Für Arthur

1 Parte I - Verde&Azul.


Notas iniciais
Espero que gostem!

Eu conseguia ouvir o barulho da água batendo arduamente contra o telhado. O vento soprava as folhas do quintal fazendo uma dança de sombras pelas paredes brancas do meu quarto. Meu quarto. Grande, vazio, gelado e triste. O lugar perfeito para mim. O único barulho que quebrava a música da chuva e toda sua orquestra (vento, trovão, folhas, alguma coisa sendo arrastada pelo vento) era a pesada respiração de Margot.

Seu peito descia e subia em um movimento constante. Como se soubesse que estava sendo observada, a cadela levantou sua cabeça em minha direção. É meio triste, mas, a única coisa que parece realmente me conhecer é uma Husky de 20kg e que solta peidos extremamente fedidos, cada um tem o que merece, certo?

Levantei da cama quente e confortável em que estava e fui em direção a minha mesa pegar meu celular. Droga! Ainda era quatro da manhã, eu tinha mais algumas horas de sono que foram jogadas no lixo. Eu sou do tipo de pessoa que quando acorda não consegue voltar pra cama, sabe? Isso é um problema... Pouparia tantas brigas internas com meu consciente!

Peguei uma jaqueta que estava jogada em cima da TV e a coloquei, o clima tinha mudado! Essa é a mágica de viver no estado de São Paulo; você acorda e está um calor de fritar ovo na rua, você pisca e tudo está debaixo d'Água. Fui em direção da porta do quarto, destranquei-a, e rumei em direção da grande escada em espiral. Tão cafona. Meus passos eram pesados, afinal, só tinha eu em casa – e Margot!, o cachorro acompanhava em meus calcanhares enquanto eu ia à cozinha. Juntos tomamos café da manhã, Go (como eu carinhosamente a chamo) com sua ração vegetariana e eu comendo vários pães com requeijão e tomando um copo grotesco de ovomaltine, a definição de uma refeição perfeita!

O tempo passou rápido. A chuva parou e o ar ficou mais denso e frio, já eram seis da manhã (também conhecida como: hora do banho). Eu poderia faltar, era só mais um dia qualquer de março e as aulas haviam começado a pouco tempo, não teria nada importante... Mas, por alguma razão decidi ir.

As seis e quarenta e cinco eu já estava pronto. Banho tomado, roupa quente e limpa no corpo, mochila nas costas, garoto exemplar. Rá. Ou não. A escola era perto da minha casa, uma caminhada curta e sem desafios.

— Tchau, Go! E, quem é a boa garota do papai?! — As palavras fizeram o cão perceber que eu estava de saída. Em um clássico movimento "Margoriano" a cachorra pulou em mim e me atacou com lambidas quentes e pulos sobre minha roupa preta. Saí cinco minutos mais tarde e com alguns pelos brancos salpicando meu moletom. Tive que correr para chegar a tempo e tomei uma chuva leve, sem problemas! Eu adoro me molhar na chuva.

— De novo com essa viadagem, Art? — A primeira coisa que Enzo falou ao ver meus olhos.

Sabia que estava esquecendo de algo... meu nome, por exemplo! Arthur, Arthur Henrique Sant'Anna se preferir. Um nome bem fresco, cai-me bem. Dezessete, tô no terceiro ano do colégio, tenho uma namorada (Complicado, chegamos aí depois), e o motivo do comentário de Enzo foi devido aos meus olhos. Sofro de uma anomalia genética chamada heterocromia, odeio o fato de um olho meu ser azul e outro verde…

— Um monte de gente estaria matando para ter essas porras de olhos! — Continuou.

— Eu prefiro o seu lado verde, melzinho. — Disse Manuella se juntando a nós, a garota me deu um abraço empolgado demais para uma segunda feira de manhã e me beijou no rosto antes de me envolver em um abraço.

...Continuando; Como eu acho estranho o fato de meus olhos serem diferentes, costumo usar lentes de contato para ele ser só verde, ou, só azul. Embora o verde combinasse mais com meu cabelo castanho acobreado e minha pele branca eu achava a cor muito bonita para sair sendo mostrada (Brincadeirinha).

