Für Arthur
2 Parte II - De novo.
Notas iniciais
Estávamos caminhando para as férias de julho, o ano escolar não estava tão ruim, considerando que: a) Eu estava em um relacionamento infeliz, e estava dessa maneira exclusivamente por minha culpa. b) Eu traía minha namorada com o irmão dela. c) Ninguém além de Lucas e um garoto da minha sala sabia da minha verdadeira orientação sexual. d) O garoto que me viu transando com o professor de história era da minha sala.
No primeiro momento em que havia visto Miguel (Esse é o nome dele, eventualmente o descobri) eu tivera um ataque de pânico e acabei fugindo, típico Arthur. Não vou falar que aprendi a conviver com ele, pois não aprendi, mas, ao longo do tempo fiquei bom em fingir que ele simplesmente não existia. Nunca havíamos conversado ou interagido de qualquer maneira, estava ótimo para mim.
Arg! Essa é minha primeira reação quando falavam sobre Miguel. Além do cara ser extremamente bonito, ele era super inteligente, gentil, carismático, divertido, altruísta e ainda trabalhava. Ele era um Golden Retriever humano, ninguém conseguia não amá-lo. Eu achava o garoto completamente estranho, ninguém era tão legal e às vezes pegava ele me encarando. Muitas vezes, na verdade.
Minha relação com Manuella piorou, era mais miserável agora. Enzo, aquele amigo que só mencionei para vocês, estava ficando cada dia mais insuportável. Enzo Ceccon era talvez o cara mais musculoso da escola, ele era forte e alto e bem intolerante – uma combinação horrível. Parecia que ele estava sempre bronzeado devido a coloração dourada da sua pele, seus cabelos eram negros e cortados em estilo militar, uma aparência de “macho alfa” com exceção de seus olhos que eram mel.
Mas todos os problemas pareciam longe quando eu estava com Lucas, era sábado e ambos estávamos ansiando por esse momento, o momento de nos encontrarmos. Manu tinha algo planejado para nós, tive que falar que estava doente e a convencer que não precisava ir para minha casa. É claro que era mentira, eu estava em uma balada nova e voltada ao público hétero no centro da cidade com Lucas, o medo de ser visto por algum conhecido era constante, porém, o lugar era um tanto desconhecido para o pessoal da escola.
— Arthurr — Lucas arrastou a última letra. Trazia uma rodada de shots de tequila em suas mãos, colocou a bandeja na mesa e foi em minha direção. Antes que eu pudesse processar qualquer informação o garoto já havia me prensado contra a parede e beijava ferozmente meus lábios. — Vamos beber, ‘thur.
Nós dois já estávamos bem alterados, e conforme íamos bebendo perdíamos a culpa de que estávamos traindo a irmã dele, fantástico. A rodada de shots levou embora meu pudor, amém. Puxei Lucas contra mim e comecei a beijá-lo lentamente, ele sentou em um daqueles sofás de balada e eu pulei em cima dele. Um sorriso de garoto levado surgiu em meus lábios quando senti a ereção dele contra meu corpo. Voltamos a nos beijar. Lucas levantou e me levava lentamente em direção ao banheiro do lugar (E eu achando que tinha alguma dignidade), estávamos na porta do banheiro quando o celular de Lucas tocou, o garoto pegou o celular na mão e olhou para mim, assenti dando uma espécie de permissão para ele atender. Lucas entrou no banheiro sozinho e com o celular já no ouvido.
Enquanto esperava o garoto vi um cara me encarando de um jeito estranho, o álcool dentro de mim me fez ignorá-lo. Lucas voltou com uma expressão preocupada em seu rosto.
— Tenho que ir. Manu. Chorando. Urgente. — Ele falou no meu ouvido.
— Ok, vamos!
— Você falou para ela que estava doente, Arthur. Não pode simplesmente aparecer lá desse jeito, e comigo. — Eu realmente não havia pensando bem, Lucas estava tão preocupado que não podia desviar o caminho e me levar em casa, eu fui compreensivo em relação à isso.
