estava confuso demais. O francês o trouxe para dentro e se sentou na cama enquanto a argelina foi fechar a porta.
– Está tudo bem, mon petit. Eu estou aqui.
– Papa, está doendo... Está doendo muito...
– O que está doendo, mon petit? Qual é o problema?
Matthew não falava nada, apenas chorava. Tentava dizer algo, mas não conseguia e isso deixava Francis aflito, mas ele não podia pressionar o mais novo porque isso não adiantaria. O francês começou a acariciar a cabeça do canadense para acalmá-lo. Ficaram assim durante algum tempo até o canadense se acalmar, já não chorava como antes.
– Mon petit, o que aconteceu? Por que estava chorando?
– É que... – E se calou.
– Pode me contar, talvez eu possa te ajudar.
– Terminamos.
Sua voz saiu tão baixa e abafada que foi um milagre para Francis conseguir ouvir. Não precisou pensar muito para descobrir do que se tratava. Ele queria saber mais detalhes, saber o que se passava na cabeça e no coração do canadense, mas Matthew, por mais que quisesse, não conseguia falar sobre o assunto. Angelina percebia o carinho que o francês tinha pelo canadense, diferente das outras colônias, mas não iria culpar o garoto por isso. Ela percebia que ele não conseguia falar, era boa em perceber coisas como o avô.
– Francis, vamos dar uma volta. Matthew precisa ficar sozinho.
– Não posso deixá-lo assim, Angelina.
– É só por um tempo. Ele ainda está muito confuso e precisa desabafar.
– Mas...!
– Eu sei que é difícil. – Ela se abaixou e segurou o ombro do canadense. – Mas você precisa acreditar em mim, não pode guardar tudo para si, não agora. Você precisa desabafar, mas pelo visto não vai conseguir comigo e Francis aqui.
– Angelina...
– Se quiser gritar, grite. Pode socar o travesseiro se quiser, atirá-lo na parede... Só não quebre nada porque senão meu avô vai ficar furioso e descontar de nós. Já sei, por que não escreve sobre como está se sentindo? Além de te ajudar a desabafar, vai te ajudar a por os pensamentos em ordem também.
– Você acha que é uma boa ideia, Angelina?
– E você acha que suas colônias fizeram o que? Cortaram os pulsos?! Confidenciar tudo o que sentíamos e pensávamos em uma folha de papel é a melhor forma de amenizar a dor e colocar os pensamentos em ordem.
– Mas, eu não quero que vocês leiam. – Disse o canadense depois de muito tempo calado, fazendo os olhos do francês e da argelina o encararem.
– Não precisa nos mostrar. – Disse ela com doçura enquanto afagava o cabelo do canadense, o que surpreendeu os dois homens. – Você pode rasgar ou queimar depois. Eu mesma queimei todas as minhas anotações para Francis não ler.
Depois de algum tempo, Matthew assentiu e se livrou do abraço aconchegante de Francis. O francês iria protestar, mas a argelina o agarrou pelo pulso e o arrastou para fora do quarto sem um rumo definido. Ele achou estranho não vê-la gritar com seu “papa” ou proferir palavrões, ou será que estava cansado demais? Ficou em silêncio por alguns minutos, sua cabeça estava um caos. Refletiu por um bom tempo, mas optou por aceitar a ideia da argelina. Procurou por papel e caneta e começou a escrever.
Enquanto isso, Vladmir tinha chegado ao seu quarto. Precisava tomar um banho com urgência. Ele dividia o quarto com Samuil Dimitrov, também conhecido como Bulgária e com seu irmãozinho Bogdan Alucard Van Helsing, também conhecido como Moldova.
– Vlad! – Gritou o mais novo se jogando no irmão. – Onde você estava?
– O que aconteceu com você?! – Espantou-se o búlgaro.
– Você foi pra guerra, fratele? (fratele: irmão em romeno)
– Mais ou menos isso. – Respondeu rindo.
– Fratele foi fazer magia com os amigos dele e o sobrancelha de taturana explodiu tudo de novo?
– Mais ou menos.
– Vladmir Alucard Van Helsing, desembucha de uma vez! Em que raios você foi fazer para voltar todo ferrado desse jei...
O búlgaro mal pôde terminar a frase, pois foi beijado pelo romeno. O moreno estava surpreso, mas não pôde reprimir um gemido de protesto quando o loiro quebrou o beijo.
– Parece até que somos casados. Se continuar assim, vai ter que tomar banho comigo.
Samuil corou até parecer uma pimenta, empurrou o romeno para o banheiro e o fechou lá. Ele fechou os olhos, escorou-se na porta e deixou-se escorregar pela porta, odiava as brincadeiras do romeno. Ao abrir os olhos deu de cara com a carinha da manga do casaco remendado do moldávio. Samuil tomou um susto e se jogou para trás, batendo com a cabeça e as costas na porta do banheiro.