Só para vermos se não esquecemos nada; Arthur, Margot, Chuva, Verde&azul, Enzo e Manu... Enzo é meu amigo de infância, chegamos nele depois. Como descrever Manuella? Ela é a garota que faz os garotos fazerem "trabalhos manuais" em seus banheiros pensando nela e garotas quererem arranhar a cara dela de tão bonita que é. Seus olhos são puxados e sempre contornados com o lápis de olho que fica em contraste com sua pele clara, seu longo cabelo cai até o final das costas e eles são naturalmente ruivos, seu rosto salpicado de de sarnas e um batom vermelho que é sua marca, e, uns três dedos mais alta do que eu. Nós "namoramos" desde dos quinze, quer dizer, ela me namora. Eu só a beijo, abraço, dou alguns presentes, e transo com ela. Quando você para e analisa é bem parecido com um namoro, a única coisa que falta é o sentimento. Ela é bonita, eu sou bonito (Ao longo vocês verão que humildade não é meu forte), nós somos bonitos juntos, as pessoas perceberam isso e PLUM!, começamos a namorar. Eu não gosto dela, nunca gostei, eu sei que eu deveria ter acabado isso logo, na verdade, não deveria nem ter começado! Eu sou um babaca, uma de minhas muitas qualidades.

Henrique! Estou falando com você. — Manuella me repreendeu, ela fazia isso muito bem. Eu estava perdido em minhas reflexões e não consegui ouvi-la reclamar de alguma coisa estúpida.

— Você sabe que eu não gosto quando me chamam de Henrique, que saco. — É Arthur! Se quiser eu soletro.

— Então começa a prestar atenção em mim! Estou namorando com a porra de uma porta?! Na verdade, acho que a porta responderia pelo menos.— E estava dado a largada, ás sete e quinze da manhã, a primeira de muitas (MUITAS!) discussões.

— Vai se foder, Manuella! Tá carente? Arruma um cachorro. — É... Babaca, lembra?

Dei as costas para a garota e ouvi ela me xingando enquanto eu andava, Manu e Enzo eram da mesma turma e a aula deles era em outro prédio, essa foi minha maneira rápida de dizer tchau. Vi o horário no celular e descobri que minha primeira aula do dia seria Química, tem como ser pior?

Fui para o prédio A, subi as escadas enquanto desviava de alunos e fui em direção da sala sete. Adivinha? Ela estava fechada. Um cara da minha sala falou que a aula seria no laboratório. Whee!, tive que descer tudo e ir para o lugar certo. As bancadas do laboratório de química eram para atividades em dupla (Não pode dupla de três), A professora Lígia já estava na sala e aguardava o resto dos alunos. Cumprimentei algumas das pessoas até me dirigir a uma bancada estava vazia. Eu sou um aluno bem ruim, sou esforçado, porém, burro! Eu tento, juro! Meus neurônios já estavam começando a queimar só de imaginar como seria a aula.

Depois de alguns minutos todos estavam presentes e o intuito do trabalho foi explicado. O trabalho consistia em fazer um projeto para avaliação bimestral, os alunos poderiam fazer o que quiser, contando que: a química estivesse envolvida. Essa seria a aula para as duplas ou o aluno decidirem o que iriam fazer, basicamente seria uma aula vaga, e, tanto os alunos quanto a professora estavam gratos por isso. Decidi colocar meus fones e vestir meu capuz, coloquei em um dos meus álbuns favoritos de todos os tempos – X&Y do Coldplay, e afundei meu rosto na mesa usando meus braços como travesseiro. Alguém bateu na porta pelo pouco que consegui ouvir devido a música, vi a professora saindo mas deixei de prestar atenção na cena.

Aconteceu um burburinho quando a professora voltou, mas não levantei a cabeça e nem tirei os fones para saber o que era, eu já tinha uma ideia do que poderia ser: alguém contou uma piada considerada “pesada” causando várias risadas e é isso. Alguns momentos depois senti alguém sentando do meu lado. Eu não estava exalando a vibe “queria estar morto” bem o suficiente? Eu digo, alguém sentou do meu lado. Droga! Fiquei esperando a pessoa perceber que eu não daria a mínima para ela e ir embora, infelizmente não aconteceu, e, ao invés disso a pessoa cutucou meu braço umas quatro vezes. Quando vi que o incômodo não ia parar decidi tirar os fones e levantar o rosto para encarar meu perturbador(a).

Senti que minha pele clara ficou vermelha rapidamente, minhas orelhas ardiam e não sabia o que falar. Um garoto de olhos mel e cabelos loiros, curtos e arrepiados me encarava. Ele ajeitou seus óculos de armação preta e também apresentava o mesmo choque que eu. Awkard. O garoto era mais alto do que eu por vários centímetros, mesmo que nós dois estivéssemos sentados dava para perceber isso.

— ‘ passando mal, professora. — Foi a única desculpa que pensei para sair da sala, nem esperei ela falar nada e já tinha deixado o laboratório. Andei com pressa pelos corredores vazios até o pátio, precisava de ar fresco! Não, não tive essa reação pela aparência do cara (Mesmo parecendo que ele tivesse saído de um filme Hollywoodiano cheio de atores bonitos), eu já o tinha visto antes, na verdade, ele já tinha me visto.