Lucas partiu com um olhar aflito e se despediu com um beijo rápido, me deu dinheiro para o táxi mesmo sabendo que eu não precisava, talvez de alguma forma aquilo fez ele se sentir melhor. Ok. Não havia mais motivo para continuar no lugar, então fui embora. Eu tinha que andar dois quarteirões para chegar na avenida e pedir um táxi, no meio do caminho ouvi passos apressados vindo em minha direção. Olhei para trás e o garoto que me olhou de um jeito estranho vinha ao meu encontro. Droga! Comecei a correr, devido ao meu estado acabei caindo, o garoto me alcançou, era o fim.
— Viadinho de bosta! Gente da sua raça vai tudo queimar no Inferno! — Seu tom era cheio de ódio. O garoto me deu um chute na barriga, perdi o ar e uma expressão de pânico surgiu em meu rosto.
— Calma… — Comecei a me afastar, ainda no chão, e tentei levantar.
— Calma o caralho. — Assim que consegui ganhar equilíbrio fui atingido por um soco no rosto que me fez cair de volta. Levei outros chutes na barriga, e alguns socos no rosto. Meu celular, carteira e relógio foram tirados de mim. Antes do agressor ir embora ele cuspiu na minha cara.
Estava com falta de ar, meu rosto doía intensamente, felizmente o álcool amenizava um pouco da dor, sentia sangue escorrendo do meu nariz e minha visão do lado direito ficava cada vez mais embasada. Tive uma crise de tosse ao tentar recuperar o ar com direito a sangue no final. Estava fodido. Fiquei deitado no chão. Não conseguia levantar sozinho, toda vez que tentava acabava caindo. Olhei para o céu acima de mim e comecei a chorar, droga! Eu tinha sorte que não tinha morrido, e também estava com medo de continuar vivo. Como iria explicar aquilo para os meus pais?!
— Meu Deus, Arthur? — Não ouvi ninguém se aproximando de mim, estava com os olhos fechados ainda. — Arthur! — Abri os olhos e vi o rosto de Miguel na minha frente, neste momento eu não me importava com o fato dele ter me pego transando com o professor de história. O garoto saiu correndo e antes murmurou um “já volto”.
Tinha certeza que ele não ia voltar. Alguns minutos depois ouvi um carro encostando perto de mim e Miguel apareceu de novo. O garoto me ajudou a levantar, ele estava sustentando praticamente todo o meu peso. Me colocou dentro do táxi com cuidado e se sentou do meu lado.
— Onde você mora? — Balancei a cabeça freneticamente em um sinal de “não”.
— Não posso aparecer assim. — Murmurei, estava com um corte nos lábios devido a um dos socos. Cada palavra saiu com uma quantidade absurda de esforço.
— Droga, é claro que você não pode aparecer assim em casa. — Miguel falou mais para si mesmo do que para mim. O garoto falou algo pro taxista, seu endereço, e o carro deu partida.
A viagem foi silenciosa e rápida. Algumas lágrimas desceram involuntariamente do meu rosto, nunca havia me sentido tão indefeso. Miguel provavelmente viu mas não falou nada. Paramos na frente de um prédio de quatro andares, o loiro saiu do carro para me ajudar. O peso do meu corpo estava todo sob o garoto. Entramos no prédio, esperamos em silêncio pelo elevador chegar e então subimos para o quarto andar. Eram quatro apartamentos por andar, fomos em direção ao quarenta e três, Miguel tirou a chave do bolso e destrancou a porta, o lugar estava todo escuro então não notei os detalhes, fomos em direção do quarto do garoto.
— Espere aqui. — Miguel saiu do quarto e foi em direção de outra porta.
O quarto de Miguel era bem pequeno comparado ao meu, apenas uma cama, guarda-roupas, uma bancada com a televisão e o notebook. Sua cama estava forrada com um lençol de flores bem coloridas, não pude deixar de rir. O garoto voltou e percebeu que estava rindo de seu lençol, ele também não conseguiu evitar uma risada.