– Aiai!
– Está tudo bem, cumnat? (cumnat: cunhado em romeno)
– Me chamou de que?
– Cumnat.
– E o que significa isso?
– Significa cunhado em romeno.
– O QUE?!
– Vlad gosta de você e fica te beijando por aí, logo você é meu cunhado! – Disse com a maior inocência do mundo e com os olhinhos brilhando de expectativa.
– É?!
Bulgária estava vermelho e tinha se escorado ainda mais na porta. A porta se abriu sem nenhum aviso e Samuil caiu de costas no chão. Romênia tinha acabado de tomar banho e estava sem sua cartola e envolto em uma toalha, para piorar, Samuil tinha caído com direito à visão por debaixo da toalha.
– Por que não está de roupa?!
– Porque você me empurrou para o banheiro sem nenhuma muda de roupa? – Respondeu com uma pergunta retórica ao mesmo tempo em que pendia a cabeça para o lado.
– Não faça essa cara! Droga!
Samuil se encolheu em um canto para que os irmãos Van Helsing não o vissem corado enquanto Vladmir e Bogdan estavam cheios de dúvidas.
Lukas finalmente tinha entrado em seu quarto, só não esperava que os outros estivessem acordados.
– O que houve com você? – Perguntou Mathias. – E o que aconteceu com o seu cabelo?!
– Foi pra guerra e nem me chamou! – Exclamou Hakon cruzando os braços e fazendo bico.
– Não é da conta de nenhum de vocês.
O norueguês pegou o pijama e entrou no banheiro.
Escócia tinha levado Irlanda para o quarto após uma longa caminhada ouvindo reclamações.
– Hei, agradeça que não te deixei andar o caminho todo ou você teria desmaiado e eu teria que te dar banho.
– Como se você fosse se dar ao trabalho de me arrastar até aqui e me dar banho. Seria mais fácil dizer que meu irmão faria isso.
– Você não tem senso de humor.
– Estou cansada demais para entrar em discussão e você sabe disso.
– Mas teve energia o suficiente para reclamar durante o caminho todo.
– Scott, você sabe muito bem que odeio ser carregada daquela maneira!
– Da mesma forma que sei muito bem que você é teimosa e odeia que os outros te tratem como uma donzela. É melhor tomar banho antes que desmaie de sono no chão.
Após isso, ela pegou o pijama e correu para o banheiro. Quando saiu, seu cabelo estava solto e molhado, já que odiava os secadores de cabelo. Scott entrou no banheiro para tomar banho e quando saiu, viu que a garota já estava adormecida na cama. Ele procurou na mochila dela até encontrar uma poção verde e a colocou no criado mudo. Em seguida segurou a mão dela enquanto uma aura azul envolvia a sua e uma verde envolvia a dela.
– Tem razão, Hungria ruiva. Nossas magias não estão se convergindo como antigamente. Ficamos muito tempo sem convergi-las desde o final da Idade Média. Mas ainda bem que ainda carrega as poções de stamina, só que ainda se esquece de bebê-las antes de dormir. Você só me dá trabalho.
Ele soltou a mão da garota, quebrando o elo que suas magias formavam, e se pôs a dormir.
Francis e Angelina andavam pelo hotel ainda de pijama. O francês tinha sido praticamente arrastado para fora do quarto pela argelina.
– Tem certeza de que é uma boa ideia, Angelina?
– Acredite em mim, ele precisa de um tempo para pensar e escrever ajuda.
– Você disse que escrevia e queimava suas anotações para eu não ler.
– Lógico, eu não ia deixar um puto pervertido como você saber o que se passa na minha mente!
– Merci.
– Pelo que?
– Por ajudar mon petit. Matthieu sempre foi tão frágil e tão bom...
– Ele é um bom garoto.
– Não sabia que podia ser tão doce, mon ange.
– Tenho um fraco por garotos frágeis e crianças. E son ange é puta que te pariu!
– Mon ange, de todas as colônias que eu tive, você é a que mais me surpreende. E a mais revoltada também.
– Faço o que eu posso, puto pervertido. Hei!
O loiro a tinha abraçado em um abraço carinhoso sem segundas intenções, ou perderia a capacidade de ser ativo de qualquer relação futura, e afundou o rosto naqueles cabelos negros. Angelina tinha um cheiro característico de pólvora e maresia, um cheiro que muitos considerariam enjoativo e nenhum pouco refinado, mas para ele e algumas nações, aquele cheiro lembrava a época dos piratas. Nem queria imaginar o que aconteceria se Inglaterra colocasse as mãos nela, já que ele era o que mais gostava dessa época. De todas as colônias que França teve, Argélia era a única que ele não queria perder para Inglaterra de jeito nenhum. Ficava até feliz ao saber que inglês não suportava a personalidade dela e preferia tomar conta de uma mula.