Sexta-feira passada, já tinha passado das dezenove horas e o colégio estava deserto, faltava mais uma hora para os alunos do noturno chegarem. Eu estava aqui, mais precisamente na sala do professor de história. Tem algumas coisas bem importantes que omiti. Sou gay. Rá. Não esperavam por essa ou esperavam? O professor de história é um cara extremamente gostoso e que por sinal gostava de mim no sentido carnal, bingo. Lucas tinha um corpo normal, era de estatura média e possuía lindos cabelos ruivos assim como sua irmã, e, uma barba da mesma cor, seus olhos eram de um castanho escuro que ficavam cobertos pelos seus óculos de grau quadrado. Resumindo, ele tinha traços lindos e bem masculino que diziam “sou homão da porra”. Poderia ser um perfeito hétéro, com exceção que não era.

Certo, como conheci ele… Lucas é meu professor de história que por acaso é irmão da minha “namorada”, Manuella. Eu traio a garota com o próprio irmão dela, isso é sujo em tantos níveis! Nós começamos a ter esses encontros no ano passado, quando Lucas voltou para a cidade após concluir a licenciatura. Lucas chegou quando seus pais e irmão caçula estavam fora da cidade, então sua irmã chamou alguns amigos e comprou várias bebidas. Voilá. Assim nasce uma comemoração. A galera foi embora antes das duas da manhã, ficando só eu e os irmãos Rios. Manuella logo subiu para seu quarto deixando apenas nós na sala. Eu não estava com sono e me orgulhava de ser forte quando se tratava de beber, já tinha bebido meia garrafa de Whisky – minha bebida favorita.

— Acho que já está bom de bebida para você, Arthur. — Lucas disse em um tom sério.

— Acho que não, cara. — Preenchi o copo com mais uma dose da bebida, o desafiando. — Do jeito que Manu fala de você, achei que seria um cara menos careta. — Ele torceu a cara ao ouvir a palavra careta e deixou um sorriso escapar de seus finos lábios.

Lucas estava sentado no sofá de frente para mim com uma latinha de cerveja na mão e várias iguais já vazias em seus pés. O rapaz levantou e caminhou até o sofá em que eu estava, se sentando do meu lado.

— Eu vi do jeito que me olha, garoto. — O comentário fez eu olhar intrigado para ele, porém, sabia do que ele estava falando. — É o olhar de um leão que está prestes a comer uma gazela para saciar sua fome. — Minha primeira vontade era de soltar uma gargalhada, mas Lucas falava de um jeito sensual e não tirava os olhos de mim, observando cada reação que eu apresentava.

Nesse dia eu estava com uma camisa social branca daquelas que a manga é curta e usava uma gravata, antes de ir para a casa dos Rios eu tinha passado na festa do meu pai e tinha que parecer como um respeitável garoto branco e superficial. Lucas agarrou minha gravata em um movimento rápido e me puxou em direção à ele, fazendo eu derrubar Whisky na minha camisa que já não era mais branca. Eu fiquei sem reação, queria sair andando e esquecer disso, mas ao mesmo tempo estava ansioso para a próxima etapa. Já tinha beijado um ou dois caras antes, me masturbado vendo pornô gay algumas vezes, mas isso era completamente diferente. Nossos rostos estavam tão pertos que podia sentir o bafo de cerveja do garoto e ele o meu de Whisky.

— Então, Arthur. Você quer me — Ela estava beijando meu pescoço e sua barba roçava em meu rosto. Deus, que porra eu estava fazendo?! — … comer? — E então tudo aconteceu rápido. Quando vi o garoto já me puxou escada acima para seu quarto e batia a porta atrás de mim. O resto? É história.

Então, na sexta-feira passada estava tendo um “aula particular” com Lucas após o horário de aulas. Já tínhamos feito isso várias vezes e nunca nada deu errado. Eu já tinha perdido minha camiseta e estava a desabotoar a camisa do professor. Trocamos beijos quentes e cheios de urgências que ansiavam para sentir todas as partes do corpo um do outro. Lucas estava sentado em sua mesa e eu estava encaixado entre suas pernas, meus beijos começavam a descer barriga abaixo quando a porta se abriu. Quem vai transar em uma escola e esquece de trancar a maldita porta? Lucas!

Nos separamos rapidamente e eu vesti minha camiseta numa velocidade incrível enquanto já fechava o zíper da minha calça. Na porta estava um garoto loiro que estava paralisado com o que tinha acabado de ver, isso que dá não bater na porta antes. Antes de sair lancei um olhar furioso à Lucas e sai de cabeça baixa, transbordando de raiva e excitação do lugar. O garoto na porta não é ninguém mais que meu novo colega de classe, incrível.