— Certo, Arthur. Por onde começamos? — Ele trazia uma caixa de primeiros-socorros na sua mão direita e panos umedecidos na esquerda.
— Você sabe que não precisa fazer isso, né? — A adrenalina da surra estava indo embora e estava trocando de lugar com os efeitos do álcool.
— Sim, eu preciso. Se eu não limpar isso vai infeccionar, senta. — Ele apontou na direção da cama, acatei as ordens.
Miguel puxou a cadeira que estava na bancada, a colocou na minha frente e sentou. Quando coloquei a cena em perspectiva eu comecei a rir.
— Nunca pensei que isso fosse acontecer. — Minha risada acabou quando o garoto começou a limpar o sangue seco do meu nariz. — Tá doendo!
— Deixa de manha, Arthur! — O garoto continuou passando o pano úmido até tirar todo o sangue ressecado. Ficamos em silêncio o tempo inteiro, na verdade, eu reclamava toda hora de como aquilo doía. — Pronto.
Vi meu reflexo no espelho do guarda-roupas, eu estava horrível. Meu olho direito estava roxo e vermelho. Meu nariz estava vermelho e com um curativo, assim como minha testa, meus lábios também estavam cortados.. Meu aspecto em geral estava bem desanimador. Levantei e tirei a lente azul que estava no meu olho direito e a coloquei na mesa, fui atingido justamente no meu olho preferido.
— Que legal, cara. — Essa foi a reação de Miguel ao ver meu defeito genético. Ele puxou o colchão que tinha debaixo de sua cama e pegou mais cobertas e travesseiros em seu armário. — Arthur. — Eu levantei meu olhar na direção do garoto. — Tira sua roupa.
— Oi?
— Você está fedendo a bebida, cara. Vou te dar roupas limpas. — Assenti.
Não tinha vergonha do meu corpo, só tinha achado estranho na hora. Comecei a tirar primeiro a camisa que eu estava usando, os efeitos da bebida fazia com que cada botão fosse uma guerra. Miguel riu ao ver a cena e foi em minha direção para ajudar. O garoto parou na minha frente e começou a desabotoar a camisa com facilidade, sua boca se abriu ao ver os diversos hematomas que eu tinha na barriga. Por isso estava tão difícil respirar. Minha barriga estava com manchas roxas e verdes, nada bom.
— É, eu não sei o que fazer em relação à isso, desculpa. — Ele falou me entregando uma camiseta branca que ficou grande em mim. Depois disso tirei o tênis e a calça jeans, acabei vestindo uma calça de moletom cinza de quando ele era mais novo, a única que ficava do tamanho certo.
Miguel pegou minhas roupas e saiu do quarto, quando voltou estava com dois comprimidos na mão. Um era para ressaca e o outro para as dores, explicou. Tomei os dois. Tivemos uma mini briga, Miguel exigia que eu dormisse na cama dele pois era mais confortável e eu não queria. O loiro era mais insistente do que eu, no final acabei deitado na cama do garoto e ele no colchão de baixo.
As luzes tinham sido apagadas há muito tempo mas eu não conseguia dormir. Toda vez que eu lembrava do episódio também lembrava o quão fraco e inútil fui, sem perceber comecei a chorar (De novo). Miguel não falou nada simplesmente se levantou de sua cama e deitou na minha. Ele colocou seus musculosos braços envolta do meu corpo passando uma imagem de segurança para mim. Desisti de tentar parecer forte e comecei a chorar sem vergonha no peito do garoto. Miguel passava a mão em meus cabelos e dizia que estava tudo bem. Eventualmente parei de chorar e acabei dormindo nos braços do garoto que eu nem conseguia olhar nos olhos à algumas horas atrás.
E, desse jeito foi como tudo começou. Uma das noites mais longas da minha vida, no começo dela estava beijando meu professor em uma balada e no fim dela estava nos braços reconfortantes do garoto de cabelos cor de areia.
Fale com o autor