– Francis, quer parar de cheirar meu cabelo que ele não é cocaína?!
– Mas eu gosto do... Você me chamou pelo nome?! – Falou afastando-se um pouco e a encarando.
– Eu te chamei pelo nome na frente do Canadá e você não reclamou.
– Achei que fosse pela presença dele. Você nunca... Nunca me chamou pelo meu nome.
– E daí? Isso não é motivo para ficar com essa cara de que acabou de ver um fantasma! Não importa. Vamos voltar para o quarto e ver como Matthew está.
Ele assentiu em seco. A argelina se livrou do abraço e ambos caminharam lado a lado de volta para o quarto.
Enquanto Francis e Angelina estavam dando a tal volta, Matthew escrevia. Cada palavra fazia seu coração disparar e ao mesmo tempo sentia estar se livrando de um grande peso.
“Angelina me disse que escrever sobre o que sinto me ajudaria. Preciso desabafar sobre isso, mas não consigo dizer a ninguém, as palavras não simplesmente não saem e eu estou tão confuso...
Por que você não sai da minha cabeça, Alice? Por que eu não consigo parar de pensar em você? Você entrou na minha vida de repente, tudo aconteceu tão rápido que mal consegui pensar, simplesmente aconteceu. Talvez suas mudanças frequentes de humor tenham acelerado tudo e ao mesmo tempo em que eu me via com medo, eu também me via surpreso.
Alice...
Nosso relacionamento não teve um começo como era esperado, na verdade ele foi bem estranho, para não dizer anormal. Ninguém acreditaria que nos conhecemos através de um buraco na parede e nem que aquela noite em que você apareceu de repente no meu quarto dizendo que gostava de mim e fizemos sexo fosse o começo do nosso relacionamento, eu mesmo não acreditei! Não sabia se era algo duradouro ou passageiro, nem você sabia dizer! Não seria surpresa se rompêssemos de repente.
Então por que não consigo tirá-la da minha mente? O que aconteceu hoje me deixou surpreso e confuso. Eu me sinto péssimo por tudo ter terminado, me sinto horrível só de lembrar de vê-la em prantos e me sinto terrível por não ter dito nada e tê-la deixado partir da minha vida tão rápido como entrou.
Você nunca foi como as outras pessoas que conheci. Você me ensinou muitas coisas, coisas que nem eu sabia sobre mim. Descobri que apreciava sua companhia, gostava de vê-la sorrir e até gostava quando me assustava com seus gritos. Você sempre me surpreendia e me fascinava ao mesmo tempo.
Cada abraço, cada beijo e cada momento nosso era especial para mim. Eu me lembro de vê-la dormir. Sua face tranquila era alvo de minha observação, lembro-me que me aventurei a roubar-lhe um beijo seu enquanto dormia. Não me arrependo disso. Às vezes você dormia em cima do meu peito, cada respiro me fazia me arrepiar, seu cabelo tão negro quanto a noite era alvo de minhas carícias.
Eu me lembro de vê-la acordar. Na primeira vez você gritou, mas foi engraçado ver as faces dos nossos irmãos depois. Eu me lembro da sua energia, do seu humor sempre alterado, de como você esteve ao meu lado...
Alice...
Você não sai da minha cabeça. Todas as nossas lembranças não me deixam pensar direito. Por que você saiu da minha vida? Por que justo você? Eu tive medo quando você tentou se matar, não foi medo de você, foi medo de te perder. Eu tive medo de te perder e agora eu te perdi de outra maneira. Por que só agora, escrevendo esta carta que ninguém irá ler, descobri que te amo? Eu te amo Alice Liddell!
Eu, Matthew Williams, percebi depois de muito tempo que te amo, Alice Liddell! E só agora que te perdi é que percebi o quanto eu te amo. Posso parecer idiota, afinal eu sou um idiota. Idiota por não ter percebido antes que te amava e por nunca ter te dito isso.
Alice, eu te amo e nunca irei te esquecer.”
Não pôde evitar quer as lágrimas descessem e molhassem sua face angelical novamente. No minuto seguinte estava adormecido. Quando Francis e Angelina retornaram, o francês colocou o canadense no meio da cama para dormir entre ele e a argelina. Angelina pegou a carta e se sentou ao lado de Francis para lerem juntos. Após lerem e entenderam o que se passava com Matthew.
– Mon petit está sofrendo por amor.
– O que fará com a carta?
– Irei guardá-la, mon ange. Não tenho coragem de destruí-la. O certo seria entregar à ex dele.
– Entendo.
Francis pegou a carta das mãos da moça e a guardou na gaveta do criado mudo. Iria entregá-la à Zealand no dia seguinte.
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